Autor: AL Franco

O Sentido da palavra Igreja

Postado em Atualizado em

O sentido da palavra Igreja para os cristãos primitivos em confronto com o seu sentido atual.

                                INTRODUÇÃO

Uma vez criada, toda palavra está sujeita a ter o seu sentido modificado com o passar do tempo. Com a palavra igreja, originária do grego ekklesía, não foi diferente. Portanto, o que se pretende na abordagem desse tema é mostrar a discrepância existente entre o sentido atual e o sentido original, e, com isso, fazer ver que aplicar o sentido atual na interpretação de textos antigos da era apostólica não implica só em cometer distorções inconcebíveis, por violar princípios elementares de exegese, como também adotar procedimentos perigosos possíveis de levar a conclusões equivocadas. Sendo assim, não se pode ignorar que as palavras são resultantes do duplo processo de nomeação e evolução dos valores de sentido, fato esse provavelmente ignorado pela maioria das pessoas.
As palavras mudam de sentido com o decorrer do tempo, fenômeno este conhecido por metassemia e que pode se constituir em fonte de ambiguidade na conversação. Um exemplo típico disso ocorreu com a palavra vilão, que na Idade Média designava o morador de uma vila, enquanto hoje serve para designar um malfeitor, um bandido. Nesse caso a palavra vilão foi contaminada pejorativamente pelo comportamento dos habitantes da vila que trapaceavam os camponeses que a frequentavam.

Outro caso semelhante é o da palavra formidável citada por Bueno (1951:75), o qual relata que, aparecendo num livro do século XIX, teria o sentido de algo apavorante, que incute medo, a exemplo de animal formidável e exército formidável, mas que atualmente teria o sentido de algo que desperta admiração, que é excelente, a exemplo de livro formidável e festa formidável, isto é, um sentido totalmente diferente do sentido etimológico original. A palavra continua sendo a mesma, mas o sentido que ela passou a ter num texto atual é outro.

Curioso ainda é o que ocorreu com a palavra pagão, cujo significado antes do século III era o de morador do campo, e que, depois do século III, quando o Cristianismo se urbanizou, passou a significar todo aquele que não é cristão; e, mais tarde, um praticante da feitiçaria, de acordo com Viola (2011: 213-214).

O SENTIDO ATUAL

Algo parecido com os exemplos referidos ocorreu também com a palavra igreja em português, originária do grego ekklesía, através do latim ecclesia, com a significação etimológica de assembleia, e que serve para nos mostrar a importância de, sempre que se ler um texto antigo, a exemplo de um texto bíblico, verificar se o sentido das palavras que aparecem nele corresponde ou não ao sentido assumido por elas atualmente.

Não resta dúvida de que ao se mencionar a palavra igreja nos dias de hoje, logo surge em nossa mente o nome de uma instituição, a imagem de um prédio com bancos enfileirados, uma plataforma com um púlpito, a figura de um sacerdote (pastor, padre, etc) que profere um sermão e dirige uma liturgia, assessorado ou não por um grupo de louvor (ou coral) dentro de uma organização religiosa que pode ter um gabinete pastoral, uma secretaria, uma tesouraria e até mesmo uma série de subdivisões do tipo sociedade de senhoras, sociedade de homens, grupo de jovens, presbitério, junta diaconal, confederação nacional dos bispos, etc.; ou pensamos em todos os membros das diversas organizações religiosas cristãs espalhadas pelo mundo.

O SENTIDO PRIMITIVO

Mas será que para os cristãos do primeiro século a palavra igreja evocava em suas mentes o mesmo significado que evoca para nós hoje?

Fazendo uma leitura imparcial, atenta, destituída de preconceito religioso dos óculos denominacionais e sem deixar de levar em conta a Linguística Textual com os seus fatores linguísticos de contextualização, de coesão, de coerência e de pragmática (a intencionalidade, a informatividade, a situacionalidade, a aceitabilidade e a intertextualidade), não há como não constatar que o sentido da palavra igreja para os cristãos primitivos quase nada tem a ver com o sentido que ela tem para os cristãos de hoje, da mesma forma que aconteceu com a palavra vilão (que hoje não significa mais habitante da vila), com a palavra formidável (que hoje não significa mais algo apavo-rante, que incute medo) e com a palavra pagão (que hoje não significa mais morador do campo).

Proveniente da palavra ekklesía, que designava os cidadãos que na antiga Grécia se reuniam em assembleia no fórum da cidade para tomar decisões, a palavra igreja era compreendida pelos cristãos do primeiro século não como uma organização com um prédio onde as pessoas comparecem pelo menos uma vez por semana para assistir a um culto ou a uma missa; e, depois, retornam aos seus lares para viverem as suas vidas individuais em suas famílias independentes umas das outras. Não, muito pelo contrário! Os cristãos primitivos jamais diriam vamos à igreja, porque para eles a igreja eram eles mesmos, unidos por laços fraternos de amizade. E a concepção que eles tinham da igreja expressa nas páginas do Novo Testamento era a de uma família espiritual composta de membros que se amavam e se importavam uns pelos outros, mais até do que pelos da família biológica. Prova disso é que quando Jesus foi advertido com as seguintes palavras: Eis que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, que querem falar-te, sua resposta (que pode parecer até estranha ou mesmo chocante para quem valoriza mais a família biológica) foi: Quem é minha mãe? E quem são meus irmãos? E, estendendo a sua mão para os seus discípulos, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe (Mt 12.47-50). Também em outra oportunidade Ele manifestou o grande apreço que tinha pela família espiritual (a igreja) ao dizer: Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim (Mt 10.37). Parafraseando, é mais ou menos como se tivesse dito: “Quem ama os seus pais mais do que ama um cristão, seu irmão na fé, não é digno de mim; e quem ama os seus filhos mais do que ama um cristão, seu irmão na fé, não é digno de mim”.

A REDEFINIÇÃO DO SENTIDO

O ensino cristão de que somos o corpo de Cristo, e seus membros em particular (1Co 12.27) do qual Cristo é a cabeça (Ef 5.23) implicou na redefinição do conceito original de igreja para significar mais do que meramente uma assembleia, levando os cristãos primitivos a terem uma alta estima entre si por se reconhecerem como partes de Cristo aqui na Terra, de modo que se alguém agredisse ou perseguisse a qualquer um deles, agiria como se estivesse agredindo e perseguindo a própria pessoa de Jesus. É por isso que na indagação feita por Saulo ao Senhor Jesus no caminho de Damasco, por ocasião da sua conversão, a resposta ouvida por ele foi: Eu sou Jesus, a quem tu persegues (At 9.5). Mas Saulo estava a perseguir a igreja e não a Cristo, alguém pode refutar. Só que essa conclusão é equivocada, porque como Jesus e a igreja pertencem à mesma família espiritual da qual Ele é a cabeça, e a igreja (o Corpo) não sobrevive sem a cabeça (Jesus) com a qual está indissociavelmente ligada, perseguir a igreja é o mesmo que perseguir a Jesus Cristo. É o que acontece com a família biológica também, pois quando agredimos ou maltratamos a mãe de uma pessoa ocorre como se estivéssemos agredido e maltratado essa própria pessoa e vice-versa.

Também em Mateus 25.34-46, Jesus diz: … tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me (…). Indagado sobre a ocasião em que aconteceu isso em sua vida, pois parece que nos evangelhos não consta que Jesus tenha passado por todas essas tribulações, Ele respondeu: Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.

Esse trecho ilustra o alto conceito que as Escrituras têm da i-greja e o sentido que a palavra igreja tinha para os cristãos primitivos. A concepção de igreja deles era prática e não teórica. Eles entendiam que ao socorrer um irmão da mesma fé em sua necessidade (de roupa, de afeto, de visitação, de comida, de hospedagem, etc) seja ela qual for, eles estavam socorrendo a Jesus.

Na família biológica também ocorre algo parecido, pois quando presto socorro ao meu irmão biológico em necessidade ajo como se estivesse socorrendo aos pais dele, como se estivesse ajudando e prestando um favor aos pais dele, que também são os meus pais.

Essa concepção de igreja como um organismo vivo, semelhante a uma família de pessoas que se amam não menos do que se amam os membros de uma família biológica e que se doam umas às outras está claramente expressa em vários trechos bíblicos, dentre os quais o de João 19.26-27, naquela cena comovente, em que Jesus na cruz, vendo ali sua mãe, e que o discípulo a quem ele amava estava presente, disse a ela: Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa. Observa-se aqui o alto valor dado a Maria, um membro da família espiritual, não menos importante do que um membro da família biológica. Esse era o conceito apostólico de igreja, vista não como um prédio, não como uma organização religiosa, não como uma instituição insensível e fria, mas como algo muito precioso, como uma assembleia de pessoas que se amam, como pedras vivas atraídas por um sentimento comum de verdadeira amizade e afeto, unidas pela mesma fé na pessoa do seu único chefe (Jesus Cristo), e que se reúnem frequentemente para compartilhar seus dons e para mutuamente se ajudarem.

O CONTRASTE ENTRE OS SENTIDOS

Para o teólogo reformado Brunner (apud Viola & Barna, 2008: 323) a igreja conforme a concebiam os cristãos primitivos era “uma comunhão pura de pessoas, e não tem nada a ver com o caráter próprio de uma instituição”; sendo, por isso, “enganoso identificar qualquer uma das igrejas historicamente desenvolvidas, marcadas por um caráter institucional, como igrejas (Ekklesía)”.

Essa ideia de igreja como família de Deus é também claramente expressa nas cartas paulinas, a exemplo de Efésios 2.19, onde se diz que já não somos estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus; de Romanos 8.29, onde está escrito que os que dantes conheceu também os predestinou para serem conforme à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos, entendendo-se por Filho à pessoa de Jesus Cristo; e de Romanos 12.5, que nos diz o seguinte: Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros.

Os cristãos do primeiro século entenderam tão bem esse conceito bíblico de igreja que viviam exatamente como numa família, pois era um o coração e a alma da multidão dos que criam, como também ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns, conforme lemos em Atos 4.32; sem falar no fato de inexistir necessitados entre eles, porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se por cada um, segundo a necessidade que cada um tinha, como relata Atos 4.34. Na realidade, ao agirem assim eles entendiam que ao socorrerem um irmão necessitado estavam socorrendo o próprio Jesus, a quem amavam muitíssimo, uma vez que criam que a salvação de suas vidas da perdição eterna deviam a Ele.

Hoje, uma atitude como essa seria impensável para uma boa parte das pessoas, exatamente por terem uma concepção de igreja bem diferente, segundo a qual ela se confunde com a organização religiosa da qual pertencem. E é por isso que muitos são movidos a contribuir com dinheiro e com afeto muito mais para a organização do que para um irmão necessitado. Essa também é a razão pela qual surgem tantas organizações religiosas, algumas delas amealhando fortunas em dinheiros, enquanto há tantos necessitados não só de comida mas muito mais até de uma amizade, de uma visita, de um afeto, de uma palavra de consolo, de compaixão.

Outra evidência de que os cristãos primitivos concebiam a igreja como a família de Deus é que eles usavam entre si o tratamento de IRMÃO. Prova disso é que Paulo chama os crentes corintianos de irmãos mais de trinta e cinco vezes em sua carta. Hoje, mesmo que você se identifique como cristão ou até pertença a uma instituição religiosa por mais de um ano, nem sempre será tratado como irmão. Se o seu nome for Maria ou José, provavelmente chamá-lo-ão por Dona Maria, Senhor José ou, se possuir título, Dr. José, Profª Maria, e não irmão José, irmã Maria. E, pior ainda, se for o líder da organização, tratá-lo-ão por Reverendo José, Pastor José, Padre José, Monsenhor José ou Dom José, dentre outras possibilidades, mas dificilmente dirão irmão José. Isso, porque a concepção de igreja mudou não se concebendo mais a igreja como uma irmandade, como uma família espiritual, como um organismo vivo de pessoas que se amam de fato, mas sim como uma organização dividida não só em inúmeras denominações como também em duas classes distintas de pessoas: o clero e o laicato. No primeiro século, como a concepção de igreja era outra, não tinha sentido um cristão chamar outro cristão de senhor, professor, padre, pastor ou doutor, da mesma forma que na família biológica seria um absurdo e até ridículo um irmão chamar o seu irmão de senhor, professor, padre, pastor ou doutor. Não existe isso. Você não encontra em família nenhuma um irmão tratando o outro dessa forma; e como a igreja era concebida como uma família, o princípio se aplicava a ela também. É por isso que em Mateus 23.8,10 e 11 encontramos Jesus dizendo: Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos. Nem vos chameis mestres, porque um só é vosso Mestre, que é o Cristo. O maior dentre vós será vosso servo. A proposta aqui é revolucionária, porque se opõe ao que encontramos no reino dos homens, onde tanto se valoriza títulos e posições, mais até do que se valoriza o caráter de uma pessoa.

PROVAS IRREFUTÁVEIS

Vejamos ainda alguns trechos das cartas de Paulo nas quais há irrefutáveis provas de que a concepção de igreja no primeiro século era a de uma família espiritual, até mesmo superior à de uma família biológica. Em Gálatas 6.10 recomenda Paulo a não nos cansarmos de fazer o bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé; em 1 Timóteo 5.1-2, a não repreender asperamente os anciãos, mas a admoestá-los como a pais; aos mancebos como a irmãos; em Romanos 12.13 recomenda comunicarmos com os santos (os irmãos) em nossas necessidades; e em 1 Coríntios 12.25-26 exorta a não haver divisão no corpo e a ter os membros igual cuidado uns para com os outros. De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele.

Essa é a visão paulina de igreja e é também a dos cristãos primitivos, isto é, a de um corpo de membros interdependentes; a de uma comunidade que pratica a cooperação e a mutualidade; a de um grupo de membros que, de comum acordo, se submetem e se deixam ser dirigidos pela cabeça desse corpo, que é Cristo, mas sem um chefe humano exercendo domínio sobre eles, já que todos são irmãos e entre irmãos as relações são de igualdade e não de hierarquia ou subordinação unilateral. Evidência disso são os inúmeros mandamentos de mutualidade encontrados nos textos bíblicos, dentre os quais os que recomendam os irmãos a amarem-se cordialmente, preferindo-se em honra, uns aos outros (Rm 12.10); a serem misericordiosos e afáveis (1 Pe 3.8); a exortarem-se uns aos outros, a edificarem-se uns aos outros (1 Ts 5.11); a receberem-se uns aos outros (Rm 15.7); a admoestarem-se uns aos outros (Rm 15.14); a saudarem-se uns aos outros com santo ósculo (Rm 16.16); a terem cuidado uns dos outros (1 Co 12.25); a servirem-se uns aos outros (Gl 5.13); a suportarem-se uns aos outros em amor (Ef 4.2); a perdoarem-se, sendo benignos e misericordiosos uns para com os outros (Ef 4.32); a falarem uns com os outros com salmos, hinos e cânticos espirituais (Ef 5.19); a sujeitarem-se uns aos outros (Ef 5.21); a ensinarem uns aos outros (Cl 3.16); a confessarem os pecados uns aos outros, a orarem uns pelos outros (Tg 5.16); a serem hospitaleiros uns para com os outros (1 Pe 4.9) e a terem comunhão uns com os outros (1 Jo 1.7).

Será impossível obedecer a esses mandamentos de mutualidade (que, por sinal, não são opcionais, mas um dever cristão) sem que a igreja funcione como uma família na qual os seus membros, atraídos entre si por um vínculo de amizade, companheirismo e camaradagem, se encontrem frequentemente em reuniões que funcionem com a participação de todos. Só numa comunidade igualitária de irmãos é que haveria liberdade entre eles para o exercício da caridade, da misericórdia, da afabilidade, da exortação, da edificação, da recepção, da admoestação, do cuidado, do serviço, da tolerância, do perdão, da sujeição, da confissão, da hospitalidade e da comunhão. Numa organização religiosa em que as pessoas se limitam a um encontro esporádico dentro de um espaço chamado templo, torna-se inviável essa comunhão, não só pelo fato de a maioria dos fiéis passarem quase o tempo todo ali calados, sem se intercomunicarem, como também porque a visão da maioria é outra, com a ênfase sendo colocada na organização e não nas pessoas. A propósito, dentre outros trechos, encontramos em Mateus 19.21 Jesus dizendo: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me. Por que Ele não recomendou dar pelo menos uma parte do dinheiro dessa venda à organização religiosa, como muitos hoje em dia poderiam pensam, se fosse essa a forma correta de contribuir para acumular tesouro no céu? Por que ele recomendou dar apenas aos pobres? Porque a ênfase e a visão de Jesus, assim como a dos primeiros cristãos, está colocada não na organização, como se a organização fosse algo sagrado, quando de fato não é, mas nas pessoas, dentre as quais se inserem, principalmente, aquelas pertencentes ao organismo vivo chamado igreja. Não foi por acaso que no ministério de Jesus vamos encontrá-lo na maior parte do seu tempo andando com as pessoas, falando com elas, comendo com elas, dialogando com elas, visitando-as, aconselhando-as, socorrendo-as, ouvindo-as; e, poucas vezes, falando sozinho para as multidões.

FIM DO INDIVIDUALISMO

É por isso também que o Cristianismo torna-se inviável entre pessoas individualistas e acomodadas. Sem sair do nosso individualismo egocêntrico para construir laços de amizade com os irmãos não temos como entrar no reino de Deus. Nesse caso, a única alternativa é o reino das trevas, é o reino deste mundo; e, para tanto, basta aderir a um movimento religioso qualquer não comprometido com o alvo de por em prática os mandamentos de mutualidade.
Viola (2009: 110) percebeu muito bem essa concepção de igreja como família ao reconhecer que “a igreja que nos é apresentada nas Escrituras é uma família amorosa, não uma empresa; um organismo vivo, não uma organização estática. Ela é a expressão coletiva de Jesus Cristo, não uma instituição religiosa; é a comunidade do Rei, não uma bem azeitada máquina hierárquica”.

Concebida como um organismo, a igreja do primeiro século se via como parte inseparável de Jesus Cristo, uma vez que, conforme diz Paulo em Colossenses 1.18, ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência.

É por isso que não tem sentido o ensino equivocado de que temos que ser sal e luz no mundo como indivíduos, porque assim como Jesus não pode ser compreendido mais como um indivíduo, o cristão também não pode ser concebido como um indivíduo (isolado) pois todos nós, tendo Jesus Cristo como cabeça, fazemos parte de uma corporação constituída de diversas pessoas convertidas, pois o propósito de Deus é corporativo e não individualista.

NOVO GOVERNO

Sendo assim, “o governo de uma igreja local não é uma autocracia (…), nem uma democracia – é uma cristocracia, porque Cristo é a cabeça” (Figueira, 1991: 178) junto à qual todos os outros membros se unem numa unidade corporativa fraterna. Por outro lado, concebida a igreja como uma família constituída de irmãos, não cabe um chefe espiritual humano exercendo primazia ou autoridade sobre eles, razão pela qual em 1 Pedro 5.3 há a recomendação para que os presbíteros não exerçam domínio sobre a igreja (herança de Deus) e em 1 Pedro 5.1 há a referência de igualdade entre eles ao se referir aos presbíteros que havia ENTRE eles e não SOBRE eles. Dessa forma, como numa assembleia legislativa em que nenhum deputado exerce domínio ou autoridade sobre os outros, nem mesmo o presidente da assembleia, e todos têm direito à palavra e podem se manifestar participando dos debates, também na igreja do primeiro século nenhum dos cristãos exercia primazia sobre os demais nem exclusividade no uso da palavra, pois todos podiam falar quando se reuniam, razão pela qual não havia entre eles hierarquia e muito menos divisões do tipo leigos e clero, jovens e velhos, crianças e adultos, por não ter lógica nem sentido, tanto numa irmandade como numa família, esse tipo de separação, e muito menos alguns terem certos privilégios, certas distinções e outros não. Na família unida por Jesus e tendo Jesus por cabeça nenhum de seus membros quer ficar separado um do outro e todos sentem a falta um do outro, e nenhum dos irmãos almeja ser mais importante ou ter mais regalias e distinções do que o outro, uma vez que a relação entre eles só pode ser horizontal e não vertical. A propósito, Jesus Cristo deixou bem claro que no reino de Deus as coisas caminhariam na contramão do reino do mundo. Quando respondeu à contenda entre os seus discípulos sobre qual deles parecia ser o maior dentre eles, foi taxativo: Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores. Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve (Lc 22.25-26).
No âmbito dessa visão, as palavras presbíteros, bispos e anciãos da igreja primitiva eram usadas, intercambiavelmente, para designar o serviço, dentre outros, de cuidado e supervisão não remunerado exercido por alguns irmãos mais velhos na fé, e não designavam cargo ou profissão, nem se reportavam para uma escala hierárquica; da mesma forma que a palavra diácono, usada para designar os irmãos encarregados do serviço assistencial aos necessitados da igreja. Eram nomes para designar função ou atribuição de serviço (como hoje se usa os nomes de secretário e relator para definir o tipo de serviço dos membros de uma comissão) e não servia para atribuir título honorífico ou ofício vitalício, nem para designar uma classe especial de cristãos, pois isso seria inconcebível na concepção de igreja do primeiro século, onde as relações entre os irmãos era horizontal (sem privilégios) e não vertical (com privilégios). Em oposição a isso, várias organizações religiosas dos nossos dias têm uma concepção de igreja dividida em dois grupos distintos (o clero e o laicato), o que significa não só fragmentar o corpo de Cristo como também ir frontalmente contra o princípio bíblico do sacerdócio de todos os cristãos expresso em 1 Pedro 2.9 ao se referir aos cristãos como o povo de Deus, como geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa. A Reforma Protestante defendeu esse princípio, mas, infelizmente, só na teoria, pois falhou na sua execução. Aliás, o problema da Reforma, sem deixar de reconhecer a sua grande contribuição em prol da fé cristã, parece ter sido mais entusiasmo pela ortodoxia e menos entusiasmo pela ortopraxia, que não deixa de ser também um problema atual; cabendo aqui observar que doutrina correta sem prática correta, além de ser incoerente e promover o orgulho religioso, pode implicar em demagogia e até mesmo em hipocrisia.

