A Figura mais Importante

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Este artigo é uma reprodução do capítulo quatro do Livro “Cristianismo Pagão”, de Frank Viola. Se você é pastor e sofre de pressão alta, não leia!

                                         O PASTOR

Ele é a figura fundamental da fé protestante. Ele é o chefe da cozinha, o cozinheiro e o lavador de pratos do cristianismo de hoje. O pastor é tão predominante nas mentes da maioria dos cristãos que, na realidade, ele é mais bem conhecido, mais louvado, mais confiado do que o próprio Jesus Cristo! Remova o pastor e o moderno cristianismo entra em colapso. Remova o pastor e cada igreja protestante virtualmente entrará em pânico. Remova o pastor e o protestantismo como o conhecemos morre.

O pastor é o ponto focal dominante, a base e a peça central da moderna igreja. Ele incorpora o cristianismo protestante. Mas há aqui uma profunda ironia. Não há um só versículo em todo NT que apoie a existência do moderno pastor dos nossos dias! Ele simplesmente nunca existiu na igreja primitiva – Note que eu utilizo o termo “pastor” ao longo deste capítulo para descrever o moderno ofício e papel que ele desempenha. Eu não me refiro ao indivíduo específico que exerce este papel.

Aqueles que exercem o ofício de pastor são pessoas maravilhosas. Eles são honrados, decentes e muitas vezes cristãos dedicados que amam a Deus, zelosos em servir Seu povo. Mas é ao papel que eles estão cumprindo que a Bíblia e a história da igreja se opõem. Mostraremos isso neste capítulo.

O Pastor é Bíblico… Certo?

É a palavra “pastores” que aparece no Novo Testamento: “E ele deu alguns como Apóstolos, alguns como profetas, alguns como evangelistas e alguns como PASTORES e professores…” (Efésios 4:11). A palavra também é usada no plural, ou seja, “pastores” (Hb 13:7 e 17). Isto é significativo. Sejam lá quais forem estes “pastores”, eles são plurais na igreja, não singulares. Assim, pois, não há qualquer suporte bíblico para a prática do Sola Pastora (pastor único). A palavra grega traduzida por “pastores” é poimen que significa pastores. (“Pastor” é a palavra latina para aquele que pastoreia). Portanto, “Pastor” é uma metáfora que descreve uma função específica na igreja. Não é uma profissão nem um cargo. Um pastor do século I nada tem a ver com o sentido especializado e profissional que veio a ter na moderna cristandade. Assim, pois, Efésios 4:11 não se refere a um cargo pastoral, mas meramente a uma das muitas funções na igreja. Pastores são aqueles que naturalmente provê em nutrição e cuidado às ovelhas de Deus. Porém, é um profundo erro confundir pastores com um ofício ou título como comumente se concebe hoje. Mais ainda, este texto é oblíquo. Não oferece nenhuma definição ou descrição sobre quem são estes pastores. Eles são simplesmente mencionados. Lamentavelmente, nós definimos esta palavra com nosso próprio conceito ocidental sobre o que é um pastor. Nós compreendemos a ideia moderna de pastor moderno como apoiada pelo NT. Nem mesmo a imaginação de um homem alucinado conceberia o moderno ofício pastoral no cristianismo do século I! Os católicos cometeram o mesmo erro com a palavra “sacerdote”. Você encontra três vezes a palavra “sacerdote” sendo usada referindo-se a cristãos. Mesmo assim o sacerdote da igreja do século I está bem longe daquele homem que se veste de preto e usa colarinho invertido!

Richard Hanson esclarece este ponto quando diz, “Para nós as palavras bispo, presbítero, e diácono estão armazenadas com associações de quase dois mil anos. Para as pessoas que utilizaram estas palavras no princípio, as funções destas posições não poderiam significar mais do que inspetores, anciãos e ajudantes… Foi quando significações teológicas inadequadas começaram a ser associadas a elas que a distorção do conceito do ministério cristão começou”. Em meus livros Rethinking the Wineskin e Who is Your Covering? eu demonstro que os pastores do século I eram anciãos locais (presbíteros) e supervisores da congregação. E a função deles era completamente conflitante com o papel pastoral moderno.

De onde Vem o Pastor?

Se o pastor moderno esteve ausente da Igreja Primitiva, donde ele veio? Como surgiu uma posição tão proeminente na fé cristã? É uma saga dolorosa com raízes entrelaçadas e complexas. Essas raízes remontam à queda do homem. Com a queda do homem surgiu um desejo implícito na raça humana de ter um líder físico para levá-lo a Deus. Por esta razão, as sociedades humanas através da história criaram consistentemente uma casta espiritual e especial de ícones religiosos. O curandeiro, o feiticeiro, o rapsodista, o operador de milagres, o bruxo, o adivinhador, o homem sábio e o sacerdote, todos tem estado conosco desde a queda de Adão.

