ONDE estava o Apóstolo João?

Quando e onde foi escrito o Apocalipse? Certamente uma quantidade incontável de leigos e professores de escola bíblica, incluindo teólogos da melhor qualidade, respondam a uma só voz: “Evidente que foi em Patmos!”

A nossa teologia escatológica deixou-nos um legado irreversível e padronizado sobre João em Patmos através de mensagens limitadas a uma visão tradicional imutável. Provavelmente muitos entre os cristãos do nosso tempo, sejam eles leigos ou não, dificilmente tentariam dar uma olhadela ao redor para descobrir se tudo ocorreu mesmo da maneira como aprenderam.

O quadro apocalipse exílio, pintado pelo ensino tradicional e entregue a cristandade, foi de um João totalmente sozinho e a vontade numa Ilha deserta do Mar Egeu, bem tranquilo e com total liberdade para escrever, editar, melhorar e enviar para as Igrejas localizadas nas regiões da Ásia Menor, o seu mais assombroso e espetacular Livro jamais escrito, o Apocalipse.

Porém, como estamos aqui refutando as peripécias do Preterismo, é necessário dizer que todo o artigo é um confronto comandado pelo testemunho da história e das Escrituras contra as afirmações feitas por esta facção com relação à datação do Livro.

A doutrina preterista ensina que João foi enviado para a ilha de Patmos na década de 60 dC, onde recebeu e fez um registro de todas as visões do Apocalipse, que dizem ser um tratado profético concernente a invasão romana sobre Jerusalém/Israel em 70 dC.

João não estava mais em Patmos

De todos os testemunhos Patrísticos sobre o exílio de João em Patmos, o mais interessante e intrigante é o de Vitorino, “um escritor eclesiástico primitivo muito famoso por volta do ano de 270 e que foi martirizado durante as perseguições do imperador Diocleciano” (Wikipedia – Vitorino de Patau).

Vitorino, além de registrar o local e a época em que João esteve exilado, diz algo curioso e espantoso, que nenhum dos outros pais Patrísticos registrou: ele deixa evidente que João não estava mais em Patmos quando entregou o Livro de Apocalipse.

Leia suas palavras, escritas no décimo capítulo de seu comentário sobre o “Apocalipse do bem-aventurado João” por volta de 270 AD: “… Quando João recebeu essas coisas ele estava na ilha de Patmos, condenado ao trabalho nas minas por César Domiciano. Lá, portanto, ele viu o Apocalipse, e quando envelheceu ele pensou que deveria finalmente receber sua quitação pelo sofrimento. Domiciano foi morto e todos os seus juízos estavam descarregados. João foi demitido das minas, assim, posteriormente, entregou o mesmo Apocalipse que ele havia recebido de Deus”.

Você também pode encontrar o texto de Vitorino no Comentário sobre o Apocalipse (Victorinus) – New Advent, Fathers

Brilhante o texto de Vitorino, pois além de confirmar que João foi exilado no governo de Domiciano ele também testifica que João entregou o Apocalipse após ser liberto do cativeiro.

Veja o detalhe no fim do seu comentário,

“… João foi demitido das minas, assim, posteriormente, entregou o mesmo Apocalipse que ele havia recebido de Deus”.

As declarações de Vitorino podem ser comprovadas? Sim! E pelo próprio João!

Atente para a redação deste versículo, o qual nos deixa forte indício de que João, enquanto escrevia estas palavras, não se encontrava mais no cativeiro: “Eu, João, irmão e companheiro de vocês no sofrimento, no Reino e na perseverança em Jesus, estava na ilha de Patmos por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (Apocalipse 1:9).

A ênfase sobre algo que acontece no passado fica em evidência pela tradução da NTLH:

Eu sou João, irmão de vocês; e, unido com Jesus, tomo parte com vocês no Reino e também em aguentar o sofrimento com paciência. Eu estava na ilha de Patmos, para onde havia sido levado por ter anunciado a mensagem de Deus e a verdade que Jesus revelou”.

É necessário observar um detalhe no texto, aquilo que parece ser a típica introdução de um prisioneiro que se prepara para escrever suas memórias após ter sido liberto do seu cativeiro: “… Eu estava na ilha de Patmos, para onde havia sido levado”.