UNIDADE LOCAL

Dentro dessa concepção de igreja como família, os cristãos primitivos entendiam também que a Igreja de Cristo na Terra era uma só em cada cidade. É por isso que não encontramos expressões do tipo “nas igrejas que estavam em Antioquia” (no plural), mas sim, como se encontra em Atos 13.1, na igreja que estava em Antioquia (no singular). Observe também que o autor do texto não dá nome à igreja. Ele não diz “na Igreja Pentencostal ou na Igreja Reformada ou na Igreja Católica que estava em Antioquia” porque era inconcebível não só nomear como haver mais de uma igreja cristã numa cidade. Isso seria mutilar o Corpo de Cristo e negar o ministério do Espírito Santo na igreja, o qual promove a união e não a desunião; e, pior do que isso, seria impedir também o ministério evangelístico, ao proclamar para o mundo incrédulo a mensagem de que os cristãos estão desunidos naquela cidade.
Na oração proferida por Jesus momentos antes da sua morte sacrificial em nosso favor fica bem patente essa concepção unitária e não fragmentada de igreja, quando disse: E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim; para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. (…) Eu neles, e tu em mim, para que eles sejam perfeitos em unidade, (…). (Jo 17.20-21, 23). Paulo também não tinha outra concepção de igreja que não fosse a de uma igreja unida ao expressar a sua indignação aos coríntios com a seguinte pergunta: Está Cristo dividido? (1 Co 1.13); e ao exortá-los com as seguintes palavras: Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome do nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes sejais unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer. (1 Co 1.10). Hoje, seria utópica essa unidade da parte dos grupos religiosos não só pelo fato de se aceitar com naturalidade entre eles a ideia de uma igreja dividida, como também pelo fato de ser muito raro encontrar pessoas sedentas pela verdade e com sinceridade de propósitos, condição indispensável para que todos cheguem a um denominador comum, a um mesmo pensamento e a um mesmo parecer, como recomendou o apóstolo Paulo.

CONTRASTE DE SENTIDOS

Por outro lado, na cabeça do cristão primitivo, ao ouvir a palavra igreja, ela de modo algum evocaria a existência de um templo ou prédio especial para reuniões públicas, porque eles eram o templo; nem roupas distintivas entre eles para ir a essas reuniões, porque todos eram irmãos que se reuniam na simplicidade de um lar; nem um chefe religioso à frente dirigindo o ritual litúrgico no qual apenas ele fala e os outros assistem calados sem poder participar, porque todos participavam como numa assembleia, e quando havia necessidade de deliberar sobre alguma questão, as decisões eram consensuais; nem uma Ceia na qual se come apenas um pedaço minúsculo de pão e se bebe apenas uma porção muito pequena de vinho, porque a Ceia era uma refeição completa num ambiente festivo; nem um seminário destinado à diplomação de uma classe distintiva de clérigos, porque a própria igreja era o seminário e não havia acepção de pessoas entre eles; nem a existência de cantores solo, grupos de louvor ou coral nas reuniões, porque o cantor, o grupo de louvor e o coral eram eles mesmos cantando todos juntos para a glória de Deus.

Logo, se ressuscitasse um cristão do primeiro século e entrasse hoje em alguns prédios denominados igreja, ele ficaria perplexo, sentindo como se estivesse entrando numa empresa, ao ver na fachada o logotipo com o nome da organização e, dentro dela, uma secretaria, na qual se encontra um livro de atas, um planejamento estratégico, um computador, etc., tudo isso sob os cuidados de uma funcionária remunerada. Além disso, ele encontraria também um gabinete pastoral, uma tesouraria e, dentre outros departamentos, um grande salão parecido com uma sala de espetáculos com cadeiras enfileiradas para a plateia, uma plataforma elevada com púlpito, aparelhos de som, amplificadores, refletores, bateria, guitarra, teclado, órgão, etc., recebendo no final da visita o convite para assistir o ritual litúrgico. Caso aceitasse o convite, até poderia se deleitar com os hinos cantados pelo coral, o som belíssimo do órgão, o solo do cantor, o sermão cheio de floreados retóricos do pregador, fazendo uma ressalva apenas no contraste brusco do chamado momento de louvor, por achar estranho as pessoas ficarem de pé enquanto cantam sem que alguém explique a razão para isso, e por não vê coerência em se misturar a harmoniosa música sacra inicial com o estilo mundano e barulhento das bandas de rock, em altos decibéis, responsável pelo incômodo e pelo prejuízo à saúde auditiva e psíquica de todos; mas sentiria uma falta enorme da igreja reunida no aconchego das casas dos irmãos em que todos participam, tal como menciona Paulo em Colossenses 4.15, ao enviar saudações a Ninfa e à igreja que estava em sua casa; e não confundiria a igreja verdadeiramente dita, a casa de Deus, com uma edificação feita por mãos humanas (a exemplo de uma catedral ou de um prédio religioso), conforme se lê em 1 Coríntios 3.16: não sabeis vós que sois o templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós?, já que o templo, na concepção bíblica de igreja, passa a ser os cristãos, as pessoas, e não o prédio, uma vez que o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens, segundo doutrina Atos 7.48; e muito menos confundiria o ritual litúrgico ou a ordem de culto com o culto propriamente dito, já que, segundo afirma Davies (apud Viola & Barna, 2008: 48), citando João 4.23, “o culto não é algo que acontece em um determinado lugar em um certo momento. É um estilo de vida. O culto acontece em espírito e em verdade dentro do povo de Deus, porque é onde Deus vive hoje”.

DIFERENÇA NA DIREÇÃO

Outro diferencial na concepção de igreja dos cristãos primitivos é que nela ninguém era espectador e todos participavam num ambiente isento de ritualismo e de um dirigente falando quase o tempo todo e exercendo domínio manipulador sobre os demais, como se depreende da leitura de 1 Coríntios 14.26 ao lermos o seguinte: Que fareis pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação. Observe que o texto é claro ao dizer cada um, sem excluir ninguém. Isso prova a participação plural, a participação coletiva de todos, e não a participação singular de apenas uma pessoa nas reuniões coletivas, principalmente levando-se em conta que uma igreja de tamanho médio nas casas não tinham muito mais do que trinta pessoas, em virtude da própria limitação do espaço de uma casa. Também, em 1 Coríntios 14.31, há evidências da participação coletiva, e não de uns poucos, quando se diz: Porque todos podereis profetizar, uns depois dos outros; para que todos aprendam, e todos sejam consolados, cabendo observar que profetizar não quer dizer, necessariamente, fazer previsão do futuro. Por conseguinte, a correta compreensão desses trechos supracitados exclui a participação do sacerdote solo, isto é, a de um oficiante na congregação desempenhando sozinho o papel de pregador e dirigente com primazia sobre os demais, porque, conforme o puritano Johns Owen (apud Viola, 2008: 296) escreveu, “cada igreja (…), era um seminário onde se providenciava a provisão e a preparação”, deduzindo daí que todos os cristãos passavam por uma formação prática e vivencial na companhia dos outros irmãos, seguindo o exemplo de Jesus Cristo, e que o termo pastor, bem entendido, não designava cargo, ofício ou título, sendo mais propriamente uma metáfora para indicar a função desempenhada por um cristão que se colocava em pé de igualdade com os demais, sem qualquer pretensão hierárquica.

Percebendo essa problemática toda envolvendo a figura do pastor como líder eclesiástico é que Viola & Barna (2008: 163) indagam: “Como pode o pastor aprender dos demais membros do Corpo de Cristo quando estão sempre mudos? Como pode a igreja aprender do pastor quando seus membros não podem fazer perguntas durante sua oratória? Como podem os irmãos e irmãs aprenderem uns dos outros se todos estão impedidos de falar nas reuniões?” A essas indagações poderíamos ainda acrescentar: Como pode o pastor ser pastoreado sem estar sujeito ao pastoreio dos outros irmãos e sem se colocar em posição de igualdade com eles? Essa problemática certamente não havia no primeiro século em que a concepção de igreja era plural, era coletiva, era a de um grupo de amigos, era a de uma família espiritual convivendo num relacionamento dialógico; jamais monológico.

CONCLUSÃO

De tudo o que foi dito até aqui, pode-se concluir, então, que o sentido da palavra igreja para os cristãos primitivos é bem diferente do seu sentido atual, passando a palavra igreja até a ser ambígua, pois hoje tanto pode significar um prédio onde os fiéis se reúnem, quanto uma organização religiosa dirigida por uma classe especial de profissionais distinta dos demais e até mesmo uma federação de igrejas locais sob o governo de um presidente eleito por seus representantes.

Nada disso tem a ver com o sentido da palavra igreja encontrado no texto bíblico e que era como entendiam os cristãos primitivos, para os quais a igreja não era vista como uma organização, como uma empresa, mas como um organismo vivo constituído apenas de pessoas numa determinada localidade, unidas por um vínculo de amizade mediante a operação do Espírito Santo em seus corações e que se reuniam nos lares, onde todos podiam participar (sem que ninguém exercesse proeminência entre eles) com o propósito de se edificarem mutuamente, pondo em prática os mandamentos de mutualidade, orando, cantando, estudando as Escrituras e realizando a Ceia comunitária à qual denominavam festa do amor. Entendiam assim que o Cristianismo não tinha templo nem classe sacerdotal distinta dos leigos nem sacrifício, por se considerarem pedras vivas, (… ) edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo, como se encontra expresso em 1 Pedro 2.5; e também em Hebreus 13.15-16, onde se lê: Portanto ofereçamos sempre por ele a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome. E não vos esqueçais da beneficência e comunicação, porque com tais sacrifícios Deus se agrada. Ou seja, o templo somos nós como cristãos verdadeiramente convertidos, não é um prédio, o que significa dizer que não há mais um prédio sagrado como houve o templo de Jerusalém; o sacerdócio agora é exercido por todos os cristãos e não mais por uma classe sacerdotal como havia no Judaísmo; e o sacrifício agora consiste não só no reconhecimento sincero através dos nossos lábios, em atitude de gratidão, do quão bom tem sido Deus para conosco, principalmente por enviar o seu Filho para morrer na cruz em nosso favor e ressuscitá-Lo depois de três dias, como também nos atos de caridade e de ajuda sacrificial em prol dos nossos irmãos que vieram em substituição aos sacrifícios de animais do Judaísmo.

Cientes de que a prova de autêntica conversão ao Cristianismo é o amor que se passa a ter pelos irmãos da mesma fé, conforme registra 1 João 3.14: nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não ama a seu irmão permanece na morte, é que os cristãos do primeiro século concebiam a igreja como um grupo de amigos que se reuniam pelo menos semanalmente, uma vez que o amor cristão não é platônico, não se concretiza à distância, e não existe sem se manifestar visivelmente através dos vínculos afetivos de amizade. Para eles, igreja sem amor, sem amizade, sem comunhão, sem vínculo afetivo igual ou até maior do que o existente na família biológica não existe, não é igreja. Pode até ser um ajuntamento de pessoas que se encontram frequentemente para assistir a uma apresentação, a um espetáculo, a um culto ou a uma missa, mas onde ninguém se importa com ninguém, ninguém tem compromisso de formar laços de amizade com ninguém, ninguém quer se envolver com a vida de ninguém, ninguém tem prazer de ajudar ou socorrer ninguém; e, assim, depois que termina a apresentação, o espetáculo, o culto ou a missa, cada qual vai para sua casa viver a sua vida individualista com seus filhos, com sua família biológica, esquecendo-se da família de Deus, da família espiritual, da família de Jesus, sem ter consciência de que ao agir assim está desprezando a Jesus e está negando a sua conversão. Isso não é Cristianismo, é outra coisa bem diferente do que biblicamente se concebe por Cristianismo. É por isso que em nossa cultura ocidental pós-cristã onde reina o individualismo e onde se dá mais valor ao dinheiro do que à amizade ou a qualquer outra coisa, o Cristianismo autêntico se coloca como um movimento revolucionário, como um movimento de contracultura que não é bem aceito pela maioria das pessoas, que preferem associar-se a um grupo religioso qualquer, desde que não se exija nada além de uma contribuição monetária mensal.

Infelizmente, as tradições de homens pecadores foram sendo incorporadas entre os cristãos através dos séculos, tradições estas já existentes na época de Jesus e que mereceu a sua condenação ao se dirigir aos fariseus, como se pode constatar lendo Mateus 15.6: E assim invalidastes, pela vossa tradição, o mandamento de Deus. E foram exatamente essas tradições que, como vimos, contribuíram também para o acréscimo de práticas inexistentes na igreja do primeiro século, levando consequentemente à alteração metassêmica da palavra igreja, com consequente mudança de âmbito por extensão do seu significado, o que resultou na ambiguidade do termo, razão pela qual, se alguém diz hoje que não gosta da igreja, ficamos sem saber se ele está a dizer que não gosta do prédio, que não gosta das pessoas que frequentam o prédio ou que não gosta da organização religiosa dentro da qual as pessoas se reúnem, dentre outras possibilidades.

Finalmente, cremos ter ficado claro na exposição deste ensaio o fato de que ao nos depararmos com a palavra igreja nos textos bíblicos sempre devemos interpretá-la atentando para o sentido assumido por ela no texto; e que corresponde sempre ao sentido tido por ela na época em que o texto foi escrito, há mais de 1900 anos, sem confundir igreja com um prédio, com uma catedral ou com uma organização religiosa do nosso tempo, sob o risco de se cometer graves distorções exegéticas e de chegar a conclusões erradas, inverídicas e totalmente equivocadas.

Autor: CARLOS ALBERTO G. LOPES

BIBLIOGRAFIA

Biblia Sagrada. Edição Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original. Trad. de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, 1994.

Brunner, Emil. O equívoco sobre a igreja. Trad. de Paulo Arantes. São Paulo: Novo Século / Fonte Editorial, 2004.

Bueno, Silveira. Francisco da Silveira. Tratado de semântica geral: aplicada à língua portuguesa do Brasil. 2 ed. aumentada com a polêmica. São Paulo: Saraiva, 1951.

Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. #ovo dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.

Figueiras, S.G. Os “irmãos”: notas históricas sobre o grupo evangélico conhecido como os “irmãos”. Petrópolis: s. ed., 1991.

Viola, Frank & Barna, George. Cristianismo pagão?: analisando as origens das práticas e tradições da igreja. Trad. de Tatiana Luques. São Paulo: Abba Press, 2008.

Viola, Frank. Reimaginando a igreja: para quem busca mais do que simplesmente um grupo religioso. Trad. de Leandro Marques. Brasília: Palavra, 2009.

Viola, Frank. Da eternidade até aqui: redescobrindo o propósito eterno de Deus para a sua vida. Trad. de Marília Peçanha. Brasília, Palavra, 2011.

Wright, N. T. Simplesmente cristão. Trad. de Jorge Camargo. Viçosa: Ultimato, 2008.

Não passará esta Geração

Postado em Atualizado em

DoresEm verdade, eu vos digo, esta geração não passará até que todas estas coisas aconteçam, Mat 24:34.

Está aí amigo leitor, a constituição do Preterismo. O primeiro a o último texto que sai das suas bocas no início e no fim de qualquer discussão sobre Mateus 24. Esse é o Santo Graal do Preterismo, acreditem se quiser.

O Preterismo, acompanhado por alguns apologistas católicos romanos, ensina que a expressão “não passará esta geração sem que tudo isto aconteça” (Mt 24.33-34), seja uma referência à geração dos discípulos, alguns dos quais ainda eram vivos quando o exército romano (não o Anticristo, como mostra a profecia) destruiu a cidade de Jerusalém no ano 70 d.C.

A escola preterista erra em não aceitar a declaração feita por Jesus de que “não passará esta geração sem que tudo isto aconteça” (v. 34) dentro de seu contexto, o qual  faz referência à geração que veria os eventos que Ele acabara de profetizar. Eles cometem o erro de pular falaciosamente para a conclusão de que Jesus se referia àqueles que estivessem vivos quando o templo fosse destruído. O problema é que os ouvintes de Jesus não viram “todas aquelas coisas”, pois “todas estas coisas” em Mateus 24:34 inclui o futuro, tribulação incomparável e  a Volta do Senhor – no discurso eles são encorajados a olhar para cima que a redenção estaria próxima – redenção, e não a destruição como a que veio sobre Jerusalém. Quase todo o sermão foi construído, especialmente, para o parágrafo sobre a parousia (24: 29-31), que prepara o leitor para uma referência a volta de Jesus, e não para a queda do Templo.

Para que você, leitor, possa ter uma ideia da proposta preterista, eu vou reunir o que eles sugerem ter acontecido na geração que viveu entre 33 d.C. até 70 d.C. Eles alegam que aquela geração foi testemunha e vitima de todos os eventos descritos abaixo.

muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo”, verso 5.

E ouvireis de guerras e de rumores de guerras”, verso 6.

Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares”, verso 7.

Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome”, verso 9.

Nesse tempo muitos serão escandalizados, e trair-se-ão uns aos outros, e uns aos outros se odiarão”, verso 10.

E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará”, verso 12.

“… este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim“, verso 14.

Quando, pois, virdes que a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo; quem lê, atenda”, verso 15.

Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos”, verso 24.

Preste atenção, caro leitor, o que Jesus diz aqui na sequência de Mateus 24, que imediatamente após as tribulações descritas nos versos anteriores, algo mais acontece,

E, logo depois da aflição daqueles dias, o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas”, verso 29.

Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória”, verso 30.

Atente para um detalhe importante quando reunimos duas partes dos versículos citados acima (29 e 30) e entenda o problema enorme que o preterismo tem em mãos. Veja  o que acontece quando associamos o inicio do verso 29 com todo o verso 30: “E, logo depois da aflição daqueles dias… aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória”. O texto insiste em repetir veementemente que a Segunda Vinda de Cristo acontecerá imediatamente depois do pior período da história humana. Para qualquer leitor imparcial, a conclusão óbvia é a de que tal período ainda não ocorreu, mas aguarda sua concretização no futuro.

Está é a principal dificuldade do preterismo, pois eles afirmam que as tribulações descritas em Mateus 24 nada mais são do que as aflições vindas sobre Jerusalém quando foi invadida pelo exército romano no Ano 70. O problema é que Jesus não voltou LOGO DEPOIS daqueles dias.

Vamos seguir com os versos e depois falamos mais sobre isso:

E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus”, verso 31.

Aprendei, pois, esta parábola da figueira: Quando já os seus ramos se tornam tenros e brotam folhas, sabeis que está próximo o verão”, verso 32.

Igualmente, quando virdes todas estas coisas, sabei que ele está próximo, às portas”, verso 33.

Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam”, verso 34.

O verso 33 é muito interessante, pois parece insinuar que os discípulos ouvintes seriam testemunhas de TODAS as coisas registradas no contexto. Observe o detalhe novamente em “quando virdes todas estas coisas”. A questão é: Eles viram TODAS as coisas profetizadas por Jesus dentro de Mateus 24? O  contexto é futuro. Jesus apenas disse: “Igualmente, quando virdes todas estas coisas, sabei que ele está próximo, às portas” (versículo 33).

Seus discípulos “veriam todas estas coisas” em sua geração? Óbvio que não. Eles não viviam numa geração que tinha a capacidade de destruir toda a humanidade. Jesus disse sobre a geração do fim dos tempos: “E, se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se salvaria; mas por causa dos escolhidos, serão abreviados aqueles dias” (versículo 22). É evidente que as armas daquela época não eram suficientes para cumprir esta profecia. Em outras palavras: podemos saber que quem vai abreviar aqueles dias é o próprio Deus (abreviar seria mais corretamente traduzido por encurtar). Mas, a verdadeira pergunta é: “Por que os dias da tribulação devem ser encurtados?” Em primeiro lugar, não vai ser tão longa a duração como Satanás e as forças opressoras do Anticristo desejariam. Isto é, tornando-se mais curto o tempo  acaba-se o poder dos opressores. Poder este que, se fosse entregue totalmente  às forças inimigas, malignas e diabólicas, poderia extinguir  toda a humanidade. Por outro lado, se  Deus fosse  derramar juízo perfeito, nenhum deles sobreviveria. Mas Deus é misericordioso e limita, portanto, a grande tribulação em apenas 1.260 dias.

O ponto central desse socorro providencial de Deus é fazer com que muitos sejam salvos, pois do contrário, ninguém se salvaria. Provavelmente, o que o contexto queria dizer é que nenhuma carne sobreviveria se a Grande Tribulação não fosse cortada pelo dia do Senhor, pela Sua Vinda.

Tragédia-Japão-Terremoto-e-TsunamiOs Sinais e a Vinda

A Vinda de Jesus deve acontecer LOGO após as aflições previstas, como está registrado no verso 29. Obviamente, a referência, “aflição daqueles dias”, não deve significar os infortúnios sofridos por Jerusalém em 70 AD. A Vinda descrita não é uma vinda secreta, uma vinda invisível em julgamento, como ensinam os preteristas, pois o verso diz claramente que LOGO DEPOIS das tribulações daqueles dias “aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória”, verso 30.

Eu não entendo como o preterismo pode estar convencido de que Jesus não foi além de 70 d.C. no seu discurso em Mateus 24, e que o fim dos tempos, e até mesmo a Segunda Vinda, aconteceram em seguida. Enquanto isso, um outro grupo numerosíssimo sente que há mais para a descrição “vindo com poder e grande glória” do que tentar aceitar conciliar as profecias com eventos no ano 70 AD. Mas o problema é: Jesus fala de um tempo terrível de angústia em relação a Jerusalém, para ser seguido imediatamente (v. 29) por sua aparição em glória? Como Jesus pode ter falado da queda de Jerusalém em 70 d.C. e da Sua Vinda imediatamente depois disso?

Vitalmente importante é o advérbio “imediatamente” no versículo 29. Isso vincula a grande tribulação dos versículos 15-24 com os sinais cósmicos do versículo 29 e a Segunda Vinda que se segue. Estes eventos ocorrem em rápida sucessão. Eles não falam de um processo prolongado que se estende ao longo de milênios.

Comentando sobre o versículo 29, “imediatamente após“, A H McNeile, ex-professor de teologia na Universidade de Cambridge, diz: “Este versículo é a verdadeira sequela para o versículo 15. A tribulação (v. 21) é o clímax das dores de parto (v 8. ) a ser seguida imediatamente até o final. Em Marcos, a tribulação e a Segunda Vinda estão naqueles dias, ou seja, eles são eventos sucessivos do mesmo período … A tribulação será terrível, mas a Parousia [Segunda Vinda] vem em seguida. Aqui não há nenhum intervalo entre a tribulação, os sinais celestiais, e a Segunda Vinda”.

