O Discípulo Amado não é João

Vivemos em tempos difíceis. Tempos em que a Tradição prevalece diante da Sã Doutrina. Tempos onde muitas inverdades foram transformadas em constituição. O resultado disso foi catastrófico para o entendimento das Escrituras que estão sendo  interpretadas segundo aquilo que  foi estabelecido pela visão dos profissionais da chamada teologia dominante. E aquele que se atrever a discodar da interpretação tradicional comete sacrilégio. De fato, qualquer um que apareça com um argumento divergente passa a ser visto como herege.

Se deixamos que fontes duvidosas sirvam como padrão pelo qual a verdade é julgada, então o que será da autoridade da Palavra de Deus? A nossa envelhecida Ortodoxia Cristã  provou que não vai abrir mão daquilo que já foi determinado como dogma. O que a massa teológica profissional anunciou se transformou em constituição; isso nos lembra o que fizeram os estudiosos da época de Jesus ao se citaram como a medida da verdade quando disseram sobre ele: “Algum dos governantes ou fariseus acreditou nele?” (João 7:48). Aqui eles estão apontando para fontes não bíblicas (as crenças dos líderes), em vez de citar as Escrituras para defender sua causa. E o mesmo acontece quando fontes não bíblicas são usadas para convencer as pessoas a aceitar a ideia de João como o discípulo amado.

O que ninguém jamais fez é citar um único versículo que realmente justifica o ensino de que aquele que “Jesus amou” foi João. De fato,  apesar de muitos professores fazerem referência ao quarto Evangelho como “testemunho ocular de João”, a Bíblia não apóia esta afirmação. E os que olharem mais de perto descobrirão que a ideia de que João escreveu o Evangelho que leva seu nome não se alinha com os fatos registrados nas Escrituras.  Essa questão, no final das contas, se resume à Bíblia versus tradição. Aqueles que ignoram o testemunho das Escrituras sobre esse assunto concedem a si mesmos licença artística para confiar em fontes não bíblicas sobre as Escrituras sempre que escolherem fazê-lo. 

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Este artigo  prova, além de qualquer dúvida, que o apóstolo João não era “o discípulo a quem Jesus amava”.  Vamos descobrir que a evidência bíblica apresentada neste caso é irrefutável.  Os fatos provarão que o apóstolo João e o autor sem nome do quarto Evangelho são duas pessoa distintas. E tenha em mente: não é minha intenção aqui mostrar quem é o discípulo amado, e apesar de citá-lo de forma indireta, o alvo do estudo é provar que ele não é João. Com relação a identidade desse discípulo será discutido em outro artigo. 

O discípulo amado pode ser encontrado nos seguintes textos: “Ora, achava-se reclinado sobre o peito de Jesus um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava” (João 13:23).

Estavam em pé, junto à cruz de Jesus, sua mãe, e a irmã de sua mãe, e Maria, mulher de Clôpas, e Maria Madalena. Ora, Jesus, vendo ali sua mãe, e ao lado dela o discípulo a quem ele amava, disse a sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho” (João 19:25-26).

No primeiro dia da semana Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu que a pedra fora removida do sepulcro. Correu, pois, e foi ter com Simão Pedro, e o outro discípulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes: Tiraram do sepulcro o Senhor, e não sabemos onde o puseram” (João 20:1-2).

Então aquele discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: é o Senhor. Quando, pois, Simão Pedro ouviu que era o Senhor, cingiu-se com a túnica, porque estava despido, e lançou-se ao mar; E Pedro, virando-se, viu que o seguia aquele discípulo a quem Jesus amava, o mesmo que na ceia se recostara sobre o peito de Jesus e perguntara: Senhor, quem é o que te trai? Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro” (João 21:7,20,24).

Vou acrescentar aqui a narrativa sobre o “outro discípulo” – aquele que seguiu Pedro até a casa do sumo sacerdote, que  é também conhecido desse sumo sacerdote. Porém, vou adicionar um  comentário bem oportuno. O texto diz: “Simão Pedro e outro discípulo estavam seguindo Jesus. Por ser conhecido do sumo sacerdote, este discípulo entrou com Jesus no pátio da casa do sumo sacerdote, mas Pedro teve que ficar esperando do lado de fora da porta. O outro discípulo, que era conhecido do sumo sacerdote, voltou, falou com a porteira encarregada da porta e fez Pedro entrar” (João 18:15,16).

O “outro discípulo” (allos mathétés) entrou no pátio do sumo sacerdote com Pedro durante a audiência preliminar de Jesus, um incidente exclusivo deste evangelho. Muitos consideram ser o mesmo citado  como discípulo amado em João 20:2 onde o termo grego usado é “allos mathétés” por três vezes: “… Pedro saiu com o outro discípulo, e foram ao sepulcro…  o outro discípulo correu mais apressadamente do que Pedro… entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro…” (João 20:3,4-8).

É o mesmo termo grego usado para os “outros [dois] discípulos” que aparecem ao lado dos filhos de Zebedeu no último capítulo do quarto Evangelho: “Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael, que era de Caná da Galiléia, os filhos de Zebedeu, e outros dois dos seus discípulos” [alloi mathētōn] (João 21:2).

Observe que esses dois discípulos ficam no anonimato e, mais do que isso, o texto faz distinção entre eles e os filhos de Zebedeu, João e Tiago. Se um desses dois é o discípulo amado, então temos aqui uma evidência irrefutável de que João não é esse discípulo. Além disso, também vai ficar provado que João não é o “outro discípulo” que acompanhou Pedro até a casa  do sumo sacerdote.

Um mistério inexplicável

Quem foi esse discípulo tão influente na igreja primitiva, sendo visto em vários lugares acompanhado de inúmeras pessoas, e apesar de circularem rumores de que ele nunca iria morrer,  não mencionou seu nome no Evangelho? Percebeu o enigma caro amigo leitor? Quem não conheceu o discípulo que todos diziam que não morreria? Parece que ele somente ficou no anonimato ao escrever o Evangelho. E note que este autor nunca identificou-se como João.  Em vez disso, ele usou o termo “o discípulo a quem Jesus amava” para se referir a si mesmo;  e seu uso desse termo curioso para encobrir sua identidade levanta muitas questões.

O quarto Evangelho apresenta o testemunho do autor, mas as Escrituras podem provar que esse autor não poderia ter sido João? Quem quer que fosse o discípulo amado, ele não era João – fontes não bíblicas são responsáveis por essa tradição errônea,  pois como você descobrirá, não há um único versículo que justificaria o ensino que transformou João no discípulo amado.

