Saindo com Ele para Fora

No último capítulo da epístola aos Hebreus o Espírito de Deus, referindo-se aos “corpos dos animais, cujo sangue é, pelo pecado, trazido pelo sumo sacerdote para o santuário, são queimados fora do arraial“, segue dizendo: “Por isso também Jesus, para santificar o povo pelo Seu próprio sangue, padeceu fora da porta. Saiamos, pois, a Ele fora do arraial, levando o Seu vitupério” (Hb 13:11-13).

Muitos se encontram confusos quanto ao que significa aqui a expressão “arraial”, todavia é de grande importância entendermos isto, pois aqueles que amam o Senhor Jesus Cristo são exortados a saírem do arraial; “saiamos, pois a Ele”.

Tendo por finalidade aprender o significado do termo (e é nosso dever procurarmos aprender), devemos, antes de mais nada, descobrir a quem, primeiramente e principalmente, esta epístola foi endereçada, e com a ajuda de Deus tudo se tomará claro.

A epístola aos Hebreus foi escrita a judeus que professavam estar convertidos e que haviam nascido e sido educados sob a lei dada por Deus a Israel no Monte Sinai. Naquela ocasião, estavam no deserto, acampados como arraial, e ali Deus lhes ordenou um sistema de adoração na carne, que, embora perfeito no seu devido lugar, não exigia, e nem supunha, que os adoradores fossem nascidos de novo. Sob tal sistema os israelitas, como nação, fracassaram completamente.

Devemos, a seguir, esclarecer o sentido que o Espírito de Deus deu ao “arraial” na época em que o apóstolo escreveu as exortações acima.

O nono capítulo nos diz que havia ordenanças de um serviço instituído por Deus, e um santuário terreno, formado por um tabernáculo feito por mãos humanas, e erigido na Terra, que era o lugar de adoração dos israelitas.

Naquele tempo eles tinham um sacerdócio estabelecido; homens de uma certa família que eram separados para que ficassem entre os adoradores e Deus, dos quais Aarão era o sumo sacerdote. E o sacerdote era o ministro daquele santuário, e sem ele os adoradores não podiam adorar.

Todos os anos aquele sumo sacerdote oferecia uma expiação para os pecados do seu povo, além de outros sacrifícios que eram oferecidos continuamente; e como já foi observado, tais adoradores não eram necessariamente pessoas convertidas, apesar de alguns o serem, mas formavam uma companhia mista de crentes e incrédulos, todos eles permanecendo sobre um fundamento, que era o de se guardar a lei para alcançar justiça.

Ora, aquele sistema incluía como adoradores toda a nação de Israel que habitava então no arraial. Na época em que o apóstolo escreveu, a nação havia se estabelecido na terra prometida, com seu centro de adoração posto no templo em Jerusalém. O Espírito de Deus chama a isso de “arraial”, para fora do qual os “irmãos santos, participantes da vocação celestial” eram exortados a sair.

Aprendemos, portanto, que o judaísmo, ou seu sistema de adoração na carne, era o “arraial” no tempo de Paulo. E, querido leitor cristão, acaso não fica logo claro que qualquer sistema de adoração com caráter e natureza judaica e, conseqüentemente, qualquer sistema ao qual a carne e a vista ou seja, o próprio mundo – possam em maior ou menor medida se filiar, é o arraial de nossos dias? Sabemos, conforme é revelado pelo próprio Filho de Deus, que “Deus é Espírito, e importa que os que O adoram O adorem em espírito e em verdade” – algo impossível de ser feito pela carne (Jo 4:24). É preciso que o homem seja nascido do Espírito e selado com o Espírito. Em João 4:21, nosso Senhor diz: “Mulher, crê-Me que a hora vem, em que nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai”. Havia chegado o tempo quando os lugares de adoração na Terra – montanhas e templos feitos por mãos – seriam deixados de lado. O homem na carne já tinha sido completamente testado e provado como sendo totalmente incapaz de obedecer a lei de Deus, ou de adorá-Lo. Agora tinha se iniciado uma nova ordem de coisas: homens nascidos do Espírito, habitados pelo Espírito, adorando em espírito e em verdade, não em um templo ou tabernáculo na Terra, mas no santo dos santos, ou seja, no próprio céu – o único lugar de adoração que existe hoje – no qual temos ousadia de entrar pelo sangue de Jesus.

Portanto, se existir hoje algum sistema de adoração que tenha um santuário terreno – um templo feito por mãos, com um sacerdócio ordenado, ou uma classe de homens separados para ocuparem um lugar especial entre Deus e os adoradores, sem os quais estes não possam adorar; onde os adoradores são uma mistura de pessoas convertidas e inconversas sob uma determinada lei; isto é – e deve ser efetivamente – o “arraial”. Trata-se, como sistema de adoração, de judaísmo em sua natureza e caráter, apesar de poder abrigar verdadeiros cristãos e incluir pessoas que, com maior ou menor fidelidade, continuam pregando o Evangelho.

É o Espírito Santo – é Deus – falando, Quem diz, por intermédio do apóstolo, a todo e qualquer dentre os Seus filhos queridos que estejam em qualquer tipo de sistema como este: “Saiamos, pois, a Ele (Cristo) fora do arraial, levando o Seu vitupério”.

“Mas” – alguns poderão perguntar – “porque não permanecer no sistema e procurar fazer o melhor possível ali mesmo?” Porque, “o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros” (1 Sm 15:22). Porque Deus não quer cristianismo e judaísmo misturados – o vinho novo em odres velhos. Porque Deus não quer o mundo e a Igreja colocados em jugo desigual (2 Co 6). Porque Jesus Cristo veio como um “Sumo Sacerdote dos bens futuros, por um maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos” (Hb 9:11). Ele foi expulso pelos que adoravam na carne (adoradores do judaísmo), e sofreu fora da porta, no Calvário; provando que a adoração na carne não é algo mal; pois se eles amassem a Deus, teriam respeitado Seu Filho. Sim, embora aqueles adoradores na carne pudessem mostrar nas Escrituras, aos homens sábios do Oriente, onde o Cristo haveria de nascer, nenhum deles moveu-se a fim de buscá-Lo, mas ficaram todos angustiados e aflitos com o simples pensamento de que Ele houvesse chegado.

E agora, ressurreto de entre os mortos, Ele entrou no santo lugar feito sem a ajuda de mãos, no próprio céu; não por sangue de bodes e bezerros, “mas por Seu próprio sangue”, “havendo efetuado (não uma redenção para um ano somente, mas) uma eterna redenção” (Hb 9:11-12). Portanto, agora o Homem na glória, o Deus-Homem, é nosso Ministro – “Ministro do santuário, e do verdadeiro tabernáculo, o qual o Senhor fundou, e não o homem” (Hb 8:2).

E embora seja verdade que Deus antigamente tenha falado muitas vezes, e de muitas maneiras aos pais, pelos profetas, Ele nos honrou ainda mais nestes últimos dias em que nos falou por Seu Filho (Hb 1:1). Aqui o Espírito de Deus coloca o Filho de Deus acima e adiante de todos os profetas.

E apesar de ser verdade que Moisés era o apóstolo (e ele foi fiel em toda a sua casa como um servo), e que Aarão era o sumo sacerdote chamado e escolhido por Deus para aquela nação de adoradores na carne – Israel – nós cristãos devemos considerar como o Apóstolo e Sumo Sacerdote de nossa profissão a Cristo Jesus, exaltando assim a Cristo acima e adiante de Moisés e Aarão (Hb 1:1-2; 3:1-6).

Sob a lei, havia sido ordenado e instituído pelo próprio Deus que os sacrifícios de bodes e bezerros deviam ser oferecidos uma sombra das coisas melhores que viriam; mas agora, Cristo Se ofereceu a Si mesmo, e ressuscitou e foi apresentar o Seu próprio sangue a Deus por nós, havendo assim, por uma única oferta, aperfeiçoado para sempre aqueles que são santificados (Hb 10). Deste modo o sacrifício de Cristo é posto acima, e no lugar de todos aqueles outros sacrifícios que jamais podiam tirar os pecados. O que é real havia chegado e tomado o lugar das sombras.

Embora seja perfeitamente verdadeiro que Deus tenha dito a Moisés para levantar o tabernáculo, e a Salomão o templo, para que fosse um lugar de adoração sobre a Terra sob a lei, agora Ele abriu o céu para nós, e temos intrepidez para entrar no santo dos santos pelo sangue de Jesus – no próprio céu ocupando agora o lugar do tabernáculo e do templo em Jerusalém, como o lugar de adoração do cristão, no qual entramos pela fé e em espírito (Hb 8:1-2; 9:24).

Apesar de Deus haver feito um concerto com Israel no Monte Sinai, dando ao povo a lei – um concerto de obras – os israelitas falharam sob a lei, e o cristão não está sob a lei, mas sob a graça, havendo Cristo nos livrado da lei e da sua maldição, havendo sido feito maldição por nós, e “porque eu, pela lei, estou morto para a lei, para viver para Deus” (Gl 2:19; Hb 8:9-13).

Portanto, era verdade que tanto inconversos como convertidos estavam na congregação de adoradores sob a lei; agora, Aquele que é Espírito, e que deve ser adorado em espírito e em verdade, está buscando os que assim O adorem. E quem pode fazê-lo? Aqueles, e somente aqueles, que forem convertidos e selados pelo Espírito de Deus, têm o poder e o coração para isso.

Em resumo, Cristo e cristianismo tomaram o lugar da lei e do judaísmo, em direto contraste a estes, e Deus não permitirá que misturemos essas coisas ou, melhor dizendo, Ele não permitirá nem mesmo que tentemos fazê-lo.

Assim, a ordem é: “Saiamos, pois, a Ele fora do arraial, levando o Seu vitupério” (Hb 13:13).

Ora, o leitor deve notar que esta não é uma questão de salvação – não quer dizer que aqueles que estão dentro do arraial não estejam salvos – na verdade são os salvos, que estão dentro do arraial, que são chamados a sair(e não há dúvida de que muitas almas estão sendo salvas onde o evangelho estiver sendo verdadeiramente pregado dentro do arraial); mas trata-se de uma questão de obediência, e de adorar a Deus em conformidade com os princípios do cristianismo ou não – certamente algo muito importante aos olhos daqueles que amam o Senhor Jesus.

Quando a epístola aos Hebreus foi escrita havia muitos milhares de judeus que criam, e todos eram zelosos da lei, como testemunhou o apóstolo Tiago (At 21:20). Se compararmos as datas descobriremos que Deus, em longanimidade, bondade e misericórdia, permitiu que os judeus crentes permanecessem no “arraial” por, talvez, trinta anos depois do Pentecostes, e por este motivo o cristianismo e o judaísmo caminharam juntos durante alguns anos (At 2:46-47; 21:20-25). Mas Deus ainda não lhes havia dito para que deixassem o arraial. Todavia, depois de Paulo ter ido a Jerusalém, e, persuadido por Tiago, ter ido ao templo para novamente adorar ali, a fim de agradar aos muitos milhares de judeus que criam, ocasião em que quase perdeu a vida nas mãos da porção de adoradores judeus incrédulos, ele foi mandado preso para Roma, e provavelmente de lá escreveu esta epístola (a julgar pelas datas). O Espírito de Deus usou o apóstolo para convocar os cristãos que estavam no judaísmo – o apóstolo Tiago e todos os outros – para que se separassem do arraial de uma vez por todas. Havia chegado o tempo em que Deus não iria mais permitir que cristianismo e judaísmo continuassem, ou parecessem continuar, andando juntos.

Foi uma prova muito grande para aqueles que, nos dias de Paulo, haviam sido criados como judeus, terem que obedecer a essa convocação, e assim acontece também hoje. Mas se amamos Aquele que Se entregou por nós, demonstraremos esse amor obedecendo aos Seus mandamentos e às Suas palavras (Jo 14:21,23). E se existe vitupério prometido para nós se obedecermos, não nos esqueçamos de que se trata do Seu vitupério. Ele próprio suportou muito mais do que qualquer um de nós jamais terá que suportar; e Seu amor e Seu poder estão conosco, e são por nós, para nos conduzir – sim, até mesmo para nos capacitar a regozijarmos pelo fato de sermos considerados dignos de sofrer por causa dEle.

Mas devemos sair “a Ele fora do arraial”. Onde, fora do arraial, devo encontrá-Lo, e de que maneira especial Ele será encontrado ali? Irmão ou irmã: existe um lugar especial fora do arraial onde o Senhor Se digna estar, e Se manifestar de uma maneira especial e peculiar à fé: “Onde estiverem dois ou três congregados para o Meu Nome, aí estou Eu no meio deles” (Mt 18:20-literal). O lugar está, portanto, onde os dois ou três, ou vinte ou trinta, ou duzentos ou trezentos, estiverem reunidos para o Seu Nome; e o modo e a forma especial em que Ele Se digna a Se manifestar à fé nesse lugar não é para ser descrito em palavras. É para ser sentido e desfrutado por aqueles que crêem e obedecem Suas palavras – a Sua presença verdadeira, mas não, evidentemente, corpórea, no meio deles. Oh, se todo o Seu querido povo pudesse crer nisto!

Gostaria de acrescentar que isto não elimina o ministério – o ministério que é divinamente designado – na Igreja de Deus. Há um ministério; há dons dados aos homens; há evangelistas, pastores, e doutores, para o “aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação (não de uma seita, mas) do corpo de Cristo” (Ef 4:11-12). Mas esses dons não são dados para dirigir os cristãos na adoração; os cristãos são como os membros do corpo natural de uma pessoa, para o uso de todo o corpo; mas é só na Cabeça que todos devem buscar a liderança e a direção, especialmente na adoração. E é Cristo a Cabeça do Seu corpo, a Igreja, do qual todos os cristãos verdadeiros são membros (1 Co 12:12). Ele verdadeiramente dirige pelo Seu Espírito onde quer que Ele seja reconhecido como estando presente onde quer que Ele seja visto como estando no meio, e onde Ele tenha o Seu lugar – o lugar ao qual somente Ele tem direito, e que só Ele está qualificado a ocupar.

Aquele que coloca os membros do corpo em seus lugares conforme o Seu querer, usa evangelistas, pastores e doutores, quando e onde Ele escolhe fazê-lo. E eles buscam a Ele por direção quanto aonde ir, em que lugar e por quanto tempo ficar, e são responsáveis perante Ele somente pelo uso de seu dom ou de seus dons.

Mas na adoração nos reunimos, não para escutar uma pregação do evangelho, não para sermos ensinados por um mestre, não para sermos exortados por um pastor, mas para dar, pela direção do Senhor em nosso meio por intermédio do Seu Espírito, louvor, adoração, e ações de graças a nosso Deus e Pai, ou até mesmo ao próprio Senhor Jesus – algo que não requer nenhum dom especial da parte de alguém, mas algo que cada verdadeiro cristão andando com Deus está capacitado a dar o que só Deus é digno de receber, ou seja, a adoração.

Pode ser uma, duas ou três almas simples, mas que, de coração, se alternem em serem guiadas, com palavras simples e sem floreios, a servir de boca para todos os cristãos presentes. E farão assim, não porque sejam mais capazes ou mais dotadas, ou por terem sido escolhidas por alguém, mas simplesmente por estarem sendo guiadas pelo Espírito do Senhor. Devemos olhar para Ele, e reconhecê-Lo, como nossa Cabeça, nosso Sumo-Sacerdote, nosso Ministro do verdadeiro tabernáculo, o qual o Senhor erigiu, e não o homem. Por meio dEle nosso cântico e palavras de louvor sobem como oferta aceitável para Deus.

Este modo de adoração espiritual é algo que nunca será eliminado. Começou na Terra, e como que atrapalhado por estes corpos de humilhação, nunca é o que deveria ser. Quando recebermos a redenção de nossos corpos; quando não mais virmos “em espelho, em enigma”, mas virmos “face a face”, conhecendo como somos conhecidos; quando não estivermos mais divididos e espalhados, e misturados com o mundo, como muitos estão, em adoração, etc.; quando todos os que pertencem a Cristo, comprados por sangue, estiverem reunidos ao redor dEle em glória, então a adoração que começou na Terra deverá continuar em glória para sempre, e será plenamente aquilo que deveria ser.

 

O Padrão Judaico na Igreja

A visão da grande diferença entre o Judaísmo e a Igreja há muito foi perdida pelos cristãos. Parece que a mistura dos dois é a predileção do sistema religioso “cristão” do nosso tempo. Um pouco de cada um deles é o atrativo que engana muitos cristãos sinceros nestes dias, os quais não conhecem a verdade de que a igreja por ser celestial não tem um endereço na terra, não tem sacerdotes para intermediar o povo, não tem lugares e momentos especiais de adoração, pois adora o Senhor todo o tempo em espírito. Estes estão aprisionados nos sistemas inventados pelos homens, sejam eles denominacionais ou não denominacionais. A verdadeira igreja de Cristo que é a companhia dos resgatados do Senhor não está em nenhum lugar e ao mesmo tempo em todos os lugares. Ela não tem um lugar fixo nesta terra, mesmo porque é celestial e não terrena. Assim como aquele que é nascido do Espírito é como o vento que sopra para onde quer (Jo 3: 8), conforme disse nosso Senhor, assim também é a igreja, pois ela também é nascida do Espírito. Não há como conter o vento entre quatro paredes.

Em Atos 9:31 lemos: “Assim, pois, a igreja em toda a Judéia, Galiléia e Samária, tinha paz, sendo edificada, e andando no temor do Senhor; e, pelo auxílio do Espírito Santo, se multiplicava”. Aqui temos as assembleias cristãs marcadas por duas coisas: eles andavam no temor do Senhor e no  conforto do Espírito Santo. Resistidos e perseguidos pelo mundo religioso daqueles dias, eles eram dirigidos e sustentados pelo Senhor na glória e guiados pelo Espírito Santo na terra. Não muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos ou nobres se encontravam nestas assembléias. Visto que a maior parte destes que formavam estas companhias foram trazido de entre os tolos, os fracos e os vis deste mundo, os quais como Pedro e João eram homens incultos e ignorantes. E, contudo aos olhos do Senhor eles eram a excelência da terra nos quais Ele encontra Seu prazer e com os quais o Espírito Santo está contente em habitar. Sem a prosperidade mundana, sem o credo e cláusulas da religião humanamente inventada, sem o cabeça ou guia visível, sem nada que de fato apelasse a vista ou que o natural pudesse apreciar ou no qual a carne pudesse se vangloriar, eles prosseguiam em seu caminho de peregrinação como os resgatados do Senhor, com canções e perpétua alegria, pois estavam em seu caminho á cidade que tem fundamentos em companhia do Senhor na glória e do Espírito Santo na terra. Sem Cristo e o Espírito Santo eles não tinham nada, pois a terra estava fechada atrás deles, mas com Cristo e o Espírito Santo tinham tudo, pois o céu estava aberto diante deles. Não é de se admirar que eles desfrutassem de descanso e edificação, conforto e multiplicação.

Para quão distante a cristandade se moveu deste simples e belo quadro. As assembléias não se agarraram ao Cabeça no céu e ignoraram o Espírito Santo na terra. Hoje, porém, ainda que Cristo na glória permaneça o mesmo ontem, hoje e sempre, e o Espírito Santo habite conosco,  há entre o povo de Deus inquietação e inanição, fome e desintegração. Mas, se então, ao se separarem da corrupção da cristandade – mesmo que poucos ainda olharão para Cristo no céu como seu único recurso e se submeterão ao controle do Espírito Santo na terra – não encontrarão eles no final da história da igreja, igualmente como no princípio, alguma medida de descanso, edificação, conforto e multiplicação?

A história das antigas assembleias traz para diante de nós outro grande fato de que o cristianismo coloca nossos pés em um padrão que demanda, a cada passo, o exercício da fé. A este respeito o cristianismo está em contraste direto com o judaísmo. O sistema judaico foi intencionalmente uma ordem nacional e terrena. Tudo naquele sistema – o templo com as valiosas pedras, os sacerdotes com suas belas vestes, os cantores com seus instrumentos, o altar com seus sacrifícios – apelavam para a visão e o sentimento. Suas leis e preceitos regulavam cada detalhe da vida natural presente, mas estava em silêncio quanto ao céu, a vida futura e as coisas invisíveis. Que existiram grandes homens em conexão com aquele sistema está além de questão, mas o sistema em si mesmo demandava obediência do homem natural mais do que a fé de alguém nascido de novo.