A palavra, estava, foi traduzida do verbo grego ἐγενόμην – egenomēn. O verbo indica uma ação concluída no passado

Veja os versículos que usam a mesma palavra grega de Apocalipse 1:9.

Pelo que, ó rei Agripa, não fui (ἐγενόμην – egenomēn) desobediente à visão celestial” (Atos 26:19).

Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E eu estive (ἐγενόμην – egenomēn) convosco em fraqueza, e em temor, e em grande tremor” (1 Coríntios 2:2-3).

“… não vos deixando apartar da esperança do evangelho que ouvistes, e que foi pregado a toda criatura que há debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, fui (ἐγενόμην – egenomēn) constituído ministro” (Colossenses 1:23).

Encontramos nas palavras de Jesus, também em Apocalipse, o mesmo verbo apontando para uma ação que aconteceu no passado:

Eu sou o que vivo; estava (ἐγενόμην – egenomēn) morto, mas eis aqui estou vivo para todo o sempre! e tenho as chaves da morte e do inferno” (Apocalipse 1:18).

Portanto, quando João escreve que “estava” (ἐγενόμην – egenomēn) na ilha de Patmos deve significar que ele escrevia o Livro de Apocalipse depois do exílio.

O prólogo de um Livro

Devemos dar atenção a introdução do Livro de Apocalipse; atente o leitor para aquilo que começa a tomar o formato de um tratado profético quando observamos os detalhes no contexto que vem a seguir.

A passagem nos deixa pistas de que João já havia recebido as revelações nesse momento e, ao que tudo indica, não estava escrevendo do cativeiro em Patmos. Veja o que ele diz em Apocalipse 1:1, 2, que mais parece uma introdução de um livro que começa a tomar forma: “REVELAÇÃO de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu, para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou, e as notificou a João seu servo. O qual testificou da palavra de Deus, e do testemunho de Jesus Cristo, e de tudo o que tem visto”.

Veja como o versículo apresenta os verbos, o que deixa subentendido que as visões já haviam sido transmitidas. Atente para a frase, “Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu”, e que ele enviou a João. Ou seja, nesse instante, que sem dúvida é o momento da preparação do Livro, João já havia recebido as visões, pois o verso acrescenta que Jesus notificou a João e que João testificou acrescentando que ele também viu, o que podemos concluir como “já visto” quando atentamos para o detalhe em “tudo o que tens visto”, sugerindo que as revelações já haviam sido dadas. Como sabemos disso? Precisamos apenas encurtar o versículo deixando-o assim,

“… Jesus… as enviou e notificou a João, o qual testificou de tudo que tens visto”. Estamos no verso um e dois, mas João já diz sobre coisas que viu. Observe o tempo dos verbos mais uma vez: Jesus enviou, Jesus notificou, João testificou, ou seja: confirmou. Isso parece um registro feito para ser inserido no fim do Livro, mas não foi. Por que João escreveu dessa forma já no capítulo um? O que parece é que ele já havia recebido as visões e revelações do Senhor nesse momento. Observe o leitor que mesmo estando no início dos registros já podemos ler a sentença: “testificou de tudo que viu”.

O quadro parece de um João pós-exílio, em algum outro lugar pronto para organizar a escrita de todas as coisas que recebeu. No verso três ele chama de bem aventurados os que leem e guardam as palavras desta profecia; o problema é que estamos no capítulo um onde ele nem mesmo começou a registrar as profecias, além de insinuar um livro sem ao menos ele ainda ter tomado forma: “Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo”.

O que observamos em Apocalipse 1:1-3 é o típico modelo de um prólogo, ou seja, a introdução de uma obra literária. No caso aqui, é como se João tivesse anotações diversas, mas estava colocando-as em ordem.

Concluímos que, das duas uma: ou João se preparava para organizar as revelações que recebeu em Patmos transferindo para um livro o que teria ali no exílio anotado em pergaminhos diversos, ou ele escreveu tudo fora da Ilha sem nenhum registro prévio dependendo apenas da memória e do Senhor Jesus (João 14:26).

