O Discípulo Amado não é João

Apesar de muitos professores fazerem referência ao Quarto Evangelho como “testemunho ocular de João”, a Bíblia não apoia esta afirmação. E se olharmos mais de perto, descobriremos que a ideia de João ter sido o discípulo amado, também não se alinha com os fatos registrados nas Escrituras.  Essa questão, no final das contas, se resume à Bíblia contra Tradição. Aqueles que ignoram o testemunho das Escrituras sobre esse assunto concedem a si mesmos, licença para confiar em fontes não bíblicas sobre as Escrituras sempre que escolherem fazê-lo. 

                                                                                                ***

O apóstolo João não é o discípulo amado. Vamos descobrir que a evidência bíblica apresentada neste caso é irrefutável.  Os fatos provarão que o apóstolo João e o autor sem nome do Quarto Evangelho são duas pessoas distintas. E tenha em mente: não é minha intenção aqui mostrar quem é esse discípulo; o alvo do estudo é provar que ele não é João.  

O discípulo amado pode ser encontrado nos seguintes textos: “Ora, achava-se reclinado sobre o peito de Jesus um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava” (João 13:23).

Estavam em pé, junto à cruz de Jesus, sua mãe, e a irmã de sua mãe, e Maria, mulher de Cleofas, e Maria Madalena. Ora, Jesus, vendo ali sua mãe, e ao lado dela o discípulo a quem ele amava, disse a sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho” (João 19:25-26).

No primeiro dia da semana Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu que a pedra fora removida do sepulcro. Correu, pois, e foi ter com Simão Pedro, e o outro discípulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes: Tiraram do sepulcro o Senhor, e não sabemos onde o puseram” (João 20:1-2).

Então aquele discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: é o Senhor. Quando, pois, Simão Pedro ouviu que era o Senhor, cingiu-se com a túnica, porque estava despido, e lançou-se ao mar; E Pedro, virando-se, viu que o seguia aquele discípulo a quem Jesus amava, o mesmo que na ceia se recostara sobre o peito de Jesus e perguntara: Senhor, quem é o que te trai? Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro” (João 21:7,20,24).

Um mistério inexplicável

Quem foi esse discípulo tão influente na igreja primitiva, sendo visto em vários lugares acompanhado de inúmeras pessoas, e apesar de circularem rumores de que ele nunca iria morrer,  não mencionou seu nome no Evangelho? Quem não conheceu o discípulo que todos diziam que não morreria? Parece que ele somente ficou no anonimato ao escrever o evangelho. E note que este autor nunca se identificou como João.  Em vez disso, ele usou o termo “o discípulo a quem Jesus amava” para se referir a si mesmo;  e seu uso desse termo curioso para encobrir sua identidade levanta muitas questões.

                                                                                   As Evidências

Os três primeiros evangelhos mencionam três eventos notáveis do ministério de Jesus: a  transfiguração (Mt 17: 1-9; Mc 9: 2-9;  Luc 9: 28-36), suas orações no Getsêmani (Mt 26: 36-46; Mc 14: 32-42; Luc 22: 39-46) e a cura da filha de Jairo (Mt 9: 18-26; Mc 5: 22-43; Luc 8: 41-56). Alguns discípulos estavam presentes nesses eventos, e o apóstolo João era um deles (Mt 17: 1 e 26:37; Mc 5:37; 9: 2 e 14:33, Luc 8:51 e 9:28).  Embora João fosse uma testemunha ocular de todos esses fatos tão importantes, não há menção de nenhum deles no evangelho que hoje leva seu nome. Estes certamente foram momentos extremamente profundos na vida de João,  porém, como poderíamos explicar sua omissão do livro que a tradição disse ter sido escrito por João? E novamente: todos os eventos em que João é referido pelo nome nos três primeiros evangelhos estão ausente do Quarto Evangelho. Veja outros exemplos: João e Pedro foram enviados por Jesus para preparar a Páscoa (Luc 22: 8). Jesus respondeu “em particular” às perguntas de João, Pedro, Tiago e André no Monte das Oliveiras (Mc 13: 3).  João e seu irmão pediram a Jesus que os sentasse “um à sua direita e  outro na tua mão esquerda, na tua glória” (Mc 10:35-41). Esses eventos não são encontrados no Livro de João! A omissão de todos os “eventos que envolve João” suportam a ideia de que o evangelho em discussão não é um testemunho ocular do próprio João. E se acreditarmos que João leu os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas primeiro e depois escreveu seu evangelho, somos obrigados a acreditar também no maior absurdo de todos os tempos: “João omitiu cuidadosamente qualquer um dos eventos em que ele foi nomeado pelos outros evangelistas!”