No cristianismo, independente da necessidade ela influenciará grandemente a vida aqui, somos uma vez trazidos para a relação com o celestial e o invisível, e acima de tudo, com as Pessoas Divinas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Aqui de imediato a fé é uma necessidade já que somente pela fé podemos conhecer o Pai, ver a Jesus coroado de glória e honra, ou perceber a presença do Espírito Santo na terra. Contudo se olharmos para a cristandade hoje, seremos imediatamente confrontados com o solene fato de que ela voltou a uma ordem judaica das coisas, marcada por todas as coisas que apelam à visão e ao sentimento, com muito pouco que demande o exercício da fé. Como resultado as grandes verdades distintas do Cristianismo são pedidas. Cristo na glória como o ressurreto e exaltado Cabeça da Igreja é colocado de lado por cabeças humanas designadas, e a presença do Espírito Santo na terra é pela maior parte totalmente ignorada. Se, entretanto, Cristo na glória e o Espírito Santo na terra são ignorados, isso deve invariavelmente conduzir à perda de todo o verdadeiro entendimento daquele grande mistério – Cristo e a Igreja – e do chamamento celestial e o propósito de Deus, como o resultado de que os verdadeiros cristãos não se levantarão mais para pregar o evangelho para buscarem a necessidade do homem, enquanto que o grande amontoado de meros professores prepara o caminho para a grande apostasia.

Se, entretanto, pela misericórdia de Deus os olhos de uns poucos foram abertos para verem as verdades distintivas do cristianismo e do grande afastamento destas verdades na cristandade, o que estes devem fazer? Devem eles permanecer nos sistemas eclesiásticos os quais pela sua constituição ou prática coloca de lado o Senhorio de Cristo e a presença do Espírito? Dispõe a Escritura de alguma luz para o curso que deveriam estes tomar, aos quais os olhos foram abertos para estas grandes verdades e que desejam responder a elas?

É impossível pensar que Deus tenha deixado Seu povo sem nenhuma direção para um dia mal. Lemos em 2 Timóteo 3:16-17: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, é proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra”. Assim podemos estar seguros de que há luz para mostrar o padrão divino em um dia mau. Por meio da ignorância ou maus ensinamentos podemos falhar em discerni-la. Podemos ser tão devotos ao sistema nacional e hereditário dos homens que até mesmo nos oporemos a ela. Podemos através da indiferença e carência do exercício falhar no caminhar nela. Todavia Deus tem uma estrada através deste mundo desértico para o resgatado do Senhor, e Ele deu luz para que pudéssemos discernir este caminho em um dia de ruína. Esta luz não está confinada a uma escritura. A segunda epístola a Timóteo, a segunda epístola aos Tessalonicenses, a segunda epístola de Pedro, as epístolas de João e de Judas, as missivas às sete igrejas em Apocalipse 2 e 3, todas têm em vista a ruína na responsabilidade da Igreja e de uma forma especial dá luz para o padrão cristão nos últimos dias. Além disso, temos na epístola aos Hebreus uma luz muito especial para aqueles que se encontram ligados com os sistemas religiosos formados de acordo com o padrão do judaísmo.

Sair do Arraial

Esta epístola (Hebreus) foi escrita aos crentes judeus que estavam em perigo de retornarem do cristianismo para o judaísmo. Para opor a este perigo, Cristo é apresentado ao coração deles. A glória da Sua pessoa, a glória do lugar que Ele possui á destra de Deus, a graça e compaixão do Seu coração como nosso Sumo Sacerdote, e a eficácia da Sua obra, tudo passa diante de nós para atrair nosso coração. E deste modo nos puxar para fora de todo sistema religioso na terra e prender nosso coração a Ele no céu. Esta é a razão da grande exortação no encerramento da epístola: “Saiamos, pois, a Ele fora do arraial, levando o Seu vitupério” (Hb 13:13). Um grande alvo da epístola é de mostrar que se Cristo aparece diante da face de Deus no céu, Ele toma um lugar fora do sistema religioso dos homens na terra. Se Ele foi para dentro do véu Ele também saiu fora do arraial. Assim a exortação ao crente é de sair do arraial para alcançar a companhia de Cristo no lado de fora. Aqui então está a razão escritural e a autorização escritural para deixar os sistemas religiosos dos homens. Fazemos assim, não simplesmente porque há uma grande quantidade de mal nestes sistemas, mas porque Cristo está do lado de fora destes sistemas e desejamos alcançá-Lo e dar a Ele Seu lugar. Nós “saímos… a Ele”.

A questão, entretanto, pode surgir: ´Qual é o significado de “arraial”, e como este termo pode cobrir em seu significado os sistemas religiosos da cristandade a ponto de nos autorizar a deixá-los? Primeiro, vamos notar que qualquer que seja o significado de arraial, ele é algo do qual é dito que Cristo está fora. Três vezes em três versos de Hebreus 13:11-13 temos a palavra “fora”. No verso 11 é usada em conexão com o tipo, no verso 12 em conexão com o grande antítipo e no verso 13 em sua aplicação com os crentes. Sob a lei, o corpo do sacrifício (oferta pelo pecado) era queimado fora do arraial. No antítipo, Jesus, para que Ele fosse colocado a parte do Seu povo de cada coisa incompatível à santidade de Deus, sofreu o julgamento dos pecados no lugar de renúncia. Mas para consumar sua grande obra foi para fora do sistema religioso (judaísmo) que em seu princípio foi sancionado por Deus, mas em sua história se tornou corrompido pelo homem. Este sistema é colocado diante de nós sob a figura de um arraial ou uma cidade; ambas as figuras apresentam a mesma ideia de um ordenado sistema religioso adaptado ao homem natural, mas em diferentes circunstâncias – em movimento em uma hora e estabelecido em outra. Mas o que, mais precisamente, é o arraial? O arraial representa um sistema religioso terreno, originalmente levantado por Deus, fazendo seu apelo ao homem natural e composto de pessoas em relacionamento exterior com Deus. Indo a Hebreus 9 encontramos nos versos 1-10 a descrição do arraial.

  1. Ele era marcado por um santuário terreno com magnificentes vasos e mobiliário (versos 1,2).
  2. Havia um relicário interior para este santuário terreno, cobertopor fora e conhecido como “o lugar santíssimo”.
  1. Em conexão com o santuário terreno existia uma ordem de sacerdotes, distintos do povo, que se devotavam ao serviço do santuário e sobre os quais estava o sumo sacerdote (versos 6,7).
  1. Havia pessoas (verso 7) distintas dos sacerdotes e que não tinham parte direta no serviço do santuário.
  1. O sistema, como tal, significava (enquanto durou) que não havia acesso direto a Deus (verso 8).
  1. Este santuário terreno com seus sacerdotes e sacrifícios, não poderiam conceder uma consciência purificada.
  1. Há uma omissão significativa. Não há o conceito de alguma reprovação conectado a este sistema religioso terreno.

Assim é a descrição do arraial em seus aspectos significativos conforme apresentados na Palavra de Deus. Mas a Palavra também apresenta o cristianismo em toda a sua beleza como o exato contraste com o arraial. A companhia dos cristãos é composta de pessoas, não em mero relacionamento exterior com Deus pelo nascimento natural, mas em relacionamento vital pelo novo nascimento. Ao invés da adoração em edifícios magnificentes ele introduz uma adoração viva “em espírito e em verdade”. Em lugar de uma classe especial de sacerdotes distintos dos leigos, todos os crentes são sacerdotes com Cristo seu grande Sumo Sacerdote. Ainda mais, o cristianismo traz com ele a benção de uma consciência purificada e acesso direto a Deus. Ainda mais, uma vez que isso abre o céu para o mais simples dos crentes, isso acarreta na terra o vitupério de Cristo.

Tendo diante de nós as diferenças características entre o “arraial” judaico e a companhia cristã, podemos facilmente testar o grande sistema religioso dos homens. Ostentam estes grandes sistemas universais, nacionais ou não conformistas dos homens as características do arraial ou aqueles do cristianismo? Infelizmente, fora de questão, a verdade nos compele a admitir que eles estão estruturados segundo o padrão do arraial. Eles adotaram um santuário terreno com seu relicário interior cercado; eles ordenaram uma classe especial de sacerdotes sob a direção de um sacerdote supremo que se coloca entre Deus e o povo, resultando que estes sistemas como tais, não dão acesso direto a Deus e não purificam a consciência. Estes sistemas reconhecem o homem na carne, apela para o homem na carne e estão assim constituídos como que para aceitar o homem na carne. Por esta razão com eles, não há vitupério.

Então, são tais sistemas o arraial? Estritamente não são. Em um sentido são piores do que o arraial visto que são como meras imitações estruturadas segundo o padrão do arraial, com certos suplementos cristãos. O arraial foi em seu princípio estabelecido por Deus, mas estes grandes sistemas foram originados pelo homem, não obstante sinceros e pios pudessem ter sido. Por essa razão se a exortação aos crentes judeus era para ir para fora do arraial, quanto maior encargo está sobre o crente hoje para ir para fora daquilo que é uma mera imitação do arraial.

Aqui então temos nossa autorização para sair dos grandes sistemas religiosos dos homens, mas vamos nos lembrar que nós o fazemos a fim de vir para baixo da direção de Cristo na glória e do controle do Espírito Santo na terra. Tivemos nossos olhos abertos para ver que é impossível permanecer nestes sistemas e dar a Cristo o Seu lugar ou ao Espírito Santo o Seu lugar. Ainda que para nossas histórias atuais, uma variedade de razões podem ter nos influenciado em deixar estes sistemas. Mas é de importância primária ver que o verdadeiro motivo escritural para deixar estes sistemas é “sair para Ele”. Sair daquilo que aprendemos ser maligno é meramente negativo. Ninguém pode viver de negativos. Sair para Cristo é positivo. Isso de fato envolve separação muito mais daquilo que é maligno, mas é antes de tudo separação para Cristo – uma separação que nos dá um Objeto positivo para o coração. Se formos movidos por qualquer motivo menor poderemos estar em perigo de voltar e construir novamente as coisas que destruímos. Aqueles que vão em frente de forma leve podem voltar de forma leve, mas a alma que atuou pelo verdadeiro motivo sai da ordem-arraial da religião para vir para baixo da influência de Cristo e do Espírito Santo. Este lugar do lado de fora com Cristo é um dos maiores privilégios e correspondente responsabilidade. De privilégio, pois o que pode ser mais abençoado do que vir para a companhia de Cristo ressuscitado e sob o controle do Espírito. De responsabilidade, pois a companhia de Cristo e do Espírito demandará a exclusão de todo mal – moral, doutrinal, eclesiástico – incompatível com a presença das Pessoas Divinas.

Vir a este lugar é muito diferente de meramente deixar uma seita porque ela tem más doutrinas ou más práticas ou mau procedimento eclesiástico, tais como o ministério de um só homem. Podemos de fato nos separar de algum sistema e ir nos reunir em algo mais no modelo escritural, reunidos como simples crentes e rejeitando o ministério de um só homem, e ainda assim não atingir o objetivo de ir a Cristo e dar ao Espírito Seu lugar. E como resultado fazemos somente mais uma seita que abre a porta para uma grande quantidade de vontade própria pelo ministério de qualquer homem. Além disso, este lugar fora com Cristo não é apenas um lugar de privilégio e responsabilidade, mas é de vitupério. Nos versos que consideramos (Hb 13:2-13) o lado de fora é visto de duas formas; o primeiro, como o lugar de julgamento e o segundo, como o lugar de vitupério. Em maravilhosa graça, Cristo foi para fora dos portões carregando tanto o julgamento de Deus contra os homens como o vitupério dos homens contra Deus. Ele pode dizer: “As afrontas dos que te afrontam caíram sobre mim” (Sl 69:9). Ninguém a menos de Cristo poderia carregar o julgamento de Deus, mas outros podem tomar parte nos vitupérios dos homens. Por essa razão, porquanto Cristo foi para fora dos portões carregando nossos pecados, somos chamados para sair para fora dos portões carregando Seu vitupério.

Se a graça de Deus nos associou à glória de Cristo no céu, ela nos deu também o grande privilégio de tomar parte no vitupério de Cristo na terra. As riquezas de Cristo no céu impõem o vitupério de Cristo na terra. O sistema judaico deu ao homem um grande lugar na terra, mas nenhum lugar no céu. O cristianismo dá ao crente um lugar abençoado no céu, mas nenhum lugar na terra exceto o do vitupério. Porém se nós uma vez entendermos que estamos na companhia de Cristo e do Espírito Santo, consideraremos “o vitupério de Cristo maior riqueza do que os tesouros do Egito”. O que é mais abençoado ou mais maravilhoso do que uma companhia de pessoas em seu caminho para a gloria em companhia do Senhor Jesus Cristo e do Espírito Santo? Tais pessoas de fato podem ser pobres e fracas em si mesmas, com nenhum credo humano para manter a sã doutrina, nenhuma cláusula da religião para manter a ordem, nenhum ritual ou cerimônia para conduzir suas reuniões da assembléia ou seu serviço ao Senhor. Contudo, tendo Cristo na glória como seu Cabeça e o Espírito Santo na terra para os controlar, terão mais do que todos os sistemas que os homens piedosos jamais imaginaram porque terão todos os vastos recursos da Divindade a sua disposição, pois em Cristo toda a plenitude da Divindade se deleita em habitar. Quão grande então o encorajamento para nossa fraca fé para agir sobre a exortação: “Saiamos para fora a Ele”.

Pode ser que somente uns poucos tenham fé para obedecer à exortação. Estes que o fazem se encontrarão não somente em um lugar de grande benção, mas em um lugar onde muito do que é de acordo com a Palavra de Deus, pode ser ali cumprido de forma simples – coisas que somente seriam possíveis de forma limitada àqueles que permanecem no arraial. Isso está estritamente indicado pelo escritor aos Hebreus, nos versos que se seguem no capítulo 13.

  1. Para estes no lado de fora é comparativamente simples se vestirem do caráter peregrino, como o escritor diz: Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura” (verso 14).
  1. Estes que foram libertos das restrições dos sistemas humanos, podem adorar em espírito e em verdade. Deste modo somos exortados a “oferecer sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (verso 15).
  1. Estes neste lado de fora não serão indiferentes às necessidades físicas dos homens, pois “não se esqueceram da beneficência e comunicação, porque com tais sacrifícios Deus se agrada” (verso 16).
  1. Eles também cuidarão das almas, como lemos: “eles velam por vossas almas” (verso 17).
  1. Libertos do impedimento ritual dos homens estarão aptos a se aproximarem de Deus em oração, por isso: “Orai por nós” (verso 18).
  1. Eles estarão em um lugar onde é possível fazer a vontade de Deus, como lemos: “para fazerdes a Sua vontade” (verso 21).
  1. Eles estarão em um lugar onde é possível serem agradáveis aos seus olhos, como lemos: “operando em vós o que perante Ele é agradável por Cristo Jesus” (verso 21).

Vendo então o caminho que está aberto para nós pela Escritura, e vendo algo da bem-aventurança deste caminho, possamos nós ter graça e fé para deixar tudo o que é do homem e entrar na estrada que tem sido deixada para o resgatado do Senhor. Por maior que seja nossa falha individual, por maior que seja a ruína da igreja em sua responsabilidade, estes dois tremendos fatos ainda permanecem. Cristo ainda é o Homem na glória à direita de Deus e o Espírito Santo ainda está na terra, e por isso ainda é possível responder à exortação “Saiamos para Ele”. Com estes dois fatos estupendos a igreja foi formada e começou seu caminho de peregrina; com estes dois fatos ela tem sido mantida através das longas eras, e com estes dois fatos ela irá no final encerrar sua jornada terrena, pois antes de Deus fechar o Seu livro temos uma última visão da igreja na terra como a Noiva que espera, guiada pelo Espírito na terra e ouvindo a Jesus na glória (Ap 22:16-17).

No curso de sua jornada através deste cenário, quão grandemente estes fatos têm sido obscurecidos! Quanto tem sido aceito que é totalmente inconsistente com eles, mas no final a igreja, despida de todo recurso humano, de todo artifício religioso e todo auxílio mundano, passará para a glória no poder dos dois grandes fatos de que Jesus está na glória e o Espírito Santo presente com a igreja na terra. Grande de fato tem sido a queda e pequena de fato tem sido a avaliação do vasto recurso envolvido nessas verdades. Contudo porque Jesus continua na glória, o mesmo ontem, hoje e sempre, porque o Espírito Santo permanece com a igreja sempre, o resgatado do Senhor no final entrará na cidade celestial com canções e alegria perpétua sobre suas cabeças. Ali eles terão alegria e contentamento, e sofrimento e lamento desaparecerão.

 

A Figura mais Importante

Este artigo é uma reprodução do capítulo quatro do Livro “Cristianismo Pagão”, de Frank Viola. Se você é pastor e sofre de pressão alta, não leia!

                                         O PASTOR

Ele é a figura fundamental da fé protestante. Ele é o chefe da cozinha, o cozinheiro e o lavador de pratos do cristianismo de hoje. O pastor é tão predominante nas mentes da maioria dos cristãos que, na realidade, ele é mais bem conhecido, mais louvado, mais confiado do que o próprio Jesus Cristo! Remova o pastor e o moderno cristianismo entra em colapso. Remova o pastor e cada igreja protestante virtualmente entrará em pânico. Remova o pastor e o protestantismo como o conhecemos morre.

O pastor é o ponto focal dominante, a base e a peça central da moderna igreja. Ele incorpora o cristianismo protestante. Mas há aqui uma profunda ironia. Não há um só versículo em todo NT que apoie a existência do moderno pastor dos nossos dias! Ele simplesmente nunca existiu na igreja primitiva – Note que eu utilizo o termo “pastor” ao longo deste capítulo para descrever o moderno ofício e papel que ele desempenha. Eu não me refiro ao indivíduo específico que exerce este papel.

Aqueles que exercem o ofício de pastor são pessoas maravilhosas. Eles são honrados, decentes e muitas vezes cristãos dedicados que amam a Deus, zelosos em servir Seu povo. Mas é ao papel que eles estão cumprindo que a Bíblia e a história da igreja se opõem. Mostraremos isso neste capítulo.

O Pastor é Bíblico… Certo?

É a palavra “pastores” que aparece no Novo Testamento: “E ele deu alguns como Apóstolos, alguns como profetas, alguns como evangelistas e alguns como PASTORES e professores…” (Efésios 4:11). A palavra também é usada no plural, ou seja, “pastores” (Hb 13:7 e 17). Isto é significativo. Sejam lá quais forem estes “pastores”, eles são plurais na igreja, não singulares. Assim, pois, não há qualquer suporte bíblico para a prática do Sola Pastora (pastor único). A palavra grega traduzida por “pastores” é poimen que significa pastores. (“Pastor” é a palavra latina para aquele que pastoreia). Portanto, “Pastor” é uma metáfora que descreve uma função específica na igreja. Não é uma profissão nem um cargo. Um pastor do século I nada tem a ver com o sentido especializado e profissional que veio a ter na moderna cristandade. Assim, pois, Efésios 4:11 não se refere a um cargo pastoral, mas meramente a uma das muitas funções na igreja. Pastores são aqueles que naturalmente provê em nutrição e cuidado às ovelhas de Deus. Porém, é um profundo erro confundir pastores com um ofício ou título como comumente se concebe hoje. Mais ainda, este texto é oblíquo. Não oferece nenhuma definição ou descrição sobre quem são estes pastores. Eles são simplesmente mencionados. Lamentavelmente, nós definimos esta palavra com nosso próprio conceito ocidental sobre o que é um pastor. Nós compreendemos a ideia moderna de pastor moderno como apoiada pelo NT. Nem mesmo a imaginação de um homem alucinado conceberia o moderno ofício pastoral no cristianismo do século I! Os católicos cometeram o mesmo erro com a palavra “sacerdote”. Você encontra três vezes a palavra “sacerdote” sendo usada referindo-se a cristãos. Mesmo assim o sacerdote da igreja do século I está bem longe daquele homem que se veste de preto e usa colarinho invertido!

Richard Hanson esclarece este ponto quando diz, “Para nós as palavras bispo, presbítero, e diácono estão armazenadas com associações de quase dois mil anos. Para as pessoas que utilizaram estas palavras no princípio, as funções destas posições não poderiam significar mais do que inspetores, anciãos e ajudantes… Foi quando significações teológicas inadequadas começaram a ser associadas a elas que a distorção do conceito do ministério cristão começou”. Em meus livros Rethinking the Wineskin e Who is Your Covering? eu demonstro que os pastores do século I eram anciãos locais (presbíteros) e supervisores da congregação. E a função deles era completamente conflitante com o papel pastoral moderno.