                                                                                   As Evidências

Os três primeiros evangelhos mencionam três eventos notáveis do ministério de Jesus: a  transfiguração (Mt 17: 1-9; Mc 9: 2-9;  Luc 9: 28-36), suas orações no Getsêmani (Mt 26: 36-46; Mc 14: 32-42; Luc 22: 39-46) e a cura da filha de Jairo (Mt 9: 18-26; Mc 5: 22-43; Luc 8: 41-56). Alguns discípulos estavam presentes nesses eventos, e o apóstolo João era um deles (Mt 17: 1 e 26:37; Mc 5:37; 9: 2 e 14:33, Luc 8:51 e 9:28).  Embora João fosse uma testemunha ocular de todos esses fatos tão importantes, não há menção de nenhum deles no evangelho que hoje leva seu nome. Estes certamente foram momentos extremamente profundos na vida de João,  porém, como poderíamos explicar sua omissão do quarto Evangelho, um livro que a tradição disse ter sido escrito por João?

Os  eventos observados acima são apenas a ponta do iceberg. E todo o evento em que João é referido pelo nome nos três primeiros evangelhos está ausente do quarto Evangelho – cada um deles!  Por exemplo, Jesus disse a João “não sabeis que tipo de espírito vós sois ”ao repreender João e seu irmão depois que eles procuraram “ordenar que  fogo descesse do céu ” (Luc  9:54-55).  João e Pedro foram enviados por Jesus para preparar a Páscoa (Luc 22: 8). Jesus respondeu “em particular” às perguntas de João, Pedro, Tiago e André no Monte das Oliveiras (Mc 13: 3).  João e seu irmão pediram a Jesus que os sentasse “um à sua direita e  outro na tua mão esquerda, na tua glória ”(Mc 10:35-41). Esses eventos não são encontrados no quarto Evangelho! A omissão de todos os “eventos que envolve João” suportam a ideia de que o Evangelho “de João” não é um testemunho ocular do próprio João. E se acreditarmos que João leu os Evangelhos de Marcos, Lucas e João primeiro e depois escreveu seu Evangelho, somos obrigados a acreditar também no maior absurdo de todos os tempos: “João omitiu cuidadosamente qualquer um dos eventos em que ele foi nomeado naqueles outros evangelhos!”

Sabemos muitas coisas sobre João: o nome dele; que ele e seu irmão eram parceiros de Pedro, e estavam lá quando Jesus curou a mãe da esposa de Pedro;  que João era um dos doze apóstolos escolhidos por Jesus;  que João e seu irmão pediram os assentos ao lado de Jesus, e que Jesus os apelidou de “Boanerges, que são os filhos do trovão” e que João foi quem disse a Jesus “nós vimos algumas pessoas expulsando demônios em teu nome;  e nós o proibimos”.

No entanto, nenhuma dessas informações podem ser vistas no Evangelho que a opinião popular diz ter sido escrito pelo apóstolo João. Encontramos  explicações para essas discrepâncias? Parece que não, pois João continua sendo o autor do quarto  Evangelho, o discípulo amado e guardião de Maria até o presente século. E além de tudo isso ainda temos um episódio que elimina de vez a tese sobre a presença de João ao pé da Cruz.

A Fuga do Gersêmani

Considere o comportamento de Pedro, João e Tiago: Quando Jesus foi ao Jardim do Getsêmani, ele pediu especificamente o apoio dos três. Mateus 26:37 diz que Jesus “levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se”.  Então, Jesus fez um pedido simples: “vigie” (Mt 26:38, Mc 14:14).

Infelizmente, João e os outros dois não conseguiram ficar acordados  enquanto Jesus estava em oração.  Quando Jesus voltou e os encontrou dormindo, ele deixou claro seu desânimo dizendo  a Pedro: “nem uma hora pudestes vigiar comigo?”  (Mt 26:40; Mc 14:37).  Jesus saiu para orar novamente, mas João e seus amigos o decepcionaram uma segunda vez.  Quando Jesus voltou  ele “outra vez os encontrou dormindo”(Mt  26:43; Mc 14: 40).  A última vez que Jesus foi orar, eles dormiram também (Mt 26:45; Mc.14: 41).  João agiu como seus companheiros apóstolos quando as coisas estavam ainda calmas.  Então, por que ele teria agido de forma diferente depois que o problema se agravou?

O julgamento e a crucificação de Jesus foram eventos muito traumáticos e, durante esse período, o resto dos apóstolos (excluindo Judas) não ficaram isentos de serem dominados pelo mesmo sentimento esmagador de medo que levou Pedro negar que ele conhecia Jesus (Mt 26: 69-74).

Mateus 26: 37-45 e Marcos 14: 33-41 nos dão uma noção de quanto Pedro, Tiago e João decepcionram Jesus no jardim do Getsêmani naquela noite.  Jesus sabia que Judas iria trai-lo, e que ele logo seria morto.  Mas os pedidos urgentes de Jesus foram incapazes de despertar Pedro, Tiago  e João para a ação.  Imediatamente após essa série de falhas dos três chamados apóstolos do “círculo interno”, uma multidão armada e hostil apareceu, tomou Jesus e o levou a julgamento.

Se João não conseguiu se manter ativo como Jesus havia pedido no Getsêmani, por que aceitar que ele mudou abruptamente e começou a agir ao contrário de seus companheiros apóstolos depois que Jesus foi preso?  Não há razão para acreditar que João agiu de maneira diferente da maneira como o resto dos apóstolos agiu naquela noite – eles fugiram, todos eles!

Jesus lhes disse numa ocasião: “Eis que chega a hora, e já se aproxima, em que vós sereis dispersos cada um para sua parte, e me deixareis só; mas não estou só, porque o Pai está comigo” (João 16:32). E, imediatamente antes de ser preso, ele confirma: “Então Jesus lhes disse: Todos vós esta noite vos escandalizareis de mim; pois está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão” (Mateus 26:31).

Se os Evangelhos dizem claramente que todos os discípulos fugiram na ocasião do aprisionamento de Jesus no Getsêmani – Observe que Jesus pede aos soldados: “se é a mim que vocês procuram, deixai ESTES IR“, como poderíamos localizar João posteriormente ao pé da Cruz diante de soldados romanos e furiosos judeus, um momento tão perigoso para eles? Na verdade, os discípulos ficaram escondidos até a ressurreição de Cristo, quanto este se manifestou ressuscitado para eles. Note que no pedido de Jesus ao soldados, “deixai estes ir“, podemos observar o significado de fugiram. Além disso, devemos observar também que em João 20:19  o verbo esclarece que eles estavam no local do esconderijo desde a fuga do Getemâni:  “Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, haviam se  ajuntado, chegou Jesus, e pôs-se no meio, e disse-lhes: Paz seja convosco“. 