De fato, nenhuma dessas informações podem ser vistas no evangelho que a opinião popular diz ter sido escrito pelo apóstolo João – aquele que jamais esteve ao pé da cruz. É o que descobriremos a seguir.

A Fuga do Getsêmani

Considere o comportamento de Pedro, João e Tiago: Quando Jesus foi ao Jardim do Getsêmani, ele pediu especificamente o apoio dos três. Mateus 26:37 diz que Jesus “levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se”.  Então, Jesus fez um pedido simples: “vigie” (Mt 26:38, Mc 14:14).

Infelizmente, João e os outros dois não conseguiram ficar acordados  enquanto Jesus estava em oração.  Quando Jesus voltou e os encontrou dormindo, ele deixou claro seu desânimo dizendo  a Pedro: “nem uma hora pudestes vigiar comigo?”  (Mt 26:40; Mc 14:37).  Jesus saiu para orar novamente, mas João e seus amigos o decepcionaram uma segunda vez.  Quando Jesus voltou, ele “outra vez os encontrou dormindo” (Mt  26:43; Mc 14: 40).  A última vez que Jesus foi orar, eles dormiram também (Mt 26:45; Mc.14: 41).  João agiu como seus companheiros apóstolos quando as coisas estavam ainda calmas. 

O julgamento e a crucificação de Jesus foram eventos muito traumáticos e, durante esse período, o resto dos apóstolos (excluindo Judas) não ficaram isentos de serem dominados pelo mesmo sentimento esmagador de medo que levou Pedro negar que ele conhecia Jesus (Mt 26: 69-74).

Mateus 26: 37-45 e Marcos 14: 33-41 nos dão uma noção de quanto Pedro, Tiago e João decepcionaram Jesus no Jardim do Getsêmani naquela noite.  Jesus sabia que Judas iria trai-lo, e que ele logo seria morto.  Mas os pedidos urgentes de Jesus foram incapazes de despertar Pedro, Tiago  e João para a ação.  Imediatamente após essa série de falhas dos três chamados apóstolos do “círculo interno”, uma multidão armada e hostil apareceu, tomou Jesus e o levou a julgamento. E os discípulos, com exceção de Pedro e outro discípulo, fugiram – leia o que Cristo disse aos discípulos: “Eis que chega a hora, e já se aproxima, em que vós sereis dispersos cada um para sua parte, e me deixareis só; mas não estou só, porque o Pai está comigo” (João 16:32). E, imediatamente antes de ser preso, ele confirma: “Então Jesus lhes disse: Todos vós esta noite vos escandalizareis de mim; pois está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão” (Mateus 26:31).

Se os evangelhos dizem claramente que todos os discípulos fugiram na ocasião do aprisionamento de Jesus no Getsêmani (observe que Jesus pede aos soldados: “se é a mim que vocês procuram, deixai ESTES IR), como poderíamos localizar João posteriormente ao pé da Cruz diante dos soldados romanos e furiosos judeus?

Na verdade, os discípulos ficaram escondidos até a ressurreição de Cristo, quanto este se manifestou ressuscitado para eles. Em João 20:19,  o tempo verbal esclarece que eles estavam no local do esconderijo desde a fuga do Getsemâni:  “Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, haviam se  ajuntado, chegou Jesus, e pôs-se no meio, e disse-lhes: Paz seja convosco“. 

Eles estavam ali trancafiados desde o primeiro momento da fuga. O sentido é claro. O texto fala do lugar “onde os discípulos HAVIAM se ajuntado“. O verbo “haver” está no pretérito imperfeito – fala de uma ação tomada num momento anterior, um passado recente, e mantida até a presente narrativa. Ademais, se as portas estavam cerradas quando Jesus se manifestou vivo  pela primeira vez, e continuavam cerradas uma semana depois quando ele lhes aparece pela segunda vez, obviamente João estava trancado com medo dos judeus desde que fugiu do Getsêmani.