De onde Vem o Pastor?

Se o pastor moderno esteve ausente da Igreja Primitiva, donde ele veio? Como surgiu uma posição tão proeminente na fé cristã? É uma saga dolorosa com raízes entrelaçadas e complexas. Essas raízes remontam à queda do homem. Com a queda do homem surgiu um desejo implícito na raça humana de ter um líder físico para levá-lo a Deus. Por esta razão, as sociedades humanas através da história criaram consistentemente uma casta espiritual e especial de ícones religiosos. O curandeiro, o feiticeiro, o rapsodista, o operador de milagres, o bruxo, o adivinhador, o homem sábio e o sacerdote, todos tem estado conosco desde a queda de Adão.

O homem caído sempre teve o desejo de construir uma casta sacerdotal especial qualificada para pedir favores exclusivos aos deuses. Este desejo está em nosso sangue. Vive na medula de nossos ossos. Na condição de criaturas caídas buscamos uma pessoa dotada de poderes espirituais especiais. Ela sempre é marcada por um treinamento especial, uma roupa especial, um vocabulário distinto e uma maneira de vida singular. Podemos ver este instinto mostrar sua horrenda face na história da antiga Israel. A primeira vez que isso aconteceu ocorreu durante o tempo de Moisés. Dois servos do Senhor, Eldad e Medad, receberam o Espírito de Deus e começaram a profetizar. Imediatamente um jovem fanático alertou Moisés para “contê-los”! Moisés reprovou o jovem repressor dizendo que todo o povo de Deus pode profetizar. Moisés colocou-se contra o espírito clerical que tentou controlar o povo de Deus. Nós o vemos novamente quando Moisés subiu ao Monte Horebe. O povo queria que Moisés fosse o mediador físico entre ele e Deus. Pois eles temiam uma relação pessoal com o Todo Poderoso. Este baixo instinto assumiu outra aparência durante o tempo de Samuel. Deus quis que seu povo vivesse sob sua proteção direta, mas Israel clamou por um rei humano. As sementes do pastor moderno podem ser detectadas até mesmo no tempo do NT. Diótrefes, que “amava ter a proeminência” na igreja (Terceira epístola de João, verso nove), tomou ilegitimamente o controle de seus assuntos. Além disso, alguns pesquisadores sugerem que a doutrina dos nicolaítas, que Jesus condena em Apocalipse 2:6, é uma referência ao desenvolvimento de um clero primitivo.

Paralelamente à busca do homem caído por um intermediário espiritual humano destaca-se sua obsessão pela forma hierárquica de liderança. Em maior ou menor grau todas as velhas culturas foram hierárquicas em suas estruturas sociais. Lamentavelmente, os cristãos pós-apostólicos adotaram e adaptaram estas estruturas em sua vida eclesiástica como veremos adiante.

A Origem do Bispo Soberano

Até o século II a igreja não teve nenhuma liderança oficial. Tais lideranças nas igrejas do século I eram certamente raras. Eram grupos religiosos sem sacerdote, templo ou sacrifício. Os próprios cristãos conduziram a igreja sob o comando direto de Jesus Cristo. Entre o rebanho estavam os anciões (pastores ou inspetores). Todos esses homens estavam em pé de igualdade. Não havia uma hierarquia entre eles. Também estavam presentes obreiros extras que plantavam igrejas. Estes eram chamados de “enviados” ou Apóstolos. Mas eles não fixavam residência nas igrejas que cuidavam. Tampouco as controlavam. O vocabulário sobre liderança no NT não permite nenhuma estrutura piramidal. É mais uma linguagem de relações horizontais que inclui a ação exemplar. As coisas funcionaram assim até Inácio de Antioquia (35-107 d.C.) entrar em cena. Inácio foi a primeira figura da história da igreja a dar o primeiro passo no escorregadio e decadente caminho da fixação de um líder único na congregação. Pode-se atribuir a ele a gênese do cargo de pastor e da hierarquia na igreja moderna. Inácio elevou um dos anciãos acima dos demais. O ancião promovido era agora chamado de “o Bispo”. Todas as responsabilidades que pertenceram ao colegiado de anciões eram exercidas pelo Bispo. Em 107 d.C., Inácio escreveu uma série de cartas enquanto seguia para Roma antes de ser martirizado. Seis de suas sete cartas tratavam do mesmo tema. Estavam carregadas de uma exaltação exagerada à autoridade e à importância da posição do Bispo. Segundo Inácio, o Bispo teria a última palavra e deveria ser prontamente obedecido. Considere os seguintes extratos de suas cartas: “Todos vocês sigam o Bispo como Jesus Cristo segue o Pai… Ninguém fará qualquer negócio da igreja sem o Bispo… Onde o Bispo estiver ali deve estar o povo… Vocês nunca devem atuar independentemente do Bispo e do clero. Olhem seu Bispo como um tipo de Pai… Tudo o que ele aprova, agrada a Deus…”. Para Inácio, o Bispo tomara o lugar de Deus enquanto que os presbíteros tomaram o lugar dos doze Apóstolos. Apenas o Bispo poderia celebrar a Santa Ceia do Senhor, dirigir os batismos, dar conselhos, disciplinar os membros da igreja, aprovar os matrimônios e pregar sermões. Os anciãos se sentavam ao lado do Bispo durante a Ceia do Senhor. Mas era o Bispo quem a ministrava. Ele se encarregou do culto público e do ministério. Somente em casos excepcionais poderia um “leigo” ministrar a Ceia do Senhor sem a presença do Bispo. O Bispo, dizia Inácio, necessita “presidir” sobre os elementos e distribuí-los.

Na mente de Inácio, o Bispo era o remédio que curava a falsa doutrina e estabelecia a unidade na igreja. Inácio acreditava que a sobrevivência da igreja ao assalto da heresia dependia do desenvolvimento de uma estrutura poderosa e rígida como a estrutura política centralizada em Roma. A regra do governo por um Bispo único resgataria a igreja da heresia e da divisão interna. Historicamente, isso é conhecido como o “mono-episcopado” ou “episcopado monárquico”. É o tipo de organização onde o Bispo é distinto dos anciãos (o presbítero) e é superior a eles. Durante o tempo de Inácio, a regra do Bispo único não havia chegado a outras regiões. Mas, pela metade do século II, este modelo chegou a ser firmemente estabelecido na maioria das igrejas. Pelo final do século III este prevaleceu por toda parte.

O Bispo, eventualmente, chegou a ser o principal administrador e distribuidor das riquezas da igreja. Ele era o homem responsável quanto ao ensino da fé e aos assuntos do cristianismo. A congregação outrora ativa agora foi tornada surda e muda. Os santos meramente assistiam a performance do Bispo. Com efeito, o Bispo tornou-se o único pastor da igreja — o profissional do culto comum. Ele era visto como o porta-voz e a cabeça da congregação. Ele era a forte mão que mantinha todos sob controle. Todos estes papéis fizeram do Bispo o precursor do pastor moderno.

De Presbítero a Sacerdote

Já pela metade do século III a autoridade do Bispo se calcificou em um ofício fixo. Então apareceu Cipriano de Cartago (200-258 d.C.) aumentando o dano. Cipriano era um ex-orador pagão e mestre de retórica. Quando ele se fez cristão, tornou-se também um prolífico escritor. Contudo, ele nunca abandonou algumas de suas ideias pagãs. Com sua influência Cipriano abriu a porta para ressuscitar as práticas do Velho Testamento, dos sacerdotes, templos, altares e sacrifícios. Os Bispos começaram a ser chamados “sacerdotes”, um costume que chegou a ser comum no século III. Ocasionalmente eles também eram chamados de “pastores”. No século III cada igreja tinha seu próprio Bispo. Prontamente o conjunto de Bispos e presbíteros foi chamado de “clero”.

A origem da doutrina não bíblica do “protetorado” também pode ser atribuída a Cipriano. Cipriano ensinava que o Bispo tem apenas um superior, Deus. Ele deveria prestar contas apenas a Deus. Qualquer um que se separasse do Bispo se separaria de Deus. Cipriano também ensinou que uma porção do rebanho do Senhor seria entregue a um pastor individualmente (o Bispo). Depois do Concílio de Nicéia (Horebe) (325 d.C.), os Bispos passaram a delegar a responsabilidade da Ceia do Senhor aos presbíteros. Os presbíteros não eram mais que representantes do Bispo, exercendo a autoridade deles em suas igrejas. Pelo fato dos presbíteros ministrarem a Ceia do Senhor, eles passaram a ser chamados de “sacerdotes”. Ainda mais surpreendente, o Bispo chegou a ser considerado como “sumo sacerdote” que pode perdoar pecados. Todas estas tendências ocultaram a realidade do NT de que todos os crentes são sacerdotes diante de Deus. Já pelo século IV, esta hierarquia imposta dominava a fé cristã. A casta do clero já estava bem cimentada. O Bispo encabeçava a igreja. Abaixo dele havia um colegiado de presbíteros. Subordinados aos presbíteros estavam os diáconos. E na base de toda essa hierarquia se arrastava o pobre e miserável “leigo”. A regra do Bispo único passou a ser a forma de governo aceita na igreja ao longo do Império Romano. (Durante este tempo, certas igrejas começaram a exercer autoridade sobre outras igrejas, expandindo a estrutura hierárquica). Pelo final do século IV, os Bispos se misturaram aos poderosos. Passaram a receber tremendos privilégios. Meteram-se na política, o que os separou ainda mais dos presbíteros. Em sua tentativa de fortalecer a posição do Bispo, Cipriano defendeu uma linha contínua de sucessores dos Bispos remontando a Pedro. Isso é conhecido como “sucessão Apostólica”.

Em seus escritos Cipriano empregava a linguagem oficial do sacerdócio do Antigo Testamento para justificar esta prática. Da mesma forma que Tertuliano (160-225) e Hipólito (170-236) antes dele, Cipriano utilizava o termo sacerdote para descrever os presbíteros e Bispos. Mas ele foi além disso. Pode-se atribuir a Cipriano o conceito antibíblico de sacerdócio — a crença de que existe uma pessoa divinamente nomeada para mediar entre Deus e o povo. Cipriano sustentou que o fato dos clérigos cristãos serem sacerdotes que oferecem o sacrifício santo (a Eucaristia) torna-os sacrossantos (santos)! Pode-se também creditar a Cipriano a noção de que quando o sacerdote oferece a Eucaristia, ele está realmente oferecendo a morte de Cristo à congregação. Cipriano pensava que o corpo e o sangue de Cristo são novamente sacrificados através da Eucaristia. Por conseguinte, foi das ideias de Cipriano que surgiram as sementes da missa Medieval católica. Esta ideia alargou o abismo entre clero e leigo. Também criou uma dependência insalubre do leigo ao clero.

O Papel do Sacerdote

Até o início da Idade Média, os presbíteros (agora comumente chamados de “sacerdotes”) tocaram segundo o violino do Bispo. Mas durante a Idade Média houve uma mudança. Os presbíteros começaram a representar o sacerdócio enquanto os Bispos dedicavam seu tempo com ofícios políticos. Os sacerdotes locais da paróquia chegaram a ser mais importantes para a vida da igreja que o Bispo. Agora era o sacerdote que se colocava no lugar de Deus e que controlava os sacramentos. Quando o Latim chegou a ser a linguagem popular em meio ao século IV, o sacerdote invocava a frase hoc est corpus meum. Que significa “Este é meu corpo”. Com estas palavras o sacerdote chegou a ser o supervisor do soberbo jogo que começou a caracterizar a missa católica. Pode-se creditar a Ambrósio de Milão (339-397 d.C.) a ideia de que a simples pronúncia das palavras hoc est corpus meum convertia magicamente o pão e o vinho no corpo e no sangue físico do Senhor. (A frase mágica “hocus pocus” vem de hoc est corpus meum). Segundo Ambrósio, o sacerdote era dotado de poderes especiais para pedir a Deus que descesse do céu e que entrasse no pão! Por sua função sacerdotal, a palavra presbítero chegou a significar sacerdos (sacerdote). Por conseguinte, quando a palavra latina presbítero foi adotada pelo português, esta significava “sacerdote” em vez de “ancião”. Assim, pois, na igreja católica romana, o termo “sacerdote” referia-se comumente a presbítero local. A Influência da Cultura greco-romana.

A cultura greco-romana que rodeou os primeiros cristãos reforçou a gradação hierárquica que lentamente infiltrou na igreja. A cultura greco-romana era hierárquica por natureza. Esta influência surgiu na igreja quando os novos convertidos trouxeram sua bagagem cultural à comunidade crente. A hierarquia humana e o ministério “oficial” institucionalizaram a Igreja de Jesus Cristo. Pelo século IV, estes elementos endureceram as artérias do que uma vez foi a ekklesia viva e respiradouro de Deus — dentro da qual o ministério era funcional, dirigido pelo Espírito, orgânico e compartilhado por todos os crentes. Mas como e por que isto aconteceu? Estas coisas remontam desde a morte dos obreiros apostólicos itinerantes (plantadores de igrejas). Ao final do século I e ao princípio do II, os presbíteros locais começaram a surgir como os “sucessores” candidatos ao papel de liderança exercido pelos obreiros apostólicos. Isso deu origem a um líder individual em cada congregação.

Sem a influência dos obreiros locais extras que foram treinados pelos Apóstolos no NT, a Igreja começou a deixar-se levar pela corrente de um modelo organizacional oriundo de seu âmbito cultural. Mestres proeminentes na igreja que tinham adotado pensamento pagão também exerceram uma grande influência. Seguindo as pegadas de Inácio da Antioquia, Cipriano insistiu que a organização da igreja seguisse o modelo do Império Romano. Como resultado, o imperialismo e uma hierarquia inexpugnável se tornaram irreversíveis à fé Cristã.

Como já vimos, o papel do Bispo começou a mudar. De cabeça de uma igreja local tornou-se o representante de todos em uma determinada área. Os Bispos governavam nas igrejas da mesma forma como os governadores romanos administravam suas províncias. Eventualmente, o Bispo de Roma recebeu a máxima autoridade e finalmente evoluiu ao “Papa”. Assim, pois, entre os anos 100 e 300 d.C., a liderança da Igreja adotou o governo romano como modelo. A hierarquia do Velho Testamento foi usada para justificar isso. A regra do Bispo único tragara o sacerdócio de todos os crentes. Na realidade, Inácio fez do Bispo a autoridade local. Cipriano fez do Bispo o representante de todas as congregações por sua doutrina da sucessão Apostólica.

Constantino e a Hierarquia Romana

É importante lembrar que o mundo social em que o cristianismo se espalhou era governado por um único mandatário – o Imperador. Pouco depois de Constantino subir ao trono no princípio do século IV, a Igreja desenvolveu toda sua plumagem de vaidade, típica de uma sociedade hierarquicamente organizada. Edwin Hatch escreveu, “a maior parte das igrejas cristãs se associaram adotando o estilo do Império Romano como modelo… O desenvolvimento da organização das igrejas cristãs foi gradual e os elementos que compuseram aquela organização já fazia parte da sociedade humana”. Podemos ver traços da estrutura de liderança hierárquica em eras remotas como do antigo Egito, Babilônia e Pérsia. Mais adiante esta foi levada às culturas grega e romana onde se aperfeiçoou. O historiador, D. C. Trueman escreve, “os persas deram duas contribuições importantes ao mundo antigo: A organização de seu Império e de sua religião. Ambas as contribuições tiveram uma notável influência no nosso mundo ocidental. O sistema de administração imperial foi herdado por Alexandre Magno, adotado pelo Império Romano, e eventualmente passado à moderna Europa”. Will Durant levanta um ponto similar, quando afirma que o cristianismo “cresceu pela absorção da fé e do rito pagão; tornando-se uma igreja triunfante ao herdar os modelos da organização e o gênio de Roma… Os judeus lhe deram a ética cristã, os gregos lhe deram a teologia, Roma lhe deu a organização; tudo isso, misturado com uma dezena de crenças absorvidas de rivais, originou a síntese cristã”.

Pelo século IV, a Igreja seguiu os mesmos passos do Império Romano. O imperador organizou a igreja em dioceses segundo o modelo dos distritos regionais romanos. (A palavra “diocese” era um termo secular que se referia às maiores unidades administrativo do Império Romano). Mais adiante, o Papa Gregório desenhou o ministério de toda igreja segundo a lei romana. Outra vez Durant lamenta, “Quando o cristianismo conquistou Roma, a estrutura eclesiástica da igreja pagã, o título, as vestes do Pontifex Máximus… e o esplendor da cerimônia imemorial, passou como sangue materno para a nova religião. A Roma cativa capturou seu conquistador”. Todo isto pelejou grandemente contra a maneira de Deus com respeito à sua Igreja. Quando Jesus entrou no drama da história humana, Ele eliminou o ícone religioso profissional tanto quanto a forma hierárquica de liderança. Como uma extensão da natureza e da missão de Cristo, a Igreja Primitiva foi o primeiro movimento na história dirigido por “leigos”. Mas, com a morte dos Apóstolos e dos homens treinados por eles, as coisas começaram a mudar. Desde então a Igreja de Jesus Cristo tem buscado seu modelo de organização eclesiástica das sociedades em que foi colocada. Isto sucedeu apesar da advertência de nosso Senhor de que Ele iniciaria uma nova sociedade de caráter único. Contrastando surpreendentemente com as providências do Velho Testamento feitas no Monte Sinai, nem Jesus, nem Paulo impuseram um modelo organizacional fixo para a nova Israel.

Constantino e a Glorificação do Clero

Entre 313 e 325 d.C. o cristianismo deixou de ser uma religião arredia lutando para sobreviver ao governo romano. Agora tomava o sol do imperialismo, com grande quantidade de dinheiro, posição e estima. Ser cristão sob o reino de Constantino já não era mais uma desvantagem. Pertencer à mesma religião do imperador era moda. E fazer parte do clero era receber a maior das recompensas. Constantino exaltava o clero. No ano 313 d.C., ele deu ao clero cristão a isenção de impostos — algo que os sacerdotes pagãos tradicionalmente desfrutavam. O clero também se viu isento de serviços públicos obrigatórios e outros deveres cívicos. O clero estava livre de ser julgado pela corte secular e de servir ao exército. (Os Bispos eram julgados somente em uma corte especial de Bispos, não pelas cortes comuns do Estado). Em todas estas coisas o clero recebeu uma posição social especial. Constantino foi o primeiro a usar as palavras “clérigo” e “clero” para destacar uma classe social mais elevada. Também sentiu que o clero cristão merecia o mesmo privilégio dos oficiais governamentais. Portanto, os Bispos podiam servir na magistratura da mesma forma que os juízes seculares. Os clérigos receberam as mesmas honras que os mais altos oficiais do Império Romano recebiam, e das mãos do próprio Imperador. A verdade bruta é que Constantino deu aos Bispos de Roma mais poder que os governadores romanos! Ele também ordenou que o clero recebesse uma paga anual fixa; uma paga pelo ministério! O resultado líquido disto foi alarmante: O clero teve o prestígio de profissionais da igreja, o privilégio de uma classe favorecida e o poder de uma elite rica. Eles tinham se tornado uma classe isolada com uma condição civil e um modo de vida separado. (Isto incluiu o celibato clerical). Além disso, eles se vestiam e se acomodavam de uma maneira distinta das pessoas comuns. Os Bispos e sacerdotes rasparam suas cabeças. Esta prática, conhecida como tonsure, foi herdada da velha cerimônia de iniciação romana. Todos aqueles que tinham suas cabeças raspadas eram conhecidos como “clérigos” ou “membros do clero”. Eles também começaram a vestir-se com a roupa dos mandatários romanos. Não é de surpreender que tanta gente nos dias de Constantino experimentasse um repentino “chamado ao ministério”. Para eles, ser um mandatário da igreja agora era mais uma carreira que um chamado.