Eles estavam ali trancafiados desde o primeiro momento da fuga. O sentido é claro. O texto fala do lugar “onde os discípulos HAVIAM se ajuntado“. O verbo “haver” está no pretérito imperfeito – fala de uma ação tomada num momento num passado recente e mantida até a presente narrativa.   Ademais, se as portas estavam cerradas quando Jesus se manifestou vivo  pela primeira vez, e continuavam cerradas uma semana depois quando ele lhes aparece pela segunda vez, obviamente João estava trancado com medo dos judeus desde que fugiu do Getsêmani. João não podia estar ao pé da cruz; aquele local estava infestado de judeus que blasfemavam de Jesus pedindo que ele descesse e salvasse a ele mesmo e a todos. Sem contar a hostilidade dos soldados romanos. 

 O “Discípulo Amado” acreditou primeiro

O discípulo amado corre ao sepulcro com Pedro; chegando lá, ao ver os panos que cobriam Jesus, “ele viu e creu” (João  20: 8). O ‘outro discípulo’ foi o primeiro nas Escrituras que creu na ressurreição de Jesus.

Se você ainda não sabe, vai notar que os versos anteriores mostram Maria Madalema indo ao sepulcro, mas vendo-o vazio saiu desesperada e foi avistar-se – primeiro – com Pedro e o discípulo amado. Note no relato que apenas Pedro e o discípulo amado saem do local em que estavam e correm ao túmulo. Veja João 1-10: “E no primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, sendo ainda escuro, e viu a pedra tirada do sepulcro. Correu, pois, e foi a Simão Pedro, e ao outro discípulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes: Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram.

Então Pedro saiu com o outro discípulo, e foram ao sepulcro. E os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais apressadamente do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. E, abaixando-se, viu no chão os lençóis; todavia não entrou. Chegou, pois, Simão Pedro, que o seguia, e entrou no sepulcro, e viu no chão os lençóis, e que o lenço, que tinha estado sobre a sua cabeça, não estava com os lençóis, mas enrolado num lugar à parte.

Então entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro, e viu, e creu. Porque ainda não sabiam a Escritura, que era necessário que ressuscitasse dentre os mortos. Tornaram, pois, os discípulos para casa” (João 20:1-10).

Além disso indicar que Pedro e o discípulo amado estavam na mesma casa, também indica que nenhum deles, incluindo Maria Madalena, viram Jesus ressuscitado até esse momento, pois o relato da aparição de Jesus para Maria tem início no verso onze. Porém, um deles creu, o discípulo amado.

O quarto Evangelho é o único livro que fala desse  discípulo, então esse é o único registro de sua reação naquela manhã. Independentemente disso, sabemos que “o outro discípulo ultrapassou Pedro e veio primeiro ao sepulcro” e que “ele viu e creu”. Esta é a primeira vez após a ressurreição que a Bíblia se refere a qualquer um que crê – esse discípulo acreditou antes do resto dos discípulos. Mais importante ainda, é que esse ponto prova que o “outro discípulo” não era um dos “doze apóstolos” por causa do tempo de sua crença. Ele ‘acreditou’ cedo na manhã da ressurreição, mas eles não creram até mais tarde naquele dia.  Esse ponto de contraste com os apóstolos pode ser visto em versículos como este: “Finalmente apareceu aos onze, estando eles assentados juntamente, e lançou-lhes em rosto a sua incredulidade e dureza de coração, por não haverem crido nos que o tinham visto já ressuscitado” (Marcos 16:14). Apesar de ouvir aqueles que viram Jesus ressuscitado, a “incredulidade” dos “onze” persistiu até tarde no dia da ressurreição. Eles nem podiam ser convencidos pelos dois que haviam sido ensinados por Jesus mais cedo naquele dia no caminho de Emaús (quando “explicava-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras” , Luc 24: 13-27) . Esses dois haviam contado essas coisas aos ‘onze’ e aos outros (Luc 24: 33-34), mas ainda assim parecia que  a ‘incredulidade’ agarrou nos apóstolos e continuou até que eles viram pessoalmente  Jesus ressuscitado. O Discipulo amado acreditou na manhã da ressurreição – isso entra em flagrante contraste com a ‘incredulidade’ dos ‘onze’ mais tarde no mesmo dia.

O Discípulo Amado escreveu o Livro

O escritor inspirado por Deus, autor do  quarto Evangelho, teve o cuidado de nunca se identificar pelo nome.  Por que ele não usou o seu nome?  Paulo foi nomeado repetidamente em seus livros, e (um) João deu seu nome cinco vezes no livro do Apocalipse. Em vez de simplesmente se identificar pelo nome, esse autor se escondeu em um véu de anonimato.  Visto que Deus não levou esse autor do Evangelho a se identificar como João, devemos ser rápidos em seguir aqueles que nos dizem que ele era o apóstolo João?  O boato não bíblico pode estar errado.  Então, por que não queremos ver se essa crença está alinhada com as Escrituras – especialmente considerando o fato de que o autor deste evangelho se esforçou muito para esconder sua identidade?

Não há dúvida de que a redação do Evangelho que leva o nome de João teve a participação do “discípulo a quem Jesus amava”. Veja o texto: “E Pedro, virando-se, viu que o seguia aquele discípulo a quem Jesus amava, o mesmo que na ceia se recostara sobre o peito de Jesus e perguntara: Senhor, quem é o que te trai? Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiroE ainda muitas outras coisas há que Jesus fez; as quais, se fossem escritas uma por uma, creio que nem ainda no mundo inteiro caberiam os livros que se escrevessem” (João 21:20,24-25).

Está explicito no verso anterior que o discípulo  testemunhou essas coisas – não apenas os fatos do capítulo 21, e as escreveu: “Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e as escreveu“. Ninguém diria isso no final do Livro para indicar ter escrito apenas ao último capítulo. E como prova de que a referência é ao Livro todo, ele conclui: “Jesus fez também muitas outras coisas. Se cada uma delas fosse escrita, penso que nem mesmo no mundo inteiro haveria espaço suficiente para os livros que seriam escritos” (João 21:25).

Muitos acreditam que o discípulo amado escreveu com a ajuda de outra pessoa sugerindo que estas linhas não foram escritas por ele: “sabemos que o seu testemunho [do discípulo amado?] é verdadeiro“. De qualquer forma isso não ajudaria em nada àqueles que defendem a autoria de João, pois o mesmo poderia ser usado com relação a ele e o desconhecido. E,  se esse desconhecido atesta o testemunho de outro, como muitos sugerem, nem mesmo assim esse outro poderia ser João. Oberve que  a frase “sabemos que o testemunho desse discípulo é verdadeiro” não pode ser revertida por “Eu sei que o testemunho de João é verdadeiro”, pois nos levaria a pensar que um apóstolo exigia o testemunho de pessoas anônimas para validar seu testemunho, o que é ilícito, estranho e desnecessário. E se essa primeira pessoa fosse João, atestando que o testemunho de quem escreveu o Livro é verdadeiro, então, obviamente quem escreveu o Livro não foi João. Além disso, devemos observar também  outra fala do discípulo amado em uma passagem no capítulo 19 do mesmo Evangelho, na cena da lança perfurando o lado de Jesus, quando sai sangue e água: “E é quem viu isso que dá testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro; e sabe que diz a verdade, para que também vós creiais” (João 19:35). Aqui ele fala na primeira pessoa garantindo que seu testemunho é legítimo. 