 O Discípulo Amado acreditou primeiro

O discípulo amado corre ao sepulcro com Pedro; chegando lá, ao ver os panos que cobriam Jesus, “ele viu e creu” (João  20: 8). Ele foi o primeiro nas Escrituras que creu na ressurreição de Jesus.

Se você ainda não sabe, vai notar que os versos anteriores mostram Maria Madalena indo ao sepulcro, mas vendo-o vazio saiu desesperada e foi avistar-se – primeiro – com Pedro e o discípulo amado. Note no relato que apenas Pedro e esse discípulo saem do local em que estavam e correm ao túmulo. Veja João 1-10: “E no primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu a pedra tirada do sepulcro. Correu, pois, e foi a Simão Pedro, e ao outro discípulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes: Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram.

Então Pedro saiu com o outro discípulo, e foram ao sepulcro. E os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais apressadamente do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. E, abaixando-se, viu no chão os lençóis; todavia não entrou. Chegou, pois, Simão Pedro, que o seguia, e entrou no sepulcro, e viu no chão os lençóis, e que o lenço, que tinha estado sobre a sua cabeça, não estava com os lençóis, mas enrolado num lugar à parte.

Então entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, e viu, e creu. Porque ainda não sabiam a Escritura, que era necessário que ressuscitasse dentre os mortos. Tornaram, pois, os discípulos para casa” (João 20:1-10). Esse é o único registro de sua reação naquela manhã; é também a primeira vez após a ressurreição que a Bíblia se refere a qualquer um que crê – esse discípulo acreditou antes do resto dos discípulos. Mais importante ainda é que, esse ponto prova que ele não era um dos “doze apóstolos” devido ao tempo de sua crença. Ele ‘acreditou’ cedo na manhã da ressurreição, mas eles não creram até mais tarde naquele dia.  Esse ponto de contraste com os apóstolos pode ser visto em versículos como este: “Finalmente apareceu aos onze, estando eles assentados juntamente, e lançou-lhes em rosto a sua incredulidade e dureza de coração, por não haverem crido nos que o tinham visto já ressuscitado” (Marcos 16:14). Apesar de ouvir aqueles que viram Jesus ressuscitado, a “incredulidade” dos “onze” persistiu até tarde no dia da ressurreição. Eles nem podiam ser convencidos pelos dois que haviam sido ensinados por Jesus mais cedo naquele dia no caminho de Emaús (quando “explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras” , Luc 24: 13-27) . Esses dois haviam contado essas coisas aos ‘onze’ e aos outros (Luc 24: 33-34), mas ainda assim parecia que  a ‘incredulidade’ agarrou nos apóstolos e continuou até que eles viram pessoalmente  Jesus ressuscitado. No entanto, como foi dito, o discípulo amado acreditou na manhã da ressurreição – isso entra em flagrante contraste com a ‘incredulidade’ dos ‘onze’ mais tarde, no mesmo dia.

O Discípulo Amado escreveu o Livro

Não há dúvida de que a redação do Evangelho que leva o nome de João teve a participação do discípulo amado. Veja o texto: “E Pedro, virando-se, viu que o seguia aquele discípulo a quem Jesus amava, o mesmo que na ceia se recostara sobre o peito de Jesus e perguntara: Senhor, quem é o que te trai? Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiroE ainda muitas outras coisas há que Jesus fez; as quais, se fossem escritas uma por uma, creio que nem ainda no mundo inteiro caberiam os livros que se escrevessem” (João 21:20,24-25).

Está explicito no verso anterior que o discípulo  testemunhou essas coisas – não apenas os fatos do capítulo 21 – e as escreveu: “Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e as escreveu“. Ninguém diria isso no final do Livro para indicar ter escrito apenas ao último capítulo. E como prova de que a referência é ao Livro todo, ele conclui: “Jesus fez também muitas outras coisas. Se cada uma delas fosse escrita, penso que nem mesmo no mundo inteiro haveria espaço suficiente para os livros que seriam escritos” (João 21:25).