Segue-se, então, que o tempo de cumprimento para estes cataclismas não aconteceu no ano 70. Não há sinais cósmicos seguindo esse evento imediatamente.  Por outro lado nenhum preterista poderia interromper os acontecimentos que são descritos como dores de parto (sinais anteriores a sua Vinda que culminam na sua Vinda). Ou seja: os acontecimentos cósmicos não poderiam ter ocorrido na destruição de Jerusalém e a Vinda de Jesus ser aceita como tendo seu cumprimento no fim dos tempos. Um verdadeiro absurdo que aborta tudo – As dores de parto se iniciam, mas são interrompidas por quase dois mil anos? Onde já se viu tamanha asneira?

A declaração-chave que Jesus fez, “dores de parto”, não foi por acaso. Dores de parto são caracterizadas por dor crescente, frequentes à medida que progridem. Torna-se consciente, dentro deste contexto de Mateus 24, a progressão, seguida de intensidade frequente das catástrofes naturais quando eles começam, provavelmente pode ser um último aviso para aqueles que estão conscientes do significado dessa frase.

Por outro lado, certamente os discípulos, como também aquela geração inteira, jamais poderiam ter presenciado sua Vinda, e muito menos a abominação da desolação, pestes, terremotos em várias partes do mundo, a proliferação dos anticristos e falsos profetas e nação se levantando contra nação e guerras e rumores de guerras. Na época da destruição de Jerusalém houve a destruição do templo e da cidade, mas não houve “muito engano” –  os que vinham em Seu nome enganando muitos, pois era princípio do evangelho. Na verdade, o que havia realmente era os verdadeiros, os escolhidos pessoalmente por Ele (e não os falsos em Seu nome).

Não houve em 70 d.C. os marcantes terremotos (como está havendo a muito pelo mundo); tampouco peste (como na Idade Média) que dizimou um terço da população da Europa. Antes da destruição de Jerusalém não houve fome como nas nações da África, hoje, que nascem, crescem, vivem e morrem com fome e de fome.

Ora, é somente quando “todas estas coisas” (por Ele notificadas) puderem ser vistas é que Ele já estaria às portas. Portanto, hoje é que vemos tudo isto! Naquela época  não estava havendo os marcantes sinais que o Senhor descreveu: fomes, pestes e terremotos em vários lugares. “… e haverá fomes [a versão Almeida Revista e Corrigida acrescenta: ’… e pestes’,] e terremotos em vários lugares”, que, literalmente, significa “em vários lugares ao mesmo tempo”. Isso ocorreu, pela primeira vez, depois da I Guerra Mundial. Nos idos de 1918 a 1920, a influenza foi provavelmente a “peste” mais letal do mundo em toda sua história – Obviamente isso é um retrato literal da nossa geração. Não aconteceu no período de 33 d.C. nem nos anos seguintes até a destruição de Jerusalém perto de 70 d.C. Não houve princípio de dores. Podemos acompanhar pelo próprio livro de Atos, que não menciona pestes pelo mundo, nem guerras e muito menos terremotos em vários lugares. Certamente não houve chances ou espaço para guerras, pois o império romano era império de ferro, e a qualquer insurreição, o império sufocava, pois mantinha total domínio através da famosa PAX ROMANA, ou seja, paz por imposição da espada.

PRINCIO DE DORESMateus 24.7 fala sobre o primeiro sinal ou “dor de parto”, quando registra: “Porque se levantará nação contra nação, reino contra reino”. Uma vez que a visão apresentada por Jesus neste versículo era de amplitude mundial, poderia ser uma alusão a I Guerra Mundial (1914-1917), a qual, historicamente, foi o primeiro conflito de proporções mundiais, iniciada por uma nação contra outra e que acabou por envolver as nações do mundo.  Mateus 24.8, diz, ”… tudo isto é o princípio das dores” (i.e., dores de parto) ou sinais da Sua Vinda.

Há um paralelismo e uma concordância quase literal entre Mateus 24.4-8 e Apocalipse 6, onde o Senhor abre os selos de juízo:

Falsos cristos (Mt 24.5) – primeiro selo: um falso cristo (Ap 6.1-2).

Guerras (Mt 24.6-7) – segundo selo: a paz será tirada da terra (Ap 6.3-4).

Fomes (Mt 24.7) – terceiro selo: um cavaleiro montado em um cavalo preto com uma balança em suas mãos (Ap 6.5-6).

Terremotos (Mt 24.7), epidemias (Lc 21.11) – quarto selo: um cavaleiro montado em um cavalo amarelo, chamado “Morte” (Ap 6.7-8).

Nesse tempo muitos morrerão como mártires (Mt 24.9) – quinto selo (Ap 6.9-11).

Coisas espantosas e grandes sinais no céu anunciam a chegada do grande dia da ira do Senhor (Lc 21.11) – sexto selo (Ap 6.12-17).

Além disso, o engano e a impiedade se alastrarão, o amor esfriará, significando que muitos apostatarão de sua fé (Mt 24.11-12, veja 2 Ts 2.10-11). Quem perseverar até o fim verá a volta do Senhor e entrará no Milênio (Mt 24.13).

Portanto, quando Jesus diz: “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam“, ele não poderia de maneira alguma estar falando da geração do seu tempo. No entanto, ele disse que uma geração não passaria quando começasse a ver todos os sinas ocorrendo simultaneamente.

Não seria presenciar apenas fome; não seria apenas pestes; não seria apenas terremotos em vários lugares; não seria apenas guerras, e nações contra nações e reino contra reino; e não seria somente falsos Cristos e falsos profetas vindos em Seu nome; mas seriam todos esses sinais abundantemente se cumprindo conjuntamente pelo mundo todo. Então, a geração que presenciasse todos esses sinais é a que não passará sem que tudo se cumprisse. É como, por exemplo, aos dias de Noé. Creio que o sinal marcante de que o dilúvio estava prestes a acontecer era justamente a construção da Arca.

Podemos dizer que a geração de Noé – que viu e soube que ele estava construindo uma Arca por causa do dilúvio que viria – era a que não passaria sem que o dilúvio viesse – assim também, a geração que estiver por testemunhar e presenciar todos esses sinais preditos por Cristo em Mateus 24 é a que enfrentará tudo o que o Senhor predisse – ou seja, a nossa geração.

Se atentarmos para a proposta preterista, a grande tribulação e a parousia de Cristo aconteceram durante a geração dos discípulos. Não devemos estar olhando para o futuro, aguardando estes eventos ocorrerem. Eles já aconteceram, garante o preterismo. E Mateus 24:34, com “esta geração”, solidifica os seus argumentos.

A Figueira

Lembre-se do que Jesus diz: “Aprendei, pois, esta parábola da figueira: Quando já os seus ramos se tornam tenros e brotam folhas, sabeis que está próximo o verão. Igualmentequando virdes todas estas coisas, sabei que ele está próximo, às portas” (Mat. 24:32-33).

A quem a figueira representa? Alguns acreditam que é Israel. Assim, quando Israel se tornou uma nação em 1948, o calendário de uma geração teria começado. O problema é que o cálculo para uma geração de 40 anos faria com que tudo tivesse cumprimento em 1988, o que não ocorreu.

A figueira, no entanto, não ilustra Israel se tornando uma nação em 1948. A figueira é simplesmente uma ilustração da natureza. Os discípulos perguntam: Qual será o sinal da tua vinda e do fim dos tempos? E a resposta é: os eventos da Grande Tribulação. Isto é ilustrado pelo ciclo de uma árvore. Quando as folhas aparecem em uma árvore é um sinal de que o verão está próximo. Da mesma forma, quando os eventos da Grande Tribulação se desdobrarem, os crentes podem conhecer que a Segunda Vinda está próxima.

Há duas evidências para essa interpretação. Em primeiro lugar, quando Jesus faz Seu ponto da ilustração usando a figueira, Ele diz: “Quando vocês virem todas essas coisas, sabei que ele está próximo, às portas!” (33). O Senhor não está falando de um único evento, tais como Israel se tornando uma nação em 1948. Ele fala de todos os eventos da tribulação como sendo sinais da segunda vinda.

Em segundo lugar, na passagem paralela em Lucas, ele  registra Jesus adicionando a frase, e todas as árvores: “E disse-lhes uma parábola: Olhai para a figueira, e para todas as árvores; Quando já têm rebentado, vós sabeis por vós mesmos, vendo-as, que perto está já o verão”, Lucas 21:29, 30. Se o florescimento da figueira era uma referência para a fundação de Israel, o que o florescimento das outras árvores quer ilustrar? A parábola entendida dessa forma não faz sentido

Novamente, a melhor compreensão da passagem é que o Senhor simplesmente está dando uma ilustração da natureza. O ponto da parábola é totalmente descomplicado; até mesmo uma criança pode dizer, olhando para uma figueira que o verão está próximo. Da mesma forma, a geração que vê todos esses sinais saberá com certeza que o retorno de Cristo se aproxima.

Respostas para três Perguntas

A questão que deve ser respondida de uma vez por todas é: Mateus 24, Marcos 13 e Lucas 21 já tiveram cumprimento?

Alguns cristãos acreditam que esses capítulos seriam proféticos apenas até a destruição de Jerusalém, que ocorreu no ano 70. Alegam, por exemplo, que os judeus já foram espalhados pelas nações, como fala Lucas 21:24 e que Marcos 13:9 também já se cumpriu no livro de Atos, nos discípulos que eram açoitados nas sinagogas. No entanto, O fato de cristãos terem sido açoitados nas sinagogas não serve como referência de localização porque isso aconteceu em todas as épocas. É como falar que os cristãos seriam perseguidos, algo que nunca parou nos últimos dois mil anos.

É importante notar que Jesus menciona a destruição do templo e de Jerusalém em Lucas 21, fazendo então a ligação com os tempos finais. Aliás, este é o sentido dos quatro Evangelhos: apresentar ênfases diferenciadas dos relatos. Os Evangelhos tratam da profecia como também nós devemos fazê-lo, manejando bem a palavra da verdade (2 Tm 2.15).

Interessante que Lucas não menciona sobre “o abominável da desolação”, A “abominação desoladora” não teve seu cumprimento em 70 d.C., pois se refere à afirmação de Daniel, que aponta claramente para o fim dos tempos (Dn 12.1,4, 7, 9,11), que será estabelecido apenas pelo anticristo, vindo a ter seu cumprimento pleno e definitivo na metade dos últimos sete anos (como profetizado em Daniel 12). Falarei sobre isso mais adiante.

Lucas 21 até o versículo 24 é apenas a primeira parte da descrição de Mateus 24, só que Lucas dá mais detalhes. Porém, precisamos levar em conta que os discípulos fizeram três perguntas para Jesus em Mateus 24:3:

Quando aconteceria a destruição do Templo

Qual seria o sinal da vinda de Cristo

Qual seria o sinal do fim dos tempos (em algumas versões “fim do mundo” ou “fim da era”)

Para ser mais claro, é preciso esclarecer que Mateus, Marcos e Lucas registram a primeira pergunta

Quando sucederão essas coisas?”

Apenas Lucas e Marcos registram: “quando serão, pois, estas coisas? E que sinal haverá quando isto estiver para acontecer?”

Somente Mateus nos dá o registro dessa pergunta: “Qual será o sinal da tua vinda e do fim dos tempos?”

Lucas inclui de forma explícita resposta à pergunta 1, e faz isso no capítulo 21:20-24.

Mas, quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação. Então, os que estiverem na Judéia, fujam para os montes; os que estiverem no meio da cidade, saiam; e os que nos campos não entrem nela. Porque dias de vingança são estes, para que se cumpram todas as coisas que estão escritas. Mas ai das grávidas, e das que criarem naqueles dias! porque haverá grande aperto na terra, e ira sobre este povo. E cairão ao fio da espada, e para todas as nações serão levados cativos; e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem”. Isso se cumpriu em 70 d.C.

Podemos acreditar e afirmar piamente que Jesus respondeu a terceira pergunta de forma ampla, tendo Mateus como aquele que nos brinda com mais detalhes sobre os acontecimentos que culminam na Segunda Vinda de Cristo, já que apenas o seu Evangelho registra esta pergunta. Portanto, precisamos encontrar dentro do contexto as respostas para esta pergunta. O que perguntaram foi: “… que sinais haverá da tua vinda e da consumação do século?”, e não “quando será o dia da sua Vinda?” O texto é bem claro quando exige resposta sobre “Sinas da Vinda e da consumação dos séculos”, e a resposta não pode ser aquela que os preteristas desejam. Ou seja, que Jesus resumiu respondendo vagamente: “Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente meu Pai”, Mateus 24:36.

Em vez de adotar o sentido claro desse texto das Escrituras a fim de entender seu significado, nossos colegas de linha reformada e preterista querem nos levar a crer que Jesus fazia uma alusão aos discípulos do primeiro século. Sua motivação ao fazê-lo não é porque o texto bíblico em questão ensine isso, mas porque suas pressuposições teológicas o exigem; do contrário, teriam de abandonar suas crenças amilenistas e pós-milenistas. Aqueles que “interpretam as Escrituras em seu sentido literal, a menos que os fatos do contexto imediato nitidamente indiquem o contrário”, devem crer, na sua esmagadora maioria, que Jesus voltou imediatamente após a concretização de muitos sinais que Ele apresentou nessa passagem como placas sinalizadoras em resposta às seguintes perguntas dos discípulos: Dize-nos quando sucederão estas coisas e que sinais haverá da tua vinda e da consumação do século (Mt 24.3).

Portanto, é importante examinar os eventos preditos por Jesus acerca de dias obviamente futuros, a fim de constatar se Ele aludia àquela geração do primeiro século ou fazia referência aos crentes que hão de contemplar os eventos profetizados. Devemos também enfatizar aqui, que há coisas que são impossíveis de você conciliar com o que ocorreu até a destruição de Jerusalém.

Por exemplo: Mateus 24:21, diz, “porque haverá então uma tribulação tão grande, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá”.

Marcos 13:19 também registra, porque naqueles dias haverá uma tribulação tal, qual nunca houve desde o princípio da criação, que Deus criou, até agora, nem jamais haverá.

Mar 13:24, Mas NAQUELES DIAS, DEPOIS DAQUELA TRIBULAÇÃO, o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz;

Mar 13:25 as estrelas cairão do céu, e os poderes que estão nos céus, serão abalados.

Mar 13:26 Então verão vir o Filho do homem nas nuvens, com grande poder e glória.

Luc 21:25 E haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; e sobre a terra haverá angústia das nações em perplexidade pelo bramido do mar e das ondas.

Luc 21:26 os homens desfalecerão de terror, e pela expectação das coisas que sobrevirão ao mundo; porquanto os poderes do céu serão abalados.

Luc 21:27 Então verão vir o Filho do homem em uma nuvem, com poder e grande glória.

Luc 21:28 Ora, QUANDO ESSAS COISAS COMEÇAREM A ACONTECER, exultai e levantai as vossas cabeças, porque a vossa redenção se aproxima.

Por que Jesus falaria para seus discípulos que a redenção deles se aproximava se as previsões eram de destruição total para Jerusalém? Veja: “Mas, quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação… E cairão ao fio da espada, e para todas as nações serão levados cativos; e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem”.

Por outro lado, ainda não vimos a Grande Tribulação sem paralelo acontecer, algo mais terrível do que o dilúvio ou as duas guerras mundiais. Também não vimos ainda o sol se escurecer e a lua não dar sua luz, e nem as estrelas caindo e os poderes do céu sendo abalados. Também não vimos os homens desfalecendo de terror. Portanto, tudo isso ainda é futuro. É preciso saber dividir a Palavra de Deus.

O que parece não ser considerado pelo preterismo é que as profecias de Jesus possam ter duplo cumprimento, também revelando em todo o contexto circundante – Mateus, Marcos e Lucas – que além da geração má e incrédula existir até o fim do mundo, houve  previsões para a destruição de Jerusalém como há para o fim dessa era com a Volta do Senhor.

Mateus 24:34 também faz referência a uma futura geração que vai experimentar todos estes acontecimentos, o que não exige que seja apenas a geração de seus primeiros discípulos. Isso pode ser solidificado com Jesus vindo sobre as nuvens, que é uma referência à Sua Segunda Vinda. Por isso, este evento e aqueles que o rodeiam, como a grande tribulação, deve acontecer no futuro. Eu acho que há algum mérito nesta interpretação, mas também creio que Jesus pretende outra coisa com “esta geração”. Ele pode também estar usando a expressão “esta geração”, não em algum sentido neutro ou temporal, mas como uma caracterização depreciativa referente a um povo mal e não crente, que inevitavelmente se dirige a passos largos para o julgamento escatológico. Esta expressão pode representar também “uma classe mal de pessoas que irão se opor aos discípulos de Jesus até o dia em que ele retornar”.

A Geração que nunca Passou

Observe como tudo começou: “E, QUANDO Jesus ia saindo do templo, aproximaram-se dele os seus discípulos para lhe mostrarem a estrutura do templo. Jesus, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada. E, estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a ele os seus discípulos em particular, dizendo: Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?”, Mateus 24:1-3.

Notem que os discípulos abordam Jesus duas vezes em Mateus 24: 1 e 3. No começo Mateus registra a admiração dos discípulos quanto ao complexo do templo (24: 1), mostrando-os absurdamente fora de contato com o pronunciamento de Jesus quanto ao julgamento sobre Jerusalém, seu templo e sua liderança (Mateus 23). Observe também o abandono decisivo de Jesus ao templo em 24: 1).

A resposta de Jesus aos discípulos em 24: 2 é corretiva. Os discípulos, em seguida, vêm a Jesus com suas perguntas sobre o fim do mundo. Jesus claramente separa a destruição do templo de sua Segunda Vinda em Mateus 23: 38-39. Deve-se notar também que a resposta correta de Jesus para o futuro não é para calcular quando o fim vai ser, mas para redimir o tempo, estar vigilante (24: 4) e pronto (24:44), ser leal e aguardar duradoura oposição (24:13) pela pregação do evangelho (24:14) e por ser fiel e misericordioso no ministério (24: 45-51).

O discurso de Jesus é concebido para corrigir a perspectiva equivocada dos discípulos. Ao invés de dar-lhes momentos específicos que permitam calcular quando seria o fim do mundo e o tempo da sua Vinda para que eles entrassem logo na sua glória, Jesus adverte-os de que eles devem esperar grave oposição nesta ocasião em que ele vai trazer o seu julgamento (24: 30-31, 38-41, 45-51; 15: 1-13, 14-30, 31-46) – uma época que não se pode nem saber nem esperar, como fica explícito em vários textos.

Jesus não estruturou seu discurso de acordo com a agenda de perguntas de seus discípulos, mas por aquilo que eles precisavam saber e fazer na hora entre os adventos do Senhor. Qualquer interpretação de que “esta geração” é a geração dos discípulos implica dizer que os próprios discípulos poderiam prever o tempo para qualquer momento num futuro próximo, podendo usar os eventos de Mateus 24: 4-28 para calcular e esperar o retorno de Jesus dentro uma geração – quarenta anos – que permitiria um período para se preparar o que parece ser contrário a todo o propósito e ênfase do discurso do Senhor.

Em outras palavras, os discípulos são informados de que os desastres e perseguições de 24: 4-14 não são sinais do fim (24: 6). Como poderia o preterista explicar esta contradição se a grande tribulação é seguida imediatamente pela Vinda de Jesus (24:29)? Ou seja: como poderia o Senhor, por um lado afirmar que sua própria geração contemporânea veria o cumprimento de toda a sua profecia e, por outro lado, apenas dois versos depois afirmar que nenhum homem, nem ele mesmo, poderiam saber o tempo de Sua vinda que deveria ocorrer imediatamente LOGO APÓS as tribulações citadas em todo o contexto, desde o verso quatro, que para o preterista aconteceu no ano 70 d.C? Estes são os problemas que os preteristas têm que enfrentar!

A principal força de “esta geração” em Mateus 23 e 24 tem sido reconhecida por muitos intérpretes com conexões das duas gerações mais notórias no Antigo Testamento: A geração do dilúvio e a geração da peregrinação no deserto. Adjetivos como “mal”, “perversos” e “infiéis” (Mat 11:16-24; 16: 4; 17:17), que foram aplicados à geração que Jesus pregava, vêm da Canção de Moisés em Deuteronômio 32; conforme, especialmente, os versos 5 e 20, que dizem: “Corromperam-se contra ele; não são seus filhos, mas a sua mancha; geração perversa e mal… E disse: Esconderei o meu rosto deles, verei qual será o seu fim; porque são geração perversa, filhos em quem não há lealdade”.

Mateus também parece ter deliberadamente sobreposto a frase “esta geração” porque viu relação com os dias de Noé (24: 37-39), que é um tipo explícito da vinda do Filho do Homem. Este é provavelmente um eco proposital de Gn 7: 1, “Então o Senhor disse a Noé:” Entra na arca (cf. Mt 24:38”, até o dia em que Noé entrou na arca”), você e toda a tua casa, porque achei você justo diante de mim nesta geração“. Digno de observação é que Deus chama o povo corrompido dos tempos de Noé, de geração!

Os piedosos não pertencem a “esta geração”, embora eles vivem entre eles (cf. Atos 2:40; fil 2:15). Em Gên 7: 1 Noé é descrito como o único justo individual de “esta geração”. Ele viveu, mas não pertencia a “esta geração” (descrita como perversa, violenta e corrupta em Gênesis 6: 5-11), a geração que não passará. Geração também presente no contexto de vida do Senhor Jesus – geração que estará presente até o fim das eras.

Mateus 24: 36-44 apresenta a mesma separação entre os fieis e os ímpios como se encontra em Gen 7: 1. O povo dos dias de Noé foi alheio a Deus e a pregação de arrependimento por Noé. Noé foi salvo e todos eles foram varridos para o julgamento (24:39). Da mesma forma que não se arrependeram, a incrédula e perversa geração de pessoas que estão vivas quando o Filho do Homem vier será tomada em julgamento (Mateus 24:30, 40-41, 50-51; 25:11-12, 30,41-46) e o reino vai ser fechado para todos eles.

Noé sofreu o ridículo e a perseguição, mas com certeza sofreu pacientemente, resistindo ao longo de todo o tempo em que construiu a arca. Quando a arca foi concluída e carregada, a situação mudou imediatamente. A inundação veio e destruiu aquela geração. Da mesma forma, os sinais de Mateus 24: 4-28 continuarão enquanto a maldade é multiplicada (24:12; cf. Gênesis 6) na geração do engano e da perseguição aos piedosos (Mateus 24:4-11; 25: 31-46). Assim, “Esta geração não passará até que todas estas coisas aconteçam“. Mas quando Cristo vier em juízo eles são destruídos.