Observe novamente que a narrativa no inicio do capítulo faz distinção entre dois estranhos discípulos e os filhos de Zebedeu, João e Tiago: “Estavam juntos Simão Pedro, e Tomé, chamado Dídimo, e Natanael, que era de Caná da Galiléia, os filhos de Zebedeu, e outros dois dos seus discípulos” (João 21:2). Se um desses dois anônimos é o discípulo amado, então o assunto está  encerrado. E o curioso nesse fato é que João  é nomeado juntamente com seu irmão – são identificados como filhos de Zebedeu, e não como “o discípulo amado, e Tiago, filho de Zebedeu“. Ou seja, se João é citado no início do capítulo 21 indiretamente, porque não foi citado como discípulo amado e, porque aquele citado como discípulo amado no verso 26, não foi citado como  João?

O que tento mostrar pode ser visto na sequência da narrativa. Note que “o discípulo que testifica dessas coisas e as escreveu“, que  está no anonimato,  é o mesmo que alerta Pedro da presença do Senhor no local: “Então aquele discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: é o Senhor. Quando, pois, Simão Pedro ouviu que era o Senhor, cingiu-se com a túnica, porque estava despido, e lançou-se ao mar” (João 21:7). Ele é citado novamente como anônimo  seguindo Pedro e Jesus: “E Pedro, virando-se, viu que o seguia aquele discípulo a quem Jesus amava, o mesmo que na ceia se recostara sobre o peito de Jesus e perguntara: Senhor, quem é o que te trai? (João 21:20). 

Se ele é um dos dois que aparecem mencionados no início do capítulo separados de João, filho de Zebedeu, então João não pode ser o discípulo amado. Porém, se o discípulo amado não for um desses dois, eu posso sugerir que ele tenha chegado ao local com Jesus. Isso explicaria o aviso a Pedro enquanto ele estava no barco com os outros: “É o Senhor”. O  discípulo poderia ter gritado da margem  que aquele “estranho”  (para os discípulos) era Jesus por estar mais perto dele, o que explica porque os outros não o reconheceram – eles estavam distantes. Note em 21:6 que Jesus diz para eles  lançarem a rede do lado direito do barco. O texto mostra que a sugestão de Jesus acompanhou a ação dos discípulos, (“então eles lançaram”), o que significa que eles  estavam a uma certa distância da praia. Isso indica que Jesus chegou enquanto eles se preparavam para iniciar novamente a pesca. Jesus teria levantado a voz para que eles o ouvissem, o que também fez o discípulo amado com Pedro. Leia novamente de 4 a 11, principalmente no detalhe de Pedro pulando na água e nadando em direção a margem sendo acompanhado pelos outros “que vieram no barco” (v.8).

É improvável que o Discípulo Amado seja alguém mencionado pelo nome no Evangelho de João, e especialmente nesse último capítulo.  Sua identidade está sendo velada, não revelada com um nome.  Isso significa que podemos eliminar os mencionados em João 21: 1-2, bem como Filipe, André, Judas Iscariotes, o “outro” Judas, e o “outro” Simão e Mateus, que são os que faltam nessa lista.

Esse discípulo não é João, mas sabemos com certeza que ele é alguém da família de Jesus, pois o texto principal, no diálogo de Jesus com o discípulo amado na cena da cruz, acrescenta ao se referir a Maria, “Eis aí sua mãe” (João 19:26). Essa fala de Jesus  não indica ao discípulo amado que aquela é sua mãe, mas indica algo maior, algo que envolve a família, sua cultura e leis. Por esse motivo, o significado inserido nas  palavra de Jesus, “eis aí sua mãe“, não é óbvio; não  é uma ordem urgente dada de última hora, pois os judeus sabiam do compromisso com seus familiares. Assim, o que podemos perceber nas palavras de Jesus e na  atitude do discípulo amado é uma “troca de códigos” que confirma suas leis e costumes. Essa é uma possibilidade ignorada por muitos, e deveria ser aceita como verdade legítima quando observamos a resposta do discípulo – o original grego, diz: “… e  ele a recebeu para si“.  Esse passou a ser o compromisso desse discípulo judeu levando a mãe de Jesus, não só para sua própria casa, mas também ‘nas coisas pessoais’ (ta idia, em grego), o que é uma evidência de que isso foi feito entre pessoas do mesmo clã.

O Discípulo Amado tem agora a mãe de Jesus, Maria, sob seus cuidados; esse discípulo é oficialmente designado como  filho, o que significa que, além de ser filho mesmo, ele deve agora desempenhar a função de cuidador da casa. Assim, Jesus considerou não só as necessidades físicas de sua mãe, mas também suas necessidades espirituais quando a entregava  aos cuidados desse discípulo. Por isso que essa cena da cruz não deve ser tomada como um fato histórico apenas, mas reflete uma tradição de que a mãe de Jesus foi passada aos cuidados de alguém que tem que ser o filho encarregado da família. 

Considerando que Maria ainda é vista em Jerusalém quase dois meses após ser recebida na casa do discípulo amado, então só nos resta uma opção: o discípulo amado é um dos muitos irmãos de Jesus e tem residência em Jerusalém.  Note que ela está no cenáculo com eles, o mesmo onde celebraram a ceia (Compare Atos 1:13,14 com Lucas 22:11-12). 

Jesus não deu  Maria à Igreja, pois a mãe da Igreja é  evidente em outra parte do  Novo Testamento. Para Paulo, a  Jerusalém que é de cima é a nossa mãe (Gál 4:26). Ele mesmo se considera uma mãe para os crentes, ao invés de citar Maria (1 Tess 2: 7). Para Paulo, não é a mãe de Jesus que tem sido mãe para ele (Rom 16:13). Nem mesmo Maria é mãe das jovens cristãs – essa é Sara (1 Pd 3:6). Jesus não deu a sua mãe para ser a mãe de sua igreja em João 19: 26,27, pois o contexcto da Escritura não permite a criação de tal dogma. 

As mulheres, perto e longe da Cruz

“Perto da cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã dela, Maria, mulher de Cleofas, e Maria Madalena” (João 19:25).