Muitos acreditam que o discípulo amado escreveu com a ajuda de outra pessoa sugerindo que estas linhas não foram escritas por ele: “sabemos que o seu testemunho [do discípulo amado?] é verdadeiro“. De qualquer forma isso não ajudaria em nada àqueles que defendem a autoria de João, pois o mesmo poderia ser usado com relação a ele e o desconhecido. E,  se esse desconhecido garante o testemunho de outro, como muitos sugerem, nem mesmo assim esse outro poderia ser João. Observe que  a frase “sabemos que o testemunho desse discípulo é verdadeiro” não pode ser revertida por “Eu sei que o testemunho de João é verdadeiro”, pois nos levaria a pensar que um apóstolo exigia o testemunho de pessoas anônimas para validar seu testemunho, o que é ilícito, estranho e desnecessário. E se essa primeira pessoa fosse João, atestando que o testemunho de quem escreveu o Livro é verdadeiro, então, obviamente quem escreveu o Livro não foi João. Além disso, devemos observar também  outra fala do discípulo amado em uma passagem no capítulo 19 do mesmo evangelho, na cena da lança perfurando o lado de Jesus, quando sai sangue e água: “E é quem viu isso que dá testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro; e sabe que diz a verdade, para que também vós creiais” (João 19:35). Aqui ele fala na primeira pessoa garantindo que seu testemunho é legítimo. 

Mais dois Anônimos

Observe novamente que a narrativa no início do capítulo faz distinção entre dois estranhos discípulos e os filhos de Zebedeu, João e Tiago: “Estavam juntos Simão Pedro, e Tomé, chamado Dídimo, e Natanael, que era de Caná da Galiléia, os filhos de Zebedeu, e outros dois dos seus discípulos” (João 21:2). Se um desses dois é o discípulo amado, então o assunto está  encerrado. E o curioso nesse fato é que João  é nomeado com seu irmão – são identificados como filhos de Zebedeu, e não como “o discípulo amado, e Tiago, filho de Zebedeu. Ora, se João é citado no início do capítulo 21 indiretamente, por que não foi citado como discípulo amado e, porque aquele mencionado como discípulo amado no verso 26 não foi citado como  João? Em outras palavras: estes dois discípulos ficam no anonimato e, mais do que isso, o texto faz distinção entre eles e os filhos de Zebedeu, João e Tiago. Se um desses dois fosse o discípulo que Jesus amava, então teríamos aqui uma evidência irrefutável de que João não é esse discípulo.

O Discípulo Amado chegou no local com Pedro?

Note que “o discípulo que testifica dessas coisas e as escreveu” (que também está no anonimato)  é o mesmo que alerta Pedro da presença do Senhor no local: “Então aquele discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: é o Senhor. Quando, pois, Simão Pedro ouviu que era o Senhor, cingiu-se com a túnica, porque estava despido, e lançou-se ao mar” (João 21:7). Ele é citado novamente seguindo Pedro e Jesus: “E Pedro, virando-se, viu que o seguia aquele discípulo a quem Jesus amava, o mesmo que na ceia se recostara sobre o peito de Jesus e perguntara: Senhor, quem é o que te trai? (João 21:20). 

Minha sugestão é que o discípulo sem nome chegou ao local com Jesus. Isso explicaria o aviso a Pedro enquanto ele estava no barco com os outros: “É o Senhor“. O  discípulo poderia ter gritado da margem  que aquele “estranho”  (para os discípulos) era Jesus por estar mais perto dele, o que explica porque os outros não o reconheceram – eles estavam distantes. Note em 21:6 que Jesus diz para eles  lançarem a rede do lado direito do barco. O texto mostra que a sugestão de Jesus acompanhou a ação dos discípulos, (“então eles lançaram”), o que significa que eles  estavam a uma certa distância da praia. Isso indica que Jesus chegou enquanto eles se preparavam para iniciar novamente a pesca. Jesus teria levantado a voz para que eles o ouvissem, o que também fez o discípulo amado com Pedro. Leia novamente de 4 a 11, principalmente no detalhe de Pedro pulando na água e nadando em direção a margem sendo acompanhado pelos outros, “que vieram no barco” (v.8).