Uma Falsa Dicotomia

Sob Constantino, o cristianismo foi reconhecido e honrado pelo Estado. Isto apagou a linha entre a igreja e o mundo. A fé cristã já não era uma religião de minoria. Melhor dizendo, era protegida pelo Imperador. Como consequência, a quantidade de membros aumentou rapidamente. Formaram-se levas de novos convertidos. Por serem mal convertidos trouxeram consigo uma grande quantidade de ideias pagãs para dentro da igreja. Nas palavras de Will Durant, “enquanto o cristianismo convertia o mundo, o mundo convertia o cristianismo, tornando o paganismo algo natural para a humanidade”. Como vimos anteriormente, as práticas das religiões místicas começaram a ser utilizadas na adoração da igreja. E a noção pagã da dicotomia entre o sagrado e o profano encontrou caminho fértil na mentalidade cristã. Pode-se dizer corretamente que a distinção de classe entre o clero e o leigo resultou diretamente dessa dicotomia. A vida cristã agora se dividia em duas partes: O secular e o espiritual – o sagrado e o profano.

Mas pelo século IV esta falsa ideia foi adotada universalmente pelos cristãos. Isto produziu a ideia profundamente errônea de que há profissões sagradas (um chamado ao “ministério”) e profissões ordinárias, “um chamado vocacional mundano”. O historiador Philip Shaff descreve corretamente estes fatores quando menciona que a “secularização da igreja” foi o fator que contaminou a “corrente pura do cristianismo”. Note que esta dicotomia errônea vive na mente da maioria dos crentes hoje. Todavia tal conceito é pagão, não cristão. Ele rompe a realidade neotestamentária que diz que a vida diária é santificada por Deus. Clemente de Roma (morreu em 100 d.C.) foi o primeiro escritor cristão a fazer uma distinção na condição [status quo] de líderes cristãos e não líderes. Ele foi o primeiro a usar a palavra “leigo” contrastando com ministros. Clemente sustentava que a ordem do Velho Testamento com respeito aos sacerdotes deveria ser cumprida na igreja cristã.

Tertuliano foi o primeiro escritor a utilizar a palavra “clero” referindo-se a uma classe de cristãos separados. Ambos, Tertuliano e Clemente de Alexandria (150-215) popularizaram a palavra “clero” em suas obras. Pelo século III a brecha entre clero e leigo se estendeu ainda mais e chegou a um ponto irremediável. Os clérigos eram líderes treinados da igreja — os guardiões da ortodoxia — os governadores e mestres do povo. Eles possuíam dons e graças que não estavam disponíveis aos simples mortais. O laicato era um extrato social de segunda classe, de cristãos ignorantes. O grande teólogo Karl Barth disse corretamente, “o termo ‘leigo’ é um dos piores do vocabulário religioso e deve ser eliminado da conversação cristã”. Os termos “clero” e “leigo” não aparecem no NT. Tampouco contém o conceito de que há os que fazem o ministério (clero) e os que são objeto do ministério (leigos). Então, o que temos em Tertuliano e Clemente é uma plena digressão da postura dos primeiros cristãos onde todos os crentes partilhavam do mesmo status. A distinção entre clero e leigo – entre o que ocupava o púlpito e o que se sentava no banco – pertence ao outro lado da cruz. Com o novo pacto em Cristo, o clero e o leigo são eliminados. Há somente o povo de Deus. Junto com estas mudanças de postura chegou um novo vocabulário. Os cristãos começaram a adotar o vocabulário das seitas pagãs. O título pontifex (pontífice, um título pagão) Assim sucedeu também com os termos “Mestre de Cerimônia” e “Gran Maestro de Loja”. Tudo isso reforçou o misticismo do clero enquanto guardiões dos mistérios de Deus.

Pelo século V, a ideia do sacerdócio de cada crente havia desaparecido completamente do horizonte cristão. O acesso a Deus agora era controlado pela casta clerical. Foi exigido o cumprimento do celibato clerical. As pessoas comuns participavam com pouca frequência da comunhão. O edifício agora estava velado de incenso e fumaça. As orações clericais eram feitas secretamente. E a pequena porem profundamente significante cortina de seda que separava o clero do leigo foi estabelecida. Em suma, pelo fim do século IV e entrando no V, o clero chegou a ser uma casta sacerdotal — um grupo espiritual da elite dos “homens santos”. Isto nos conduz ao tema espinhoso da ordenação.

A Falácia da Ordenação

No século IV, a teologia e o ministério eram âmbito dos sacerdotes. O trabalho e a guerra eram âmbito do leigo. Qual era o rito de passagem para o âmbito sagrado do sacerdote? A Ordenação. Antes de examinar as raízes históricas da ordenação, vejamos como se reconhecia a liderança na Igreja Primitiva. Os obreiros apostólicos (plantadores de igrejas) do século I voltavam a visitar uma igreja depois de um período de tempo. Em algumas congregações os trabalhadores reconheciam publicamente os anciãos. Em todos os casos os anciãos já tinham estado naquele lugar antes de serem reconhecidos publicamente. Os anciãos surgiam naturalmente em uma congregação com o passar do tempo. Eles não eram nomeados por uma autoridade externa. Ou seja, cada um deles era reconhecido devido a sua antiguidade e contribuição com a igreja.

Segundo o NT, o reconhecimento de certos dons dos membros é algo instintivo e orgânico. Há um princípio interno dentro de cada crente que reconhece os vários ministérios na congregação. Surpreendentemente, há apenas três passagens no NT que nos dizem que os anciãos eram reconhecidos publicamente. Anciãos foram reconhecidos nas congregações da Galácia. Paulo disse a Timóteo que conhecera anciãos em Éfeso. Disse o mesmo a Tito com relação às igrejas de Creta. A palavra “ordenar” (KJV) destas passagens não significa ocupar um cargo. Ou melhor, ela traz a ideia de afirmar, reconhecer e apoiar um desdobramento de algo que já está acontecendo. Ela também traz a ideia de bênção. O reconhecimento público dos anciãos e de outros ministérios geralmente era acompanhado pela imposição de mãos pelos obreiros apostólicos. (No caso dos obreiros enviados a outros lugares isto era feito pela congregação aos anciãos). No século I, a imposição de mãos meramente significava apoiar ou reafirmar uma função, não indicava uma nomeação a uma posição ou a elevação a uma categoria especial. Lamentavelmente mais adiante, no final do século II e no princípio do III, isso chegou a significar uma posição especial.

Durante o século III a “ordenação” assumiu um significado completamente diferente. Era um rito cristão formalizado. Pelo século IV, a cerimônia da ordenação foi ornada por vestimentas simbólicas e por um rito solene. A ordenação produziu uma casta eclesiástica que usurpou o sacerdócio dos crentes. Donde você supõe que os cristãos adquiriram seu padrão de ordenação? Eles copiaram sua cerimônia de ordenação do costume romano de designar homens ao serviço civil. Todo o processo, cada palavra, saiu diretamente do mundo cívico romano. Antes do século IV os termos utilizados para a nomeação de cargos governamentais romanos e a ordenação cristã eram sinônimos. Quando Constantino fez do cristianismo sua religião preferida, as estruturas de liderança da igreja passaram a ser sustentadas através da sanção política. Formas de sacerdócio do Velho Testamento foram combinadas com a hierarquia grega. Tristemente, a igreja estava segura nesta nova fórmula — exatamente como está hoje. Agostinho (293-373) foi ainda mais longe ensinando que a ordenação confere ao ordenado “um caráter definitivo e irremovível” que o capacita no cumprimento de suas funções sacerdotais!

Para Agostinho, a ordenação era uma posição permanente que não poderia ser revogada. A ordenação cristã, então, chegou a ser compreendida como aquilo que constitui a diferença essencial entre clero e leigo. Por ela o clero era autorizado a ministrar os sacramentos. Acreditava-se que o sacerdote, que faria o serviço divino, deveria ser o cristão mais perfeito e santo de todos. Gregório de Nacianceno (329-389) e Crisóstomo (347-407) elevaram a norma padrão tão alto no que diz respeito aos sacerdotes que falhar em cumprir a santidade de seu serviço prejudicaria sua posição ou o levaria a um estado crítico. Segundo Crisóstomo o sacerdote é como um anjo. Ele não possui a mesma fraqueza do resto dos homens. Como poderia o sacerdote viver em tal estado de pura santidade? Como poderia ele ser digno de servir no “coro dos anjos”? A resposta era a ordenação. Pela ordenação, a corrente das graças divinas fluía ao sacerdote, equipando-o para ser um instrumento digno nas mãos de Deus. Esta ideia, também conhecida como “dom sacerdotal”, apareceu primeiramente com Gregório de Nisa (330-395). Gregório sustentava que a ordenação configura o sacerdote de uma forma “invisível” como “um homem diferente e melhor”, elevando-o acima do leigo. “O próprio poder da Palavra”, disse Gregório, “faz com que o sacerdote seja venerável, honorável, separado… Embora no dia anterior ele fosse apenas uma pessoa no meio das massas, alguém do povo, ele é repentinamente convertido em guia, presidente, mestre de justiça, instrutor de mistérios ocultos…”. Atente para estas palavras de um documento do século IV: “O Bispo, eis o ministro da Palavra, o guardião do conhecimento, o mediador entre Deus e você em várias partes de sua adoração divina… Ele é seu soberano e governante… Ele está em segundo lugar depois de Deus, seu deus terreal, que tem o direito de ser honrado por tua pessoa”. A ordenação concede ao sacerdote (ou Bispo) poderes divinos especiais tornando-o apto a oferecer o sacrifício da Missa.

A ordenação também o torna um tipo de homem completamente separado e santo! Os sacerdotes chegaram a ser identificados como “vigários de Deus na terra”. Eles chegaram a fazer parte de uma ordem de homens especiais. Uma ordem apartada dos “leigos” da igreja. O estilo de vida do sacerdote e suas vestes eram distintos do leigo, justamente para ressaltar esta diferença. Lamentavelmente, este conceito de ordenação nunca foi abolido da fé cristã. Está vivo e bem vivo no moderno cristianismo. De fato, se você está perguntando por que e como o pastor moderno chega a ser elevado ao patamar de “homem santo de Deus”, estas são suas raízes. Eduardo Schweizer, em sua clássica obra Church Order in the New Testament, sustenta que Paulo nada sabia a respeito de qualquer ordenação conferindo poderes ministeriais ou clericais ao cristão. Os pastores, (anciãos, supervisores) do primeiro século não receberam nada parecido com a moderna ordenação. Eles não estavam acima do restante do rebanho. Eles eram aqueles que serviam entre eles. Os anciãos do século I eram apenas publicamente reconhecidos pelos obreiros de fora como aqueles que cuidavam da igreja. Tratava-se de um simples reconhecimento de uma função. Algo que não conferia nenhum poder especial. Tampouco era uma posição permanente como acreditava Agostinho. A moderna prática da ordenação cria uma casta especial de cristão. Seja ele sacerdote no catolicismo ou pastor no protestantismo, o resultado é o mesmo: O ministério mais importante restringe-se a uns poucos crentes “especiais”. Tal ideia é tão daninha quanto antibíblica. Em nenhum lugar do NT a pregação, o batismo ou a distribuição da Ceia do Senhor restringe-se aos “ordenados”. O eminente erudito James D. G. Dunn esclarece melhor este ponto quando diz que a tradição clero-leigo contribuiu mais para minar a autoridade do NT do que a maioria das heresias! Na medida em que alguém poderia desempenhar certa função na igreja através do rito da ordenação, o poder de ordenar passou a constituir o ponto chave no que diz respeito à autoridade religiosa. O contexto bíblico se perdeu. E passou-se a utilizar métodos de comprovar textos para justificar a hierarquia clero-leigo. O crente comum, geralmente inculto e ignorante, ficou a mercê do clero profissional!

A Reforma

Os reformadores do século XVI colocaram fortemente a prova o sacerdócio Católico. Eles atacaram a ideia de que o sacerdote possuía poderes especiais para converter vinho em sangue. Eles rechaçaram a sucessão Apostólica. Eles incentivaram o clero a casar-se. Eles revisaram a liturgia para que a congregação tivesse mais participação. Eles também eliminaram a posição do Bispo e reduziram o sacerdote à condição de presbítero. Desgraçadamente, os reformadores trouxeram a distinção católica entre o leigo e o clero diretamente para o movimento protestante. Eles também preservaram a ideia católica da ordenação. Mesmo eliminando o cargo de Bispo, ressuscitaram a regra do Bispo único com nova roupagem. A voz dominante da reforma foi a restauração do sacerdócio de todos os crentes. Tal restauração, todavia, foi parcial. Lutero (1483-1546), Calvino (1509-1564) e Zwinglio (1484-1531) afirmaram o sacerdócio dos crentes no que toca ao relacionamento individual de cada crente com Deus. Eles ensinaram corretamente que cada cristão tem acesso direto a Deus sem a necessidade de um mediador humano. Foi uma maravilhosa restauração. Mas foi parcial. O que os reformadores deixaram de fazer foi recuperar a dimensão coletiva do sacerdócio crente. Eles restauraram a doutrina do sacerdócio soteriologicamente — isto é, com respeito à salvação. Mas eles falharam em restaurá-la eclesiasticamente — isto é, com respeito à igreja. Em outras palavras, os reformadores apenas recuperaram o sacerdócio do crente (singular). Eles nos lembraram que todo cristão tem acesso a Deus, individual e imediatamente. Apesar de isso ser bonito, eles não recuperaram o sacerdócio de todos os crentes (coletivamente, plural). Esta é a preciosa verdade de que cada cristão é parte de um grupo que compartilha a Palavra de Deus, mutuamente. (Foram os anabatistas que recuperaram esta prática. Lamentavelmente, esta recuperação foi uma das razões pelas quais as espadas protestantes e católicas ficaram rubras com sangue anabatista).

Embora os reformadores se opusessem ao Papa e sua hierarquia religiosa, eles fizeram vista grossa com respeito ao ministério que eles herdaram. Eles acreditavam que o “ministério” era uma instituição restrita àqueles poucos que foram “chamados” e “ordenados”. Assim, pois, os reformadores reafirmaram a divisão clero-leigo. Apenas na retórica os reformadores ensinavam que todos os crentes eram sacerdotes e ministros, na prática o negaram. Pois quando toda fumaça da reforma se dissipou, nos deparamos com a mesma coisa que os católicos nos deram — um sacerdócio seletivo!

Lutero manteve a ideia de que aqueles que pregam necessitam de um treinamento especial. Como os católicos, os reformadores acreditavam que apenas um “ministro ordenado” poderia pregar, batizar e ministrar a Ceia do Senhor. Como resultado, a ordenação deu ao ministro uma aura de favor divino indiscutível. Tragicamente, Lutero e os demais reformadores denunciaram violentamente aos anabatistas pela prática sacerdotal de cada crente na igreja. Os anabatistas acreditavam e acreditam que cada cristão tem o direito de levantar-se e falar em uma reunião. Isso não era privilégio do clero. Lutero era tão avesso a esta prática que disse que isso se originou no inferno e que os que a praticavam deveriam ser mortos! (Veja sua herança, querido cristão protestante)! Em suma, os Reformadores preservaram a ideia da ordenação como chave do poder na igreja. Era responsabilidade do ministro ordenado comunicar a revelação de Deus ao povo. E ele seria pago para exercer esta função. De modo similar ao sacerdote Católico, a igreja via o ministro reformado como “homem de Deus” — o mediador remunerado entre Deus e Seu povo. Não um mediador para perdoar pecados, mas um mediador para comunicar a vontade divina. Assim, no Protestantismo o velho problema assumiu um novo formato. O jargão mudou, mas o veneno permaneceu.

De Sacerdote a Pastor

João Calvino não gostava de aplicar a palavra “sacerdote” aos ministros. Ele preferia o termo “pastor”. Segundo a mente de Calvino, “pastor” era a palavra mais elevada que poderia existir no que tange ao ministério. Ele gostava dessa palavra porque a Bíblia refere-se a Jesus Cristo como “o grande Pastor das ovelhas” (Heb 13:20). Ironicamente, Calvino acreditava estar restaurando o bispado (episkopos) do NT na figura do pastor! Lutero também não gostava da palavra “sacerdote” para definir os novos ministros protestantes. Ele escreveu, “não podemos nem devemos chamar de sacerdote aos que estão encarregados da Palavra e do Sacramento ao povo. A razão pela qual eles têm sido chamados sacerdotes é pelo costume do povo pagão ou por um vestígio da nação judaica. O resultado é danoso à igreja”. Assim, ele também adotou os termos “pregador”, “ministro” e “pastor” referindo-se a este novo ofício. Zwinglio e Martin Bucer (1491-1551) também preferiram a palavra “pastor”. Eles escreveram vários tratados sobre isto. Como resultado, o termo começou a permear as igrejas da Reforma. Todavia, devido a sua obsessão pela pregação, o termo favorito dos reformadores para o ministro foi “pregador”. Este foi geralmente o termo empregado pelas pessoas comuns. Foi apenas no século XVIII que o termo “pastor” chegou a ser de uso corrente, eclipsando “pregador” e “ministro”. Esta influência veio dos Luteranos Pietistas. Desde então o termo espalhou-se entre as principais correntes cristãs. Foi assim que os reformadores elevaram o pastor como cabeça funcional da igreja.

Segundo Calvino, “O cargo pastoral é necessário para preservar a igreja na terra tanto quanto o sol, o alimento e a água são necessários para preservar e sustentar a presente vida”. Os reformadores acreditavam que o pastor possuía o poder e a autoridade divina. Ele não falava em seu próprio nome, mas em nome de Deus. Calvino fortaleceu ainda mais a primazia do pastor ao considerar atos de desprezo ou zombaria contra o ministro como séria ofensa pública. Isto não constitui nenhuma surpresa diante do modelo ministerial adotado por Calvino. Ele adotou a regra do Bispo único do século II. E isto também se aplica aos demais reformadores. A ironia aqui é que Calvino lamentou o fato da Igreja Católica Romana ter construído suas práticas sobre “invenções humanas” em vez da Bíblia. Mas Calvino fez o mesmo! Nesse aspecto os protestantes são tão culpáveis quanto os católicos. Ambos se baseiam em práticas de tradições humanas. Calvino ensinou que a pregação da Palavra de Deus e o correto ministério dos sacramentos são indicações de uma igreja verdadeira. Em sua mente, a pregação, o batismo e a eucaristia tinham que ser ministrados pelo pastor e não pela congregação. Para todos os reformadores, a função primária de um ministro é a pregação. Como Calvino, Lutero também fez do pastor uma posição separada e exaltada. Mas ao mesmo tempo em que sustentava que as chaves do Reino pertenciam a todos os crentes, Lutero confinava seu uso aos que ocupavam um posto na igreja. “Somos todos sacerdotes”, disse Lutero, “na medida em que somos cristãos, mas aqueles a quem chamamos de sacerdotes são ministros selecionados de nosso meio para agir em nosso nome, e o sacerdócio deles é nosso ministério”. Lamentavelmente, Lutero acreditava que todos estão em sacerdócio, mas nem todos podem exercer o sacerdócio. Isto é sacerdotalismo, pura e simplesmente.

Lutero abominou o campo católico pela rejeição do sacerdócio sacrificatório. Mas em seu lugar ele acreditava que o ministério da Palavra de Deus pertencia a uma ordem especial. Veja como Lutero exalta a figura do pastor: “Deus fala através do pregador… Um pregador cristão é um ministro de Deus que foi separado, sim, é um anjo de Deus, um Bispo enviado por Deus, um salvador de muitas pessoas, um rei e príncipe no reino de Cristo… Nesta vida e nesta terra não há nada mais precioso nem mais nobre que um pregador verdadeiro e fiel”. Disse Lutero, “Não devemos permitir que nosso pastor fale as palavras de Cristo como se as falasse por si mesmo; pois ele é a boca de todos nós e falamos as palavras com ele em nossos corações. É uma coisa maravilhosa que a boca de cada pastor seja a boca de Cristo, portanto, devemos todos escutar o pastor, não como homem, mas como Deus”. Dá para escutar o eco e Inácio ressoando através das palavras de Lutero. Estas ideias corromperam a visão de Lutero quanto à igreja. Ele acreditava que ela não era outra coisa a não ser um posto de pregação. “A congregação cristã”, disse Lutero, “nunca deve reunir-se a menos que a Palavra de Deus seja pregada e a oração oferecida, não importa quão curto seja o tempo de tal reunião”. Lutero acreditava que a igreja era simplesmente uma reunião de pessoas que escutavam a pregação. Por esta razão, ele descreveu o edifício da igreja como Mundhaus, que significa “a casa que fala”. Ele também declarou que “as orelhas são os únicos órgãos do cristão”. Querido cristão protestante observe suas raízes!