A crucificação romana era cruel; na maioria das vezes eles obrigavam os  familiares mais próximos do executado assistirem todo espetáculo.  Isso explica  porque aquelas mulheres estavam ali  perto presenciando tão grande banho de sangue. Observe que o discípulo amado remove sua mãe imediatamente da cena: “a partir daquela hora  o discípulo a levou para sua casa” (Joao 19: 27b). A frase, “a partir daquela hora”, indica que houve uma mudança de local – eles partiram da área da cruz,  pois as mulheres são vistas de longe nos relatos paralelos (Mateus 27:55; Mc 15:40). 

Há um detalhe curioso e oportuno em todo história; Lucas, narrando o mesmo evento que apresenta as mulheres olhando de longe,  acrescenta que entre elas estão pessoas bem próximas a Jesus  também observando os últimos momentos: “Entretanto, todos os conhecidos de Jesus, e as mulheres que o haviam seguido desde a Galiléia, estavam de longe vendo estas coisas” (Lucas 23:49). O termo, “de longe”, parece indicar uma distância considerável se entrarmos dentro da história. Possivelmente estavam bem longe. E arrisco dizer que pode ser a casa do discípulo amado, localizada no sopé do Monte das Oliveiras, de frente para Jerusalém; desse local era possível ver todo o cenário da crucificação (Vou falar sobre isso no artigo intitulado “A Mulher de Cefas”).

Evidente que entre esses conhecidos de Jesus estavam seus irmãos, irmãs e parentes, pois o texto é muito claro ao dizer que daquele local  “TODOS os seus conhecidos olhavam de longe“. Isso também indica que muitos participaram da páscoa com Jesus, e não somente os doze. Basta observar que todas essas pessoas ainda permaneciam em Jerusalém mesmo depois da páscoa. E, para recepcionar todos o Senhor Jesus havia providenciado um local enorme: “E direis ao dono da casa: O Mestre manda perguntar-te: Onde está o aposento em que hei de comer a páscoa com os meus discípulos? Então ele vos mostrará um grande cenáculo mobiliado; aí fazei os preparativos” (Lucas 22:11-12). E é sobre essa ceia que vamos falar agora.

O Díscipulo Amado e a Última Ceia

Uma percepção errônea sobre a última Páscoa de Jesus tendeu a dar crédito à ideia de que João poderia ser o autor do quarto Evangelho. Isso decorre do fato de termos sido informados de que ‘o discípulo a quem Jesus amava’ foi aquele que ‘apoiou o peito no jantar e disse: “Senhor, quem é aquele que te trai?’ (João 21:20). Visto que as Escrituras dizem que Jesus “chegou com os doze” (Marcos 14:17) e “tomou lugar a mesa” com “os doze” (Mt 26:20 e Luc 22:14), muitos assumiram que o discípulo amado tinha ser um dos ‘doze’.

Para complicar, também existem muitas pinturas da Última Ceia que ajudam a instilar uma imagem em nossa mente de Jesus sentado à mesa com “os doze”, tendo uma ceia particular sem mais ninguém na sala. Essas interpretações artísticas e uma suposição errônea levaram muitas pessoas a aceitar uma conclusão defeituosa. E para desfazer esse quadro tradicional, bastaria dizer que “pondo-se a mesa com os doze” não deve significar que nessa mesa, localizada dentro de um grande cenáculo (Luc 22:12), havia lugar apenas preparado para os doze. Muitos outros ceiram ali e, com certeza, não tomaram a ceia em pé, mas tomaram lugar a mesa, que na verdade não era uma mesa ao nosso modelo atual, mas uma extensão grande onde se depositavam  os alimentos – todos os participantes se posicionavam no chão apoiando-se com um cotovelo seu próprio corpo e usando uma das mãos para se servirem. O texto está apenas dizendo que Jesus chegou “com os doze” e tomou lugar na mesa preparada para a grande ceia.

Note que a Bíblia nunca diz que ‘os doze’ foram os únicos presentes com Jesus naquele evento. Em nenhum lugar se diz que eles jantaram sozinhos, nem há nada que indique que os outros discípulos de Jesus foram mantidos afastados. Existe alguma razão para acreditar que Jesus e os ‘doze’ jantaram sozinhos na última Páscoa? Lembre-se de que é errado supor que alguém não esteja presente em um evento apenas porque uma passagem das Escrituras não o menciona. Um exemplo clássico é o de Pedro quando fugiu para o lado da casa do sumo sacerdote; é um  erro concluirmos  que Pedro estava sozinho naquela noite, simplesmente porque tínhamos lido um relato desse evento em Mateus, Marcos e  Lucas, onde o “outro discípulo não é mencionado. O “outro discípulo” é omitido nestes três  evangelhos – mesmo sendo ele quem colocou Pedro porta adentro.

Além disso, como você verá daqui a pouco,  Atos 1: 21-22 prova que “os doze” não foram os únicos com Jesus em todo o seu ministério. E existem outros exemplos. É necessário resistir a presumir demais ao querer construir uma discussão a partir do silêncio. Como os escritores do Evangelho sabiam especificar uma participação limitada, não devemos presumir que os mencionados são os únicos em um evento, a menos que a própria Bíblia especifique essa restrição.

As Escrituras não afirmam que “os doze” ficaram a sós com Jesus a noite inteira de sua última Páscoa. Existem várias coisas que provam isso. Primeiro, considere que Jesus e seus discípulos tratam sobre preparar a ceia na casa de outra pessoa naquela noite: “E, no primeiro dia da festa dos pães ázimos, chegaram os discípulos junto de Jesus, dizendo: Onde queres que façamos os preparativos para comeres a páscoa? E ele disse: Ide à cidade, a um certo homem, e dizei-lhe: O Mestre diz: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a páscoa com os meus discípulos” (Mt 26: 17-18). O que falta é justificativa para supor que os ocupantes daquela casa deviam desocupar o local. Jesus e seus discípulos eram hóspedes!

Outras passagens também indicam que Jesus e os ‘doze’ não estavam sozinhos naquela noite. Em Atos 1: 21-26, um substituto para Judas foi selecionado de um grupo que Pedro qualificou como “… homens que conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre nós, começando desde o batismo de João até ao dia em que de entre nós foi recebido em cima, um deles se faça conosco testemunha da sua ressurreição” (Atos 1: 21-22). Claramente, então, “os doze” não foram os únicos com Jesus durante seu ministério terrestre! Esse fato raramente é discutido, mas essas palavras revelam que, além dos “doze” apóstolos, outros discípulos também seguiram Jesus durante todo o seu ministério. Então, por que acreditamos que eles foram barrados na ceia, se foram bem-vindos antes e depois dela? Observe que Pedro diz  que esses discípulos “conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu dentre nós …  até ao dia em que de entre nós foi recebido em cima”. Ele está falando de forma explícita que muitos deles estiveram na ceia!