É improvável que o discípulo amado seja alguém mencionado pelo nome no evangelho, e especialmente nesse último capítulo.  Sua identidade está sendo velada, não revelada com um nome.  Isso significa que podemos eliminar os mencionados em João 21: 1-2, bem como Filipe, André, Judas Iscariotes, o “outro” Judas, e o “outro” Simão e Mateus, que são os que faltam nessa lista.

O Discípulo Amado e a Última Ceia

Uma percepção errônea sobre a última Páscoa de Jesus tendeu a dar crédito à ideia de que João poderia ser o autor do Quarto Evangelho. Isso decorre do fato de termos sido informados de que ‘o discípulo a quem Jesus amava’ foi aquele que ‘apoiou o peito no jantar e disse: “Senhor, quem é aquele que te trai?’ (João 21:20). Visto que as Escrituras dizem que Jesus “chegou com os doze” (Marcos 14:17) e “tomou lugar a mesa” com “os doze” (Mt 26:20 e Luc 22:14), muitos assumiram que o discípulo misterioso tinha de ser um dos ‘doze’.

Para complicar, também existem muitas pinturas da Última Ceia que ajudam a instilar uma imagem em nossa mente de Jesus sentado à mesa com “os doze”, tendo uma ceia particular sem mais ninguém na sala. Essas interpretações artísticas e uma suposição errônea levaram muitas pessoas a aceitar uma conclusão defeituosa. E para desfazer esse quadro tradicional, bastaria dizer que “pondo-se a mesa com os doze” não deve significar que nessa mesa, localizada dentro de um grande cenáculo (Luc 22:12), havia lugar apenas preparado para os doze. Muitos outros participaram e, com certeza, não tomaram a ceia em pé, mas tomaram lugar a mesa, que, na verdade, não era uma mesa ao nosso modelo atual, mas uma extensão grande onde se depositavam  os alimentos – todos os participantes se posicionavam no chão apoiando-se com um cotovelo seu próprio corpo enquanto usavam uma das mãos para se servirem. O texto está apenas dizendo que Jesus chegou “com os doze” e tomou lugar na mesa preparada para a grande ceia.

Note que a Bíblia nunca diz que ‘os doze’ foram os únicos presentes com Jesus naquele evento. Em nenhum lugar se diz que eles jantaram sozinhos, nem há nada que indique que os outros discípulos de Jesus foram mantidos afastados.

Considere que Jesus e seus discípulos tratam sobre preparar a ceia na casa de outra pessoa naquela noite: “E, no primeiro dia da festa dos pães ázimos, chegaram os discípulos junto de Jesus, dizendo: Onde queres que façamos os preparativos para comeres a páscoa? E ele disse: Ide à cidade, a um certo homem, e dizei-lhe: O Mestre diz: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a páscoa com os meus discípulos” (Mt 26: 17-18). O que falta é justificativa para supor que os ocupantes daquela casa deviam desocupar o local.

Outras passagens também indicam que Jesus e os ‘doze’ não estavam sozinhos naquela noite. Em Atos 1: 21-26, um substituto para Judas foi selecionado de um grupo que Pedro qualificou como “… homens que conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre nós, começando desde o batismo de João até ao dia em que de entre nós foi recebido em cima, um deles se faça conosco testemunha da sua ressurreição” (Atos 1: 21-22). Claramente, então, “os doze” não foram os únicos com Jesus durante seu ministério terrestre! Esse fato raramente é discutido, mas essas palavras revelam que, além dos “doze” apóstolos, outros discípulos também seguiram Jesus durante todo o seu ministério. Então, por que acreditarmos que eles foram barrados na ceia, se foram bem-vindos antes e depois dela? Observe que Pedro diz  que esses discípulos “conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre nós …  até ao dia em que de entre nós foi recebido em cima”. Ele está falando de forma explícita que muitos deles estiveram na ceia!