Características da Geração Perversa

Um estudo sobre o uso de “esta geração” (Mateus 11:16; 12:41, 42,45; 23:36; 24:34) e com outros adjetivos descritivos (12:39, 45; 16: 4; 17:17) usados num mesmo sentido, revela que o tipo de pessoas referidas são caracterizadas como aqueles que rejeitam Jesus e seus mensageiros e a mensagem salvífica que lhes é pregada, que permanecem incrédulas e impenitentes, que se opõem ativamente a Jesus e seus mensageiros através de testes e perseguição; são estes que enfrentarão o julgamento escatológico.

Nos Evangelhos, a palavra “geração” traduz a palavra grega ge·ne·á, que os léxicos atuais definem nos seguintes termos: “Literalmente, os que descendem de um mesmo antepassado” (Greek-English Lexicon of the New Testament, de Walter Bauer) “Aquilo que foi gerado, uma família; . . . membros sucessivos duma genealogia . . . ou duma raça de pessoas . . . ou de toda a multidão de homens que vivem numa mesma época, Mat. 24,34; Mar. 13,30; Luc. 1:48; 21:32; Fil. 2:15; e especialmente dos da raça judaica que viviam no mesmo período.” (Expository Dictionary of New Testament Words, de W. E. Vine) “Aquilo que foi gerado, homens da mesma estirpe, uma família; . . . toda a multidão de homens que vivem numa mesma época: Mat 24:34; Mar 13:30; Luc 1:48 . . . usada especialmente referente à raça judaica que vivia num mesmíssimo período” – Greek-English Léxicon of the New Testament, de J. H. Thayer.

De modo algum se tem estabelecido que o termo “esta geração” deve se limitar aos contemporâneos. Pode também ter referência a “esta classe de pessoas”; por exemplo, os judeus em qualquer tempo ou em qualquer idade. Dignas de consideração, nesse contexto, são passagens tais como Deuteronômio 32:5, 20, Salmo 12:7, 78:8, etc. onde a LXX usa a mesma palavra traduzida aqui por “geração”, evidentemente, porém, com um significado que vai além de “grupo de contemporâneos”. E assim, mesmo no Novo Testamento (ver Atos 2:30; Fp 2:15; Hb 3:10), ainda que o ponto de partida possa ser uma referência às pessoas daquele dia em particular, este poderia não ser todo o significado. Provavelmente também assim aqui em Mateus 24:34.

Assim, tanto Vine como Thayer citam Mateus 24,34 na definição de “esta geração” (he geneá haúte) como toda a multidão de homens que vivem numa mesma época”. O Theological Dictionary of the New Testament (Dicionário Teológico do Novo Testamento; 1964) apoia esta definição, declarando: “O uso de ‘geração’ por Jesus expressa seu objetivo abrangente: ele se refere ao povo como um todo e está cônscio da solidariedade deste no pecado”.

Deveras, uma “solidariedade no pecado” era evidente na nação judaica quando Jesus estava na terra, do mesmo modo como distingue hoje o sistema do mundo.

Naturalmente, os cristãos que estudam este assunto orientam seu modo de pensar primariamente pelo modo em que os escritores inspirados dos Evangelhos usaram a expressão grega he geneá haúte, ou “esta geração”, ao relatarem as palavras de Jesus. Esta expressão foi coerentemente usada de forma negativa. Neste respeito, Jesus chamou os líderes religiosos judeus de “serpentes, descendência de víboras”.

Os adjetivos pejorativos dados a “esta geração” (mau, adúltera, infiel, perversa) em todo o evangelho, são as qualidades que distinguem aqueles que estão sujeitos ao reino daqueles que não estão. “Esta geração” em Mateus é caracterizada da seguinte forma:

1- Em 11: 16-24 “esta geração” exibe o epítome da loucura por julgar Jesus um pecador injusto (glutão, beberrão e amigo dos pecadores e etc.). Foi uma geração que não se arrependeu diante dos seus milagres. Eles irão, portanto, enfrentar o mais duro destino no dia do juízo – será com mais rigor do que foi para Sodoma.

2 – Em 12: 22-45, “esta geração” (12:41, 45) voltará a ser condenada no julgamento (12: 41-42), porque falhou a arrepender-se com a sabedoria e os milagres de Jesus e, rejeitando-o, atribuiu seus exorcismos a Satanás e, testando-o, pediram ainda assim um sinal.

3 – Em 16: 1-4 os fariseus e saduceus como membros de “uma geração má e adúltera”, novamente demonstram sua rejeição a Jesus ao testá-lo e pedir um sinal (Jesus afastou-se deles).

4 – Em 17:17 Jesus estava irritado com a “geração incrédula e perversa” enredados nas garras de Satanás.

5 – Em 23:13-36 Jesus oferece uma repreensão mordaz contra os escribas e fariseus, que compõem uma espécie corporativa da geração má (23:36) com seus pais que mataram os profetas (23:31, 35) e com os que iriam assassinar mensageiros de Jesus até o momento da Sua Vinda (23:32, 34, 38-39). Aqueles que compreendem “esta geração” são hipócritas (23: 3-7, 13, 15, 23, 25, 27, 29), de auto-exaltação (23: 5-12), espiritualmente cegos (23: 16-17, 19, 24, 26), sem lei (23:28) e tolos (23:17). Eles vão matar os discípulos (23:34), eles enganarão a muitos e fechá-los-ão para fora do reino (23: 13-15). Eles estão condenados ao inferno (23: 13-15, 33, 35-36).

Os adversários dos discípulos de Jesus em Mateus 24-25 compartilham características semelhantes com “esta geração”. São os falsos profetas que enganarão a muitos (24: 4-5, 11, 23-26; cf. 23: 13-15). Estes falsos profetas são parte dessa geração má e adúltera e tentarão fazer com que os verdadeiros discípulos apostatem (24:11). E, por absurdo que possa parecer, os doutores da lei, mestres por excelência, religiosos dos tempos de Jesus, frequentadores de templos e senhores do culto, os escribas e fariseus (23:28; cf 23: 4-5, 13, 15, 23), precursores da ilegalidade e falta de amor, são a maioria nos discursos do Senhor. Jesus lamentava a infidelidade daqueles que residiam na “Cidade Santa” (Mateus 23:37-39).

Não é a toa que a natureza “adúltera” de “esta geração” (12:39; 16: 4) é refletida em Mateus 24-25 por falsos Cristos, os falsos profetas que tocam trombeta, e os muitos que seguem suas perversidades (17:17). Eles mostram maravilhas, grandes sinais e prodígios para atrair os eleitos em apostasia durante um momento de incrível perseguição e julgamento (24: 23-26). Assim como no resto de Mateus, “esta geração” no cap. 24 é aquela que rejeita Jesus e seus mensageiros, cega para os sinais de sua vinda, que permanece impenitente e enfrenta o julgamento escatológico.

Conclusão

A geração que, conforme Mateus 24:34, contemplará todas essas coisas, de modo nenhum poderia ser apenas a geração de discípulos que viveu no primeiro século. Jesus se referia à geração acerca da qual os discípulos indagaram ao perguntarem: que sinal haverá da tua vinda e da consumação do século”. Cristo descreveu esta geração como aquela que estará viva no momento em que sucederão todas estas coisas. Ou seja, as coisas relacionadas à Sua Vinda, e não as coisas que fazem referência à destruição de Jerusalém.

 

DEBATE sobre a data do Livro de Apocalipse

Postado em Atualizado em

RevelationInfelizmente os bons vídeos sobre o assunto  são em Inglês, mas se você leitor é familiarizado com a língua, clique na caixa de subtitiles na parte de baixo do vídeo  –  do lado direito.

As legendas estarão automaticamente em inglês, apenas clique em ON e você poderá acompanhar o debate legendado. Trata-se de uma tradução simultânea, o que as vezes pode trazer algumas variantes nas palavras.

O debate é muito interessante e esclarecedor.

 

 

                                                   DEBATE sobre a data do Livro de Apocalipse

Estamos no Milênio?

Postado em Atualizado em

leaoovelha“A esmagadora maioria dos eventos escatológicos profetizados no livro do Apocalipse já se cumpriram”, declarou um famoso preterista. Um outro preterista, David Chilton, também declara: “A prisão de Satanás  teve lugar no primeiro advento de Cristo”. E ainda: “O Milênio é o período durante o qual Cristo reina, começando na sua ressurreição e continuando até o final da presente época”.  (David Chilton. Dias de Vingança . Fort Worth: Dominion, de 1985, pp 580-582).

Desde assuntos relacionados com a profecia que dominam praticamente todas as páginas neotestamentárias, significa, para o preterista, que a maioria dos escritos do NT não se refere diretamente à Igreja de hoje. Em outras palavras, Apocalipse  representa uma profecia do tumulto que estava prestes a cair sobre o mundo civilizado no primeiro século de nossa era e era essencialmente um aviso para os primeiros cristãos a agarrar-se à profissão de sua fé durante os tempos de luta e perseguição prestes a cair sobre eles.

Como grande parte do NT foi escrito para contar aos crentes como viver entre as duas vindas de Cristo, faz uma diferença enorme quando se interpreta esta vinda como um evento passado ou futuro. Se o Preterismo é verdade, então o NT refere-se aos crentes que viveram durante o período de quarenta anos entre a morte de Cristo e da destruição de Jerusalém em 70 dC. Portanto, praticamente nenhuma parte do NT se aplica a crentes de hoje segundo a lógica preterista. Não há nenhum Canon que se aplica diretamente aos crentes durante a era da igreja.

Não acreditam no que afirmo aqui? Então preste atenção nas palavras de um famoso advogado do preterismo, o Dr. Kenneth Gentry: “… a história atual é identificada como os novos céus e a nova terra de Apocalipse 21-22 e 2 Pedro 3:10-13”. Este é um ponto de vista preterista comum, onde eles fornecem razões pelas quais “a nova criação começou no primeiro século.”

Eles parecem nem se importar se provocam uma incredulidade geral, quando pensam nas implicações absurdas que tais detalhes afirmam. Observem abaixo como eles se expõem ao ridículo:

Se estamos vivendo atualmente em qualquer forma de Novos Céus e Nova Terra, então isso significa que não existe Satanás (Apocalipse 20:10), nenhuma morte, choro ou dor (Ap 21:4), já não existe impuros, nem aqueles que praticam abominação e mentira (Ap 21:27), nenhuma maldição (Apocalipse 22:3), a presença de Deus, o Pai, é reinante em nosso meio (Ap 22:4), só para citar alguns. Porém, para o preterista, não importa que a terra esteja sofrendo com a dor, tristeza, desastres, e os governos ímpios sob o comunismo e o islamismo radical. Mais de 50 milhões de crentes morreram desde 70 AD e houve 15.000 guerras – como pode isto ser “o Reino de Cristo”, o reino de paz, estabelecido pelo milênio? Além do mais, quando foi que o leão e o cordeiro pastaram juntos?

Implicações do intervalo de 40 anos

Observem como a posição preterista seria praticamente um impacto nos crentes de hoje. Muitos preteristas acreditam que passagens como Tito 2:13 referem-se à vinda de Cristo em 70 dC. Isto significaria que foi uma única esperança para os cristãos que vivem entre o tempo em que a Epístola foi escrita AD 65-66, e da destruição de Jerusalém. Paulo diz que a aparência de Cristo pela primeira vez, impacta a vida dos crentes na “idade atual.” Tito 2:12 diz, “instruindo-nos a renunciar à impiedade e aos desejos mundanos e a viver de forma sensata, justa e piedosa nesta era presente.” A gramática do versículo seguinte (2:13) relaciona as atividades de 2:12 para a atividade de “olhar para a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Cristo Jesus.”

Se 2:13 é uma referência ao ano 70 dC, como o preterista geralmente acredita, então o “tempo presente” em 2:12 teria terminado quando 2:13 foi cumprido. Portanto, a admoestação total de 2:12 foi temporária e aplicável somente aos cristãos, até o ano 70 dC. Isto significaria que a instrução “para negar a impiedade e as paixões mundanas e a viver de forma sensata, justa e piedosa nesta era presente” não se aplica diretamente à idade atual, mas à época passada, que terminou em 70 dC, quando “o aparecimento e a glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” ocorreu na destruição de Jerusalém. Infelizmente, essa lógica teria que ser a implicação prática da visão preterista aplicada a esta passagem e para a maioria do NT.

A implicação clara para os preteristas seria que Tito não tem relação alguma com a idade atual em que vivemos. Em vez disso, o texto foi aplicado por três ou quatro anos apenas se ele foi dirigido para os crentes até 70 dC, pois Paulo escreveu a Tito por volta do ano 65. Não há nenhuma maneira para um preterista usar esta passagem ou outras semelhantes como doutrina, repreensão, correção e educação na justiça para os crentes, se eles vivem agora os Novos Céus e a Nova Terra. No entanto, hipocritamente, muitos preteristas regularmente usam e aplicam estes textos de uma forma que praticamente nega a sua crença teórica de que Jesus voltou em 70 dC e agora estamos em alguma forma de Novos Céus e Nova Terra.

Esse erro preterista provoca a  crença de que não há grandes continuidades escatológicas à frente de nós, exceto a conversão dos judeus (Rm 11) e o julgamento final (Ap 20). Isso tem um impacto grande em cima da profecia Neo Testamentário, especialmente as Epístolas. É claro que a aplicação da interpretação preterista praticamente anula a aplicação direta do ensino das epístolas de nossa época atual. Assim como a Lei de Moisés foi dada por Deus a Israel para ser o foco de sua dispensação, as epístolas do NT  são o foco aqui, dando a visão e direção à igreja durante o “presente século”.

“Se o Preterismo é verdade”,  então a maioria das sanções negativas profetizadas na história só ficam nulas para nossa época. Porém, se o futurismo é verdade, então a grande apostasia ainda está por vir. E aqui entra uma questão importantíssima:  a atual igreja, apóstata e morna, encaixa-se nas profecias negativas que se referem a uma grande apostasia no fim dos tempos, ou devemos concluir que as dezenas de passagens falam sobre a apostasia cumprida em 70 dC, como exige o Preterismo?

Apostasia Presente e Futura

A teoria preterista de que estamos no Novo Céu e na Nova terra, também elimina a crença na Grande Apostasia. Se a  Grande Apostasia aconteceu no primeiro século, não temos garantia bíblica em esperar a apostasia aumentando à medida que progride a história; ao invés disso, devemos esperar  a cristianização crescente do mundo, o que não deixa de ser um absurdo diante do quadro apóstata da Igreja de nosso tempo.

Esta é outra área onde uma grande parte da NT, especialmente as Epístolas e Apocalipse, teria de ser ajustado longe do significado cristão que tem sido observado historicamente  nessas passagens. Um exemplo disto é visto na forma como as diferentes abordagens iria lidar com a advertência de Paulo em 2 Timóteo 3. Paulo começa dizendo que “nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis” (3:1). Os “últimos dias” provavelmente se referem a toda a Igreja atual, ou talvez seja uma referência geral à parte final da era da Igreja atual. De qualquer maneira, é uma referência ao período de tempo antes da fase final da história que os preteristas insistem dizer que se cumpriram em 70 dC. Na verdade, Paulo passa a descrever como esses tempos serão caracterizados por homens que “serão amantes de si mesmo,” (3:2) “em vez de amigos de Deus” (3:4). O curso geral dos “últimos dias” é descrito como uma época em que “todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. Mas os homens maus e impostores irão continuar de mal a pior, enganando e sendo enganados” (3:12 -13). Portanto, se os “últimos dias” já vieram e se foram, devemos esperar que a perseguição aos piedosos estivesse ausente de nossa época.  De acordo com o preterismo, isso se aplica diretamente aos eventos antes de 70 dC, mas não após esse período.

A verdade é que a apostasia aumenta, não diminui, durante a era da igreja atual. Portanto, o Preterismo é errante, e esse erro faz com que eles apresentem uma interpretação teórica sobre esta e mais outras doutrinas do NT que dizem ter ficado longe no tempo, garantindo a Igreja de nossos dias que o cumprimento de tais doutrinas se encaixou nos anos 60 e 70 dC. Isso causou um bloqueio nas mentes confusas preteristas, impedindo-os de libertar muitos textos que foram dirigidos à nossa época atual. A interpretação preterista da profecia do NT está tão longe do que a Bíblia ensina que se tornou impossível a aplicação prática de seus ensinamentos para a presente era.

Satanás está amarrado ou solto?

A visão preterista relacionada com o trabalho atual de Satanás e os demônios devem refletir a sua teologia sobre o assunto. De acordo com esta  visão, Satanás está atualmente aprisionado (Ap 20:2-3), pisado e moído (Rom. 16:20). O inimigo não foi apenas derrotado  (legalmente) na cruz, mas tem sido esmagado de fato. Portanto, os bloqueios da estrada espiritual do mundo e do diabo foram removidos e só inimigos da carne é que agora podem dificultar os crentes de reinar e governar  no Novo Céu e Nova Terra. Por outro lado, se o aprisionamento e derrota final de Satanás ainda estão no futuro, então as exortações nas Epístolas fazem sentido na presente época. Exortações de como “resistir ao diabo e ele fugirá de vós” (Tiago 4:7 b), “Sede sóbrios… vosso adversário, o diabo, anda em volta como leão que ruge, procurando alguém para devorar,   “deis lugar a ira, mas não pequeis, não se ponha o sol sobre a vossa ira,  não dêem ao diabo…” (Efésios 4:26-27) e, “Porque a nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra os principados, contra as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais” (Efésios 6:12), não seriam necessárias se satanás estivesse aprisionado. Estas são as instruções e táticas  a serem aplicadas pelo crente na presente época, porque ainda não estamos nos Novos Céus e Nova Terra.

Pensamento semelhante poderia ser aplicado a partir das implicações do preterismo em muitas passagens e temas da vida cristã. Basta Pensar: Não há mais sofrimento. Se nenhum sofrimento há, então não há necessidade de resistência. Não há necessidade de o processo de santificação que envolve sofrimento, fé, perseverança e esperança. Sem esperança, porque Cristo voltou em 70 dC e inaugurou um novo dia. Não há nenhuma apostasia da igreja, não há dor, sofrimento ou morte. Portanto, uma vez que estamos, obviamente, não vivendo sob tais condições, significa que o Preterismo também é uma grande farsa!

Os sofrimentos do tempo presente

Os Novos Céus e Nova Terra são para ser um momento de paz e descanso para o povo de Deus. A era anterior a este tempo será de sofrimento e luta. Novamente, se a interpretação preterista está correta, então a instrução das Epístolas NT sobre a questão do sofrimento só foram diretamente aplicados aos crentes até o ano 70 dC, porque nós agora vivemos no tempo de paz, e não “os sofrimentos do tempo presente” de que fala Paulo (Rm 8:18).

Apocalipse promete uma recompensa futura de co-regência com Cristo para os crentes que permaneceram fiéis e leais a Ele durante a presente época de humilhação (Ap 3:21, ver também 2:25-28). Apocalipse 3:21 não só promete reger o futuro com Cristo após essa idade atual de humilhação, mas observe também que faz uma distinção entre o futuro reino de Cristo e a promessa atual de Deus. “Ao que vencer, eu vou conceder a ele a sentar-se comigo no meu trono, assim como eu venci e me assentei com meu Pai no seu trono.” Estas passagens não fazem sentido e certamente não se aplicam aos dias de hoje, se estamos no Novo Céu e na Nova Terra  dos preteristas.

Paulo e as tradições do Catolicismo

Postado em Atualizado em

Observem este discurso do apologista católico Rafael Rodrigues:

“Sendo a Sola Scriptura uma doutrina que já se torna auto-refutável por não haver na Bíblia nenhum versículo que a prove, seus adeptos hoje tentam usar-se de malabarismos exegéticos para poder explicá-la, negando assim a tradição oral, que é ensinada pela própria bíblia, colocando o valor desta como inútil para o Cristão.

Também tentam fazer uma exegese barata das palavras de Paulo, (II Tes. 2,15; II Tes 3,6) dizendo que tal Tradição Oral que Paulo fala nada mais é que o próprio conteúdo da bíblia, ora Paulo fala claramente “tradições que aprendestes, ou por nossas palavras, ou por nossa carta”, será que é difícil entender? Paulo iria colocar o que falou e o que escreveu em pé de Igualdade? Não poderia ele simplesmente falar de um só já que são os mesmos, ele precisaria especificar diferenças?”

Você pode encontrar seu artigo aqui: 2 Timóteo 3,16-17 & 1 Coríntios 4, 6 e a Sola Scriptura

Ele acrescenta

“… Paulo insiste a Timóteo em II Timóteo 1, 13 “Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus”. É o que Timóteo ouviu de Paulo que é chamado de “bom depósito”, mostrando que a mera audição da palavra da boca de Paulo deixou uma marca indelével na consciência de Timóteo e serviu de base para a sua compreensão do evangelho e sua missão de ser um homem de Deus completo. Da mesma forma, em II Timóteo 2, 2, Paulo diz: “E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros.” Mais uma vez, mesmo que as Escrituras estivessem à sua disposição, Timóteo iria confiar tanto ou mais no que ele “ouviu” de Paulo”.

Esse outro artigo está aqui: 2 Timóteo 3, 16-17 ensina a Sola Scriptura?

Minha refutação

Como fica evidente, e é tradição mesmo, e das piores, a apologética católica luta contra as Escrituras somente para promover a sua tão confusa “sagrada tradição”. Não encontrando na Bíblia apoio para seus inúmeros dogmas, então nada melhor do que negar a suficiência da própria em detrimento de palavras que jamais foram escritas em livro nenhum, mas posteriormente registradas pelos sucessores dos apóstolos. Por exemplo: Paulo jamais escreveu uma linha sobre a mediação dos santos falecidos, mas eles garantem que esse dogma, como muitos outros, estão inseridos dentro das tradições aludidas pelo apóstolo nos textos citados acima pelo apologista mariano, mas que ficaram apenas na forma oral entre os cristãos da Igreja Primitiva – nada foi registrado. 

Vamos abrir aqui os textos que ele citou. E vou acrescentar mais um, pois este também é usado de apoio para a tradição católica romana. Falo de 1 Coríntios 11:1, 2, que diz:

Sede meus imitadores, como também eu de Cristo; de fato, eu vos louvo, em tudo, porque vos lembrais de mim e retendes as tradições assim como vo-las entreguei”.

Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu”. (2 Tessalonicenses 3:6)

Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra seja por epístola nossa”. (2 Tessalonicenses 2:15).