Além disso, ao identificar seu traidor, Jesus disse: “É um dos doze”  (Mc 14:20). Nos evangelhos, “os doze” são usados ​​apenas daqueles chamados “apóstolos” por Jesus (Luc 6:13). ‘Discípulos’ refere-se a qualquer um de seus seguidores, incluindo alguns ou todos os ‘doze’ (João 6:66; Luc 19:37). Por exemplo, após a ceia, vemos Jesus no Getsêmani com “seus discípulos” (João 18: 1). Isso incluía os apóstolos menos Judas, mas certamente também incluiria os apóstolos candidatos de Atos 1: 21-22 e outros. E isso é verdade, pois quando os dois discípulos do caminho de Emaús voltam a Jerusalém depois de ter estado com Jesus ressuscitado, eles encontram os “onze e os que estavam com eles” (Luc 24:33). De onde sairam esses outros que estavavam trancafiados com os Apóstolos? Evidente que fugiram do Gesemani com os doze – e todos haviam saído do local da ceia!

Note que, se ‘os doze’ eram os únicos com Jesus, então por que ele precisaria incluir a estipulação ‘é um dos doze’ quando viu todos entristecidos ao dizer que um ali iria traí-lo? Veja o texto: “Quando estavam comendo, reclinados à mesa, Jesus disse: “Digo-lhes que certamente um de vocês me trairá, alguém que está comendo comigo”. Eles ficaram tristes e, um por um, lhe disseram: “Com certeza não sou eu! Afirmou Jesus: É um dos Doze”. (Marcos 14:18-20).

 ‘Os doze’ é um termo limitante. Se ninguém mais estivesse lá, Jesus não teria dito: é um de vocês? Assim, quando Jesus disse que o traidor era “um dos doze” – não “um de vocês” – indica que “os doze” eram um subconjunto daqueles que estavam presentes. Aliás, quando Jesus passou a especificar que seu traidor seria “um dos doze ”, esse detalhe crucial foi sem dúvida uma notícia bem-vinda a todos, exceto “aos doze”.

Outra evidência podemos encontrar quando Jesus também disse, ‘com meus discípulos’, quando enviou uma mensagem sobre quem se juntaria a ele na páscoa (Mt 26:18; Mc 14:14; Luc 22:11). Ele não disse “os doze”. Veja as três passagens paralelas:

Mateus 26:18  “E ele disse: Ide à cidade, a um certo homem, e dizei-lhe: O Mestre diz: O meu tempo está próximo; em tua casa celebrarei a páscoa com os meus discípulos”.

Marcos 14:14  “E, onde quer que entrar, dizei ao senhor da casa: O Mestre diz: Onde está o aposento em que hei de comer a páscoa com os meus discípulos?”

Lucas 22:11  “E direis ao pai de família da casa: O Mestre te diz: Onde está o aposento em que hei de comer a páscoa com os meus discípulos?”

Em  nenhum versículo diz que ele excluiu os discípulos leais que Pedro menciona como aqueles que “nos acompanhavam o tempo todo em que o Senhor Jesus viveu entre nós” (Atos 1:21). Eles são chamados de discípulos a parte dos doze. Lucas 6:13 nos diz que Jesus “chamou-lhe seus discípulos: e dentre eles ele escolheu doze, a quem também chamou apóstolos”. Eles estavam na ceia com muitos outros conhecidos de Jesus. E, dentre todos estes, Tiago, irmão de Jesus, também se fazia presente na ceia. Jerônimo, citando uma passagem do Evangelho aos Hebreus, atesta; “O Evangelho, também chamado Evangelho segundo os hebreus, e que eu traduzi recentemente para o grego e o latim, e que também Orígenes costuma usar, depois do relato da ressurreição do Salvador, diz:

mas o Senhor, depois que ele entregou suas roupas mortuárias ao servo do sacerdote, apareceu a Tiago (pois Tiago jurara que não comeria pão a partir daquela hora em que bebeu o cálice do Senhor até que o visse ressuscitando dentre os que dormem ) e novamente, um pouco mais tarde, diz: ‘Traga uma mesa e pão’, disse o Senhor. E imediatamente trouxeram: Então Ele trouxe pão e abençoou e partiu e deu a Tiago, o Justo, e disse-lhe: ‘meu irmão come o teu pão, porque o filho do homem ressuscitou dentre os que dormem” (Ap. Jerome, de vir. III. 2)

O Outro Discípulo

Os outros três escritores do Evangelho nunca se referem ao “discípulo a quem Jesus amava” e ao “outro discípulo” (Mateus 26:58, Marcos 14:54 e Lucas 22: 54-55). Assim, enquanto eles mencionam João, “o discípulo a quem Jesus amava” e o “outro discípulo” estão ausentes em seus livros. Se ele era João, esse tratamento inconsistente apresenta um problema; obsereve que eles citam livremente João, exceto em todos os momentos em que o quarto Evangelho mencionava “o discípulo a quem Jesus amava” e o “outro discípulo”. Como eles poderiam saber quando deixá-lo de fora? Mesmo que eles tivessem uma cópia do Evangelho “de João” para saber quando se referia àquele discípulo sem nome, não faz sentido que o omitissem seletivamente se ele fosse João. No entanto, se eles sabiam que ele e João eram duas pessoas diferentes, esse tratamento diferente é compreensível.

É de opinião quase unânime que o “outro discípulo”, conhecido do sumo sacerdote,  que acompanhou Pedro quando este seguia Jesus depois de sua prisão, é  João. No entanto, como vai ser esclarecido, não se trata de João.  Veja o texto:

Simão Pedro e outro discípulo estavam seguindo Jesus. Por ser conhecido do sumo sacerdote, este discípulo entrou com Jesus no pátio da casa do sumo sacerdote, mas Pedro teve que ficar esperando do lado de fora da porta. O outro discípulo, que era conhecido do sumo sacerdote, voltou, falou com a porteira encarregada da porta e fez Pedro entrar” (João 18:15,16).

O escritor do Livro de Atos registrou fatos que podem nos ajudar a provar conclusivamente que o apóstolo João não era o “outro discípulo” sem nome. Atos 4: 1-23 narra o que aconteceu com Pedro e João após a cura de um homem aleijado. Pedro e João foram apreendidos e apresentados aos “governantes, anciãos e escribas, e “Anás, o sumo sacerdote, e Caifás…” (Atos 4: 5 e 6), para que pudessem ser questionados sobre esse milagre. Se você está se perguntando como isso ajuda a provar que o apóstolo João não era o ‘outro discípulo’, preste muita atenção à reação do sumo sacerdote e desses governantes apenas alguns versículos depois.