É fato que ao identificar seu traidor, Jesus disse: “É um dos doze”  (Mc 14:20). Nos evangelhos, “os doze” é um termo usado ​​apenas para os apóstolos (Luc 6:13). ‘Discípulos’ refere-se a qualquer um de seus seguidores, incluindo alguns ou todos os ‘doze’ (João 6:66; Luc 19:37). Por exemplo, após a ceia, vemos Jesus no Getsêmani com “seus discípulos” (João 18: 1). Isso incluía os apóstolos menos Judas, mas certamente também incluiria os apóstolos candidatos de Atos 1: 21-22 e outros. E isso é verdade, pois quando os dois discípulos do caminho de Emaús voltam a Jerusalém, após terem visto Jesus ressuscitado, eles encontram os “onze e os que estavam com eles” (Luc 24:33). De onde saíram esses outros que estavam trancafiados com os Apóstolos? Evidente que fugiram do Getsêmani com os doze – e todos haviam saído do local da ceia!

Se ‘os doze’ eram os únicos com Jesus, então, porque ele precisaria incluir a estipulação ‘é um dos doze’ quando viu todos entristecidos ao dizer que um ali iria traí-lo? Veja o texto: “Quando estavam comendo, reclinados à mesa, Jesus disse: “Digo-lhes que certamente um de vocês me trairá, alguém que está comendo comigo”. Eles ficaram tristes e, um por um, lhe disseram: “Com certeza não sou eu! Afirmou Jesus: É um dos Doze” (Marcos 14:18-20). ‘Os doze’ é um termo limitante. Se ninguém mais estivesse lá, Jesus não teria dito: é um de vocês? Assim, quando Jesus disse que o traidor era “um dos doze” – não “um de vocês” – indica que “os doze” eram um subconjunto daqueles que estavam presentes. Aliás, quando Jesus passou a especificar que seu traidor seria “um dos doze”, esse detalhe crucial foi sem dúvida uma notícia bem-vinda a todos, exceto “aos doze”.

Outra evidência podemos encontrar quando Jesus também disse, ‘com meus discípulos’, quando enviou uma mensagem sobre quem se juntaria a ele na páscoa (Mt 26:18; Mc 14:14; Luc 22:11). Ele não disse, “com os doze”. Veja as passagens paralelas:

Mateus 26:18  “E ele disse: Ide à cidade, a um certo homem, e dizei-lhe: O Mestre diz: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a páscoa com os meus discípulos”.

Marcos 14:14  “E, onde quer que entrar, dizei ao senhor da casa: O Mestre diz: Onde está o aposento em que hei de comer a páscoa com os meus discípulos?”

Lucas 22:11  “E direis ao pai de família da casa: O Mestre te diz: Onde está o aposento em que hei de comer a páscoa com os meus discípulos?”

Em  nenhum versículo diz que ele excluiu os discípulos leais que Pedro menciona como aqueles que “nos acompanhavam o tempo todo em que o Senhor Jesus viveu entre nós” (Atos 1:21). Eles são vistos separados dos doze. Lucas 6:13 nos diz que Jesus “chamou seus discípulos: e dentre eles, ele escolheu doze, a quem também chamou apóstolos”. Eles estavam na ceia com muitos outros conhecidos de Jesus. 

O Outro Discípulo

Os outros três escritores dos evangelhos nunca se referem ao “discípulo a quem Jesus amava” e ao “outro discípulo” (Mateus 26:58, Marcos 14:54 e Lucas 22: 54-55). Assim, enquanto eles mencionam João, “o discípulo amado” e o “outro discípulo” estão ausentes em seus livros. Se ele era João, esse tratamento inconsistente apresenta um problema; observe que eles citam livremente João, exceto em todos os momentos em que o Quarto Evangelho mencionava “o discípulo a quem Jesus amava” e o “outro discípulo”. Como eles poderiam saber quando deixá-lo de fora? Mesmo que eles tivessem uma cópia do evangelho “de João” para saber quando se referia àquele discípulo sem nome, não faz sentido que o omitissem seletivamente se ele fosse João. No entanto, se eles sabiam que ele e João eram duas pessoas diferentes, esse tratamento diferente é compreensível.