O escritor deve profetizar para povos, nações, línguas e reis”

E para provarmos de uma vez por todas que o Livro não trata de profecias sobre a guerra entre judeus e romanos em 70 dC, como atesta o Preterismo, e nem mesmo foi escrito apenas para os cristãos que viviam na Ásia menor, basta olharmos para Apocalipse 10:11, momento em que o Anjo diz a João: “Importa que profetizes outra vez a muitos povos, e nações, e línguas, e reis“.

De que maneira João, quase no fim do primeiro século, faria isso? Acredito que não seria viajando pelo mundo todo. E seja qual for esse João, ele estava em idade bem avançada para viajar de nação a nação (a palavra “nações” aqui denota pessoas consideradas separadas por fronteiras nacionais, constituições, leis e costumes).

Certamente ele profetizou para” muitos povos, e nações, e línguas, e reis” através do Livro de Apocalipse, que é um livro de profecias: “Eis que cedo venho! Bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro. Disse-me ainda:

Não seles as palavras da profecia deste livro; porque próximo está o tempo.

Eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro: Se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus lhe acrescentará as pragas que estão escritas neste livro;

e se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro desta profecia, Deus lhe tirará a sua parte da árvore da vida, e da cidade santa, que estão descritas neste livro” (Apocalipse 22:7,10,18-19).

A profecia é o testemunho de Jesus: “Então me lancei a seus pés para adorá-lo, mas ele me disse: Olha, não faças tal: sou conservo teu e de teus irmãos, que têm o testemunho de Jesus; adora a Deus; pois o testemunho de Jesus é o espírito da profecia“E (Apocalipse 19:10; compare com Apocalipse 1:1,2).

Apocalipse 1:3 conclui: “Bem-aventurado aquele que lê e bem-aventurados os que ouvem as palavras desta profecia e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo” (Apocalipse 1:3).

Fica evidente que “profetizar outra vez a muitos povos, e nações, e línguas, e reis” só poderia ser possível através de um livro escrito que, sem dúvida, é o Livro de Apocalipse.

E isto corresponde com o padrão revelado pelo Senhor: a palavra profética que muitos homens de Deus receberam foram passadas para a forma escrita, como atesta Pedro, “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo“ (2 Pe 1:21), o que João confirma mais uma vez em Apocalipse 22:18 quando fala sobre “… as Palavras da profecia deste Livro…”.

Portanto, o que se cumpre – com ênfase no contexto principal que é a importância extrema no envio da mensagem do Apocalipse – é exatamente o que foi dito no capítulo 10:11 do Livro, de que o Apóstolo profetizaria “… OUTRA VEZ para muitos povos, e nações, e línguas e reis”. Assim, as visões que foram mostradas a João no exílio no final do reinado de Domiciano e perto da sua libertação tomaram o formato de Livro Profético (o qual foi entregue às Igrejas da Ásia Menor, como também aos cristãos de todos os tempos) somente depois que ele foi liberto do seu cativeiro.

João não escreveu sobre a destruição de Jerusalém, nem mesmo somente às sete igrejas, mas para cristãos, reis e reinos do mundo inteiro. E quando o livro abre dizendo das coisas que em breve devem acontecer, está apenas confirmando que “as profecias começam a se desenrolar”, não que tudo seria cumprido em pouco tempo. Por Isso que é dito a João que não sele as palavras do Livro (22:10), mas que as divulgue para que todos tenham conhecimento dos fatos. A mensagem foi enviada “para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer”
(Apocalipse 1:1).

Portanto, quando o Anjo diz a João “Importa que profetizes outra vez a muitos povos, e nações, e línguas, e reis“, obviamente está fazendo referência às profecias contidas no Livro de Apocalipse – João não está profetizando sobre os judeus e romanos de 70 dC, mas para “muitos povos, e nações, e línguas, e reis” (Apocalipse 10:11)

As evidências que favorecem uma data tardia para a redação do Livro de Apocalipse ainda prevalecem, pois, como vimos, a alegação preterista de que João foi exilado na década de 60 dC inevitavelmente desmorona, não tendo nenhum fundamento bíblico e muito menos histórico.

A Deus toda glória