O sumo sacerdote, governantes, anciãos e escribas se reuniram e começaram o interrogatório de Pedro e João (Atos 4: 5-7). A resposta de Pedro à pergunta deles está registrada em Atos 4: 8-12. O versículo seguinte descreve a reação deles a Pedro e João. Atos 4:13, falando do sumo sacerdote e daqueles governantes, diz: “quando viram a ousadia de Pedro e João e perceberam que eram homens indoutos e ignorantes, ficaram maravilhados; E tomaram conhecimento deles, que estavam com Jesus ”. Por que o sumo sacerdote e o resto se maravilharam? Para começar, eles descobriram que Pedro e João “eram homens indoutos e ignorantes” (Atos 4:13). Esses dois pontos no grego são lidos, ‘sem letras’ e ‘sem instruções’. Juntamente com qualquer sotaque galileu que Pedro e João tenham, é possível que seu vocabulário, roupas e/ou maneirismos tenham contribuído para o ideia de que Pedro e João não tinham educação formal. Além disso, a Bíblia indica que os traços regionais poderiam ser facilmente discernidos pelas pessoas daqueles dias (Veja exemplos em  Mateus 26:73, Marcos 14:70 e Lucas 22:59).

Independentemente disso, Atos 4:13 revela que o que realmente chocou aqueles líderes foi ver que Pedro e João (a quem eles julgavam ser “indoutos e ignorantes”) exibiam tal “ousadia”. Em vez de se encolher diante dos homens instruídos que os julgariam, Pedro e João proclamaram a verdade e defenderam abertamente o nome de Jesus, acusando aqueles governantes de sua morte e afirmando que Deus o havia ressuscitado dentre os mortos, enquanto eles creditavam a Jesus o responsável pelo milagre de cura que ocorreu (Atos 4: 9-10). O que deve ser observado aqui é que esses líderes estavam aprendendo fatos óbvios e elementares sobre os dois homens que estavam diante deles, e Atos 4:13 continua dizendo que “eles ficaram admirados e reconheceram que eles [Pedro e João] haviam estado com Jesus”.  As descobertas reveladoras que estavam sendo feitas por esses líderes durante esse evento deixam perfeitamente claro que Pedro e João não eram reconhecidos nem familiarizados por esses líderes religiosos.

O que precisamos tirar dessa passagem é que foi nesse momento que o sumo sacerdote e os outros governantes se familiarizaram com Pedro e João pela primeira vez. Lembre-se de entre aqueles  aqueles que tiveram essa reação estão Anás, o sumo sacerdote, e Caifás (Atos 4: 5 e 6).

O contexto  anterior estabeleceu que a reação do sumo sacerdote e dos outros governantes era uma resposta a novas informações. Foi quando Atos 4 estava realmente acontecendo que o sumo sacerdote e os outros com ele aprenderam o que os levou a concluir que Pedro e João: (a) eram “homens indoutos e ignorantes” e (b) “estiveram com Jesus”. Vemos o sumo sacerdote aprendendo coisas naquele dia que ele já saberia se tivesse conhecido os homens que estavam diante dele. Portanto, os fatos da Bíblia podem provar que o sumo sacerdote não conhecia João (ou Pedro) antes desse encontro. Este é o ponto principal que afirma que o apóstolo João não pode ser o ‘outro discípulo’. Para demonstrar como isso é verdade, devemos comparar cuidadosamente Atos 4 com as informações que a Bíblia nos diz sobre a noite em que Jesus foi preso e levado para ser acusado falsamente.

Somos informados de que Jesus foi levado ‘a Anás primeiro’ (João 18:13). Depois, lemos sobre dois discípulos que seguiram a Jesus: “E Simão Pedro e outro discípulo seguiam Jesus” (João 18:15).  As palavras que se seguem, no entanto, acabam por esclarecer, pois nos dizem que “esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote”. Parece que Deus queria destacar esse ponto, pois seu autor inspirado optou por enfatizar esse fato repetindo-o. No versículo seguinte, lemos: “E Pedro estava da parte de fora, à porta. Saiu então o outro discípulo que era conhecido do sumo sacerdote, e falou à porteira, levando Pedro para dentro” (João 18:16). Portanto, não há dúvida de que o ‘outro discípulo’ era conhecido do sumo sacerdote. Esse ‘outro discípulo’ poderia entrar no palácio e, além disso, ele era responsável por fazer com que Pedro passasse pela porteira. Consequentemente, o apóstolo João não poderia ter sido o “outro discípulo” porque sabemos em Atos 4:13 que João não era conhecido do sumo sacerdote!

Antes de Atos 4:13, nada na Bíblia sugeria que os governantes judeus conhecessem João ou tivessem conhecimento de sua associação com Jesus. Em contraste com isso, o ‘outro discípulo’ era conhecido do sumo sacerdote, que, portanto, teria motivos para estar ciente de sua associação com Jesus antes da noite do julgamento deste. Além disso, algo foi dito naquela noite que nos indica que o “outro discípulo” estava publicamente associado a Jesus antes do início da noite. No entanto, isso não era verdade para Pedro, como revela a pergunta da porteira. Vimos que a mulher que mantinha a porta perguntou a Pedro: “Não és tu também dos discípulos deste homem?” (João 18:17). A palavra “também” é usada em referência ao “outro discípulo”, que acabara de falar com ela (João 18:16). Portanto, vemos que mesmo “a moça que mantinha a porta” sabia que o “outro discípulo” era um discípulo de Jesus. No entanto, como vimos, a associação de João com Jesus não era conhecida pelo sumo sacerdote até Atos 4:13, que diz: “Então eles, vendo a ousadia de Pedro e João, e informados de que eram homens sem letras e indoutos, maravilharam-se e reconheceram que eles haviam estado com Jesus”.

E a mais legitima evidência testemunhando que João não estava ao pé da cruz, também pode ser encontrada na atitude desses judeus aqui em Atos. Parece claro que esses homens veem João pela primeira vez, reconhecendo que ele havia andando com Jesus. Se o discípulo amado fosse João os líderes judeus o teriam reconhecido nesse momento, pois eles estavam no local da crucificação – todos eles (compare Mateus 27:41-43 com Atos 4:5-8,13).

Quando examinamos minuciosamente os textos das Escrituras e comparamos estes com os tantos dogmas que foram disseminados no seio da cristandade, unicamente por tradição, é que nos conscientizamos ainda mais sobre o que significa “sola scriptura”.  Porém, infelizmente, aqueles que aderem à ideia de João como o discípulo amado, apesar das evidências em contrário, certamente continuarão citando fontes não bíblicas como se isso justificasse a promoção da tradição de João. 

A Deus toda Glória

Fontes consultadas

Who Was the Beloved Disciple?” – Floyd V. Filson, Journal of Biblical Literature, Vol. 68.

The Beloved Disciple” – M. R. The Irish Monthly, Vol. 39, No. 452 .