É de opinião quase unânime que esse discípulo, conhecido do sumo sacerdote,  que acompanhou Pedro quando este seguia Jesus depois de sua prisão, é  João. No entanto, como vai ser esclarecido, não se trata de João. Veja o texto:

Simão Pedro e outro discípulo estavam seguindo Jesus. Por ser conhecido do sumo sacerdote, este discípulo entrou com Jesus no pátio da casa do sumo sacerdote, mas Pedro teve que ficar esperando do lado de fora da porta. O outro discípulo, que era conhecido do sumo sacerdote, voltou, falou com a porteira encarregada da porta e fez Pedro entrar” (João 18:15,16).

O escritor do Livro de Atos registrou fatos que podem nos ajudar a provar conclusivamente que o apóstolo João não era o “outro discípulo” sem nome. Atos 4: 1-23 narra o que aconteceu com Pedro e João após a cura de um homem aleijado. Pedro e João foram apreendidos e apresentados aos “governantes, anciãos e escribas, e Anás, o sumo sacerdote, e Caifás…” (Atos 4: 5 e 6), para poderem ser questionados sobre esse milagre. Se você está se perguntando como isso ajuda a provar que o apóstolo João não era o ‘outro discípulo’, preste muita atenção à reação do sumo sacerdote e desses governantes apenas alguns versículos depois.

O sumo sacerdote, governantes, anciãos e escribas se reuniram e começaram o interrogatório de Pedro e João (Atos 4: 5-7). A resposta de Pedro à pergunta deles está registrada em Atos 4: 8-12 – o versículo seguinte descreve a reação deles a Pedro e João. Atos 4:13, falando do sumo sacerdote e daqueles governantes, registra: “quando viram a ousadia de Pedro e João e perceberam que eram homens indoutos e ignorantes, ficaram maravilhados; E tomaram conhecimento deles, que estavam com Jesus”. Porque o sumo sacerdote e o resto se maravilharam? Para começar, eles descobriram que Pedro e João “eram homens indoutos e ignorantes” (Atos 4:13). Esses dois pontos no grego são lidos, ‘sem letras’ e ‘sem instruções’. Pedro e João podem ter exposto seu sotaque galileu; é possível que seu vocabulário, roupas e/ou maneirismos, tenham contribuído para a ideia de que eles não tinham educação formal. Além disso, a Bíblia indica que os traços regionais poderiam ser facilmente discernidos pelas pessoas daqueles dias (Veja exemplos em  Mateus 26:73, Marcos 14:70 e Lucas 22:59).

Independentemente disso, Atos 4:13 revela que o que realmente chocou aqueles líderes foi ver que Pedro e João (a quem eles julgavam ser “indoutos e ignorantes”) exibiam tal “ousadia”. Em vez de se encolher diante dos homens instruídos que os julgariam, Pedro e João proclamaram a verdade e defenderam abertamente o nome de Jesus, acusando aqueles governantes de sua morte e afirmando que Deus o havia ressuscitado dentre os mortos, enquanto eles creditavam a Jesus o responsável pelo milagre de cura que ocorreu (Atos 4: 9-10). O que deve ser observado aqui é que esses líderes estavam aprendendo fatos óbvios e elementares sobre os dois homens que estavam diante deles, e Atos 4:13 continua dizendo que “eles ficaram admirados e reconheceram que eles [Pedro e João] haviam estado com Jesus”.  As descobertas reveladoras que estavam sendo feitas por esses líderes durante esse evento deixam perfeitamente claro que Pedro e João não eram reconhecidos nem familiarizados por esses líderes religiosos.

O que precisamos tirar dessa passagem é que foi nesse momento que o sumo sacerdote e os outros governantes se familiarizaram com Pedro e João pela primeira vez – reveja os detalhes em itálico do verso 13: “… quando viram… perceberam tomaram conhecimento”. Lembre-se: entre aqueles que tiveram essa reação estão Anás, o sumo sacerdote, e Caifás (Atos 4: 5 e 6).

O contexto  anterior estabeleceu que a reação do sumo sacerdote e dos outros governantes era uma resposta a novas informações. Foi quando Atos 4 estava realmente acontecendo que o sumo sacerdote, e os outros com ele, souberam o que os levou a concluir que Pedro e João: (a) eram “homens indoutos e ignorantes” e (b) “estiveram com Jesus”. Vemos o sumo sacerdote aprendendo coisas naquele dia que ele já saberia se tivesse conhecido os homens que estavam diante dele. Portanto, os fatos da Bíblia podem provar que o sumo sacerdote não conhecia João (ou Pedro) antes desse encontro. Este é o ponto principal que afirma que o apóstolo João não pode ser o ‘outro discípulo’. Para demonstrar como isso é verdade, devemos comparar cuidadosamente Atos 4 com as informações que a Bíblia nos diz sobre a noite em que Jesus foi preso e levado para ser acusado falsamente.