Sobre estes três versículos repousa todo o edifício da tradição do Catolicismo. Porém, nem um deles se refere à tradição católica romana conforme ela tem se desenvolvido através dos séculos, desde os dias dos apóstolos. Isso fica claro quando examinamos o contexto, quase sempre ignorado pelos católicos e abandonado pelos protestantes porque acham difícil de refutar.

Vamos iniciar a refutação por 2 Tessalonicenses 3:6

Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu”.

No capítulo anterior de sua epístola, Paulo avisa sobre aqueles que estavam ensinando que a segunda vinda era iminente (2 Tess. 2:2), e estes tinham aparentemente anunciado alguns enganos à Igreja em Tessalônica, cessando sua labuta diária. Consideravam que o Senhor pudesse voltar a qualquer momento não havendo assim necessidade de trabalhar. Paulo deixou bem claro no capítulo 2 que este tipo de ensino foi um erro, e ele detalha eventos que primeiro deve ter lugar antes de Cristo retornar (2 Tess. 2:3-12).

Os que são mais conservadores no catolicismo até conseguem visualizar no texto uma forte permissão que os proteja dos evangélicos, expressa em rejeição “legítima” àqueles que não observarem as tradições católicas, quando são exortados a “… se apartar de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu”.

A Apologética Católica teve a ousadia de interpretar essa passagem de uma forma completamente absurda: “Àqueles entre os cristãos primitivos que não cressem na intercessão dos santos, na mediação de Maria, no purgatório, nas indulgências e no pontificado do Pedro romano, deviam os outros desviar-se deles.”

O que realmente Paulo ensinou quando examinamos o contexto?

Imediatamente após exortar a Igreja a se apartar dos que andavam desordenadamente, dos que não andavam segundo a tradição que dele receberam, Paulo os lembra de como devem imitá-lo,

Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu. Porque vós mesmos sabeis como convém imitar-nos, pois que não nos houvemos desordenadamente entre vós”, vv 6,7.

Note que após citar a frase, “vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente”, ele faz a junção com, “e não segundo a tradição que de nós recebeu”.

Observe também a palavra “porque”- ela une as tradições ao exemplo de Paulo. O detalhe é claro, pois mostra que ele não falava de doutrinas católicas romanas. Vamos descobrir que Paulo tem em mente outro tipo de tradição.

Paulo exorta a Igreja de Tessalônica que se lembre do contraste entre ele – que não andou desordenadamente – daqueles que andavam desordenadamente. E para isso deveriam observar as tradições deixadas por ele. Isso tem a ver com os exemplos de Paulo, sua disciplina entre os tessalonicenses. Por isso ele começa a discorrer nos versículos seguintes sobre essas tradições: “Não comemos de graça o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não porque não tivéssemos autoridade, mas para vos dar em nós mesmos exemplo, para nos imitardes”, vv 8,9.

Paulo lembra aos Tessalonicenses que quando estava com eles não quis viver ociosamente, aceitando doações de caridade de membros da igreja, mas pagou um preço justo, até mesmo por suas refeições. Ele fez isso apesar de ter direito ao sustento como pregador da Palavra. Ele queria que os ociosos seguissem essa tradição, a qual lhes havia passado quando estava no meio deles. E aqui ele as transforma em palavra escrita:

Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também. Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs. A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão. E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem”, vv 10-13.

Paulo retoma e amplia sobre o que ele disse no versículo 6:

Mas, se alguém não obedecer à nossa palavra por esta carta, notai o tal, e não vos mistureis com ele, para que se envergonhe. Todavia não o tenhais como inimigo, mas admoestai-o como irmão”, vv 14,15.

Caro leitor, observe o detalhe terrível para os militantes católicos: “… se alguém não obedecer à nossa palavra por esta carta”.

A tradição estava escrita na carta!

Paulo estava lembrando a forma como ele conduziu os Tessalonicenses quando estava com eles. Ele era auto-suficiente, trabalhando diligentemente para ser produtivo e ganhar uma renda e sustentar ele próprio e os que o acompanhavam no seu ministério. Está aí a tradição que Paulo fala no verso 6, que era um contraste com a ociosidade de muitos ali naquela Igreja:

Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo o irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebeu”.

Mais claro impossível!

Paulo nada alega sobre algum tipo de doutrina para a fé passada de forma oral, pois ele esclarece na carta o conteúdo dessas tradições. O motivo da exortação não significava que os que andavam desordenadamente estavam deixando de colocar em pratica algum dogma católico romano. Paulo mesmo esclarece que não se tratava disso ao usar seu próprio exemplo. 

Porque vós mesmos sabeis como convém imitar-nospois que não nos houvemos desordenadamente entre vós”, v 7. 

A tradição de Paulo era que os irmãos andassem ordenadamente como ele ensinou na carta. Não era uma alusão a dogmas entregues em oculto, que seriam passados as futuras gerações de boca em boca. 

“Não porque não tivéssemos autoridade, mas para vos dar em nós mesmos exemplo para nos imitardes”. 

O proceder de Paulo e o exemplo de vida. Essa era a tradição que deveria ser seguida!

Vou fazer aqui uma recapitulação, pois é muitíssimo  importante atentar para este contexto. É por demais sublime a riqueza de detalhes que nos revela o que eram essas tradições. Observe novamente como Paulo esclarece de maneira explícita o conteúdo das mesmas:

“Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto, que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também. Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs”, vv 10,11. 

Ele simplesmente escreve o que havia passado de forma oral quando estava entre os tessalonicenses: “… quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto…”. 

Paulo escreveu aborrecido sobre aqueles que andavam desordenadamente “… Fazendo coisas vãs…”. Eram malandros boa vida, preguiçosos que comiam à custa dos outros. O problema destes não era que estavam deixando de praticar a oração pelos mortos, crer na intercessão dos santos ou mesmo negligenciando as novenas. 

O que eram essas coisas vãs?

A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão”, v12. 

As tradições aludidas por Paulo neste contexto não pode ser uma referência à verdade transmitida de geração em geração. Paulo está falando de uma “tradição” para a necessidade dos Tessalonicenses naquele momento recebida e passada em primeira mão. Trata-se do encerramento da epístola – Paulo está fazendo um resumo. E, uma vez mais, ressalta a importância do ensino que os tessalonicenses tinham recebido diretamente de sua boca. A “tradição” que ele passa aqui é uma doutrina decisiva, segundo a qual qualquer pessoa que se recusar a dar-lhe atenção e não viver de conformidade com ela, deverá ser rejeitada pela comunidade. 

Agora vejam novamente que interessante no verso 14: Mas, se alguém não obedecer a nossa palavra por esta carta, notai o tal, e não vos mistureis com ele, para que se envergonhe. 

“… nossa palavra por esta carta”. Percebeu amigo católico como palavras podem se transformar em escritura?

Não é possível vislumbrar nem mesmo algum vestígio que faça referência à tradição católica romana na epístola.  Eles tinham que obedecer pela carta: “… se alguém não obedecer à nossa palavra por esta carta, notai o tal…”. 

Portanto, essas tradições se referem a disciplina que ele passa a Igreja. Neste contexto ele também tem algo para este povo específico, os Tessalonicenses. Havia problemas na Igreja e Paulo tentou corrigir, lhes dando o próprio exemplo (tradição) de como deveria se comportar um cristão nesta situação. 

É por demais sério quando Paulo diz que os faltosos deveriam ser corrigidos segundo as palavras contidas na carta. Este é um problema enorme para a dogmática católica romana, que defende a tese de que aqui Paulo discorria sobre os seus tantos dogmas, os quais foram passados aos Tessalonicenses por tradição oral. Muito pelo contrário, Paulo estava falando de doutrina simples e prática, sobre administração em geral, a responsabilidade de um homem de trabalhar e prover para sua família, e disciplina pessoal na vida diária. Essas verdades são agora parte da Escritura, em razão da inclusão de Paulo nessa epístola. Assim, ele encoraja os crentes de Tessalônica, tão somente “para vos dar em nós mesmos exemplo, para nos imitardes…” (verso 9), e não que lhes havia ensinado em oculto algum dogma sobre Maria Imaculada, O purgatório, Os sacramentos, Missas de sétimo dia, Missas para as almas do purgatório, hóstias e vinho, intercessão de santos falecidos ou qualquer outra doutrina anunciada hoje pela Igreja Católica que contradiz os ensinos escritos.

Com relação à tradição oral que permeou a Igreja por uns tempos, pode ser dito o seguinte: é óbvio que Paulo, como alguns escritores do Novo Testamento, registrava o que havia já transmitido oralmente para a Igreja. Ele, ou qualquer outro, não faziam referência às tradições que foram transmitidas pela Igreja Romana posteriormente. À luz de todo o contexto, fica impossível ser demonstrado que a tradição atual da Igreja Católica foi primeiramente ensinada pelos Apóstolos.

É provado pelos próprios Apóstolos que muito daquilo que ensinaram por via oral foi escrito por eles mesmos. Paulo, em 1 Coríntios 11:23 afirma: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei“. Ainda em 2 Tessalonicenses 2: 5, ele declara “Não vos recordais de que, ainda convosco, eu costumava dizer-vos estas coisas?” Ele estava passando a Igreja o que antes havia comunicado oralmente e ao mesmo tempo estava  dando mais compreensão.

Semelhantemente, temos no contexto de Tessalonicenses aqui em discussão o mesmo método. Paulo lembra: “Quando ainda estava convosco, vos ordenamos (oralmente) isto…”, (verso 10). Pedro faz o mesmo: “Mas de minha parte esforçar-me-ei diligentemente por fazer que, a todo tempo mesmo depois da minha partida, conserveis lembrança de tudo” (2 Pedro 1:15). O que fizeram foi registrar o que passaram por transmissão oral. Certamente isso foi feito para que não se corrompessem, ou mesmo esquecessem o que aprenderam.

Vamos agora para 2 Tessalonicenses 2.15: “Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa”.

Há algo no texto que passa despercebido por muitos. Paulo fala de tradições orais e escritas. Veja: “guardai as tradições… seja por palavra, seja por epístola nossa”. Tradições nas epístolas! Quem esperava por essa? A propósito, por que não temos nenhuma tradição católica nas epístolas? Devemos crer que nenhuma delas jamais foi escrita em epístola nenhuma?

A palavra grega para tradições aqui é “paradosis”. Nitidamente, o apostolo está falando de doutrina, e não há como negar que a doutrina que ele tem em mente é a verdade autorizada e inspirada. Portanto, o que é essa tradição inspirada que os crentes receberam “por palavra”? Não está ela antes apoiando a posição católica? Não, não está. Outra vez, o contexto é essencial para uma compreensão clara do que Paulo está dizendo.

Vemos aqui que os tessalonicenses tinham sido claramente enganados por uma carta forjada, supostamente do apóstolo Paulo, dizendo-lhes que o Dia do Senhor já tinha chegado (2 Ts 2.2). Evidentemente, toda a igreja ficou desapontada com isso e o apóstolo estava ansioso por incentivá-la. Primeiro, ele desejava advertir os fiéis a não serem logrados por “verdade inspirada” mentirosa. E disse-lhes então claramente como reconhecer uma epístola genuína dele a qual seria assinada por ele mesmo: “A saudação é de próprio punho: Paulo. Este é o sinal em cada epístola; assim é que eu assino“.

Veja agora de que doutrina trata a epístola:

ORA, irmãos, rogamo-vos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, e pela nossa reunião com ele, que não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como se viesse de nós, como se o dia de Cristo estivesse já perto. Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição”, 2 Ts 3:1-3.

Paulo, além de proteger seu ensino oral dado anteriormente sobre isso, vem agora e o transforma em palavra escrita. Ele fecha  a  epístola dizendo:

Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa”.

Atente para o início do versículo: “Então, irmãos, estai firmes…”. Estar firme tendo base em que? O motivo tem que estar na carta! É muito importante o significado da palavrinha “então”. A expressão “então” entrega todo o contexto, concluindo o assunto em pauta, que é esclarecer erros sobre a Segunda Vinda do Senhor, e não que ele aludia aos tantos dogmas da Igreja Católica.

Caro leitor, insisto, o contexto trata da Vinda de Jesus. Não importa se Paulo fala sobre instruções dadas  “por palavra ou por epístola nossa” que o assunto do contexto não muda para dogmas católicos romanos, mas permanece sobre as  correções em relação ao retorno do Senhor.

A propósito, por que o apóstolo lembraria aos tessalonicenses sobre os tantos dogmas católicos romanos passados de forma oral justamente no meio de um assunto que envolve a volta de Jesus?

Observe novamente a terrível contradição. Como vimos, a epístola corrige erros sobre a parousia: “ORA, irmãos, rogamo-vos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, e pela nossa reunião com ele, Que não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis…”. Em seguida ele diz o que deve acontecer antes dessa Vinda. Mas, de repente – segundo a dogmática romana –  aparece o Apóstolo e lembra aos tessalonicenses sobre os dogmas católicos romanos que lhes foi passado de forma oral:

Então, irmãos, estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa”.

A proposta católica não faz sentido!

Na verdade, Paulo queria assegurar-se de que os tessalonicenses não fossem ludibriados novamente por epístolas forjadas. Entretanto, mais importante ainda, ele queria que eles se apegassem ao aprendizado que haviam recebido dele. Ele já lhes havia dito, por exemplo, que o Dia do Senhor seria precedido da apostasia e da revelação do “homem da iniqüidade, o filho da perdição“. “Não vos recordais de que, ainda convosco, eu costumava dizer-vos Estas cousas?” (2 Ts 2:5). Eles estavam agora recebendo por epístola o que haviam recebido por palavra. Ele estava ordenando-lhes que recebessem como verdade infalível somente o que tinham ouvido diretamente de seus lábios.

Desde o começo, os tessalonicenses não tinham aceitado a mensagem do evangelho tão nobremente como os crentes de Beréia, que “receberam a palavra com toda a avidez examinando as Escrituras todos os dias para ver se as cousas eram, de fato, assim” (At 17.11).

É altamente significativo que os crentes de Beréia fossem explicitamente apreciados por examinarem a mensagem apostólica à luz da Escritura. Eles tiveram a prioridade correta: a Escritura é a regra suprema de fé pela qual todas as demais coisas devem ser testadas. Inseguros a respeito de poderem confiar na mensagem apostólica que, a propósito, era tão inspirada, infalível e verdadeira como a própria Escritura os ouvintes de Beréia removeram todas as suas dúvidas por terem comparado a mensagem com a Escritura. Entretanto, os católicos romanos são proibidos por sua igreja de seguirem o mesmo caminho!

Portanto, qual é o apoio que estes versículos podem dar a Tradição Católica?

Nenhum!

Quando as passagens são analisadas no contexto a tese católica evapora-se diante dos nossos olhos!

Tradições na Igreja de Corinto 

Sede meus imitadores, como também eu de Cristo. De fato, eu vos louvo, em tudo, porque vos lembrais de mim e retendes as tradições assim como vo-las entreguei”, I Cor 11:1, 2.

Como em 2 Tessalonicenses 3:6, também aqui aos coríntios, Paulo está se referindo a tradições transmitidas para disciplina na Igreja. Essa “tradição” não é outra senão parte da doutrina que os coríntios tinham ouvido diretamente dos lábios do próprio Paulo durante seu ministério naquela igreja. Os coríntios tiveram o privilégio de ouvi-lo por um ano e meio (At 18.11).

Observe que no versículo em discussão Paulo diz se alegrar porque a Igreja lembrou-se dele. Note também no texto, que após encorajar os coríntios a imitá-lo, ele diz: “… porque vos lembrais de mim e retendes as tradições assim como vo-las entreguei”. Os coríntios lembraram-se de Paulo porque este havia lhes passado a doutrina da confissão auricular? Ou a doutrina da intercessão dos santos? Quem sabe lembraram-se de Paulo porque ele lhes disse que Pedro era o príncipe dos apóstolos tendo sua cátedra em Roma? Faz sentido? Nenhum!

Conforme os textos anteriores e os posteriores a 1 Coríntios 11:1, 2, descobriremos que as tradições que deveriam ser observadas não estavam ligadas a nenhum dogma católico.  Basta que se leia o contexto final do capítulo 10, três versículos antes do texto aqui em debate:

Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus. Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus. Como também eu em tudo agrado a todos, não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que assim se possam salvar”. 1 Cor 10:31-33

Paulo discorre sobre assuntos de comida sacrificada a ídolos, alertando como deve se comportar o cristão diante dessa situação. E alguns versículos depois do contexto de 1 Coríntios 11:1,2, ele  começa a discorrer sobre ser o homem cabeça da mulher, que a mulher não deve tosquiar-se e nem orar com a cabeça descoberta.

Entre estas exortações, Paulo escreve:

“… porque vos lembrais de mim e retendes as tradições assim como vo-las entreguei”.

Portanto, deve-se perguntar a dogmática católica romana onde foi que encontraram neste contexto, seja o anterior e o posterior, defesa para seus tantos dogmas. Este versículo está entre dois assuntos que nada tem em comum com dogmas católicos romanos.

Acho necessário repetir aqui os detalhes  que vem no final do capítulo 10 de 1 Coríntios quando  Paulo alerta os crentes sobre comidas sacrificadas a ídolos:

Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus. Portai-vos de modo que não deis escândalo nem aos judeus, nem aos gregos, nem à igreja de Deus. Como também eu em tudo agrado a todos, não buscando o meu próprio proveito, mas o de muitos, para que assim se possam salvar”, vv 31-33.

Agora veja novamente o primeiro verso do capítulo 11:

 “Sede meus imitadores, como também eu de Cristo. De fato, eu vos louvo, em tudo, porque vos lembrais de mim e retendes as tradições assim como vo-las entreguei.”

Veja agora os três versículos posteriores a este:

Mas quero que saibais que Cristo é a cabeça de todo o homem, e o homem a cabeça da mulher; e Deus a cabeça de Cristo. Todo o homem que ora ou profetiza, tendo a cabeça coberta, desonra a sua própria cabeça.  Mas toda a mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta, desonra a sua própria cabeça, porque é como se estivesse rapada.

Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também. Mas, se para a mulher é coisa indecente tosquiar-se ou rapar-se, que ponha o véu. O homem, pois, não deve cobrir a cabeça, porque é a imagem e glória de Deus, mas a mulher é a glória do homem.  Porque o homem não provém da mulher, mas a mulher do homem”.

Algum vislumbre de doutrinas romanas? Aliás, por que acreditar que Paulo inclui doutrinas católicas romanas no texto central se os  textos anteriores e os posteriores tratam de assuntos completamente diferentes daqueles que o catolicismo propõe?

Sede meus imitadores, como também eu de Cristo. De fato, eu vos louvo, em tudo, porque vos lembrais de mim e retendes as tradições assim como vo-las entreguei.”

Observe bem, caro amigo leitor, o que Paulo tenta dizer aos coríntios. Ele os louva  porque o  estavam imitando, guardando as tradições de como se comportar diante das comidas sacrificadas a ídolos e outras coisas. Note que Paulo não pode mesmo estar discursando sobre doutrinas e dogmas romanos, mas sim que escrevia para corrigir erros urgentes na congregação. O momento era aquele, e eles deveriam receber instruções para correção e disciplina, que tem como meta o contexto anterior e posterior.

Porém, o pior não é isso. O pior chama-se  tradução bíblica. A Bíblia Ave Maria, uma tradução católica,  omite a palavra tradições:

“Tornai-vos os meus imitadores, como eu o sou de Cristo. Eu vos felicito, porque em tudo vos lembrais de mim, e guardais as minhas instruções, tais como eu vo-las transmiti”.

A Bíblia de Jerusalém em espanhol:

“Sed imitadores de mí, así como yo de Cristo. Os alabo, hermanos, porque en todo os acordáis de mí, y retenéis las instrucciones tal como os las entregué”.

A Bíblia do Peregrino, que é católica, também  omite a palavra tradições:

“Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo. Ora, eu vos louvo, porque em tudo vos lembrais de mim, e guardais os preceitos assim como vo-los entreguei”.

A dogmática católica, além de ter um inimigo implacável que é o contexto bíblico, ainda tem que lidar com outros inimigos: suas próprias traduções.

Palavras de Paulo a Timóteo

2 Timóteo 1:14, que diz: “…Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste com fé e com o amor que está em Cristo JesusGuarda o bom depósito pelo Espírito Santo que habita em nós” e 2 Timóteo 2:2, onde podemos ler: “ E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros”. 

Assim, para eles, as sãs palavras de Paulo passadas a Timóteo  deveriam ser guardadas num depósito, é claro, da tradição oral. Além disso, podemos ver no texto que aquilo que  foi passado oralmente por Paulo foi feito diante de MUITAS testemunhas, mas o Catolicismo afirma insistentemente que mesmo assim, apesar de MUITOS terem recebido os tais dogmas, ninguém escreveu, ficou TUDO oculto nas masmorras da tradição oral. Doutrinas como Pedro e seu pontificado em Roma, a posição exaltada de Maria na Igreja, a intercessão dos santos falecidos, penitência, celebrar  missa para mortos do purgatório, adorar imagens, infalibilidade dos bispos romanos  e outras, estão escondidas dentro das “sãs palavra” de Paulo garante a dogmática católica romana. Isto é, nem Paulo, e muito menos Timóteo, juntamente com as MUITAS testemunhas somados aos outros que Timóteo deveria ensinar, jamais escreveram uma linha sequer.

Amigo leitor, insisto, a dogmática católica romana propõe que tudo foi comunicado apenas de forma oral. Eles tentam dizer que a Igreja Primitiva acreditava e vivia o seu culto diário colocando em prática todos os dogmas católicos romanos, mas sem registrá-los. Ou seja, a busca pela intercessão dos santos falecidos, as novenas, as missas de sétimo dia e as missas pelas almas do purgatório eram constantes da vida da Igreja, porém, segundo o Catolicismo, Paulo passou esses detalhes para Timóteo apenas de forma oral, e o fez diante de muitas testemunhas. No fim da história, uma quantidade enorme de cristãos celebravam missas pelos mortos e faziam intercessões ao São Daniel, mas nunca registraram nada em livro nenhum.

Não balance a cabeça achando que isso é ficção; não é, são fatos reais. Observe que  Timóteo foi encorajado  a passar coisas desse tipo à  homens  idôneos para que estes  ensinassem a outros, mas o Catolicismo não aceita nada de forma escrita. Talvez eles queiram insinuar que Paulo foi muitíssimo discreto com os dogmas romanistas: “E o que de mim, entre muitas testemunhas, ouviste, confia-o a homens fiéis, que sejam idôneos para também ensinarem os outros”. O Apóstolo  prefere fazer referência aos MUITOS  dogmas católicos de uma forma muito estranha: “O que de mim ouvistes”. Mas não para aqui não. Eles acreditam também que Paulo nomeia  toda essa doutrinária confusa como “sãs palavras” e novamente  encoraja Timóteo a transferir  tudo para dentro de um baú enorme e os depositar  ali. Veja: “… Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste com fé e com o amor que está em Cristo Jesus. Guarda o bom depósito pelo Espírito Santo que habita em nós”, 2 Tim 1:14.