The Testimony of the Beloved Disciple” – Richard Bauckham.

The Community of the Beloved Disciple” – Raymond Edward Brown – Paulist Press.

The Beloved Disciple: whose witness validates the Gospel of John?” –  James H. Charlesworth

Trinity Press International, 1995.


3 comentários sobre “O Discípulo Amado não é João

    1. Interessante. O tal “discípulo amado” seria um meio irmão de Cristo, ou, um primo?

      Na Bíblia, aparece algum termo específico para designar “primo”? Acho que não, parece que o termo irmãos ou irmãs incluem também os primos. E quem desses “parentes” era conhecido do sumo sacerdote?

      1. Abner, muito grato pela visita. Vou lhe dar uma resposta sobre os termos em grego usados para irmão e primo. Quanto a identidade do discípulo amado, vou deixar para lhe responder através de um artigo.

        O grego usado para traduzir a palavra primo é anepsios. A palavra para irmãos, em ‘irmãos de Jesus’, foi traduzida do grego adelphos.

        Veja esse artigo do Lucas Banzoli onde ele esclarece de forma excepcional e conclusiva o significado dos termos:

        http://heresiascatolicas.blogspot.com/2012/09/os-irmaos-de-jesus-eram-primos.html?m=1

        Os citados como irmãos de Jesus eram filhos de Maria com José. Note que Marcos conecta a mãe de Jesus aos seus irmãos. Veja em João 2:11,12 quando família é vista saindo de um casamento em Caná da Galiléia:

        “Assim deu Jesus início aos seus sinais em Caná da Galiléia, e manifestou a sua glória; e os seus discípulos creram nele. Depois disso desceu a Cafarnaum, ele, sua mãe, seus irmãos, e seus discípulos; e ficaram ali não muitos dias”.

        É “tua mãe e teus irmãos”, e não tua mãe e teus primos. Irmãos foi traduzido do grego adelphos e não de anepsios.

        Note que a mãe é mencionada tendo estreita relação com os irmãos de Jesus. Os detalhes importantes são: “Sua”, quando identifica a mãe, e “Seus”, quando identifica os irmãos. O Evangelista usou de uma ênfase sequêncial (‘sua’ e ‘seus’) para identificar a família toda.

        O mesmo exemplo podemos encontrar em Mateus 13:55: “Não é este o filho do carpinteiro? e não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão, e Judas? E não estão entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isto?”

        Não faz sentido Jesus aparecer conectado a ‘sua’ mãe e os dois conectados de forma tão intima aos ‘seus’ primos, filhos de uma outra família. Esse é o argumento mais ridículo que alguém pode conceber. Sem contar as irmãs, as quais, se são primas também, então são filhas de um outro casal. O catolicismo quer convencer o mundo inteiro que esses irmãos e irmãs de Jesus deixaram seus respectivos pais e foram morar com a Tia Maria. Nem um débil mental acredita num disparate desses.

        Outro detalhe estranho é ver entre os “primos” de Jesus o nome José, o segundo da lista. Era primo de que grau? A Dogmática Católica garante que eles são filhos de uma certa Maria, esposa de Cleofas. Por qual motivo Cleofas e sua esposa colocariam no filho o nome do pai de Jesus?

        Está errado! O grego “par autou”, traduzindo a palavra ‘seus’, em “seus irmãos”, significa ‘pertencentes a ele’, ou seja, são da mesma família. E para sanar a dúvida, basta ir até outra referência de Marcos onde ele registra que há incrédulos dentro da casa de Jesus.

        Veja o texto:

        “Então Jesus lhes dizia: Um profeta não fica sem honra senão na sua terra, entre os seus parentes, e na sua própria casa” (Marcos:6:4).

        Perceba que ele citou parentes antes de citar os da própria casa. Quem eram esses incrédulos? João 7:2-5 mostra que são seus (adelphos) irmãos e não seus (anepsios) primos.

        “Ora, estava próxima a festa dos judeus, a dos tabernáculos. Disseram-lhe, então, seus irmãos: Retira-te daqui e vai para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes. Porque ninguém faz coisa alguma em oculto, quando procura ser conhecido. Já que fazes estas coisas, manifesta-te ao mundo. Pois nem seus irmãos criam nele” (João:7:2-5).

        Nesse diálogo entre Jesus e seus irmãos em João 7:6,7 também descobrimos evidências para provar que nenhum deles esteve entre os doze:

        “Disse-lhes, pois, Jesus: Ainda não é chegado o meu tempo, mas o vosso tempo sempre está pronto. O mundo não vos pode odiar, mas ele me odeia a mim, porquanto dele testifico que as suas obras são más”.

        Jesus não dialogava com nenhum discípulo quando estava diante dos seus irmãos. Veja novamente o que Ele diz para eles: “… O mundo não vos pode odiar”. 

        Agora veja o que Jesus fala aos seus discípulos oito capítulos depois: “o mundo vos odeia” (João 15:19).

        E para aqueles que dizem que o Tiago e o Judas citados entre os doze eram os mesmos Tiago e Judas de Mateus 13:55, filhos de Maria de Cleofas, devo dizer que estão equivocados.

        Observe em outra referência como o Tiago e o Judas entre os doze aparecem separados dos irmãos de Jesus; está em Marcos capítulo 3:

        Jesus sobe a um monte e escolhe – entre outros – doze discípulos:

        “Depois subiu ao monte, e chamou a si os que ele mesmo queria; e vieram a ele. Então designou doze para que estivessem com ele, e os mandasse a pregar; Designou, pois, os doze, a saber: Simão, a quem pôs o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago, aos quais pôs o nome de Boanerges, que significa: Filhos do trovão; André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Judas Tadeu, Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, aquele que o traiu. Depois entrou numa casa. E afluiu outra vez a multidão, de tal modo que nem podiam comer” (Marcos:3:13-14,16-20).

        Veja quem chega logo em seguida – e ficam do lado de fora da casa (Eles vieram ao encontro de Jesus para prendê-lo)

        “Quando os seus ouviram isso, saíram para o prender; porque diziam: Ele está fora de si… Chegaram então sua mãe e seus irmãos e, ficando da parte de fora, mandaram chamá-lo. E a multidão estava sentada ao redor dele, e disseram-lhe: Eis que tua mãe e teus irmãos estão lá fora e te procuram” (Marcos:3:21,31-32).

        Claramente podemos ver os irmãos do Senhor chegando com a própria mãe e permanecendo fora da casa, enquanto lá dentro com Jesus estavam seus doze discípulos – entre eles se encontram Tiago, filho de Alfeu e Judas.

        Dê uma olhada também no artigo ‘O Terceiro Tiago’ aqui mesmo nesse site.

        Fica na paz

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