Somos informados de que Jesus foi levado ‘a Anás primeiro’ (João 18:13). Depois, lemos sobre dois discípulos que seguiram a Jesus: “E Simão Pedro e outro discípulo seguiam Jesus” (João 18:15).  As palavras seguintes, no entanto, acabam por esclarecer, pois, nos dizem que “esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote”. Parece que Deus queria destacar esse ponto, pois seu autor inspirado optou por enfatizar esse fato repetindo-o. No versículo seguinte, lemos: “E Pedro estava da parte de fora, à porta. Saiu então o outro discípulo que era conhecido do sumo sacerdote, e falou à porteira, levando Pedro para dentro” (João 18:16). Portanto, não há dúvida de que o ‘outro discípulo’ era conhecido do sumo sacerdote. Esse ‘outro discípulo’ poderia entrar no palácio e, além disso, ele era responsável por fazer com que Pedro passasse pela porteira. Consequentemente, o apóstolo João não poderia ter sido o “outro discípulo” porque sabemos em Atos 4:13 que João não era conhecido do sumo sacerdote!

Antes de Atos 4:13, nada na Bíblia sugeria que os governantes judeus conhecessem João ou tivessem conhecimento de sua associação com Jesus. Em contraste com isso, o ‘outro discípulo’ era conhecido do sumo sacerdote, que, portanto, teria motivos para estar ciente de sua associação com Jesus antes da noite do julgamento deste. Além disso, algo foi dito naquela noite que nos indica que o “outro discípulo” estava publicamente associado a Jesus antes do início da noite. No entanto, isso não era verdade para Pedro, como revela a pergunta da porteira. Vimos que a mulher que mantinha a porta perguntou a Pedro: “Não és tu também dos discípulos deste homem?” (João 18:17). A palavra “também” é usada em referência ao “outro discípulo”, que acabara de falar com ela (João 18:16). Portanto, vemos que mesmo “a moça que mantinha a porta” sabia que o discípulo sem nome era um discípulo de Jesus. No entanto, como vimos, a associação de João com Jesus não era conhecida pelo sumo sacerdote até Atos 4:13, que diz: “Então eles, vendo a ousadia de Pedro e João, e informados de que eram homens sem letras e indoutos, maravilharam-se e reconheceram que eles haviam estado com Jesus”.

E a mais legitima evidência testemunhando que João não estava ao pé da cruz, também pode ser encontrada na atitude desses judeus mencionados em Atos. Parece claro que esses homens veem João pela primeira vez, reconhecendo que ele havia andando com Jesus. Se o discípulo amado fosse João os líderes judeus o teriam reconhecido nesse momento, pois eles estavam no local da crucificação – todos eles (compare Mateus 27:41-43 com Atos 4:5-8,13).

Quando examinamos minuciosamente os textos das Escrituras e comparamos estes com os tantos dogmas que foram disseminados no seio da cristandade, unicamente por tradição, é que nos conscientizamos ainda mais sobre o que significa “sola scriptura”, porém, infelizmente, aqueles que aderem à ideia de João como o discípulo a quem Jesus amava, apesar das evidências em contrário, certamente continuarão citando fontes não bíblicas como se isso justificasse a promoção da tradição de João. 

A Deus toda Glória

Fontes consultadas

Who Was the Beloved Disciple?” – Floyd V. Filson, Journal of Biblical Literature, Vol. 68.

The Beloved Disciple” – M. R. The Irish Monthly, Vol. 39, No. 452 .

The Testimony of the Beloved Disciple” – Richard Bauckham.

The Community of the Beloved Disciple” – Raymond Edward Brown – Paulist Press.

The Beloved Disciple: whose witness validates the Gospel of John?” –  James H. Charlesworth Trinity Press International, 1995.