Observem  bem para onde  levaram a  conclusão de suas argumentações  – a dogmática católica é a única culpada por isso.  Eles responsabilizam os Apóstolos  originais  de manterem os dogmas apenas de boca em boca, como também os responsabilizam por não fazerem registros dos cristãos envolvidos com tais dogmas. Percebeu prezado leitor? Até a crença prática na Igreja Primitiva  ficou na tradição oral – a situação é mais grave do que de pode imaginar.  As  “sãs palavras” foram tão bem escondidas nas masmorras da tradição que ficou  impossível  encontrar algum registro de cristãos primitivos mandando celebrar missas de sétimo dia para seus falecidos, fazendo intercessão ao São Moisés, venerando imagens, envolvidos com relíquias e vários outros.

A apologética mariana quer nos convencer que apesar de não haver registros de suas doutrinas – nem na vida da Igreja Primitiva (vide o livro de Atos), elas pelo menos existiam embutidas nestes textos citados. Elas estão escondidas dentro das palavras de Paulo para Timóteo, que também passou para as muitas testemunhas de forma oral. O depósito católico romano foi conhecido apenas de boca em boca. Nada foi registrado. Terrível o que eles tentam insinuar. As argumentações do católico,  no fervor de defender sua doutrina, acabou mutilando a Bíblia de uma forma tão violenta que só os mais desavisados é que não percebem. Seu discurso demonstra total falta de conhecimento da revelação nas Escrituras Sagradas.

Uma análise sobre o depósito de Timóteo 

Aqui está o texto completo: “Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus. Guarda o bom depósito pelo Espírito Santo que habita em nós”, II Tim 1:13,14.

Eles amam  palavras como falar e ouvir – os remete para a tradição oral, não vivem sem ela. Porém,  o problema é que tem que tirá-las de cartas escritas, e escritas por um homem que escreveu 14 epístolas. Perceberam os argumentos que nos dão para refutar a contradição? Eles procuram naquilo que está escrito defesa para aquilo que não ficou escrito. Se pudessem eles desapareceriam com as Escrituras. Veja as palavras do apologista citadas no início: “… Mais uma vez, mesmo que as Escrituras estivessem à sua disposição, Timóteo iria confiar tanto ou mais no que ele “ouviu” de Paulo”.

É o fim do mundo!

Pior do que isso é o contexto, inimigo número um dos apologistas católicos. Vamos  ao contexto dessa passagem. Vou iniciar do verso 3 até o presente versículo. Observe se podemos notar algum vestígio de dogmas romanos como a causa das palavras finais de Paulo a Timóteo: “Conserva o modelo das sãs palavras… guarda o bom depósito…”.

2 Timóteo 1:3-14

Dou graças a Deus, a quem desde os meus antepassados sirvo com uma consciência pura, de que sem cessar faço memória de ti nas minhas orações noite e dia;  Desejando muito ver-te, lembrando-me das tuas lágrimas, para me encher de gozo;

Trazendo à memória a fé não fingida que em ti há, a qual habitou primeiro em tua avó Lóide, e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também habita em ti. Por cujo motivo te lembro que despertes o dom de Deus que existe em ti pela imposição das minhas mãos.

Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação. Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus,

Que nos salvou, e chamou com uma santa vocação; não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos dos séculos; E que é manifesta agora pela aparição de nosso Salvador Jesus Cristo, o qual aboliu a morte, e trouxe à luz a vida e a incorrupção pelo evangelho;

Para o que fui constituído pregador, e apóstolo, e doutor dos gentios. Por cuja causa padeço também isto, mas não me envergonho; porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia.

Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus. Guarda o bom depósito pelo Espírito Santo que habita em nós”.

Como pode ser observado, Paulo escreve de sua prisão em Roma. Isso é importante para entendermos todo o contexto. Note que encontramos duas vezes mencionado o vocábulo depósito. A primeira no verso 12, onde significa a confiança do Apóstolo em Deus, que não falta em suas promessas. Todos os seus trabalhos, seu ministério, todos os seus sofrimentos culminados agora em sua prisão em Roma nas vésperas de sua morte, se constituíram num riquíssimo depósito entregue nas mãos do Senhor.

A segunda menção da palavra depósito encontra-se no verso 14. Para qualquer leitor desprovido de preconceitos, esta passagem bíblica no panorama das relações de Paulo com Timóteo, salienta o cuidado especialíssimo do Apóstolo em preservar o depósito  isento de macular-se com as fábulas e doutrinas vãs.

Quem é familiar com as Escrituras sabe muito bem das lutas de Paulo com falsos irmãos (Gal 2:4) e, como muitas vezes teve ele problemas com os judeus que contradiziam sua pregação, transtornando as almas dos crentes com suas palavras (Atos 13:45; 15:24) deturpando a pureza do Evangelho. Porém, Paulo não estava sozinho, ele contava com a cooperação de Timóteo, por isso instruía o jovem pregador da melhor forma possível. Motivo pelo qual ele escreve ao seu aluno Timóteo exortando-o  à fidelidade na guarda desse depósito  divino, que é a doutrina do Evangelho, não permitindo, em hipótese alguma, que fosse manchada com  retoques, desvios ou fábulas.

Certa ocasião, enquanto foi à Macedônia, Timóteo permaneceu em Éfeso para advertir alguns que não ensinem outra doutrina, nem se ocupem com fábulas e genealogias sem fim, (1 Tim. 1:34).

Para preservar  o «bom depósito»,  competia a Timóteo atender aos apelos de Paulo, como segue: “… aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino” (1 Tim. 4:13),  “tem cuidado de ti mesmo e da doutrina”  (1 Tim.4:16) e “procura apresentar-te a Deus aprovado, como operário que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade (2 Timóteo 2:15).

O depósito de Timóteo foi acumulado com muita leitura e estudo das Escrituras, e não apenas com instruções orais, pois o contexto não fala de tradição oral – nada  tem em comum com doutrinas e dogmas católicos romanos. É o que Paulo confirma em outra exortação semelhante ao mesmo Timóteo:

Ó Timóteo, guarda o depósito que te foi confiado, tem horror aos clamores vãos e profanos e às obrigações da falsamente chamada ciência; a qual professando-a alguns, se desviaram da fé (1 Tim. 6:20 e 21).

Paulo também suplica-lhe que rejeite «as fábulas profanas e de velhinhas caducas» (1 Tim. 4:7) e assemelha a “Janes e Jambres que resistiram a Moisés os que resistem à verdade, sendo homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto a fé” (2 Tim. 3:8).

E agora, nas vésperas de sua morte em Roma, donde remetera esta Carta a Timóteo, ele pede: “Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste. E que desde a infância sabes as Sagradas Letras que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Tim 3:14-16).

Como podem ver  está tudo escrito. Todas as instruções foram feitas em forma escrita. No entanto, depois de ver registrado a  enorme preocupação do Apóstolo exortando Timóteo a aplicar-se a leitura e continuar meditando nas sagradas Escrituras, a apologética católica tem a ousadia de insinuar que Paulo entregou ao jovem, sem escrever uma só linha, as tantas doutrinas reclamadas hoje pelo catolicismo.

Todas as recomendações de Paulo visavam exatamente preservar a pureza do Evangelho, a genuinidade da doutrina, a fidelidade na guarda do «bom depósito»  contra a intromissão de ensinamentos espúrios por parte dos judaizantes insubordinados e impostores, bem como de outros inovadores e corruptores.

Perceberam que Paulo não tinha necessidade alguma de  instruir Timóteo a preservar doutrinas católicas romanas de forma oral? Os judaizantes e os impostores não estavam  em  combate com Paulo e a Igreja por causa da intercessão de santos falecidos, veneração de imagens, novenas, purgatório ou qualquer outro dogma católico. Basta ler o Livro de Atos para perceber  porque eles  lutavam contra Paulo e a Igreja: Não havia vestígio nenhum  de doutrina católica romana!

Pelo contrário, os textos que a dogmática católica apoia para defender sua tradição não a  favorece de forma alguma, mas apenas servem para corromper o bom depósito. Por esse motivo eles incorrem  em anátema, segundo a  advertência de Paulo  aos falsos irmãos, quando escreveu aos gálatas: “… se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema” (Gál. 1:9). 

É de pasmar quando vemos que toda a teologia católica romana  esteja lastreada sobre essa base de areia movediça. E de pasmar mais ainda, é ver que  através dos séculos a tradição tem se  constituído na arma mais eficaz da apologética católica para desviar as almas da verdadeira revelação das Escrituras Sagradas.

A Idade de João no Exílio

Postado em Atualizado em

Existem inúmeras provas internas e externas para a datação do Livro de Apocalipse. Chamo de provas internas aquelas que podem ser mostradas pelas Escrituras e provas externas seriam aquelas apresentadas pelos pais da Igreja e a voz da história que os rodeava. Muito já foi feito, principalmente por este site. Centenas de evidências podem ser encontradas, não somente aqui, mas em outras fontes por essa internet afora e em uma quantidade enorme de livros em todo o mundo em várias línguas. Porém, um detalhe pequeno e esquecido por muitos pesquisadores, por demais estranho e desafiador, ainda não foi tão explorado:  tentar descobrir quando o Apocalipse foi escrito através da idade do seu escritor, o apóstolo João.

Para muitos pode até aparecer uma ousada e irrelevante empreitada, mas posso lhe garantir caro amigo leitor que isso vai ser feito, e muto bem feito. Continue a leitura e se surpreenda com alguns detalhes muito interessantes, que podem fazer com que suas dúvidas com relação a idade, não só de João, mas de todos os discípulos, desapareçam.

                                                                                            ***

Os Preteristas ensinam que o Apocalipse foi escrito em Patmos, porém,  antes da destruição de Jerusalém ocorrida entre 67 e 70 dC. Entendem que este Livro profético é um manual da invasão romana sobre Jerusalém, tendo sido cumprido em sua maior parte nos acontecimentos que assolaram a Cidade Santa naquela ocasião. Por esse motivo, também entendem que a Grande Tribulação, debatida e ensinada por vários ramos da cristandade apontando para eventos que dizem respeito aos tempos do fim, nada mais é do que as tribulações que antecederam à queda de Jerusalém, culminando com a destruição do Templo e mais de um milhão de Judeus mortos. Para os Católicos Romanos isso é um alívio, pois eliminaria as suspeitas de ser a Igreja Católica a Grande Cidade castigada por Deus em Apocalipse 18, lançando toda a sentença sobre Jerusalém, a qual dizem ser a única Babilônia ali julgada e destruída.

Para tanto, foi preciso que eles localizassem o exílio de João no começo de 60 dC, libertando-o  próximo a 70 dC, o que justificaria o início da escrita do Livro de Apocalipse entre 62 e 63. O problema maior está nessa datação preterista para a libertação de João do seu cativeiro, entre 69-70, o que contraria alguns testemunhos da patrística que explicitamente revelam que quando o Apóstolo saiu do exílio já estava bem envelhecido. Porém, como veremos, perto de 69 dC  João  não havia ainda alcançado os 58 anos de idade.

Meu projeto inicial visava  apenas um breve artigo trabalhando somente com a pessoa do Apóstolo João. Porém, diante de inúmeras fontes e fatos curiosos, imperceptíveis e abandonados por muitos, eu optei por detalhar com fartas evidências o assunto para que o leitor possa ter uma visão clara da idade de todos os discípulos quando foram chamados por Jesus. E tenha em mente: os discípulos de Jesus eram muito jovens. Provavelmente até mesmo adolescentes. Milhares de pinturas famosas e filmes antigos de homens barbudos pode nos influenciar de outra maneira, mas o testemunho das Escrituras, da  história e um pouco de senso comum constrói um caso convincente para a maioria de discípulos em sua adolescência, que tiveram, nos três anos seguintes, com seu mestre, um  intenso treinamento para formação espiritual.

Tradições Judaicas de Educação

Em primeiro lugar, é necessário conhecermos algumas coisas da tradição e cultura judaicas no que diz respeito à educação, as quais, certamente, foram modelo para Jesus – como discípulo e  rabino – e para seus discípulos na  formação de cada um deles.

Em Avot 5 (Mishná: comentário rabínico que foi adicionado ao Antigo Testamento), nós aprendemos das tradições judaicas antigas de educação: o estudo das Escrituras começa aos 5 anos de idade; Estudo do Mishná aos 10; Obrigações da Torá aos 12 (Sua responsabilidade era para memorizar a Torah por dentro e por fora, de frente para trás); entrando no estudo rabínico aos 15; casamento aos 18 anos; ensino formal aos 30 – se eles fossem distinguidos, poderiam começar a ensinar com essa idade, tornando-se professores da Torá.

Para os brilhantes (ou ricos), o ensino superior consistia em estudar com um rabino local, e se eles fossem distinguidos, poderiam começar a ensinar na idade de 30. Se eles não encontrassem um rabino que lhes aceitassem como aluno (muito parecido com um pedido de admissão da faculdade), eles entrariam na força de trabalho em seus meados da adolescência. Alguns discípulos – a maioria já trabalhava em seus comércios – podem ter sido rejeitados pela educação formal por outros rabinos quando Jesus os escolheu. À luz disto, uma idade mais jovem é mais provável do que mais velhos. Um homem com mais de 30 deixando o seu comércio para seguir um rabino seria contra-cultural; não impossível (Jesus foi definitivamente contra-cultural), mas o mais provável é que eles eram mais jovens do que mais velhos.

Para resumir temos o seguinte: A partir da idade de 5-12 os garotos receberiam uma educação de um professor da Torá. Sua responsabilidade era para memorizar a Torah (os cinco primeiros livros do Tanakh) por dentro e por fora, de frente para trás (Se ao alcançar a idade de  12 anos, não tivessem  ainda totalmente memorizado cada palavra a sua formação iria acabar. Eles seriam enviados de volta aos seus pais, para que  pudessem aprender os negócios da família e fazer uma vida para si).

Entre as idades de 12-15 os  jovens recebiam  uma educação relativa a explicação da Torá. Eles também poderiam iniciar a memorização de outros livros do Tanakh. Além disso, eles também iriam receber formação na empresa familiar. Entre as idades de 15-30 anos iriam estudar o restante do Tanakh, e usariam suas habilidades do pensamento crítico para interpretá-lo.

É interessante comparar a vida de Jesus à  esta descrição. Embora pouco se falou sobre sua infância sabemos que ele “cresceu em sabedoria” como um menino (Lucas 2:52), e que chegou ao “cumprimento dos mandamentos” indicados pela ocasião da primeira Páscoa na idade de doze anos (Lucas 2:41) . Em seguida, ele aprendeu uma profissão (Mateus 13:55, Marcos 6: 3.) e começou seu ministério com cerca de trinta anos (Lucas 3: 23). Isso se assemelha a descrição Mishná muito de perto.

Lembre-se da história de quando Jesus tinha 12 anos e subiu a Jerusalém com sua família – eles deixaram Jerusalém sem Ele e quando voltaram o encontraram ensinando no templo:

E aconteceu que, passados três dias, o acharam no templo, assentado no meio dos doutores, ouvindo-os, e interrogando-os.   E todos os que o ouviam admiravam a sua inteligência e respostas“, Lucas 2: 46-47

Nós sabemos que Jesus tinha  o comando da Torá e, provavelmente, o Tanakh naquela época, então certamente a sua falta de conhecimento e pensamento crítico não era o problema. Mas, por que Jesus era um trabalhador? Provavelmente é porque ele estava sob a tutela daqueles que estavam mais bem informados do que os rabinos. De qualquer forma, a autoridade de Jesus foi confirmada por duas testemunhas:

João Batista: “E eu vi e testemunho de que este é o Filho de Deus“,  João 1:34

Deus Pai: “E de repente veio uma voz do céu, dizendo:” Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”, Mateus 3:17.

Portanto, vamos descobrir no decorrer do estudo que Jesus, como rabino, não abandonou totalmente as tradições de educação do seu tempo, mas as cumpriu fazendo discípulos acompanhando as regras de idade do Avot – Mishná.

Qual era a idade dos Discípulos?

Para dar início a nossa investigação precisamos descobrir em que faixa etária estavam os discípulos do Senhor Jesus. Com relação a João devemos lembrar de que ele faleceu no tempo de Trajano, imperador romano que reinou de 98 a 117. É muitíssimo provável que ele e seu irmão Tiago tenham sido os mais jovens do grupo, estando entre seus  15 e 16 anos. Eu particularmente acredito que João era ainda mais novo, porém, para não escandalizar a ala conservadora tradicional, vou trabalhar com as idades mencionadas.

Se João escreveu o Apocalipse por volta de 95 e 96 dC – o que é fato – obviamente ele  andou ao lado de Jesus quando era  muito  jovem, mas muito jovem mesmo para ter vivido tanto. Caso contrário, ele teria escrito o Apocalipse inspirado pelo Espírito Santo aos 100  de idade – ou mais – se adotarmos a cronologia tradicional misturada com a preterista. Todas as coisas são possíveis para  Deus, mas devemos lembrar que João estava vivendo em um mundo onde a expectativa de vida não era como nos dias de hoje. (Em outras palavras, ele teria 140 anos no século XXI.) Devemos também levar em conta que muitos dos apóstolos ainda viviam quando Paulo estava completando suas epístolas nos anos 60 dC. É muito mais provável que os discípulos estivessem entre seus 45-55 anos  nessa  época, não idosos.

                                                                                          ***

Existe uma passagem nas Escrituras que nos levam a acreditar que os discípulos eram adolescentes quando andavam com o Senhor Jesus, exceto Pedro, pois ele era casado. Eis aqui o contexto sobre o qual estou me referindo:

E, chegando eles a Cafarnaum, aproximaram-se de Pedro os que cobravam as dracmas, e disseram: O vosso mestre não paga as dracmas?

Disse ele: Sim. E, entrando em casa, Jesus se lhe antecipou, dizendo: Que te parece, Simão? De quem cobram os reis da terra os tributos, ou o censo? Dos seus filhos, ou dos alheios?

Disse-lhe Pedro: Dos alheios. Disse-lhe Jesus: Logo, estão livres os filhos.

Mas, para que os não escandalizemos, vai ao mar, lança o anzol, tira o primeiro peixe que subir, e abrindo-lhe a boca, encontrarás um estáter; toma-o, e dá-o por mim e por ti“, Mateus 17: 24-27

Pelo visto nem todos precisavam pagar este imposto do templo – isso  nos revela que estavam abaixo dos seus   vinte  anos de idade. Jesus pagou o imposto do templo para ele e Pedro, o que significa  que os outros discípulos estavam isentos. Este imposto foi criado para a manutenção do tabernáculo e mais tarde para os serviços do templo em Jerusalém. Mas, onde achamos base para isso nas Escrituras? Na verdade, esse tributo, segundo a lei judaica, devia ser pago por todos os homens com mais de vinte anos como oferta quando visitavam o templo de Deus. Veja: “Todo aquele que passar pelo arrolamento dará isto: a metade de um siclo, segundo o siclo do santuário (este siclo é de vinte geras); a metade de um siclo é a oferta ao Senhor Qualquer que passar pelo arrolamento, de vinte anos para cima, dará a oferta alçada ao Senhor”, Êxodo 30: 13,14.

Temos também outra referência em 2 Reis 12:4,5, que diz: “E disse Joás aos sacerdotes: Todo o dinheiro das coisas santas que se trouxer à casa do Senhor, a saber, o dinheiro daquele que passa o arrolamento, o dinheiro de cada uma das pessoas, segundo a sua avaliação, e todo o dinheiro que trouxer cada um voluntariamente para a casa do Senhor.  Os sacerdotes o recebam, cada um dos seus conhecidos; e eles mesmos reparem as fendas da casa, toda a fenda que se achar nela”.

Podemos inferir pelo contexto que os outros discípulos estavam abaixo dos vinte anos, jovens o suficiente para serem isentos de pagar esse tributo.

Talvez  você argumente que  os outros discípulos não estavam com Jesus no momento. Eles provavelmente pagaram  o seu imposto do templo separadamente. Não há nenhuma indicação de que eles se separaram de Jesus. Além disso, Jesus e seus discípulos eram pobres. Se os outros discípulos estavam em idade acima dos vinte anos e precisavam  pagar o imposto do templo, então Deus teria fornecido a Jesus os meios  para pagar o imposto  de todos e não apenas a sua parte e a de Pedro. O texto sugere que os judeus  foram para cima de Pedro deixando os jovens de lado, como também esclarece que todos estavam juntos. Observe o início da passagem:

E, chegando eles a Cafarnaum, aproximaram-se de Pedro os que cobravam as dracmas, e disseram: O vosso mestre não paga as dracmas?

A expressão, “chegando eles”, associada às palavras que deram início ao questionamento, “o vosso mestre”, indica que o diálogo foi na frente de todos os discípulos. Se consultarmos o contexto descobrimos que o fato acontece depois do episódio da transfiguração, quando Jesus desce do monte e encontra os discípulos – que não subiram ao monte – tendo dificuldade para expulsar um  demônio de um jovem. Nos versos posteriores você  poderá encontrar várias referências para os doze até a ocasião do encontro com os judeus que cobravam as dracmas. Assim, quando é dito que “chegaram eles a Cafarnaum”, na verdade, fala de todos os discípulos juntamente, é claro, com Jesus.

Mateus e o imposto de Templo

Não são poucos os que questionam sobre a pessoa de Mateus nesse episódio – se era um cobrador de impostos possivelmente estava acima dos vinte anos e pagou sua parte. Exato, Mateus foi um cobrador de impostos, mas como sabemos ele largou tudo para servir ao Senhor. Alegar que Mateus pagou sua parte do imposto porque  era de idade que o obrigava a  fazê-lo, é  ferir o contexto escriturístico e o fluxo da revelação  de Deus. Reconheço que as  coisas poderiam ser bem mais simples se Deus não quisesse falar por trás do texto, mas ele quer se revelar e revelar sua Palavra para o homem. Ele nos fala nos relatos, nas entrelinhas revela seus mistérios e responde muitas dúvidas. Basta ficar atento.