A Cura de Almas

Tanto Calvino como Lutero compartilharam o pensamento de que as duas principais funções do pastor eram proclamar a Palavra (pregação) e celebrar a Eucaristia (comunhão). Mas Calvino agregou um terceiro elemento. Ele enfatizou que o pastor tinha a obrigação de prover o cuidado e a sanidade da congregação. Isto é conhecido como “cura de almas”. A “cura de almas” remonta aos séculos IV e V. Encontramos isso nos ensinamentos de Gregório de Nacianceno. Gregório chamava o Bispo de “pastor” — um médico de almas que diagnostica as enfermidades do paciente e receita remédio ou cirurgia. Os primeiros seguidores de Lutero também praticaram a medicina das almas.] Mas na Genebra de Calvino essa prática chegou a ser uma arte. Exigiu-se que cada pastor e ancião visitasse as casas dos paroquianos. Também houve visitas regulares aos enfermos e aos encarcerados. Para Calvino e Bucer, o pastor não era apenas um pregador e um dispensador de sacramentos. Ele era também “médico de almas”, “coadjutor”. A ele cabia levar sanidade, cura e compaixão ao povo enfermo de Deus. Esta ideia está viva no mundo protestante de hoje. Pode ser facilmente vista nos modernos conceitos de “cuidado pastoral”, “aconselhamento pastoral”, “assistência psicológica cristã”. Na igreja moderna, a responsabilidade de tal cuidado cai sobre os ombros de um homem – o pastor. (No século I, isso caia sobre os ombros de toda congregação e de um grupo de homens maduros chamados “anciãos”).

A Primazia do Pastor

Em poucas palavras, a reforma protestante foi um golpe no sacerdotalismo católico romano. Mas não foi um golpe mortal, pois os reformadores preservaram a regra do Bispo único. Este simplesmente passou por uma mudança semântica. O pastor agora exercia o papel do Bispo. Ele chegou a ser conhecido como a cabeça da igreja local — como o principal ancião. Como disse certo escritor, “no Protestantismo, o pregador tende a ser porta-voz e representante da igreja, e a igreja muitas vezes é a igreja do pastor. Este é o grande perigo e a grande ameaça à religião cristã, a incoerência clerical”. As reformas feitas pelos reformadores não foram suficientemente radicais para mudar as coisas iniciadas por Inácio e Cipriano.

A Reforma irrefletidamente aceitou a estrutura hierárquica católica e manteve a distinção antibíblica entre ordenado e não ordenado. Em sua retórica os reformadores criticaram a divisão clero-leigo. Mas na prática eles a mantiveram intocada. Como Kevin Giles disse, “as diferenças entre clero católico e clero protestante foram apagadas na prática e na teologia. Em ambas correntes o clero permanece bem distante; em ambas seu estado especial se baseia nas iniciativas divinas mediadas de diferentes maneiras; e em ambas certas responsabilidades são reservadas a ele”. A velha tradição pós-bíblica da regra do Bispo único (agora encarnada no pastor) prevalece na Igreja Protestante hoje. Por causa da petrificação da errônea divisão clero-leigo, há tremendas pressões psicológicas que fazem com que o chamado “leigo” sinta que o ministério é de responsabilidade do pastor. “É o trabalho dele. Ele é o perito”, é a ideia que prevalece.

A palavra usada no NT para ministro é diakonos. Tal palavra quer dizer “servo”. Mas esta palavra foi corrompida porque os homens profissionalizaram o ministério. Tomamos a palavra “ministro” e a equiparamos com a palavra pastor sem nenhuma justificação bíblica. Da mesma maneira, equiparamos a pregação e o ministério com o sermão do púlpito. Novamente sem justificação bíblica. Seguindo a tendência de Calvino e Lutero, os escritores puritanos John Owen (1616-1683) e Thomas Goodwin (1600-1680) elevaram o pastor a uma posição fixa na casa do Senhor. Owen e Goodwin conduziram os puritanos a enfocar toda autoridade na figura ou na função do pastor. Em suas mentes, ao pastor era dado “o poder da chave”. Somente ele é ordenado para pregar, ministrar sacramentos, ler as Escrituras publicamente, e ser treinado nos idiomas originais da Bíblia. Algo bem semelhante à lógica e filosofia. Tanto reformadores como puritanos adotaram a ideia de que os ministros de Deus precisam ser profissionais competentes. Portanto, os pastores necessitavam um extenso treinamento acadêmico para cumprir sua função. Todas estas características explicam como e por que o pastor é tratado como elite… Como um cristão especial… Alguém que merece ser reverenciado (daí o título “Reverendo”). O pastor e seu púlpito são a parte central da adoração protestante.

Como o Pastor Destrói a Vida Coletiva

Agora, uma vez desenterradas as raízes do pastor moderno, coloquemos nossa atenção nos efeitos práticos que o pastor exerce sobre o povo de Deus. A distinção antibíblica clero/leigo tem causado tremendos danos ao Corpo de Cristo. Tal distinção provoca uma ruptura na comunidade dos crentes por classificá-los como cristãos de primeira e de segunda classe. A dicotomia clero/leigo perpetua uma horrível mentira. A mentira de que alguns cristãos são mais privilegiados do que outros quanto a servir ao Senhor. Nossa ignorância da história da igreja permitiu sermos defraudados. O ministério do único homem é completamente alheio ao NT. Aceitá-lo necessariamente sufoca nosso funcionamento. Somos pedras vivas, não mortas, todavia a posição do pastor nos tem transformado em pedras que não respiram. Permita-me ser pessoal. O ofício pastoral vem roubando seu direito de funcionar como membro do Corpo de Cristo! Esse ofício fecha sua boca e prende-o ao banco. Isso distorce a realidade do corpo, fazendo do pastor uma grande boca e de você uma orelhinha. Isso deixa você na condição de espectador mudo capaz apenas de fazer anotações do sermão e de passar a bandeja da oferta! Mas isso não é tudo. A moderna posição de pastor passa por cima do principal ensinamento da carta aos Hebreus — sobre a finalidade do sacerdócio. Torna ineficaz o ensinamento de I Coríntios 12-14, de que cada membro tem o direito e o privilégio de ministrar em uma reunião eclesiástica. Anulou a mensagem de I Pedro 2 de que cada irmão ou irmã é um sacerdote funcional. Ser um sacerdote funcional não quer dizer que você pode fazer um tipo de pechincha do ministério como cantar hinos em seu banco, levantar as mãos durante a adoração, substituir transparências, ou ensinar a uma classe de escola dominical. Esta não é a ideia neo testamentária de ministério. Tais coisas são nada mais que um auxílio ao ministério do pastor. Como disse um pesquisador, “muito da adoração protestante, principalmente em nossos dias, foi infectada pela horrível tendência de considerar a adoração com uma obra do pastor, e talvez dos músicos. Com a maior parte da congregação restrita ao cântico de hinos e reduzida à condição de espectadora atenta e piedosa”.

Tratamos o pastor como se ele fosse um profissional especialista. Esperamos que os doutores e advogados nos sirvam, não para treinar-nos a servir outros. E por quê? Por que eles são especialistas. Eles são profissionais treinados. Desgraçadamente, vemos o pastor da mesma maneira. Tudo isso é danoso pelo fato de que cada crente é um sacerdote. Não apenas diante de Deus, mas mutuamente. Isso não é tudo. O pastorado moderno rivaliza com a direção funcional de Cristo em sua Igreja. A posição de pastor mantém um lugar único de posição central e de direção entre o povo de Deus. É um lugar reservado para apenas uma pessoa, o Senhor Jesus. Jesus Cristo é a única cabeça e a palavra final da Igreja. Por sua posição, o pastor desloca e suprime a direção de Cristo por instalar-se como cabeça humana da congregação. Por esta razão, não há nada que impeça tanto o cumprimento do propósito eterno de Deus, como a função do moderno pastor. Por quê? Porque o foco desse propósito é fazer a direção de Cristo visivelmente manifesta na igreja através do funcionamento livre e aberto do corpo de cada membro. Enquanto a posição de pastor estiver presente, você nunca verá tal coisa. Como o Pastor Destrói a Si Mesmo O moderno pastor prejudica não apenas o povo de Deus, ele prejudica a si mesmo. A posição de pastor de uma forma ou de outra atrofia os que assumem essa função. As frequentes depressões, vazio, estresse, e o desequilíbrio emocional são terrivelmente constantes entre os pastores. Nesse momento há mais de 500 mil pastores servindo nas igrejas nos Estados Unidos. Deste grande número, considere a seguinte estatística que revela o perigo mortal da posição de pastor: 94 % sentem-se pressionados a ter uma família ideal. 90 % trabalham mais de 46 horas por semana. 81 % reportam uma insuficiência de tempo com seu cônjuge. 80 % creem que o ministério pastoral prejudica a família. 70 % não têm o que se considera um amigo íntimo. 70 % têm menos autoestima agora do que tinham quando entraram no ministério. 50 % sentem-se incapazes de cumprir as necessidades de sua posição. 80 % estão desanimados ou tratando de uma depressão. 40 % reportam sofrer pela timidez, horários frenéticos e falsas expectativas. 33 % consideram o ministério pastoral um perigo para a família. 33 % consideraram renunciar suas posições durante o último ano. 40 % das renúncias pastorais devem-se ao vácuo (a chama se apagou). Espera-se que a maioria dos pastores exerça 16 tarefas simultâneas. E a maioria acaba pulverizada pelas pressões. Por esta razão, mensalmente, 1.600 ministros entre todas as denominações nos Estados Unidos são demitidos ou são forçados a renunciar. Durante os últimos 20 anos a média do pastoreado reduziu de sete para pouco mais de dois anos! Lamentavelmente, poucos pastores se dão conta de que é a posição de pastor que causa esta turbulência subjacente.

Naturalmente, Jesus Cristo nunca desejou que alguma pessoa desempenhasse a variedade de coisas que se requer do pastor! Ele nunca desejou que alguém carregasse uma carga tão pesada. As demandas do pastorado são terríveis. Tanto que leva qualquer mortal ao esgotamento. Imagine-se por um momento trabalhando em uma companhia que lhe paga para manter seus colegas de trabalho animados. Que você faria se seu pagamento dependesse do teu grau de ocupação e amistosidade, da popularidade de sua esposa e filhos, da qualidade de suas roupas, e da perfeição de seu comportamento? Dá para imaginar o completo estresse que isso lhe causaria? Dá para ver o papel que seria obrigado a exercer, da presunção a arrogância – tudo para poder manter seu poder, prestígio e segurança no trabalho? (Por esta razão, a maioria dos pastores é insensível quanto a receber qualquer tipo de ajuda).

A profissão de pastor dita padrões de conduta como qualquer outra profissão como professor, médico ou advogado. A profissão dita como o pastor deve vestir-se, falar e atuar. Esta é uma das principais razões pela qual tantos pastores vivem vidas tão artificiais. Nesse aspecto, o rol pastoral fomenta a desonestidade. A congregação espera que seu pastor esteja sempre alegre, disponível a todo o momento, nunca ressentido, nunca amargurado, espera que ele tenha uma família perfeitamente disciplinada, e que seja completamente espiritual a todo o momento. Os pastores exercem este papel como atores de um drama grego. Isto explica a voz afetada da maioria dos pastores em suas pregações e orações. Isto explica a maneira piedosa de cumprimentar. A maneira peculiar com que dizem “o Senhor”. E a maneira especial como se vestem. Todas estas coisas são em grande parte fumaça e luar – totalmente desprovidas de realidade espiritual. A maioria dos pastores não pode permanecer nesse ofício sem ser corrompido em algum nível. O endêmico poder político do ofício é um problema enorme que isola muitos deles e envenena a relação deles uns com os outros.

Em um inquietante artigo para pastores intitulado Prevenindo a Cauterização do Clero, o autor sugere algo assustador. O conselho dele para os pastores nos dá uma visão clara do poder político que ronda o pastorado. Ele implora aos pastores: “Exerça uma posição de companheirismo com o clero de outras denominações. Estas pessoas não podem prejudicá-lo eclesiasticamente, porque eles não pertencem ao seu círculo oficial. Não há nenhum tapete político que eles possam puxar para derrubá-lo”. A solidão profissional é outro vírus que contamina fortemente os pastores. A praga da ilha solitária leva alguns pastores a buscar outras carreiras. Outros encontram destino mais cruel. Todas estas patologias encontram sua raiz na história do pastorado. É “solitário o cume” porque Deus nunca quis que ninguém fosse para o cume – exceto Seu Filho! Com efeito, o pastor moderno coloca sobre seus ombros as 58 exortações do NT que deveriam ser mutuamente compartilhadas pelos crentes. Não é de admirar que a maioria dos pastores sofre esmagada pelo peso.

Conclusão

O pastor moderno é o elemento mais inquestionado no cristianismo moderno. Mesmo assim ele não tem uma única linha nas Escrituras que justifique sua existência, nem uma folha de figueira para cobri-lo! Assim, o pastor moderno nasceu da regra do bispado único engendrado por Inácio e Cipriano. O Bispo transformou-se em presbítero local. Na Idade Média o presbítero se converteu em sacerdote católico. Durante a Reforma ele foi transformado em “pregador”, “ministro”, e finalmente em “pastor” – o homem sobre o qual se dependura todo Protestantismo. Em suma: O pastor protestante é nada mais que um sacerdote católico um pouco reformado! O sacerdote católico tinha sete ofícios durante o tempo da Reforma: Pregar, ministrar sacramentos, rezar pelo rebanho, vida santa, disciplina, ritos da igreja, apoiar pobres e visitar enfermos. O pastor protestante além de assumir todas estas responsabilidades – eventualmente também abençoava eventos cívicos. O famoso poeta John Milton foi bem preciso quando disse: “O moderno presbítero não é outra coisa senão o velho sacerdote!” Outra versão disso seria: O pastor moderno não é outra coisa senão o velho sacerdote!

Tornei-me bacharel na Universidade da Bíblia. Fui ao seminário e estudei a única coisa disponível ali: O ministério profissional. Ao graduar-me percebi que poderia falar latim, grego e hebraico, mas a única qualificação que eu tinha era para ser Papa. Mas outro ganhou essa posição!” Pastor Anônimo

Fora do Arraial

Autor: Hamilton Smith

E isto disse ele do Espírito que haviam de receber os que nele cressem; porque o Espírito Santo ainda não fora dado, por ainda Jesus não ter sido glorificado” (Jo 7:39).

Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério” (Hb13:13).

No evangelho de João, temos em Cristo a apresentação daquilo que é inteiramente novo na terra. O sistema religioso que existia antes da vinda de Cristo – antes da “Palavra se tornar carne e habitar entre nós” – é colocado de lado em vista da introdução do cristianismo. No primeiro capítulo a lei de Moisés dá lugar para a “graça e a verdade” que “veio por Jesus Cristo”. No segundo capítulo o templo judeu é colocado de lado pelo “templo do Seu corpo”. No terceiro capítulo as “coisas terrenas” dão lugar às “coisas celestiais”. No quarto capítulo as águas passadas desta presente vida passageira dão lugar a “fonte de água que jorra para a vida eterna”, e a adoração em Jerusalém é colocada de lado para a adoração do Pai em espírito e verdade. No quinto capítulo, todo o sistema legal com a piscina, o anjo e o sábado é colocado de lado pela voz toda poderosa do Filho de Deus. No sexto capítulo o pão natural, que sustenta a vida natural, é jogado na sombra pelo “pão que veio do céu” para dar e sustentar uma vida nova e celestial. O sétimo capítulo traz os rios de águas vivas para este seco e estéril mundo. Os capítulos oitavo e nono trazem a luz da vida para um mundo de trevas e morte. No décimo capítulo o rebanho cristão toma o lugar do aprisco judeu, e finalmente no décimo primeiro capítulo, o Filho de Deus, atuando na força poderosa da vida de ressurreição, anula o poder da morte e da sepultura. Olharemos para estes dois sistemas – o velho e o novo – sob onze pontos que se seguem.

                                                                                                UM

As coisas velhas passaram e em Cristo há a introdução de todas as coisas novas. Mas, além disso, temos apresentado diante de nós os dois grandes fatos proeminentes do período cristão com base nos quais as coisas novas do cristianismo são estabelecidas, e pelas quais as verdades do cristianismo são mantidas. Estes dois fatos estabelecidos são profeticamente anunciados em João 7:39. No último e grande dia da festa – o dia que olha adiante para um mundo novo de desejo satisfeito – o Senhor convida a todo

mundo para vir a Ele e beber. Ele também fala do resultado presente para aquele que vem. De modo que se tornaria um canal de refrigério neste mundo necessitado. Então definitivamente nos é dito que o Senhor esta falando do Espírito Santo que aqueles que crêem Nele receberiam. Verdadeiros crentes seguiram o Senhor em Seu caminho terreno, mas não receberam o Espírito Santo. Então nos é dito que o dom do Espírito Santo na terra esperava a presença de Cristo na glória, como lemos: “o Espírito Santo ainda não havia sido dado porque Jesus ainda não havia sido glorificado”. Então aqui temos as duas grandes características distintas da cristandade.

  1. Há um Homem na glória.
  2. Há uma Pessoa Divina na terra.

Cristo como Filho do Homem está assentado na glória, o Espírito Santo – a Pessoa Divina – está presente na terra.

                                                                                               DOIS

Existem quatro grandes fatos proeminentes que todo cristão deveria apreciar. Primeiro, a cruz; segundo, a reunião de Cristo na glória; terceiro, a presença do Espírito Santo na terra e quarto, a segunda vinda de Cristo. Todo cristão verdadeiro corretamente ganha muito da cruz; muitos geralmente, também, esperam pela segunda vinda de Cristo, mas lamentavelmente, os dois fatos centrais são muito ignorados e seus significados perdidos, e, contudo estes dois fatos centrais são as marcas distintas da presente dispensação. As bênçãos da cruz não estão confinadas a este período presente. Todo santo de toda idade, seja passado, presente ou futuro, encontra na cruz a base justa de todas as bênçãos. Nem a vinda de Cristo pode estar confinada aos santos do período presente. Este grande evento de uma forma ou de outra afetará todo santo de toda a dispensação. Mas os dois grandes fatos intermediários dão à cristandade seu caráter único e destingem o período cristão de todo aquele que veio antes e todo aquele que ainda virá. Nunca antes na história do mundo poderia ser dito que há um Homem na glória e uma Pessoa Divina na terra, e nunca outra vez isso será verdade. Estes fatos pertencem exclusivamente ao período cristão, e sobre eles a igreja está estabelecida e por eles a igreja é manifestada. Não até que Cristo fosse glorificado como o ressuscitado e exaltado Cabeça, e o Espírito Santo viesse para batizar os crentes em um corpo a igreja poderia ser formada, e em sua vereda neste mundo é mantida por Cristo na glória e pelo Espírito Santo na terra. Mesmo sua última passagem da jornada terrena para o lar celestial será alcançada em resposta à voz do Homem na glória e do poder avivador do Espírito Santo na terra.

Se estas então são as marcas distintas do período cristão, dificilmente nos surpreenderia se elas se tornassem objeto do ataque do inimigo. O diabo sabe muito bem que se puder ter sucesso em obscurecer estas duas verdades, terá sucesso em nos furtar de toda verdade sobre “Cristo e a igreja”. Ele não se importa se somos santos legalistas de acordo com a dispensação anterior ou se buscamos ser santos milenares de acordo como padrão do mundo que virá, se apenas puder impedir de sermos santos celestiais de acordo com o propósito de Deus para o momento presente. A hostilidade incessante do inimigo é sempre mostrada em buscar furtar Cristo da Sua glória e os santos da sua benção. Se entretanto pela graça de Deus estes dois grandes fatores forem recebidos e mantidos em poder na nossa alma, teremos a chave para o período cristão e o caminho da restauração da verdade daquele grande mistério – Cristo e a igreja.

                                                                                                 TRÊS

Nos primeiros capítulos de Atos temos o registro do cumprimento histórico destes dois fatos proeminentes. No primeiro capítulo, Cristo é recebido acima na glória. Quando Ele se levantou, como Aquele ressuscitado no meio dos Seus discípulos, tendo proferido Suas últimas palavras, “foi elevado as alturas, e uma nuvem O recebeu, ocultando-O a seus olhos”. No segundo capítulo o Espírito Santo é recebido na terra. Os discípulos “estavam todos concordemente no mesmo lugar; e de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo”.

O resultado imediato é que os discípulos são batizados em um corpo, unido a Cristo o Cabeça no céu. A igreja é formada, o evangelho é pregado, as obras terríveis dos homens são expostas, as obras maravilhosas de Deus são declaradas, três mil almas são convertidas, e acrescentamentos são feitos à igreja diariamente.

Por essa razão é encontrada na terra uma assembléia de pessoas separadas deste mundo, pertencentes a outro mundo, tirando todos seus recursos de Cristo na glória e controladas pelo Espírito Santo na terra.

                                                                                        QUATRO

O efeito destes dois grandes fatos sobre a santidade individual é estritamente apresentado na história de Estevão. Neste servo devoto vemos uma característica santa do período cristão, de acordo com o pensamento de Deus, e conseqüentemente a manifestação do caráter moral que marcaria toda a igreja durante a ausência de Cristo.

Os versos que fecham Atos 7 apresentam um homem na terra habitado pela Pessoa Divina – o Espírito Santo – e que tira todos os seus recursos de um Homem na glória. Como lemos: “Estando ele cheio do Espírito Santo, olhou para cima firmemente o céu e viu a glória de Deus e Jesus em pé a direita de Deus” (verso 55). O efeito abençoado se segue:

  1. Ele “olhou para cima”. Um homem na terra cheio do Espírito Santo olha para cima! Tal pessoa não é indiferente ao que está dentro ou em volta dele, mas caracteristicamente não é marcado por olhar para dentro ou olhar em volta dele. Olhar para dento é estar deprimido, olhar em volta é estar confuso, mas olhar para cima é ver nenhum outro homem exceto Jesus somente.
  1. Ele olhou “fixamente”. Como uma melhor tradução para isso, “fixou seus olhos” em outra cena e se recusou ser distraído pelo mal deste mundo por um lado, ou detido pelas suas atrações por outro.
  1. Ele “olhou para cima firmemente o céu”. O homem cheio do Espírito Santo está ligado ao céu enquanto passa pela terra. Esse tal compreende que é um participante do chamamento celestial. Tanto que quando nos rendemos ao controle do Espírito Santo, seremos guiados para o chamamento celestial exatamente como Rebeca antigamente, consentindo em ir com o servo, foi guiada da terra de seus pais para ter parte com Isaque em uma nova terra (Gn 24). Ignorando a presença do Espírito Santo a igreja estabelecida na terra, aquieta sua consciência pelo muito zelo para o bem do homem.
  1. Estevão, olhando para o céu, vê “a glória de Deus”. Todas as coisas neste mundo falam da glória do homem. Mas o homem cheio do Espírito Santo não está mais ocupado com a glória transitória de homens caídos, mas olha para uma cena onde tudo e todos falam da glória de Deus. “Em Seu templo cada um diz: Glória!” (Sl 29:9).
  1. Ele não vê somente a glória, mas vê a glória de Deus “e de Jesus”. Ele vê um Homem na glória. No lugar mais brilhante do universo, onde Deus é plenamente manifestado em toda a Sua infinita perfeição, ele vê um Homem. Todos os outros homens estão destituídos da glória de Deus, mas ao menos um Homem é encontrado – o Jesus Cristo Homem – que respondeu à glória, manteve a glória e passou para a glória. O capítulo abre com o Deus da glória aparecendo a um homem na terra e termina com um Homem na glória de Deus no céu.
  1. Além disso, o Homem que ele viu no céu – Jesus – está em pé a “direita de Deus”. Não há somente um Homem na glória, mas aquele Homem está colocado no lugar de supremo poder e honra. Aquele que veio ao mundo em semelhança de fraqueza, que passou por ele como um Homem pobre, que na saída dele foi crucificado em fraqueza, agora no céu ocupa o lugar de mais alto poder e glória.

Toda marca de tenebrosa desonra Amontoada sobre a fronte coroada com espinho Toda profundeza do sofrimento do Seu coração Revelada em satisfeita glória agora.

  1. Finalmente, Estevão pode dizer: “Eis que vejo os céus abertos”. Havia sido desenrolada diante da sua visão uma cena celestial na qual ele vê a glória de Deus. Na glória ele vê um Homem – o Jesus Cristo Homem, e aquele Homem ele vê no lugar de supremo poder. Mas ele vê mais; ele vê que os céus foram abertos para que toda a glória e o poder do Homem no céu estivessem à disposição de um homem na terra. Se o Senhor voltou para o céu para ocupar um lugar de supremo poder, Ele deixou os céus abertos atrás Dele para que todo o amor, poder e graça do Homem no céu possam fluir sobre um homem na terra.

O resultado desta sétupla visão, se assim podemos dizer, é muito abençoadamente colocada no fechamento da cena da vida terrena de Estevão. Ele é um homem na terra controlado pelo Espírito Santo, e conseqüentemente tira todos os seus recursos de Cristo na glória. Como resultado vemos em Estevão um belo exemplo de um homem na terra em meio das mais terríveis circunstâncias, sustentado pelo Homem no céu. Ademais vemos que justamente porque o homem na terra é sustentado pelo Homem na glória, o Homem na glória está representado no homem na terra. Estevão, elevado acima de todo pensamento de si próprio, se torna uma testemunha radiante do caráter de Cristo no céu. Como Seu Mestre ora por seus inimigos, encomenda seu espírito ao Senhor e lidera a grande lista de mártires ao selar seu testemunho com seu sangue.

Em Estevão então nos é permitido ver os resultados práticos que fluem de um crente individual sendo controlado pelo Espírito Santo na terra e que tira seus recursos de Cristo no céu. O que foi tão abençoadamente mostrado em Estevão ainda é o pensamento de Deus para Seu povo hoje, e vendo que Cristo está na glória e o Espírito Santo ainda está na terra, é ainda possível corresponder à mente de Deus.

                                                                                             CINCO

Além disso, a Palavra de Deus não somente apresenta a realização destes dois grandes fatos no caso de um crente individual, mas nos é permitido ver companhias de santos governados e caracterizados por estes fatos. Em Atos 9:31 lemos: “Assim, pois, a igreja em toda a Judéia, Galiléia e Samária, tinha paz, sendo edificada, e andando no temor do Senhor; e, pelo auxílio do Espírito Santo, se multiplicava.”. Aqui temos as assembléias cristãs marcadas por duas coisas: eles andavam no temor do Senhor e no conforto do Espírito Santo. Resistidos e perseguidos pelo mundo religioso daqueles dias, eles eram dirigidos e sustentados pelo Senhor na glória e guiados pelo Espírito Santo na terra.

Não muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos ou nobres se encontravam nestas assembléias. Visto que a maior parte destes que formavam estas companhias foram trazido de entre os tolos, os fracos e os vis deste mundo, os quais como Pedro e João eram homens incultos e ignorantes. E, contudo aos olhos do Senhor eles eram a excelência da terra nos quais Ele encontra Seu prazer e com os quais o Espírito Santo está contente em habitar. Sem a prosperidade mundana, sem o credo e cláusulas da religião humanamente inventada, sem o cabeça ou guia visível, sem nada que de fato apelasse a vista ou que o natural pudesse apreciar ou no qual a carne pudesse se vangloriar, eles prosseguiam em seu caminho de peregrinação como os resgatados do Senhor, com canções e perpétua alegria, pois estavam em seu caminho á cidade que tem fundamentos em companhia do Senhor na glória e do Espírito Santo na terra.

Sem Cristo e o Espírito Santo eles não tinham nada, pois a terra estava fechada atrás deles, mas com Cristo e o Espírito Santo tinham tudo, pois o céu estava aberto diante deles. Não é de se admirar que eles desfrutassem de descanso e edificação, conforto e multiplicação. Para quão distante, alias, a cristandade se moveu deste simples e belo quadro. As assembléias não se agarraram ao Cabeça no céu e ignoraram o Espírito Santo na terra. Como resultado há entre o povo de Deus inquietação e inanição, fome e desintegração. Ainda que Cristo na glória permaneça o mesmo ontem, hoje e sempre, e o Espírito Santo habite conosco para sempre. Não há mudança nas Pessoas Divinas. Se então, ao se separarem da corrupção da cristandade, mesmo que poucos ainda olharão para Cristo no céu como seu único recurso e se submeterão ao controle do Espírito Santo na terra, não encontrarão eles no final da história da igreja, igualmente como no princípio, alguma medida de descanso, edificação, conforto e multiplicação?

                                                                                             SEIS

A consideração da história de Estevão e das antigas assembléias traz para diante de nós outro grande fato de que o cristianismo coloca nossos pés em um padrão que demanda, a cada passo, o exercício da fé. A este respeito o cristianismo está em contraste direto ao judaísmo. O sistema judaico foi intencionalmente uma ordem nacional e terrena. Tudo naquele sistema – o templo com as valiosas pedras, os sacerdotes com suas belas vestes, os cantores com seus instrumentos, o altar com seus sacrifícios – apelavam para a visão e o sentimento. Suas leis e preceitos regulavam cada detalhe da vida natural presente, mas estava em silêncio quanto ao céu, a vida futura e as coisas invisíveis. Que existiram grandes homens em conexão com aquele sistema está além de questão, mas o sistema em si mesmo demandava obediência do homem natural mais do que a fé de alguém nascido de novo. No cristianismo, independente da necessidade ela influenciará grandemente a vida aqui, somos uma vez trazidos para a relação com o celestial e o invisível, e acima de tudo, com as Pessoas Divinas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Aqui de imediato a fé é uma necessidade já que somente pela fé podemos conhecer o Pai, ver a Jesus coroado de glória e honra, ou perceber a presença do Espírito Santo na terra.

Contudo se olharmos para a cristandade hoje, seremos imediatamente confrontados com o solene fato de que ela voltou a uma ordem judaica das coisas, marcada por todas as coisas que apelam à visão e ao sentimento, com muito pouco que demande o exercício da fé. Como resultado as grandes verdades distintas do cristianismo são pedidas. Cristo na glória como o ressurreto e exaltado Cabeça da Igreja é colocado de lado por cabeças humanas designadas, e a presença do Espírito Santo na terra é pela maior parte totalmente ignorada.

Se, entretanto, Cristo na glória e o Espírito Santo na terra são ignorados, isso deve invariavelmente conduzir à perda de todo o verdadeiro entendimento daquele grande mistério – Cristo e a Igreja – e do chamamento celestial e o propósito de Deus, como o resultado de que os verdadeiros cristãos não se levantarão mais para pregar o evangelho para buscarem a necessidade do homem, enquanto que o grande amontoado de meros professores prepara o caminho para a grande apostasia.

                                                                                            SETE

Se, entretanto, pela misericórdia de Deus os olhos de uns poucos foram abertos para verem as verdades distintivas do cristianismo e do grande afastamento destas verdades na cristandade, o que estes devem fazer? Devem eles permanecer nos sistemas eclesiásticos os quais pela sua constituição ou prática coloca de lado o Senhorio de Cristo e a presença do Espírito? Dispõe a Escritura de alguma luz para o curso que deveriam estes tomar, aos quais os olhos foram abertos para estas grandes verdades e que desejam responder a elas?

É impossível pensar que Deus tenha deixado Seu povo sem nenhuma direção para um dia mal. Lemos em 2 Timóteo 3:16-17: “Toda a Escritura é divinamente inspirada, é proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra”. Assim podemos estar seguros de que há luz para mostrar o padrão divino em um dia mau. Por meio da ignorância ou maus ensinamentos podemos falhar em discerni-la. Podemos ser tão devotos ao sistema nacional e hereditário dos homens que até mesmo nos oporemos a ela. Podemos através da indiferença e carência do exercício falhar no caminhar nela. Todavia Deus tem uma estrada através deste mundo desértico para o resgatado do Senhor, e Ele deu luz para que pudéssemos discernir este caminho em um dia de ruína.

Esta luz não está confinada a uma escritura. A segunda epístola a Timóteo, a segunda epístola aos Tessalonicenses, a segunda epístola de Pedro, as epístolas de João e de Judas, as missivas às sete igrejas em Apocalipse 2 e 3, todas têm em vista a ruína na responsabilidade da Igreja e de uma forma especial dá luz para o padrão cristão nos últimos dias. Além disso, temos na epístola aos Hebreus uma luz muito especial para aqueles que se encontram ligados com os sistemas religiosos formados de acordo com o padrão do judaísmo.

Esta epístola (Hebreus) foi escrita aos crentes judeus que estavam em perigo de retornarem do cristianismo para o judaísmo. Para opor a este perigo, Cristo é apresentado ao coração deles. A glória da Sua pessoa, a glória do lugar que Ele possui á destra de Deus, a graça e compaixão do Seu coração como nosso Sumo Sacerdote, e a eficácia da Sua obra, tudo passa diante de nós para atrair nosso coração. E deste modo nos puxar para fora de todo sistema religioso na terra e prender nosso coração a Ele no céu. Esta é a razão da grande exortação no encerramento da epístola: “Saiamos, pois, a Ele fora do arraial, levando o Seu vitupério” (Hb 13:13) . Um grande alvo da epístola é de mostrar que se Cristo aparece diante da face de Deus no céu, Ele toma um lugar fora do sistema religioso dos homens na terra. Se Ele foi para dentro do véu Ele também saiu fora do arraial. Assim a exortação ao crente é de sair do arraial para alcançar a companhia de Cristo no lado de fora.

Aqui então está a razão escritural e a autorização escritural para deixar os sistemas religiosos dos homens. Fazemos assim, não simplesmente porque há uma grande quantidade de mal nestes sistemas, mas porque Cristo está do lado de fora destes sistemas e desejamos alcançá-Lo e dar a Ele Seu lugar. Nós “saímos… a Ele”.

                                                                                        OITO

A questão, entretanto, pode surgir: ´Qual é o significado de “arraial”, e como este termo pode cobrir em seu significado os sistemas religiosos da cristandade a ponto de nos autorizar a deixá-los?

Primeiro, vamos notar que qualquer que seja o significado de arraial, ele é algo do qual é dito que Cristo está fora. Três vezes em três versos de Hebreus 13:11-13 temos a palavra “fora”. No verso 11 é usada em conexão com o tipo, no verso 12 em conexão com o grande antítipo e no verso 13 em sua aplicação com os crentes.

Sob a lei, o corpo do sacrifício (oferta pelo pecado) era queimado fora do arraial. No antítipo, Jesus, para que Ele fosse colocado a parte do Seu povo de cada coisa incompatível à santidade de Deus, sofreu o julgamento dos pecados no lugar de renúncia. Mas para consumar sua grande obra foi para fora do sistema religioso (judaísmo) que em seu princípio foi sancionado por Deus, mas em sua história se tornou corrompido pelo homem. Este sistema é colocado diante de nós sob a figura de um arraial ou uma cidade; ambas as figuras apresentam a mesma idéia de um ordenado sistema religioso adaptado ao homem natural, mas em diferentes circunstâncias – em movimento em uma hora e estabelecido em outra. Mas o que, mais precisamente, é o arraial? O arraial representa um sistema religioso terreno, originalmente levantado por Deus, fazendo seu apelo ao homem natural e composto de pessoas em relacionamento exterior com Deus. Indo a Hebreus 9 encontramos nos versos 1-10 a descrição do arraial.

  1. Ele era marcado por um santuário terreno com magnificentes vasos e mobiliário (versos 1,2).
  1. Havia um relicário interior para este santuário terreno, coberto por fora e conhecido como “o lugar santíssimo”.
  1. Em conexão com o santuário terreno existia uma ordem de sacerdotes, distintos do povo, que se devotavam ao serviço do santuário e sobre os quais estava o sumo sacerdote (versos 6,7).
  1. Havia pessoas (verso 7) distintas dos sacerdotes e que não tinham parte direta no serviço do santuário.
  1. O sistema, como tal, significava (enquanto durou) que não havia acesso direto a Deus (verso 8).
  1. Este santuário terreno com seus sacerdotes e sacrifícios, não poderiam conceder uma consciência purificada.
  1. Há uma omissão significativa. Não há o conceito de alguma reprovação conectado a este sistema religioso terreno.

Assim é a descrição do arraial em seus aspectos significativos conforme apresentados na Palavra de Deus. Mas a Palavra também apresenta o cristianismo em toda a sua beleza como o exato contraste com o arraial. A companhia dos cristãos é composta de pessoas, não em mero relacionamento exterior com Deus pelo nascimento natural, mas em relacionamento vital pelo novo nascimento. Ao invés da adoração em edifícios magnificentes ele introduz uma adoração viva “em espírito e em verdade”. Em lugar de uma classe especial de sacerdotes distintos dos leigos, todos os crentes são sacerdotes com Cristo seu grande Sumo Sacerdote. Ainda mais, o cristianismo traz com ele a benção de uma consciência purificada e acesso direto a Deus. Ainda mais, uma vez que isso abre o céu para o mais simples dos crentes, isso acarreta na terra o vitupério de Cristo.

Tendo diante de nós as diferenças características entre o “arraial” judaico e a companhia cristã, podemos facilmente testar o grande sistema religioso dos homens. Ostentam estes grandes sistemas universais, nacionais ou não conformistas dos homens as características do arraial ou aqueles do cristianismo? Infelizmente, fora de questão, a verdade nos compele a admitir que eles estão estruturados segundo o padrão do arraial. Eles adotaram um santuário terreno com seu relicário interior cercado; eles ordenaram uma classe especial de sacerdotes sob a direção de um sacerdote supremo que se coloca entre Deus e o povo, resultando que estes sistemas, como tais, não dão acesso direto a Deus e não purificam a consciência. Estes sistemas reconhecem o homem na carne, apela para o homem na carne e estão assim constituídos como que para aceitar o homem na carne. Por esta razão com eles, não há vitupério.

Então, são tais sistemas o arraial? Estritamente não são. Em um sentido são piores do que o arraial visto que são como meras imitações estruturadas segundo o padrão do arraial, com certos suplementos cristãos. O arraial foi em seu princípio estabelecido por Deus, mas estes grandes sistemas foram originados pelo homem, não obstante sinceros e pios pudessem ter sido. Por essa razão se a exortação aos crentes judeus era para ir para fora do arraial, quanto maior encargo está sobre o crente hoje para ir para fora daquilo que é uma mera imitação do arraial.

                                                                                           NOVE

Aqui então temos nossa autorização para sair dos grandes sistemas religiosos dos homens, mas vamos nos lembrar que nós o fazemos a fim de vir para baixo da direção de Cristo na glória e do controle do Espírito Santo na terra. Tivemos nossos olhos abertos para ver que é impossível permanecer nestes sistemas e dar a Cristo o Seu lugar ou ao Espírito Santo o Seu lugar. Ainda que para nossas histórias atuais, uma variedade de razões podem ter nos influenciado em deixar estes sistemas. Mas é de importância primária ver que o verdadeiro motivo escritural para deixar estes sistemas é “sair para Ele”. Sair daquilo que aprendemos ser maligno é meramente negativo. Ninguém pode viver de negativos. Sair para Cristo é positivo. Isso de fato envolve separação muito mais daquilo que é maligno, mas é antes de tudo separação para Cristo – uma separação que nos dá um Objeto positivo para o coração. Se formos movidos por qualquer motivo menor poderemos estar em perigo de voltar e construir novamente as coisas que destruímos. Aqueles que vão em frente de forma leve podem voltar de forma leve, mas a alma que atuou pelo verdadeiro motivo sai da ordem-arraial da religião para vir para baixo da influência de Cristo e do Espírito Santo.

Este lugar do lado de fora com Cristo é um dos maiores privilégios e correspondente responsabilidade. De privilégio, pois o que pode ser mais abençoado do que vir para a companhia de Cristo ressuscitado e sob o controle do Espírito. De responsabilidade, pois a companhia de Cristo e do Espírito demandará a exclusão de todo mal – moral, doutrinal, eclesiástico – incompatível com a presença das Pessoas Divinas.

Vir a este lugar é muito diferente de meramente deixar uma seita porque ela tem más doutrinas ou más práticas ou mau procedimento eclesiástico, tais como o ministério de um só homem. Podemos de fato nos separar de algum sistema e ir nos reunir em algo mais no modelo escritural, reunidos como simples crentes e rejeitando o ministério de um só homem, e ainda assim não atingir o objetivo de ir a Cristo e dar ao Espírito Seu lugar. E como resultado fazemos somente mais uma seita que abre a porta para uma grande quantidade de vontade própria pelo ministério de qualquer homem.