Alguns sugerem que Mateus  era autossustentável, culto,  nada pobre – basta atentar para o grande banquete que deu em sua casa. Não havia problemas financeiros para Mateus. Entendem também que os discípulos e Jesus  não passavam privações porque havia algumas mulheres que  serviam a todos com seus bens – e citam Lucas 8:1-3. Assim, recursos não faltavam e, por esse motivo, em algum momento não citado nas Escrituras os discípulos pagaram a sua parte.  Não explicam porque não sobrou para Jesus e Pedro.

Perceberam como as coisas parecem ser fáceis de refutar?  Se Mateus era rico, e era já um HOMEM  (vamos analisar  depois o texto),   deve significar que ele pagou o imposto do templo  para si mesmo.  O preterista prefere crer dessa maneira a crer,  pelos contextos diversos das Escrituras que Mateus não teve necessidade de pagar o imposto, como todos os outros,  porque estava abaixo dos 20 anos.

E o banquete na casa  de Mateus? Grande banquete – muito gasto, gasto em abastança. Quanto tempo depois do chamado do mestre  Levi deu o banquete?  O banquete foi dado – certamente na casa de seu pai Alfeu – logo  depois  que Mateus recebeu o chamado. Veja o relato: “E Jesus, passando adiante dali, viu assentado na alfândega um homem, chamado Mateus, e disse-lhe: Segue-me. E ele, levantando-se, o seguiu.  E aconteceu que, estando ele em casa sentado à mesa, chegaram muitos publicanos e pecadores, e sentaram-se juntamente com Jesus e seus discípulos.  E os fariseus, vendo isto, disseram aos seus discípulos: Por que come o vosso Mestre com os publicanos e pecadores?”, Mateus 9:9-11

Lucas registra, “E, depois disto, saiu, e viu um publicano, chamado Levi, assentado na recebedoria, e disse-lhe: Segue-me.  E ele, deixando tudo, levantou-se e o seguiu.  E fez-lhe Levi um grande banquete em sua casa; e havia ali uma multidão de publicanos e outros que estavam com eles à mesa.  E os escribas deles, e os fariseus, murmuravam contra os seus discípulos, dizendo: Por que comeis e bebeis com publicanos e pecadores?” Lucas 5:27-30.

Na menor das hipóteses Mateus estava se despedindo da velha vida e deu uma festa imediatamente após o chamado de Jesus. “Talvez essa festa tivesse sido organizada especialmente para Jesus e seus discípulos, posto que Mateus, recentemente, também fora chamado para o discipulado. Mateus, portanto, comemorava a sua chamada, ao mesmo tempo que se despedia de seus amigos para seguir a sua nova vida”. Russel Normam Champlim  – Comentário de Mateus,  página 350.

Há um detalhe interessante no encontro de Jesus e Mateus. Lucas diz que ao ouvir o mestre  “Ele deixou tudo”, (5:28),  o mesmo gesto de Pedro e André, seu irmão como  também João e Tiago, filhos de Zabedeu quando largaram os negócios do Pai. Mateus trabalhava na sua vila, em Cafarnaum,  e provavelmente alguns membros da família podiam estar  envolvidos com cobranças de impostos. Porém, é certo que  Mateus não trabalhava por conta própria, mas tinha patrões sobre ele que podiam ser pessoas da própria família ou não.  Mateus  era um cobrador de impostos menor, como vai ficar evidenciado.

Ele  mesmo registra que Jesus o encontrou sentado na Alfândega. Ou seja, no lugar onde se passava o recibo dos pagamentos de impostos: “Jesus, passando adiante dali, viu assentado na alfândega um homem, chamado Mateus, e disse-lhe: Segue-me. E ele, levantando-se, o seguiu”, Mateus 9:9.

Não se deve entender alfândega como nós entendemos hoje, um departamento enorme e cheio de escrivaninhas. Lucas diz que Mateus estava “assentado na recebedoria” (5:27), que significa o lugar do recibo, a casa de pedágio ou cabine em que o coletor ficava. Muitas das vezes era uma tenda temporária que poderia facilmente ser erguida em qualquer lugar onde a ocasião exigia.

Ainda hoje  em dia na Palestina “é erguido um estande de galhos ou uma cabana mais substancial em cada entrada na cidade ou na aldeia, e ali, de dia e de noite, está sentado um homem na recepção. Ele impõe todo o produto, perfurando com uma longa e afiada haste de ferro os grandes sacos de camelo de trigo ou algodão, a fim de descobrir fios de cobre escondidos ou outros artigos de contrabando”. Pulpity Comentary, Mateus 9:9.

Havia dois tipos de cobradores de impostos, o Gabbai e o Mokhes. Os Gabbai eram coletores de impostos gerais. Eles coletaram imposto de propriedade, imposto de renda e imposto de sondagem. Esses impostos foram estabelecidos por avaliações oficiais, de modo que não havia tanta alteração  nesse nível. Os Mokhes, no entanto, cobravam um imposto sobre as importações e exportações, bens para o comércio interno e praticamente qualquer coisa que fosse movida por estrada. Fixavam pedágios em estradas e pontes, taxavam os animais de carga e  cobravam uma tarifa em encomendas, cartas e tudo o mais que pudessem taxar. Suas avaliações eram muitas vezes arbitrárias e caprichosas. Havia dois tipos de Mokhes – o Grande Mokhes e o Pequeno Mokhes. Um Grande Mokhes ficava nos bastidores e contratava outros para cobrar impostos por ele (Zaquel  era aparentemente um Grande Mokhes; Ele “era chefe dos publicanos”,  Lucas 19: 2). Mateus era evidentemente um Mokhes pequeno, porque ele tinha  o “seu” local onde tratava as pessoas cara a cara (Mateus 9: 9)”. Twelve Ordinary Men,  John F. MacArthur, pág 171.

Mateus era um pequeno Mokhes. Um Publicanus – em Latin significa  um homem que faz o dever público, um trabalho que  podia ser feito por jovens ou velhos.

Agora vamos voltar ao imposto do templo. Como foi visto,  Jesus pagou o imposto dele e o de Pedro não lançando mão da ajuda das mulheres que o sustentavam com seus bens, Jesus não teve uma conversa em particular com o ex-cobrador de impostos Mateus,  Jesus não pediu ajuda a nenhum deles para resolver o problema e,  Jesus muito menos serviu-se do que as pessoas lhes ofertavam. Aliás, se tivesse necessidade de Jesus fazer o pagamento para todos os discípulos, e o dele, eu duvido muito que poderia encontrar na bolsa de ofertas o necessário para quitar os impostos – Judas roubava o que ali se lançava: “Ora, ele (Judas) disse isto, não pelo cuidado que tivesse dos pobres, mas porque era ladrão e tinha a bolsa, e tirava o que ali se lançava”, João 12:6.

Não pensem vocês que os impostos de  treze  homens perfazia um pequeno valor – Jesus pagou para um, mas não pagou para os outros. “Duas dracmas não representam muito dinheiro em nossos dias, mas lemos que no ano de 300 AC a dracma comprava uma ovelha. Mesmo considerando a desvalorização da dracma antes do tempo de Jesus, nos seus dias duas dessas moedas representavam para qualquer homem pobre uma boa quantia. Um «estáter», encontrado na boca do peixe, tinha o valor de quatro dracmas, o pagamento do imposto para Jesus e Pedro. Esta história nos revela algo que muitos evitam aceitar, que é a situação de  profunda pobreza de Jesus e de seus discípulos”. Russel Normam Champlim, Comentário de Mateus, pág 688. Os itálicos são meus.

Jesus lançou mão de outro recurso  para fazer o pagamento do imposto dele e de Pedro. Como visto anteriormente, esse imposto era para “cada israelita, para efeito de sustento da adoração no templo…  Todos os homens judeus, de vinte anos para cima (Êxo 30:11-16; 2 Reis 12:4,5), tinham a obrigação de pagar o imposto Aquele imposto era de duas dracmas (moeda  grega usada pelos romanos), a lei judaica exigia que a moeda fosse trocada pelo dinheiro judaico”. Russel Normam Champlim – Comentario de Mateus, pág 688.

Discípulos Jovens

A maioria dos discípulos do Senhor Jesus eram bastante jovens quando eles os escolheu, pessoas extremamente inexperientes em todos os sentidos. Eram jovens adolescentes totalmente despreparados.

Observe essa alegação de um preterista em um email enviado a minha pessoa numa discussão sobre a idade dos discípulos: “Jesus  jamais entregaria sua  obra, tão vital de salvar vidas, a pessoas jovens, e não a homens plenamente adultos e responsáveis”. E para  validar  sua argumentação ele citou  1 Timóteo 3:1-7; Tito 1:5-10 que fala da escolha de bispos e presbíteros para a Igreja.

 “ESTA é uma palavra fiel: se alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja.  Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar;  Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância, mas moderado, não contencioso, não avarento;  Que governe bem a sua própria casa, tendo seus filhos em sujeição, com toda a modéstia (Porque, se alguém não sabe governar a sua própria casa, terá cuidado da igreja de Deus? );  Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo.  Convém também que tenha bom testemunho dos que estão de fora, para que não caia em afronta, e no laço do diabo”, 1 Timóteo 3:1-7.

Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam, e de cidade em cidade estabelecesses presbíteros, como já te mandei:  Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher, que tenha filhos fiéis, que não possam ser acusados de dissolução nem são desobedientes.   Porque convém que o bispo seja irrepreensível, como despenseiro da casa de Deus, não soberbo, nem iracundo, nem dado ao vinho, nem espancador, nem cobiçoso de torpe ganância;  Mas dado à hospitalidade, amigo do bem, moderado, justo, santo, temperante;   Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes.  Porque há muitos desordenados, faladores, vãos e enganadores, principalmente os da circuncisão”, Tito 1:5-10.

Exigir o modelo acima dos discípulos no inicio do ministério  do Senhor seria   a mesma coisa exigir de Deus que apresentasse Jesus como o Messias ao doze anos de idade. Na verdade, esses contextos citados não  encaixam no contexto do Rabino Jesus e as  exigências  na formação de seus PRIMEIROS discípulos.

Além disso, em todas as duas citações se requer dos bispos algo que seria impossível de  ser encontrado na vida dos  discípulos do Senhor, com exceção de Pedro: Ser casado! a Timóteo Paulo diz, “Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher”; a Tito, “Aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher”. Em todos os dois contextos  essa foi uma das recomendações:  o bispo deve ser casado. Os adolescentes judeus ainda eram solteiros e estavam na fase inicial de discipulado.

O comportamento dos discípulos, conforme detalhado nos evangelhos, se encaixa bem com a natureza zelosa e as sequelas da adolescência. Não faz mais sentido acreditar que jovens imaturos estavam discutindo sobre quem seria o maior no reino de Jesus do que acreditar que isso foi atitude de homens maduros? Quem não se lembra do episódio onde João e Tiago foram chamados de filhos do trovão? Por quê? Não seria por causa do comportamento explosivo extrovertido, típico de adolescentes?

Em várias ocasiões Jesus chama os seus discípulos de filhinhos e pequeninos. Isto seria um insulto se fossem adultos, não importa  quão radical ou suave fosse o rabino. No capítulo onde Mateus fala  da nomeação dos Doze, nas palavras de Cristo, ele registra: “E qualquer que tiver dado só que seja um copo de água fria a um destes pequenos, em nome de discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão” (Mat. 10:42).

Comentaristas do texto bíblico ficaram intrigados com as palavras, “estes pequenos”. “Alguns pensam que há uma alusão para a condição futura dos discípulos, que seriam de baixo, desprezados pela maioria no judaísmo; outros, que a alusão é a sua pequenez aos olhos do mundo. Alford pensou que algumas crianças podiam ter estado presente. Marcos, no entanto, faz com que as palavras se referem à discípulos: “Porquanto, qualquer que vos der a beber um copo de água em meu nome, porque sois discípulos de Cristo, em verdade vos digo que não perderá o seu galardão” (Marcos 9:41,42). Pode ser que, como muitas vezes acontece em uma escola, havia dois ou três alunos consideravelmente mais jovens do que os outros para que Jesus pudesse falar deles tanto quanto nós de “meninos”. Se assim for, podemos facilmente imaginar a cena:  Jesus, como quem falando a um grupo de jovens, joga seus braços sobre dois deles, rapazes de  quinze  ou dezesseis anos, e  em tom  familiarizado e carinhoso, diz palavras que poderiam ser parafraseados da seguinte forma: “Se alguém dá até mesmo um copo de água a um de vocês, porque são meus alunos, a sua bondade será recompensada; E qualquer que escandalizar um de vocês, pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que lhe pusessem ao pescoço uma pedra e o jogasse dentro do  mar”, v 42.  O termo parece ridiculamente inadequado se aplicado para  homens de pouco mais de trinta anos de idade. Não se parece em nada também com os veteranos e calvos atores que tanto representaram os discípulos nos tantos filmes sobre a vida de Cristo.

Jesus escolheu dois termos para descrever Seus discípulos: MíKronos, que significa “pequeninos”, em Mateus 10:42, e Teknion, que significa “crianças” (ele os chamou de filhinhos) em João 13:33. Em ambos os casos, os termos são sinônimos da palavra “discípulo”. O mesmo termo é usado para aqueles a quem a Primeira Epístola de João foi dirigida (I João 2:1; 2:12; 2:18), a maioria dos quais provavelmente eram adultos; mas, se, como geralmente se supõe, o escritor foi um homem idoso, ele poderia muito bem usar o termo para aqueles que foram quase todos muito mais jovens do que ele. Parece menos apropriado para Jesus  usar o termo se falar a pessoas quase tão adultas quanto ele próprio.

Outro versículo a ser considerado é João 21: 5, quando Jesus chamou seus discípulos no barco, perguntando: “Filhos, tendes alguma coisa para comer?” Se usamos nosso familiarizado idioma, é como se Jesus os tivesse abordado de uma forma alegre, “Rapazes, vocês não apanharam  nenhum peixe ainda?” Aqui, novamente, encontramos  uma expressão que parece mais apropriada se dirigida a pessoas mais jovens do que aquele que fala.

Visualize agora a cena causada por um temporal quando Jesus e os discípulos atravessavam o Mar da Galileia; o Dr George Matheson, maravilhado com sua abjeta trepidação, diz: “Imagine uma tropa de experientes marinheiros ingleses passando  por um súbito vendaval  dando vazão aos seus sentimentos em um grito simultânea de terror: “Salva-nos, que perecemos!” Ele diz que este fato explica o mistério. Como se não fosse o bastante, quem consegue imaginar que adultos, homens maduros e responsáveis, pudessem cair no sono  na hora de vigiar, enquanto seu mestre se derramava em oração nas vigílias da noite (Marcos 14:37)?  Eles também eram propensos a acessos de orgulho, como vimos (Lucas 9:46), a arrogância (Mateus 26:33-35), raiva vingativa (Lucas 9:51-54), falta de tato (João 9:1-2) e dúvida (João 20:24-25). O que havia de errado com esses homens ?!

Nada de errado…  se alguns deles eram adolescentes…

Jesus também nos deixa  a indicação de que os discípulos eram inexperientes na pesca, desajustados sociais, e até mesmo usava uma linguagem parabólica  quando estava sozinho com eles, tendo muitas vezes que perguntar-lhes “Vocês não entendem?”. Este tratamento cuidadoso seria uma dica para estabelecermos a idade dos discípulos.

Em outra ocasião, Salomé, a mãe insistente que queria ver seus filhinhos sentados ao lado de Jesus no seu reino, pede ao mestre: “… Dize que estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu reino” (Mateus 20:24). Não parece provável que os requerentes, se adultos, iriam com sua mãe pedir nomeação e em seguida colocá-la na  frente para  falar por eles. Mais natural é  pensar na mãe como indo com dois jovens adolescentes que tem grandes ambições. É uma situação desconcertante, consequentemente gerada por jovens sem maturidade alguma, certamente os mais novos do grupo.

Quando Tiago e João foram chamados por Jesus nos é dito que eles imediatamente deixaram seu pai Zebedeu (Mt 4: 21-22, Marcos 1: 19-20). Em uma época onde a expectativa de vida não era muito alta, e chegar a ser octogenário era muito raro, permite-nos inferir que Zebedeu ainda estava em forma o suficiente para sair em um barco de pesca ele só, o que indica que era um homem ainda jovem, com filhos saindo da adolescência. Por outro lado, a Bíblia nos esclarece que ele tinha empregados (Mar 1:20 ARA), o que seria completamente desnecessário se seus filhos fossem adultos e maduros. Esses detalhes nos levam a concluir que nessa ocasião Tiago e João provavelmente não haviam alcançado ainda a casa dos 18 anos de idade.

Doze HOMENS

Algumas objeções podem  surgir por causa de  versículos mal traduzidos, ou mal interpretados; falo de passagens onde  a  palavra “homem” foi  usada para fazer referência aos  discípulos. Se eles foram designados de HOMENS deve significar, para muitos, que não eram mais mancebos, ou adolescentes, mas sim pessoas aproximando-se dos 30 anos de idade.

O primeiro argumento pode ser encontrado numa passagem clássica, aquela que  mostra Judas junto com os soldados no momento da prisão de Jesus no Getsêmani  – nas palavras do próprio Senhor  Jesus  ao destacamento estaria uma pista para determinar que os discípulos não eram tão jovens. Eles foram apresentados como sendo HOMENS. Veja  João 18:8, “Se vocês estão me procurando, deixem ir embora estes HOMENS”.

Não existe a palavra homem nesse texto. Se existisse, nem assim o argumento poderia ser usado para os propósitos contrários aos apresentados. Basta observar um detalhe importantíssimo em outra passagem, onde alguém é  descrito como homem por  Marcos, mas por Mateus  ele aparece como sendo um jovem:

Marcos 10:17 “E, pondo-se a caminho, correu para ele um homem, o qual se ajoelhou diante dele, e lhe perguntou: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?”

“Mateus  19:16, “E eis que, aproximando-se dele um jovem, disse-lhe: Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?”

Mas o pior não é isso. Observe que o Lucas o chama de príncipe em 18:18, “E perguntou-lhe um certo príncipe, dizendo: Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?”

Por outro lado, na cultura judaica, um jovem  podia ser  chamado de homem mesmo que estivesse abaixo dos seus vinte anos. Os  meninos judeus não eram apenas  rapazes depois dos 13 anos, mas também  homens jovens  e durante suas idades de 16-18 eram considerados homens em sua sociedade. Observe o que diz um especialista no assunto: “Os meninos judeus se tornam homens aos treze anos após a sua celebração bar mitzvah. A palavra “bar” significa “filho de”, e “mitzvah” é a palavra para mandamentos. Assim, um judeu de treze anos de idade, vivendo no primeiro século, já teria assumido a responsabilidade por sua própria vida ao levar os mandamentos de Deus. Em essência, ele entrou no processo de maturidade”. Rediscovering Discipleship – Robby F. Gallaty, pág 49.

Voltando ao registro do Getsêmani,  que para muitos é um ponto forte para estabelecer a idade dos discípulos,  quero dizer que pode ser um fraquíssimo artifício em vista do que foi exposto acima. No entanto, eu nem precisaria mesmo usar esses argumentos para tal, pois se o preterista entende que por terem sido  descritos como homens deve significar que eram adultos, acima das idades aqui propostas, saiba que o argumento pode tornar-se totalmente sem valor algum por um simples motivo: A maioria das  versões omitiram a palavra “homem” do texto.

João Ferreira de Almeida Revista e Atualizada

Então, lhes disse Jesus: Já vos declarei que sou eu; se é a mim, pois, que buscais, deixai ir estes”.

Nova Tradução na Linguagem de Hoje

Jesus disse:  Já afirmei que sou eu. Se é a mim que vocês procuram, então deixem que estes outros vão embora!”

João Ferreira de Almeida Atualizada

Replicou-lhes Jesus: Já vos disse que sou eu; se, pois, é a mim que buscais, deixai ir estes”.

João Ferreira de Almeida Corrigida e Revisada, Fiel

Jesus respondeu: Já vos disse que sou eu; se, pois, me buscais a mim, deixai ir estes”.

Versão Ave Maria

Replicou Jesus: Já vos disse que sou eu. Se é, pois, a mim que buscais, deixai ir estes”.

Versão Católica da CNBB

Jesus retomou: “Já vos disse que sou eu. Se é a mim que procurais, deixai que estes aqui se retirem”.

A Bíblia do Peregrino – Versão Católica

Jesus respondeu: Já vos disse que sou eu; se, pois, me buscais a mim, deixai ir estes”.

Catholic Public Domain Version

Jesus responded: “I told you that I am he. Therefore, if you are seeking me, permit these others to go away”.

Versão: English: Darby Version

Jesus answered, I told you that I am [he]: if therefore ye seek me, let these go away”.

Versão: English: American Standard Version (1901)

Jesus answered, I told you that I am [he]; if therefore ye seek me, let these go their way”.

 Versão: English: World English Bible

 “Jesus answered, “I told you that I am he. If therefore you seek me, let these go their way”.

 Versão: Español: Reina Valera (1909)

Respondió Jesús: Os he dicho que yo soy: pues si á mi buscáis, dejad ir á éstos”.

A palavra usada para fazer referência  aos discípulos, foi ESTES. Portanto, o argumento contrário não serve como prova para eliminar as evidências apresentadas neste artigo. Se fossem para um tribunal seriam descartadas facilmente.

Vamos agora para o segundo argumento  – está em  Atos 4:13-16, “Então eles, vendo a ousadia de Pedro e João, e informados de que eram homens sem letras e indoutos, maravilharam-se e reconheceram que eles haviam estado com Jesus”.

Observe esse detalhe com atenção: “homens sem letras e indoutos”. Eu acredito que nessa ocasião os discípulos foram chamados de homens por outro motivo – e isso não pode ser usado como argumento para estabelecer a  idade dos discípulos.  Embora o versículo se refira a Pedro e João,  provavelmente teve mais a ver com a sua (homens com) falta de formação religiosa do que qualquer outra coisa – ao longo dos anos esta descrição foi aplicada aos discípulos como um todo.

Agora vamos analisar o texto sobre Mateus – que poderia ser refutado com algumas argumentações sobre as tradições hebraicas já apresentadas.  Porém, também aqui vou me abster de usá-las por um motivo muito simples: Tradução. A narrativa  apresenta Mateus como um homem, e isso no dia em que foi chamado por Jesus.  Mateus 9:9, diz: “E Jesus, passando adiante dali, viu assentado na alfândega um homem, chamado Mateus, e disse-lhe: Segue-me. E ele, levantando-se, o seguiu”.