Além disso, este lugar fora com Cristo não é apenas um lugar de privilégio e responsabilidade, mas é de vitupério. Nos versos que consideramos (Hb 13:2- 13) o lado de fora é visto de duas formas; o primeiro, como o lugar de julgamento e o segundo, como o lugar de vitupério. Em maravilhosa graça, Cristo foi para fora dos portões carregando tanto o julgamento de Deus contra os homens como o vitupério dos homens contra Deus. Ele pode dizer: “As afrontas dos que te afrontam caíram sobre mim” (Sl 69:9) . Ninguém a menos de Cristo poderia carregar o julgamento de Deus, mas outros podem tomar parte nos vitupérios dos homens. Por essa razão, porquanto Cristo foi para fora dos portões carregando nossos pecados, somos chamados para sair para fora dos portões carregando Seu vitupério. Se a graça de Deus nos associou à glória de Cristo no céu, ela nos deu também o grande privilégio de tomar parte no vitupério de Cristo na terra. As riquezas de Cristo no céu impõem o vitupério de Cristo na terra. O sistema judaico deu ao homem um grande lugar na terra, mas nenhum lugar no céu. O cristianismo dá ao crente um lugar abençoado no céu, mas nenhum lugar na terra exceto o do vitupério.

Porém se nós uma vez entendermos que estamos na companhia de Cristo e do Espírito Santo, consideraremos “o vitupério de Cristo maior riqueza do que os tesouros do Egito”. O que é mais abençoado ou mais maravilhoso do que uma companhia de pessoas em seu caminho para a gloria em companhia do Senhor Jesus Cristo e do Espírito Santo? Tais pessoas de fato podem ser pobres e fracas em si mesmas, com nenhum credo humano para manter a sã doutrina, nenhuma cláusula da religião para manter a ordem, nenhum ritual ou cerimônia para conduzir suas reuniões da assembléia ou seu serviço ao Senhor. Contudo, tendo Cristo na glória como seu Cabeça e o Espírito Santo na terra para os controlar, terão mais do que todos os sistemas que os homens piedosos jamais imaginaram porque terão todos os vastos recursos da Divindade a sua disposição, pois em Cristo toda a plenitude da Divindade se deleita em habitar. Quão grande então o encorajamento para nossa fraca fé para agir sobre a exortação: “Saiamos para fora a Ele”.

                                                                                                  DEZ

Pode ser que somente uns poucos tenham fé para obedecer à exortação. Estes que o fazem se encontrarão não somente em um lugar de grande benção, mas em um lugar onde muito do que é de acordo com a Palavra de Deus, pode ser ali cumprido de forma simples – coisas que somente seriam possíveis de forma limitada àqueles que permanecem no arraial. Isso está estritamente indicado pelo escritor aos Hebreus, nos versos que se seguem no capítulo 13.

  1. Para estes no lado de fora é comparativamente simples se vestirem do caráter peregrino, como o escritor diz: “Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura” (verso 14).
  1. Estes que foram libertos das restrições dos sistemas humanos, podem adorar em espírito e em verdade. Deste modo somos exortados a “oferecer sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (verso 15).
  1. Estes neste lado de fora não serão indiferentes às necessidades físicas dos homens, pois “não se esqueceram da beneficência e comunicação, porque com tais sacrifícios Deus se agrada” (verso 16).
  1. Eles também cuidarão das almas, como lemos: “eles velam por vossas almas” (verso 17).
  1. Libertos do impedimento ritual dos homens estarão aptos a se aproximarem de Deus em oração, por isso: “Orai por nós” (verso 18).
  1. Eles estarão em um lugar onde é possível fazer a vontade de Deus, como lemos: “para fazerdes a Sua vontade” (verso 21).
  1. Eles estarão em um lugar onde é possível serem agradáveis aos Seus olhos, como lemos: “operando em vós o que perante Ele é agradável por Cristo Jesus” (verso 21).

                                                                                                 ONZE

Vendo então o caminho que está aberto para nós pela Escritura, e vendo algo da bem-aventurança deste caminho, possamos nós ter graça e fé para deixar tudo o que é do homem e entrar na estrada que tem sido deixada para o resgatado do Senhor. Por maior que seja nossa falha individual, por maior que seja a ruína da igreja em sua responsabilidade, estes dois tremendos fatos ainda permanecem. Cristo ainda é o Homem na glória à direita de Deus e o Espírito Santo ainda está na terra, e por isso ainda é possível responder à exortação “Saiamos para Ele”.

Com estes dois fatos estupendos a igreja foi formada e começou seu caminho de peregrina; com estes dois fatos ela tem sido mantida através das longas eras, e com estes dois fatos ela irá no final encerrar sua jornada terrena, pois antes de Deus fechar o Seu livro temos uma última visão da igreja na terra como a Noiva que espera, guiada pelo Espírito na terra e ouvindo a Jesus na glória (Ap 22:16-17).

No curso de sua jornada através deste cenário, quão grandemente estes fatos têm sido obscurecidos! Quanto tem sido aceito que é totalmente inconsistente com eles, mas no final a igreja, despida de todo recurso humano, de todo artifício religioso e todo auxílio mundano, passará para a glória no poder dos dois grandes fatos de que Jesus está na glória e o Espírito Santo presente com a igreja na terra.

Grande de fato tem sido a queda e pequena de fato tem sido a avaliação do vasto recurso envolvido nessas verdades. Contudo porque Jesus continua na glória, o mesmo ontem, hoje e sempre, porque o Espírito Santo permanece com a igreja sempre, o resgatado do Senhor no final entrará na cidade celestial com canções e alegria perpétua sobre suas cabeças. Ali eles terão alegria e contentamento, e sofrimento e lamento desaparecerão.

Traduzido do livro: “Gleanings on the Church – Section I” (Considerações sobre a   Igreja Seção I)

Autor: Hamilton Smith

Publicado pela: Belivers Bookshelf Inc – Canadá

Plubicado no Brasil pela Editora Restauração

O Sentido da palavra Igreja

O sentido da palavra Igreja para os cristãos primitivos em confronto com o seu sentido atual.

                              INTRODUÇÃO

Uma vez criada, toda palavra está sujeita a ter o seu sentido modificado com o passar do tempo. Com a palavra igreja, originária do grego ekklesía, não foi diferente. Portanto, o que se pretende na abordagem desse tema é mostrar a discrepância existente entre o sentido atual e o sentido original, e, com isso, fazer ver que aplicar o sentido atual na interpretação de textos antigos da era apostólica não implica só em cometer distorções inconcebíveis, por violar princípios elementares de exegese, como também adotar procedimentos perigosos possíveis de levar a conclusões equivocadas. Sendo assim, não se pode ignorar que as palavras são resultantes do duplo processo de nomeação e evolução dos valores de sentido, fato esse provavelmente ignorado pela maioria das pessoas.
As palavras mudam de sentido com o decorrer do tempo, fenômeno este conhecido por metassemia e que pode se constituir em fonte de ambiguidade na conversação. Um exemplo típico disso ocorreu com a palavra vilão, que na Idade Média designava o morador de uma vila, enquanto hoje serve para designar um malfeitor, um bandido. Nesse caso a palavra vilão foi contaminada pejorativamente pelo comportamento dos habitantes da vila que trapaceavam os camponeses que a frequentavam.

Outro caso semelhante é o da palavra formidável citada por Bueno (1951:75), o qual relata que, aparecendo num livro do século XIX, teria o sentido de algo apavorante, que incute medo, a exemplo de animal formidável e exército formidável, mas que atualmente teria o sentido de algo que desperta admiração, que é excelente, a exemplo de livro formidável e festa formidável, isto é, um sentido totalmente diferente do sentido etimológico original. A palavra continua sendo a mesma, mas o sentido que ela passou a ter num texto atual é outro.

Curioso ainda é o que ocorreu com a palavra pagão, cujo significado antes do século III era o de morador do campo, e que, depois do século III, quando o Cristianismo se urbanizou, passou a significar todo aquele que não é cristão; e, mais tarde, um praticante da feitiçaria, de acordo com Viola (2011: 213-214).

O SENTIDO ATUAL

Algo parecido com os exemplos referidos ocorreu também com a palavra igreja em português, originária do grego ekklesía, através do latim ecclesia, com a significação etimológica de assembleia, e que serve para nos mostrar a importância de, sempre que se ler um texto antigo, a exemplo de um texto bíblico, verificar se o sentido das palavras que aparecem nele corresponde ou não ao sentido assumido por elas atualmente.

Não resta dúvida de que ao se mencionar a palavra igreja nos dias de hoje, logo surge em nossa mente o nome de uma instituição, a imagem de um prédio com bancos enfileirados, uma plataforma com um púlpito, a figura de um sacerdote (pastor, padre, etc) que profere um sermão e dirige uma liturgia, assessorado ou não por um grupo de louvor (ou coral) dentro de uma organização religiosa que pode ter um gabinete pastoral, uma secretaria, uma tesouraria e até mesmo uma série de subdivisões do tipo sociedade de senhoras, sociedade de homens, grupo de jovens, presbitério, junta diaconal, confederação nacional dos bispos, etc.; ou pensamos em todos os membros das diversas organizações religiosas cristãs espalhadas pelo mundo.

O SENTIDO PRIMITIVO

Mas será que para os cristãos do primeiro século a palavra igreja evocava em suas mentes o mesmo significado que evoca para nós hoje?

Fazendo uma leitura imparcial, atenta, destituída de preconceito religioso dos óculos denominacionais e sem deixar de levar em conta a Linguística Textual com os seus fatores linguísticos de contextualização, de coesão, de coerência e de pragmática (a intencionalidade, a informatividade, a situacionalidade, a aceitabilidade e a intertextualidade), não há como não constatar que o sentido da palavra igreja para os cristãos primitivos quase nada tem a ver com o sentido que ela tem para os cristãos de hoje, da mesma forma que aconteceu com a palavra vilão (que hoje não significa mais habitante da vila), com a palavra formidável (que hoje não significa mais algo apavo-rante, que incute medo) e com a palavra pagão (que hoje não significa mais morador do campo).

Proveniente da palavra ekklesía, que designava os cidadãos que na antiga Grécia se reuniam em assembleia no fórum da cidade para tomar decisões, a palavra igreja era compreendida pelos cristãos do primeiro século não como uma organização com um prédio onde as pessoas comparecem pelo menos uma vez por semana para assistir a um culto ou a uma missa; e, depois, retornam aos seus lares para viverem as suas vidas individuais em suas famílias independentes umas das outras. Não, muito pelo contrário! Os cristãos primitivos jamais diriam vamos à igreja, porque para eles a igreja eram eles mesmos, unidos por laços fraternos de amizade. E a concepção que eles tinham da igreja expressa nas páginas do Novo Testamento era a de uma família espiritual composta de membros que se amavam e se importavam uns pelos outros, mais até do que pelos da família biológica. Prova disso é que quando Jesus foi advertido com as seguintes palavras: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te, sua resposta (que pode parecer até estranha ou mesmo chocante para quem valoriza mais a família biológica) foi: Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe (Mt 12.47-50). Também em outra oportunidade Ele manifestou o grande apreço que tinha pela família espiritual (a igreja) ao dizer: Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim (Mt 10.37). Parafraseando, é mais ou menos como se tivesse dito: “Quem ama os seus pais mais do que ama um cristão, seu irmão na fé, não é digno de mim; e quem ama os seus filhos mais do que ama um cristão, seu irmão na fé, não é digno de mim”.

A REDEFINIÇÃO DO SENTIDO

O ensino cristão de que somos o corpo de Cristo, e seus membros em particular (1Co 12.27) do qual Cristo é a cabeça (Ef 5.23) implicou na redefinição do conceito original de igreja para significar mais do que meramente uma assembleia, levando os cristãos primitivos a terem uma alta estima entre si por se reconhecerem como partes de Cristo aqui na Terra, de modo que se alguém agredisse ou perseguisse a qualquer um deles, agiria como se estivesse agredindo e perseguindo a própria pessoa de Jesus. É por isso que na indagação feita por Saulo ao Senhor Jesus no caminho de Damasco, por ocasião da sua conversão, a resposta ouvida por ele foi: Eu sou Jesus, a quem tu persegues (At 9.5). Mas Saulo estava a perseguir a igreja e não a Cristo, alguém pode refutar. Só que essa conclusão é equivocada, porque como Jesus e a igreja pertencem à mesma família espiritual da qual Ele é a cabeça, e a igreja (o Corpo) não sobrevive sem a cabeça (Jesus) com a qual está indissociavelmente ligada, perseguir a igreja é o mesmo que perseguir a Jesus Cristo. É o que acontece com a família biológica também, pois quando agredimos ou maltratamos a mãe de uma pessoa ocorre como se estivéssemos agredido e maltratado essa própria pessoa e vice-versa.

Também em Mateus 25.34-46, Jesus diz: … tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me (…). Indagado sobre a ocasião em que aconteceu isso em sua vida, pois parece que nos evangelhos não consta que Jesus tenha passado por todas essas tribulações, Ele respondeu: Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.

Esse trecho ilustra o alto conceito que as Escrituras têm da i-greja e o sentido que a palavra igreja tinha para os cristãos primitivos. A concepção de igreja deles era prática e não teórica. Eles entendiam que ao socorrer um irmão da mesma fé em sua necessidade (de roupa, de afeto, de visitação, de comida, de hospedagem, etc) seja ela qual for, eles estavam socorrendo a Jesus.

Na família biológica também ocorre algo parecido, pois quando presto socorro ao meu irmão biológico em necessidade ajo como se estivesse socorrendo aos pais dele, como se estivesse ajudando e prestando um favor aos pais dele, que também são os meus pais.

Essa concepção de igreja como um organismo vivo, semelhante a uma família de pessoas que se amam não menos do que se amam os membros de uma família biológica e que se doam umas às outras está claramente expressa em vários trechos bíblicos, dentre os quais o de João 19.26-27, naquela cena comovente, em que Jesus na cruz, vendo ali sua mãe, e que o discípulo a quem ele amava estava presente, disse a ela: Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa. Observa-se aqui o alto valor dado a Maria, um membro da família espiritual, não menos importante do que um membro da família biológica. Esse era o conceito apostólico de igreja, vista não como um prédio, não como uma organização religiosa, não como uma instituição insensível e fria, mas como algo muito precioso, como uma assembleia de pessoas que se amam, como pedras vivas atraídas por um sentimento comum de verdadeira amizade e afeto, unidas pela mesma fé na pessoa do seu único chefe (Jesus Cristo), e que se reúnem frequentemente para compartilhar seus dons e para mutuamente se ajudarem.

O CONTRASTE ENTRE OS SENTIDOS

Para o teólogo reformado Brunner (apud Viola & Barna, 2008: 323) a igreja conforme a concebiam os cristãos primitivos era “uma comunhão pura de pessoas, e não tem nada a ver com o caráter próprio de uma instituição”; sendo, por isso, “enganoso identificar qualquer uma das igrejas historicamente desenvolvidas, marcadas por um caráter institucional, como igrejas (Ekklesía)”.

Essa ideia de igreja como família de Deus é também claramente expressa nas cartas paulinas, a exemplo de Efésios 2.19, onde se diz que já não somos estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus; de Romanos 8.29, onde está escrito que os que dantes conheceu também os predestinou para serem conforme à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos, entendendo-se por Filho à pessoa de Jesus Cristo; e de Romanos 12.5, que nos diz o seguinte: Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros.

Os cristãos do primeiro século entenderam tão bem esse conceito bíblico de igreja que viviam exatamente como numa família, pois era um o coração e a alma da multidão dos que criam, como também ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns, conforme lemos em Atos 4.32; sem falar no fato de inexistir necessitados entre eles, porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se por cada um, segundo a necessidade que cada um tinha, como relata Atos 4.34. Na realidade, ao agirem assim eles entendiam que ao socorrerem um irmão necessitado estavam socorrendo o próprio Jesus, a quem amavam muitíssimo, uma vez que criam que a salvação de suas vidas da perdição eterna deviam a Ele.

Hoje, uma atitude como essa seria impensável para uma boa parte das pessoas, exatamente por terem uma concepção de igreja bem diferente, segundo a qual ela se confunde com a organização religiosa da qual pertencem. E é por isso que muitos são movidos a contribuir com dinheiro e com afeto muito mais para a organização do que para um irmão necessitado. Essa também é a razão pela qual surgem tantas organizações religiosas, algumas delas amealhando fortunas em dinheiros, enquanto há tantos necessitados não só de comida mas muito mais até de uma amizade, de uma visita, de um afeto, de uma palavra de consolo, de compaixão.

Outra evidência de que os cristãos primitivos concebiam a igreja como a família de Deus é que eles usavam entre si o tratamento de IRMÃO. Prova disso é que Paulo chama os crentes corintianos de irmãos mais de trinta e cinco vezes em sua carta. Hoje, mesmo que você se identifique como cristão ou até pertença a uma instituição religiosa por mais de um ano, nem sempre será tratado como irmão. Se o seu nome for Maria ou José, provavelmente chamá-lo-ão por Dona Maria, Senhor José ou, se possuir título, Dr. José, Profª Maria, e não irmão José, irmã Maria. E, pior ainda, se for o líder da organização, tratá-lo-ão por Reverendo José, Pastor José, Padre José, Monsenhor José ou Dom José, dentre outras possibilidades, mas dificilmente dirão irmão José. Isso, porque a concepção de igreja mudou não se concebendo mais a igreja como uma irmandade, como uma família espiritual, como um organismo vivo de pessoas que se amam de fato, mas sim como uma organização dividida não só em inúmeras denominações como também em duas classes distintas de pessoas: o clero e o laicato. No primeiro século, como a concepção de igreja era outra, não tinha sentido um cristão chamar outro cristão de senhor, professor, padre, pastor ou doutor, da mesma forma que na família biológica seria um absurdo e até ridículo um irmão chamar o seu irmão de senhor, professor, padre, pastor ou doutor. Não existe isso. Você não encontra em família nenhuma um irmão tratando o outro dessa forma; e como a igreja era concebida como uma família, o princípio se aplicava a ela também. É por isso que em Mateus 23.8,10 e 11 encontramos Jesus dizendo: Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos. Nem vos chameis mestres, porque um só é vosso Mestre, que é o Cristo. O maior dentre vós será vosso servo. A proposta aqui é revolucionária, porque se opõe ao que encontramos no reino dos homens, onde tanto se valoriza títulos e posições, mais até do que se valoriza o caráter de uma pessoa.

PROVAS IRREFUTÁVEIS

Vejamos ainda alguns trechos das cartas de Paulo nas quais há irrefutáveis provas de que a concepção de igreja no primeiro século era a de uma família espiritual, até mesmo superior à de uma família biológica. Em Gálatas 6.10 recomenda Paulo a não nos cansarmos de fazer o bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé; em 1 Timóteo 5.1-2, a não repreender asperamente os anciãos, mas a admoestá-los como a pais; aos mancebos como a irmãos; em Romanos 12.13 recomenda comunicarmos com os santos (os irmãos) em nossas necessidades; e em 1 Coríntios 12.25-26 exorta a não haver divisão no corpo e a ter os membros igual cuidado uns para com os outros. De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele.

Essa é a visão paulina de igreja e é também a dos cristãos primitivos, isto é, a de um corpo de membros interdependentes; a de uma comunidade que pratica a cooperação e a mutualidade; a de um grupo de membros que, de comum acordo, se submetem e se deixam ser dirigidos pela cabeça desse corpo, que é Cristo, mas sem um chefe humano exercendo domínio sobre eles, já que todos são irmãos e entre irmãos as relações são de igualdade e não de hierarquia ou subordinação unilateral. Evidência disso são os inúmeros mandamentos de mutualidade encontrados nos textos bíblicos, dentre os quais os que recomendam os irmãos a amarem-se cordialmente, preferindo-se em honra, uns aos outros (Rm 12.10); a serem misericordiosos e afáveis (1 Pe 3.8); a exortarem-se uns aos outros, a edificarem-se uns aos outros (1 Ts 5.11); a receberem-se uns aos outros (Rm 15.7); a admoestarem-se uns aos outros (Rm 15.14); a saudarem-se uns aos outros com santo ósculo (Rm 16.16); a terem cuidado uns dos outros (1 Co 12.25); a servirem-se uns aos outros (Gl 5.13); a suportarem-se uns aos outros em amor (Ef 4.2); a perdoarem-se, sendo benignos e misericordiosos uns para com os outros (Ef 4.32); a falarem uns com os outros com salmos, hinos e cânticos espirituais (Ef 5.19); a sujeitarem-se uns aos outros (Ef 5.21); a ensinarem uns aos outros (Cl 3.16); a confessarem os pecados uns aos outros, a orarem uns pelos outros (Tg 5.16); a serem hospitaleiros uns para com os outros (1 Pe 4.9) e a terem comunhão uns com os outros (1 Jo 1.7).

Será impossível obedecer a esses mandamentos de mutualidade (que, por sinal, não são opcionais, mas um dever cristão) sem que a igreja funcione como uma família na qual os seus membros, atraídos entre si por um vínculo de amizade, companheirismo e camaradagem, se encontrem frequentemente em reuniões que funcionem com a participação de todos. Só numa comunidade igualitária de irmãos é que haveria liberdade entre eles para o exercício da caridade, da misericórdia, da afabilidade, da exortação, da edificação, da recepção, da admoestação, do cuidado, do serviço, da tolerância, do perdão, da sujeição, da confissão, da hospitalidade e da comunhão. Numa organização religiosa em que as pessoas se limitam a um encontro esporádico dentro de um espaço chamado templo, torna-se inviável essa comunhão, não só pelo fato de a maioria dos fiéis passarem quase o tempo todo ali calados, sem se intercomunicarem, como também porque a visão da maioria é outra, com a ênfase sendo colocada na organização e não nas pessoas. A propósito, dentre outros trechos, encontramos em Mateus 19.21 Jesus dizendo: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me. Por que Ele não recomendou dar pelo menos uma parte do dinheiro dessa venda à organização religiosa, como muitos hoje em dia poderiam pensam, se fosse essa a forma correta de contribuir para acumular tesouro no céu? Por que ele recomendou dar apenas aos pobres? Porque a ênfase e a visão de Jesus, assim como a dos primeiros cristãos, está colocada não na organização, como se a organização fosse algo sagrado, quando de fato não é, mas nas pessoas, dentre as quais se inserem, principalmente, aquelas pertencentes ao organismo vivo chamado igreja. Não foi por acaso que no ministério de Jesus vamos encontrá-lo na maior parte do seu tempo andando com as pessoas, falando com elas, comendo com elas, dialogando com elas, visitando-as, aconselhando-as, socorrendo-as, ouvindo-as; e, poucas vezes, falando sozinho para as multidões.

FIM DO INDIVIDUALISMO

É por isso também que o Cristianismo torna-se inviável entre pessoas individualistas e acomodadas. Sem sair do nosso individualismo egocêntrico para construir laços de amizade com os irmãos não temos como entrar no reino de Deus. Nesse caso, a única alternativa é o reino das trevas, é o reino deste mundo; e, para tanto, basta aderir a um movimento religioso qualquer não comprometido com o alvo de por em prática os mandamentos de mutualidade.
Viola (2009: 110) percebeu muito bem essa concepção de igreja como família ao reconhecer que “a igreja que nos é apresentada nas Escrituras é uma família amorosa, não uma empresa; um organismo vivo, não uma organização estática. Ela é a expressão coletiva de Jesus Cristo, não uma instituição religiosa; é a comunidade do Rei, não uma bem azeitada máquina hierárquica”.

Concebida como um organismo, a igreja do primeiro século se via como parte inseparável de Jesus Cristo, uma vez que, conforme diz Paulo em Colossenses 1.18, ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência.

É por isso que não tem sentido o ensino equivocado de que temos que ser sal e luz no mundo como indivíduos, porque assim como Jesus não pode ser compreendido mais como um indivíduo, o cristão também não pode ser concebido como um indivíduo (isolado) pois todos nós, tendo Jesus Cristo como cabeça, fazemos parte de uma corporação constituída de diversas pessoas convertidas, pois o propósito de Deus é corporativo e não individualista.

NOVO GOVERNO

Sendo assim, “o governo de uma igreja local não é uma autocracia (…), nem uma democracia – é uma cristocracia, porque Cristo é a cabeça” (Figueira, 1991: 178) junto à qual todos os outros membros se unem numa unidade corporativa fraterna. Por outro lado, concebida a igreja como uma família constituída de irmãos, não cabe um chefe espiritual humano exercendo primazia ou autoridade sobre eles, razão pela qual em 1 Pedro 5.3 há a recomendação para que os presbíteros não exerçam domínio sobre a igreja (herança de Deus) e em 1 Pedro 5.1 há a referência de igualdade entre eles ao se referir aos presbíteros que havia ENTRE eles e não SOBRE eles. Dessa forma, como numa assembleia legislativa em que nenhum deputado exerce domínio ou autoridade sobre os outros, nem mesmo o presidente da assembleia, e todos têm direito à palavra e podem se manifestar participando dos debates, também na igreja do primeiro século nenhum dos cristãos exercia primazia sobre os demais nem exclusividade no uso da palavra, pois todos podiam falar quando se reuniam, razão pela qual não havia entre eles hierarquia e muito menos divisões do tipo leigos e clero, jovens e velhos, crianças e adultos, por não ter lógica nem sentido, tanto numa irmandade como numa família, esse tipo de separação, e muito menos alguns terem certos privilégios, certas distinções e outros não. Na família unida por Jesus e tendo Jesus por cabeça nenhum de seus membros quer ficar separado um do outro e todos sentem a falta um do outro, e nenhum dos irmãos almeja ser mais importante ou ter mais regalias e distinções do que o outro, uma vez que a relação entre eles só pode ser horizontal e não vertical. A propósito, Jesus Cristo deixou bem claro que no reino de Deus as coisas caminhariam na contramão do reino do mundo. Quando respondeu à contenda entre os seus discípulos sobre qual deles parecia ser o maior dentre eles, foi taxativo: Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores. Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve (Lc 22.25-26).
No âmbito dessa visão, as palavras presbíteros, bispos e anciãos da igreja primitiva eram usadas, intercambiavelmente, para designar o serviço, dentre outros, de cuidado e supervisão não remunerado exercido por alguns irmãos mais velhos na fé, e não designavam cargo ou profissão, nem se reportavam para uma escala hierárquica; da mesma forma que a palavra diácono, usada para designar os irmãos encarregados do serviço assistencial aos necessitados da igreja. Eram nomes para designar função ou atribuição de serviço (como hoje se usa os nomes de secretário e relator para definir o tipo de serviço dos membros de uma comissão) e não servia para atribuir título honorífico ou ofício vitalício, nem para designar uma classe especial de cristãos, pois isso seria inconcebível na concepção de igreja do primeiro século, onde as relações entre os irmãos era horizontal (sem privilégios) e não vertical (com privilégios). Em oposição a isso, várias organizações religiosas dos nossos dias têm uma concepção de igreja dividida em dois grupos distintos (o clero e o laicato), o que significa não só fragmentar o corpo de Cristo como também ir frontalmente contra o princípio bíblico do sacerdócio de todos os cristãos expresso em 1 Pedro 2.9 ao se referir aos cristãos como o povo de Deus, como geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa. A Reforma Protestante defendeu esse princípio, mas, infelizmente, só na teoria, pois falhou na sua execução. Aliás, o problema da Reforma, sem deixar de reconhecer a sua grande contribuição em prol da fé cristã, parece ter sido mais entusiasmo pela ortodoxia e menos entusiasmo pela ortopraxia, que não deixa de ser também um problema atual; cabendo aqui observar que doutrina correta sem prática correta, além de ser incoerente e promover o orgulho religioso, pode implicar em demagogia e até mesmo em hipocrisia.

UNIDADE LOCAL

Dentro dessa concepção de igreja como família, os cristãos primitivos entendiam também que a Igreja de Cristo na Terra era uma só em cada cidade. É por isso que não encontramos expressões do tipo “nas igrejas que estavam em Antioquia” (no plural), mas sim, como se encontra em Atos 13.1, na igreja que estava em Antioquia (no singular). Observe também que o autor do texto não dá nome à igreja. Ele não diz “na Igreja Pentencostal ou na Igreja Reformada ou na Igreja Católica que estava em Antioquia” porque era inconcebível não só nomear como haver mais de uma igreja cristã numa cidade. Isso seria mutilar o Corpo de Cristo e negar o ministério do Espírito Santo na igreja, o qual promove a união e não a desunião; e, pior do que isso, seria impedir também o ministério evangelístico, ao proclamar para o mundo incrédulo a mensagem de que os cristãos estão desunidos naquela cidade.
Na oração proferida por Jesus momentos antes da sua morte sacrificial em nosso favor fica bem patente essa concepção unitária e não fragmentada de igreja, quando disse: E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. (…) Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, (…). (Jo 17.20-21, 23). Paulo também não tinha outra concepção de igreja que não fosse a de uma igreja unida ao expressar a sua indignação aos coríntios com a seguinte pergunta: Está Cristo dividido? (1 Co 1.13); e ao exortá-los com as seguintes palavras: Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome do nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes sejais unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer. (1 Co 1.10). Hoje, seria utópica essa unidade da parte dos grupos religiosos não só pelo fato de se aceitar com naturalidade entre eles a ideia de uma igreja dividida, como também pelo fato de ser muito raro encontrar pessoas sedentas pela verdade e com sinceridade de propósitos, condição indispensável para que todos cheguem a um denominador comum, a um mesmo pensamento e a um mesmo parecer, como recomendou o apóstolo Paulo.

CONTRASTE DE SENTIDOS

Por outro lado, na cabeça do cristão primitivo, ao ouvir a palavra igreja, ela de modo algum evocaria a existência de um templo ou prédio especial para reuniões públicas, porque eles eram o templo; nem roupas distintivas entre eles para ir a essas reuniões, porque todos eram irmãos que se reuniam na simplicidade de um lar; nem um chefe religioso à frente dirigindo o ritual litúrgico no qual apenas ele fala e os outros assistem calados sem poder participar, porque todos participavam como numa assembleia, e quando havia necessidade de deliberar sobre alguma questão, as decisões eram consensuais; nem uma Ceia na qual se come apenas um pedaço minúsculo de pão e se bebe apenas uma porção muito pequena de vinho, porque a Ceia era uma refeição completa num ambiente festivo; nem um seminário destinado à diplomação de uma classe distintiva de clérigos, porque a própria igreja era o seminário e não havia acepção de pessoas entre eles; nem a existência de cantores solo, grupos de louvor ou coral nas reuniões, porque o cantor, o grupo de louvor e o coral eram eles mesmos cantando todos juntos para a glória de Deus.

Logo, se ressuscitasse um cristão do primeiro século e entrasse hoje em alguns prédios denominados igreja, ele ficaria perplexo, sentindo como se estivesse entrando numa empresa, ao ver na fachada o logotipo com o nome da organização e, dentro dela, uma secretaria, na qual se encontra um livro de atas, um planejamento estratégico, um computador, etc., tudo isso sob os cuidados de uma funcionária remunerada. Além disso, ele encontraria também um gabinete pastoral, uma tesouraria e, dentre outros departamentos, um grande salão parecido com uma sala de espetáculos com cadeiras enfileiradas para a plateia, uma plataforma elevada com púlpito, aparelhos de som, amplificadores, refletores, bateria, guitarra, teclado, órgão, etc., recebendo no final da visita o convite para assistir o ritual litúrgico. Caso aceitasse o convite, até poderia se deleitar com os hinos cantados pelo coral, o som belíssimo do órgão, o solo do cantor, o sermão cheio de floreados retóricos do pregador, fazendo uma ressalva apenas no contraste brusco do chamado momento de louvor, por achar estranho as pessoas ficarem de pé enquanto cantam sem que alguém explique a razão para isso, e por não vê coerência em se misturar a harmoniosa música sacra inicial com o estilo mundano e barulhento das bandas de rock, em altos decibéis, responsável pelo incômodo e pelo prejuízo à saúde auditiva e psíquica de todos; mas sentiria uma falta enorme da igreja reunida no aconchego das casas dos irmãos em que todos participam, tal como menciona Paulo em Colossenses 4.15, ao enviar saudações a Ninfa e à igreja que estava em sua casa; e não confundiria a igreja verdadeiramente dita, a casa de Deus, com uma edificação feita por mãos humanas (a exemplo de uma catedral ou de um prédio religioso), conforme se lê em 1 Coríntios 3.16: não sabeis vós que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?, já que o templo, na concepção bíblica de igreja, passa a ser os cristãos, as pessoas, e não o prédio, uma vez que o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens, segundo doutrina Atos 7.48; e muito menos confundiria o ritual litúrgico ou a ordem de culto com o culto propriamente dito, já que, segundo afirma Davies (apud Viola & Barna, 2008: 48), citando João 4.23, “o culto não é algo que acontece em um determinado lugar em um certo momento. É um estilo de vida. O culto acontece em espírito e em verdade dentro do povo de Deus, porque é onde Deus vive hoje”.

DIFERENÇA NA DIREÇÃO

Outro diferencial na concepção de igreja dos cristãos primitivos é que nela ninguém era espectador e todos participavam num ambiente isento de ritualismo e de um dirigente falando quase o tempo todo e exercendo domínio manipulador sobre os demais, como se depreende da leitura de 1 Coríntios 14.26 ao lermos o seguinte: Que fareis pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação. Observe que o texto é claro ao dizer cada um, sem excluir ninguém. Isso prova a participação plural, a participação coletiva de todos, e não a participação singular de apenas uma pessoa nas reuniões coletivas, principalmente levando-se em conta que uma igreja de tamanho médio nas casas não tinham muito mais do que trinta pessoas, em virtude da própria limitação do espaço de uma casa. Também, em 1 Coríntios 14.31, há evidências da participação coletiva, e não de uns poucos, quando se diz: Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados, cabendo observar que profetizar não quer dizer, necessariamente, fazer previsão do futuro. Por conseguinte, a correta compreensão desses trechos supracitados exclui a participação do sacerdote solo, isto é, a de um oficiante na congregação desempenhando sozinho o papel de pregador e dirigente com primazia sobre os demais, porque, conforme o puritano Johns Owen (apud Viola, 2008: 296) escreveu, “cada igreja (…), era um seminário onde se providenciava a provisão e a preparação”, deduzindo daí que todos os cristãos passavam por uma formação prática e vivencial na companhia dos outros irmãos, seguindo o exemplo de Jesus Cristo, e que o termo pastor, bem entendido, não designava cargo, ofício ou título, sendo mais propriamente uma metáfora para indicar a função desempenhada por um cristão que se colocava em pé de igualdade com os demais, sem qualquer pretensão hierárquica.

Percebendo essa problemática toda envolvendo a figura do pastor como líder eclesiástico é que Viola & Barna (2008: 163) indagam: “Como pode o pastor aprender dos demais membros do Corpo de Cristo quando estão sempre mudos? Como pode a igreja aprender do pastor quando seus membros não podem fazer perguntas durante sua oratória? Como podem os irmãos e irmãs aprenderem uns dos outros se todos estão impedidos de falar nas reuniões?” A essas indagações poderíamos ainda acrescentar: Como pode o pastor ser pastoreado sem estar sujeito ao pastoreio dos outros irmãos e sem se colocar em posição de igualdade com eles? Essa problemática certamente não havia no primeiro século em que a concepção de igreja era plural, era coletiva, era a de um grupo de amigos, era a de uma família espiritual convivendo num relacionamento dialógico; jamais monológico.

CONCLUSÃO

De tudo o que foi dito até aqui, pode-se concluir, então, que o sentido da palavra igreja para os cristãos primitivos é bem diferente do seu sentido atual, passando a palavra igreja até a ser ambígua, pois hoje tanto pode significar um prédio onde os fiéis se reúnem, quanto uma organização religiosa dirigida por uma classe especial de profissionais distinta dos demais e até mesmo uma federação de igrejas locais sob o governo de um presidente eleito por seus representantes.

Nada disso tem a ver com o sentido da palavra igreja encontrado no texto bíblico e que era como entendiam os cristãos primitivos, para os quais a igreja não era vista como uma organização, como uma empresa, mas como um organismo vivo constituído apenas de pessoas numa determinada localidade, unidas por um vínculo de amizade mediante a operação do Espírito Santo em seus corações e que se reuniam nos lares, onde todos podiam participar (sem que ninguém exercesse proeminência entre eles) com o propósito de se edificarem mutuamente, pondo em prática os mandamentos de mutualidade, orando, cantando, estudando as Escrituras e realizando a Ceia comunitária à qual denominavam festa do amor. Entendiam assim que o Cristianismo não tinha templo nem classe sacerdotal distinta dos leigos nem sacrifício, por se considerarem pedras vivas, (… ) edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo, como se encontra expresso em 1 Pedro 2.5; e também em Hebreus 13.15-16, onde se lê: Portanto ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome. E não vos esqueçais da beneficência e comunicação, porque com tais sacrifícios Deus se agrada. Ou seja, o templo somos nós como cristãos verdadeiramente convertidos, não é um prédio, o que significa dizer que não há mais um prédio sagrado como houve o templo de Jerusalém; o sacerdócio agora é exercido por todos os cristãos e não mais por uma classe sacerdotal como havia no Judaísmo; e o sacrifício agora consiste não só no reconhecimento sincero através dos nossos lábios, em atitude de gratidão, do quão bom tem sido Deus para conosco, principalmente por enviar o seu Filho para morrer na cruz em nosso favor e ressuscitá-Lo depois de três dias, como também nos atos de caridade e de ajuda sacrificial em prol dos nossos irmãos que vieram em substituição aos sacrifícios de animais do Judaísmo.

Cientes de que a prova de autêntica conversão ao Cristianismo é o amor que se passa a ter pelos irmãos da mesma fé, conforme registra 1 João 3.14: nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama a seu irmão permanece na morte, é que os cristãos do primeiro século concebiam a igreja como um grupo de amigos que se reuniam pelo menos semanalmente, uma vez que o amor cristão não é platônico, não se concretiza à distância, e não existe sem se manifestar visivelmente através dos vínculos afetivos de amizade. Para eles, igreja sem amor, sem amizade, sem comunhão, sem vínculo afetivo igual ou até maior do que o existente na família biológica não existe, não é igreja. Pode até ser um ajuntamento de pessoas que se encontram frequentemente para assistir a uma apresentação, a um espetáculo, a um culto ou a uma missa, mas onde ninguém se importa com ninguém, ninguém tem compromisso de formar laços de amizade com ninguém, ninguém quer se envolver com a vida de ninguém, ninguém tem prazer de ajudar ou socorrer ninguém; e, assim, depois que termina a apresentação, o espetáculo, o culto ou a missa, cada qual vai para sua casa viver a sua vida individualista com seus filhos, com sua família biológica, esquecendo-se da família de Deus, da família espiritual, da família de Jesus, sem ter consciência de que ao agir assim está desprezando a Jesus e está negando a sua conversão. Isso não é Cristianismo, é outra coisa bem diferente do que biblicamente se concebe por Cristianismo. É por isso que em nossa cultura ocidental pós-cristã onde reina o individualismo e onde se dá mais valor ao dinheiro do que à amizade ou a qualquer outra coisa, o Cristianismo autêntico se coloca como um movimento revolucionário, como um movimento de contracultura que não é bem aceito pela maioria das pessoas, que preferem associar-se a um grupo religioso qualquer, desde que não se exija nada além de uma contribuição monetária mensal.

Infelizmente, as tradições de homens pecadores foram sendo incorporadas entre os cristãos através dos séculos, tradições estas já existentes na época de Jesus e que mereceu a sua condenação ao se dirigir aos fariseus, como se pode constatar lendo Mateus 15.6: E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus. E foram exatamente essas tradições que, como vimos, contribuíram também para o acréscimo de práticas inexistentes na igreja do primeiro século, levando consequentemente à alteração metassêmica da palavra igreja, com consequente mudança de âmbito por extensão do seu significado, o que resultou na ambiguidade do termo, razão pela qual, se alguém diz hoje que não gosta da igreja, ficamos sem saber se ele está a dizer que não gosta do prédio, que não gosta das pessoas que frequentam o prédio ou que não gosta da organização religiosa dentro da qual as pessoas se reúnem, dentre outras possibilidades.

Finalmente, cremos ter ficado claro na exposição deste ensaio o fato de que ao nos depararmos com a palavra igreja nos textos bíblicos sempre devemos interpretá-la atentando para o sentido assumido por ela no texto; e que corresponde sempre ao sentido tido por ela na época em que o texto foi escrito, há mais de 1900 anos, sem confundir igreja com um prédio, com uma catedral ou com uma organização religiosa do nosso tempo, sob o risco de se cometer graves distorções exegéticas e de chegar a conclusões erradas, inverídicas e totalmente equivocadas.

Autor: CARLOS ALBERTO G. LOPES

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