A análise da oposição é a seguinte: Mateus foi chamado de homem porque já era um adulto,  não apenas um adolescente quando Jesus o viu pela primeira vez. A  intenção  é   tornar  inválido o argumento do imposto do templo relacionado a um Mateus com menos de 20 anos, como também  tentar  afetar  a idade dos outros discípulos, que  não poderia ser determinada por causa do não pagamento desse  imposto.

Observem que o registro em Mateus alega que “Jesus viu um homem  assentado na coletoria”, mas Lucas diz que  Jesus “viu um publicano, chamado Levi, assentado na recebedoria”, Lucas 5:27.

E agora, qual designação foi usada? O que faz Mateus ficar mais velho ou mais novo, homem ou publicano? Nenhum dos dois. A narrativa não teve intenção alguma em revelar a faixa etária de Mateus – nem que ele fosse designado apenas de HOMEM. Na verdade, o argumento preterista, que intenciona envelhecer Mateus para dar ao discípulo uma idade maior pode ser considerado  totalmente inválido, irrelevante e infantil.

O Rabi e seus Discípulos

Muitas pessoas se referem a Jesus como rabino. Seus discípulos (Lucas 7:40), doutores da lei (Mateus 22: 35-36.), as pessoas comuns (Lucas 12:13), os ricos (Mat 19:16.), fariseus (Lucas 19:39), e os saduceus ( Lucas 20: 27-28).  O uso desse termo para ele pelo povo nos seus dias, foi uma medida de  grande respeito por ele como pessoa e como professor e não apenas uma referência para a atividade de ensino que ele estava envolvido.

Outra evidência que pode nos ajudar aqui é encontrada em  Atos 4:13 onde vemos os principais, os anciãos, escribas e sacerdotes “…  vendo a ousadia de Pedro e João, e informados de que eram homens sem letras e indoutos, maravilharam-se e reconheceram que eles haviam estado com Jesus”. Isso quer dizer muito. Mostra que a autoridade traz algum peso  como um argumento  a favor da educação dos  discípulos. Mesmo se àqueles graduados no grande centro do judaísmo, assistidos pelos mais excelentes rabinos,  tivessem que escarnecer daqueles que fossem educados em instituições menos notáveis, a autoridade de Cristo como rabino não deixou de ser reconhecida. E Jesus encaixava-se no perfil dos rabinos de sua época.

Ele, como Rabi, começou a tomar posse sobre os alunos com a idade de trinta anos, idade que, acreditamos, ele começou seu ministério público. Isso também se encaixa com as tradições rabínicas do seu tempo, as quais Jesus respeitou e cumpriu. Na verdade ele foi cumpridor da lei e como rabino não trabalhou contra as normas das suas tradições.

O fato de que Jesus era um rabino é validado em  vários lugares na Bíblia. A palavra rabino  significa, literalmente, “meu mestre”. Um rabino era  simplesmente um professor, e o termo rabino é intercambiável com a palavra que nós traduzimos como “professor” nos Evangelhos. Veja alguns textos.  Em  Lucas 7:40, “Jesus respondeu-lhe: Simão, tenho uma coisa para te dizer.Mestre [Rabi] “, disse ele,” dizê-o.” Em Lucas 10:25, “ um perito na lei levantou-se para testá-lo, dizendo:” Mestre [Rabi], o que devo fazer para herdar a vida eterna”. Em Mateus 22:23-24, “no mesmo dia alguns saduceus, que dizem não haver  ressurreição, vieram  até Ele e O questionaram: Mestre [Rabi], Moisés disse… ”.

O termo foi usado para abordar um professor ou sábio ensinador. Um rabino nos dias de Jesus era muito diferente de um rabino dos nossos dias. Jesus era um pregador itinerante, semelhante a um profeta do Velho Testamento, e como tal, ele contava  com a benevolência dos outros. Em uma época que não tinha  métodos desenvolvidos e sofisticados de comunicação de massa que temos hoje, um rabino viajava de lugar a lugar para  comunicar seus ensinamentos e suas interpretações da Escritura para as massas.

A decisão de seguir um rabino como um discípulo significava compromisso total no primeiro século. Uma vez que um discípulo era totalmente dedicado a tornar-se como o rabino ele teria gasto todo seu tempo escutando e observando o professor para saber como compreender a Escritura e como colocá-la em prática. Jesus descreve seu relacionamento com seus discípulos exatamente desta maneira. Veja  Mateus 10: 24-25 e Lucas 6:40, “Não é o discípulo mais do que o mestre, nem o servo mais do que o seu senhor.  Basta ao discípulo ser como seu mestre, e ao servo como seu senhor. Se chamaram Belzebu ao pai de família, quanto mais aos seus domésticos?”

O discípulo não é superior a seu mestre, mas todo o que for perfeito será como o seu mestre”. Ele os escolheu para estar com ele (Marcos 3: 13-19) para que eles pudessem ser como ele (João 13: 15).

Certamente as palavras usadas para expressar as relações entre Jesus e os Doze são quase sem exceção, as mesmas que foram usadas em conexão com a educação. As pistas estão um pouco obscurecidas em nossas traduções, mas apesar disso  até mesmo pessoas familiarizadas com o Idioma grego são susceptíveis de ter seus pensamentos fortemente regulados pelas impressões que recebeu na infância a partir da versão em português.

Provavelmente alguns jovens quando lêem na Versão Almeida a palavra “Mestre” como um nome para Jesus, não conseguem perceber a relação entre um professor e seu aluno, significado que  é  mostrado mais claramente  no grego.  Para melhor entendimento, basta associar ao mestre a palavra discípulo, que bem cedo no ministério de Jesus foi usada por que têm um significado especial, de modo que nós esquecemos que esta palavra nos Evangelhos quer dizer “aprendiz” ou “aluno”. Tudo isso nos remete à palavra “Rabino”, de onde vem o título hebraico “Rabi”, que de acordo com o léxico de Thayer, significa “meu honroso senhor “,  um título com o qual os judeus tinham o hábito de chamar  seus professores e também para honrá-los.

Infelizmente muitos evangélicos não tiveram em sua  educação cristã melhores traduções que pudessem lhes dar o real significado dos termos, ou, na verdade, talvez não tiveram professores que pudessem ter uma visão mais ampla do assunto, o que consequentemente obscureceu seu entendimento não os deixando perceber que  tais termos são utilizados usualmente para falar de assuntos educacionais. Isso impediu que várias  passagens fizessem a diferença em muitos, não trazendo uma impressão mais clara  em nossas mentes.

O que tendo dizer é muito simples; basta apenas  ler alguns versículos dessa forma::  “Um aluno não é mais do que seu professor” (Mat 10:24); “E os seus alunos o interrogaram, dizendo…” (Mat 17:10); “tudo declarava em particular aos seus alunos” (Marcos 4:34); “Porque ensinava os seus alunos, e lhes dizia…” (Marcos 9: 31); “… lhe disse um dos seus alunos: Mestre, ensina-nos a orar, como também João ensinou aos seus discípulos” (Lc 11:1); “Os seus alunos, porém, não entenderam isto no princípio” (João 12:16); “Os fariseus enviaram seus alunos, juntamente com os herodianos, dizendo: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensina o caminho de Deus segundo a verdade” (Mateus 22:16).

Além disso, alguns estudiosos do texto grego, ao analisarem a expressão “siga-me”, relacionada à  chamada dos primeiros discípulos, atestam que ela pode ser  facilmente entendida como implicando uma chamada a tornar-se  discípulo permanente de um professor. Não era apenas  uma prática para os rabinos, mas era considerado como um dos maiores deveres sagrados para um mestre  reunir em torno de si mesmo um círculo de discípulos.  Muitas são as passagens que descrevem Cristo como aquele que ensina. Algumas falam  de sua “pregação e ensino” como se não houvesse distinção entre os dois atos – Ele ensinava nas sinagogas, locais que eram comumente usados durante a  semana como salas de aula. Pode ser que em sua longa jornada em Cafarnaum ele tinha uma classe semelhante aos que eram comuns entre o seu povo. Vemos, também, que a linguagem utilizada relativa às relações de Cristo com os Doze revela o envolvimento de um professor com alunos bem jovens. Esses detalhes são parte de uma peça importante no tema aqui discutido.  As escolas são principalmente para os jovens.

O pronto atendimento ao chamado do mestre sugere que a maioria dos discípulos era composta de  jovens solteiros, do contrário a ausência do lar tornaria difícil o sustento de seus familiares,  a menos que fossem em circunstâncias bastante fáceis. Nós sabemos que alguns dos discípulos (João, principalmente) pertenciam a famílias que possuíam barcos, redes  e contratavam servos, o que demonstra duas coisas: Primeira: seus filhos eram adolescentes e, por esse motivo, sem muita experiência na profissão. Segunda: seus pais estavam prontos a fazer o trabalho e outros sacrifícios necessários sem a sua ajuda a fim de que eles pudessem ser educados, ou até, o que seria bem possível por causa disso, se ausentarem do lar. Se todos os doze, ou boa parte dos setenta fossem adultos, com esposas e filhos, sabemos que a possibilidade de sobrevivência de suas famílias sem o cabeça do lar seria mais delicada.

Embora circunstâncias pudessem justificar alguns indivíduos da ausência de suas casas, não parece  provável que Cristo chamaria  tantos adultos para longe de seus familiares – não foi esse o padrão. Muito menos quando tomamos por base o contexto entre discípulo e mestre.  É por isso que não foi um problema, nem para eles, e muito menos para  suas famílias, quando  simplesmente se levantaram e saíram na chamada do rabino. Certamente foi uma  honra para eles serem escolhidos por um rabino,  segui-lo e aprender com ele. Jovens  em sua fase adolescente seria mais fácil para sair de casa, como aqueles que vieram de aldeias distantes às “escolas do distrito”. A Enciclopédia Judaica, ao falar de “o último século do Estado judeu”, diz que escolas para meninos de seis ou sete anos de idade foram realizadas em todas as cidades, e, em seguida, descreve o que chama de “escolas do distrito”. Estas “destinavam-se apenas para os jovens de dezesseis ou dezessete anos de idade que poderiam ficar  longe casa”.

Jesus, portanto, fez o que foi certo fazer: Chamar a si discípulos conforme a tradição de seu povo. O Messias escolheu o sistema rabino-talmidin (professor e aluno). Ele ensinou como um rabino em situações da vida real, não desprezando os  métodos  utilizados por outros rabinos de sua época ( não há nenhuma razão para acreditarmos que Jesus e seus discípulos foram uma exceção). Ele escolheu discípulos a quem ele iria capacitar para tornar-se como ele e levou-os ao redor até que eles começaram a imitá-lo. Em seguida, enviou-lhes a fazer outros discípulos para levar as pessoas a imitá-los.

Assim, como fica evidente, observamos que Jesus, como membro integrante da cultura em que viveu participou da cultura rabínica de seu tempo, interagindo com outros  que foram criados dentro dessa mesma  cultura. Como tal, ele foi chamado para responder a uma série de perguntas e pesar com as suas opiniões sobre temas relevantes para essa cultura. Ora, sabemos que Jesus era um judeu, criado  de acordo com os costumes judaicos, falando a um público judeu, e rodeado por discípulos judeus. A Bíblia é um livro judaico escrito por judeus, para uma platéia predominantemente judaica, e fala acerca  de um Salvador judeu que veio para redimir os judeus e gentios.

Jesus foi criado por pais judeus excepcionalmente devotos. Eles viajavam para Jerusalém para a Páscoa todos os anos. Ele foi circuncidado ao oitavo dia de sua vida – foi dedicado e lhe deram um nome hebraico. Como qualquer outro menino judeu, ele freqüentou as academias religiosas em uma idade precoce para estudar a Torá. Ele regularmente participava dos trabalhos na sinagoga no sábado, participou em cada festa bíblica, estudava  e memorizava as Escrituras, aprendeu o ofício de seu pai, e começou seu ministério rabínico aos trinta anos – tudo isso de acordo com as tradições do seu povo.

E que o leitor não esqueça: Estamos no Velho Pacto aqui. Leis e tradições judaicas não foram mais necessárias no Novo Concerto apesar de continuarem a ser observadas por muitos, até mesmo por alguns  membros da Igreja Primitiva. E, apesar também, de a  graça e a verdade terem vindo por intermédio de Jesus Cristo não podemos negar que ele foi ministro da Velha Aliança. Veja:

Digo, pois, que Jesus Cristo foi ministro da circuncisão, por causa da verdade de Deus, para que confirmasse as promessas feitas aos pais”, Romanos 15:8.

Todos estes detalhes são valiosíssimos para nossa argumentação defensiva, pois nos ajudarão a descobrir qual era a idade de João perto de 70 AD, o que poderá causar grande impacto nas afirmações da escola preterista, fazendo desmoronar a tese de que João foi aprisionado em Patmos antes da destruição de Jerusalém, e que o livro de Apocalipse é primariamente uma profecia sobre a guerra romana contra os judeus em Israel, começando em 67 e terminando com a destruição do Templo em 70 DC

A Idade de João – do chamado ao Exílio

Se João encontrou Jesus quando era bem jovem, aos  16 anos de Idade e, se a crucificação e a ressurreição ocorreram aproximadamente entre 28 e 30 dC, certamente ele estava perto dos seus 20 anos nessa ocasião. Se acrescentarmos mais 30 anos para colocar João no início da década de 60 dC,  empurramos o Apóstolo para dentro da ilha de Patmos com pouco mais de  50 anos. E, se ele foi liberto – como deseja o preterismo – após a morte do “tirano”, em 68 dC, que eles dizem ter sido Nero, então João não poderia ser tão velho, ele estaria perto dos 58 anos de idade. Como vamos ver, isso contraria o testemunho de alguns pais da Igreja, os quais registram que João quando deixou o exílio já era um idoso, o que só faz sentido se sua libertação ocorreu algumas décadas após a destruição de Jerusalém – os cálculos para a saída de João do exílio nos levam direto para o final do governo do Imperador Domiciano, em 96 dC.

As evidências da Patrística apresentadas nesse artigo não podem ser tratadas como argumentos para reparar remendos. Nada foi planejado para socorrer pesquisadores futuros, os opositores do preterismo,  pelo simples fato de não ter existido nos tempos de Cristo e dos Pais da Igreja essa ameaçadora doutrina. Quem escreveu na época da história bíblica e da Patrística não estava tentando acumular evidências para provar o erro preterista. A escrita foi construída de forma circunstancial acompanhando relatos históricos. O que precisou ser feito aqui neste modesto artigo foi apenas reunir essas evidências na hora certa.

Por volta de AD 270, Vitorino, no décimo capítulo de seu comentário sobre o Apocalipse de João, escreveu: “… João estava na ilha de Patmos, condenado ao trabalho das minas… ele viu o Apocalipse, e quando envelheceu, ele pensou que ele deveria finalmente receber sua quitação pelo sofrimento… foi liberto das minas…”. [Vitorino, Comentário sobre o Apocalipse, XI].

Clemente de Alexandria (AD 150-220) contou uma história sobre João logo após seu retorno do exílio, como sendo um homem muito velho. Ele narra sobre um jovem que foi convertido pela pregação do Apóstolo, mas também deixa um valioso documento sobre os dias de João em Patmos.

A história é sobre um jovem convertido que João havia confiado a certo ancião para discípulo na fé. O homem tinha sido anteriormente um ladrão e salteador. O registro diz o seguinte:

“… Ao retornar do exílio em Patmos, ele ouviu que o jovem havia retornado para sua vida antiga de crime. Ao ouvir isso, ele repreendeu fortemente o mais velho em cuja guarda ele havia deixado. João partiu imediatamente para o lugar onde este ladrão e seu bando se escondiam. Ao chegar ao local, ele foi agredido pelo bando de ladrões. Ele exigiu deles para levá-lo ao seu líder. Eles trouxeram João ao homem que João havia anteriormente conquistado para Cristo, e deixado sob a custódia do mais velho. Quando o jovem viu João se aproximando, ele começou a fugir. João começou a correr atrás dele, pedindo: “Por que, meu filho fugir de mim, teu pai, desarmado e velho? Filho tenha pena de mim. Não temas, tens ainda a esperança de vida. Vou dar conta de Cristo por ti. Se for necessário, eu vou de bom grado suportar tua morte, como fez o Senhor na morte por nós. Por ti vou entregar minha vida… João explicou-lhe que o perdão e a restauração era ainda possível…” [Clemente, Quem é o homem rico que será salvo, XLII].

No entanto, o testemunho mais curioso, interessante e esclarecedor é o do historiador da igreja Eusébio de Cesareia, ou, Eusébio Panfilio. Eusébio nasceu em 260 e morreu antes de 341. Bispo de Cesareia na Palestina, ele é conhecido como o “Pai da História da Igreja.” No capítulo 18, livro 3 de sua História da Igreja, ele registra:

“… nesta perseguição …  João, apóstolo e evangelista, que ainda estava vivo… foi condenado a habitar na ilha de Patmos em conseqüência de seu testemunho à palavra divina”.

Observe o que Eusébio diz quando registra sobre o tempo do exílio: “João ainda estava vivo“. Isso é preciosíssimo, revelador e definitivo para destruir a tese preterista – através de detalhes inseridos dentro de narrativas paralelas às narrativas originais é que muitos crimes são descobertos. Até para a investigação bíblica devemos usar o mesmo método – quatro palavras registradas de forma puramente circunstancial dentro de um contexto que não tem interesse algum em refutar o que quer que seja: “João ainda estava vivo!”

Por que Eusébio diria que João ainda estava vivo quando foi para o exílio? Simplesmente por que ele havia envelhecido.  Esse pequeno detalhe circunstancial é uma evidência preciosa contra a alegação preterista. Um pequeno acidente verbal, narrando a história, vem esclarecer um tempo, uma época – um tremendo azar preterista. O testemunho de Eusébio está de acordo com Vitorino e Clemente: João estava velho quando foi aprisionado em Patmos. Registrar que João “ainda estava vivo” significa avançar para frente dentro de um tempo em que todos os outros Apóstolos já haviam  partido desse mundo. Eusébio não fez esse registro tendo em mente o João da década de 60 dC. Fica totalmente sem sentido um escritor referir-se a um Apóstolo que estava entre os 48-50 anos de idade e dizer que “ele ainda estava vivo” e, mais sem sentido ainda registrar tal fato numa época em que outros 10 Apóstolos também podiam ser encontrados com vida, além de Paulo, Lucas, Barnabé, Marcos e mais alguns.

A bem da verdade, a prisão de João em Patmos, como também sua libertação, ocorreram entre 83 a 95, dentro do reinado de Domiciano. Isso deve significar, obviamente, que Apocalipse foi escrito depois da destruição de Jerusalém.

Veja todo o registro do historiador Vitorino que coloquei acima – aqui sem cortes –  com a menção de Domiciano:

“… João estava na ilha de Patmos, condenado ao trabalho das minas por César Domiciano… ele viu o Apocalipse, e quando envelheceu, ele pensou que ele deveria finalmente receber sua quitação pelo sofrimento. Domiciano foi morto e todas as decisões dele estavam descarregadas. João foi liberto das minas…”. [Vitorino, Comentário sobre o Apocalipse, XI].

Irineu, por exemplo, declara que “… o Apocalipse foi visto… em nossa própria geração, no final do reinado de Domiciano”. Irineu Contra as Heresias 5.30.3.

Irineu foi muito particular sobre sua datação do Apocalipse. Ele não só menciona o reinado de Domiciano, mas ele menciona que a visão de João ocorreu no final do reinado de Domiciano. Fica extremamente difícil duvidar de Irineu. Muito valioso lembrar também que Irineu viveu entre 120-202 AD. Isso não pode ser ignorado, pois nos esclarece que  Irineu nasceu  menos de 20 anos após a  morte de João. Eu disse 20 anos e não 200!

Além disso, Irineu  foi discipulado por Policarpo. Policarpo foi discípulo do apóstolo João, e bispo da Igreja de Esmirna na Ásia. Se Irineu registra que João foi exilado no governo de Domiciano, já é o suficiente. Sua fonte foi alguém que conheceu e conviveu com o escritor do Apocalipse.

Quero aqui finalizar com mais alguns registros dos Pais da Igreja sobre o exílio de João. São testemunhos que comprovam que o Apóstolo esteve em Patmos no governo do Imperador Domiciano, e não antes disso.

Sulpício Severo, registra: Então, depois de um intervalo, Domiciano, filho de Vespasiano, perseguiu os cristãos. Nesta data, ele baniu João Apóstolo e Evangelista para a ilha de Patmos” (História Sagrada, Livro II, Cap.31). 

Jerônimo: “João era um profeta. Ele viu o Apocalipse na ilha de Patmos, onde foi banido por Domiciano” (Trabalhos, vol. 6, p. 446).

“No décimo quarto ano depois de Nero, Domiciano, tendo levantado uma segunda perseguição, baniu João para a ilha de Patmos…  Mas Domiciano tendo sido condenado à morte e seus atos, por conta de sua excessiva crueldade, foram anulados pelo Senado, e João voltou a Éfeso” (Homens Ilustres, IX).

Tertuliano: “… Domiciano também, que possuía uma parcela da crueldade de Nero, tentou uma vez fazer a mesma coisa que este último fez… sequer se lembrou daqueles a quem ele tinha banido… Mas depois que Domiciano reinou 15 anos, e Nerva tinha sucedido ao império, o Senado romano, de acordo com os escritores que registram a história daqueles dias, votaram que os horrores de Domiciano deveriam ser cancelados, e que aqueles que tinham sido injustamente banidos devem retornar para suas casas e ter suas propriedades restauradas a eles. Foi nessa época que o apóstolo João retornou de seu exílio na ilha ao seu domicílio em Éfeso” (História Eclesiástica, Livro III, Cap.20).

A escola preterista, mesmo diante de provas irrefutáveis, nega o testemunho da história e sobrecarrega a Igreja de problemas desnecessários. Lamentavelmente, eles insistem em negar os registros, óbvios e claros, que não eram problemas antes do século 16. Ninguém antes de 1600 contestava o testemunho dos pais da Igreja; os protestos só tiveram início depois que o sistema Preterista foi inventado.

A Deus toda Glória

Fontes  Consultadas

SOUZA, Ken – The Disciples Were Probably Teenagers

BRADFORD, Mark – Temple Tax

KBONIKOWSKY – Jesus’ Disciples: A teenage posse?

BELKNAP, Bryan – Was Jesus a Youth Minister?

CARY, Frank and Otis – How Old Were Christ’s Disciples?