O homem caído sempre teve o desejo de construir uma casta sacerdotal especial qualificada para pedir favores exclusivos aos deuses. Este desejo está em nosso sangue. Vive na medula de nossos ossos. Na condição de criaturas caídas buscamos uma pessoa dotada de poderes espirituais especiais. Ela sempre é marcada por um treinamento especial, uma roupa especial, um vocabulário distinto e uma maneira de vida singular. Podemos ver este instinto mostrar sua horrenda face na história da antiga Israel. A primeira vez que isso aconteceu ocorreu durante o tempo de Moisés. Dois servos do Senhor, Eldad e Medad, receberam o Espírito de Deus e começaram a profetizar. Imediatamente um jovem fanático alertou Moisés para “contê-los”! Moisés reprovou o jovem repressor dizendo que todo o povo de Deus pode profetizar. Moisés colocou-se contra o espírito clerical que tentou controlar o povo de Deus. Nós o vemos novamente quando Moisés subiu ao Monte Horebe. O povo queria que Moisés fosse o mediador físico entre ele e Deus. Pois eles temiam uma relação pessoal com o Todo Poderoso. Este baixo instinto assumiu outra aparência durante o tempo de Samuel. Deus quis que seu povo vivesse sob sua proteção direta, mas Israel clamou por um rei humano. As sementes do pastor moderno podem ser detectadas até mesmo no tempo do NT. Diótrefes, que “amava ter a proeminência” na igreja (Terceira epístola de João, verso nove), tomou ilegitimamente o controle de seus assuntos. Além disso, alguns pesquisadores sugerem que a doutrina dos nicolaítas, que Jesus condena em Apocalipse 2:6, é uma referência ao desenvolvimento de um clero primitivo.

Paralelamente à busca do homem caído por um intermediário espiritual humano destaca-se sua obsessão pela forma hierárquica de liderança. Em maior ou menor grau todas as velhas culturas foram hierárquicas em suas estruturas sociais. Lamentavelmente, os cristãos pós-apostólicos adotaram e adaptaram estas estruturas em sua vida eclesiástica como veremos adiante.

A Origem do Bispo Soberano

Até o século II a igreja não teve nenhuma liderança oficial. Tais lideranças nas igrejas do século I eram certamente raras. Eram grupos religiosos sem sacerdote, templo ou sacrifício. Os próprios cristãos conduziram a igreja sob o comando direto de Jesus Cristo. Entre o rebanho estavam os anciões (pastores ou inspetores). Todos esses homens estavam em pé de igualdade. Não havia uma hierarquia entre eles. Também estavam presentes obreiros extras que plantavam igrejas. Estes eram chamados de “enviados” ou Apóstolos. Mas eles não fixavam residência nas igrejas que cuidavam. Tampouco as controlavam. O vocabulário sobre liderança no NT não permite nenhuma estrutura piramidal. É mais uma linguagem de relações horizontais que inclui a ação exemplar. As coisas funcionaram assim até Inácio de Antioquia (35-107 d.C.) entrar em cena. Inácio foi a primeira figura da história da igreja a dar o primeiro passo no escorregadio e decadente caminho da fixação de um líder único na congregação. Pode-se atribuir a ele a gênese do cargo de pastor e da hierarquia na igreja moderna. Inácio elevou um dos anciãos acima dos demais. O ancião promovido era agora chamado de “o Bispo”. Todas as responsabilidades que pertenceram ao colegiado de anciões eram exercidas pelo Bispo. Em 107 d.C., Inácio escreveu uma série de cartas enquanto seguia para Roma antes de ser martirizado. Seis de suas sete cartas tratavam do mesmo tema. Estavam carregadas de uma exaltação exagerada à autoridade e à importância da posição do Bispo. Segundo Inácio, o Bispo teria a última palavra e deveria ser prontamente obedecido. Considere os seguintes extratos de suas cartas: “Todos vocês sigam o Bispo como Jesus Cristo segue o Pai… Ninguém fará qualquer negócio da igreja sem o Bispo… Onde o Bispo estiver ali deve estar o povo… Vocês nunca devem atuar independentemente do Bispo e do clero. Olhem seu Bispo como um tipo de Pai… Tudo o que ele aprova, agrada a Deus…”. Para Inácio, o Bispo tomara o lugar de Deus enquanto que os presbíteros tomaram o lugar dos doze Apóstolos. Apenas o Bispo poderia celebrar a Santa Ceia do Senhor, dirigir os batismos, dar conselhos, disciplinar os membros da igreja, aprovar os matrimônios e pregar sermões. Os anciãos se sentavam ao lado do Bispo durante a Ceia do Senhor. Mas era o Bispo quem a ministrava. Ele se encarregou do culto público e do ministério. Somente em casos excepcionais poderia um “leigo” ministrar a Ceia do Senhor sem a presença do Bispo. O Bispo, dizia Inácio, necessita “presidir” sobre os elementos e distribuí-los.

Na mente de Inácio, o Bispo era o remédio que curava a falsa doutrina e estabelecia a unidade na igreja. Inácio acreditava que a sobrevivência da igreja ao assalto da heresia dependia do desenvolvimento de uma estrutura poderosa e rígida como a estrutura política centralizada em Roma. A regra do governo por um Bispo único resgataria a igreja da heresia e da divisão interna. Historicamente, isso é conhecido como o “mono-episcopado” ou “episcopado monárquico”. É o tipo de organização onde o Bispo é distinto dos anciãos (o presbítero) e é superior a eles. Durante o tempo de Inácio, a regra do Bispo único não havia chegado a outras regiões. Mas, pela metade do século II, este modelo chegou a ser firmemente estabelecido na maioria das igrejas. Pelo final do século III este prevaleceu por toda parte.

O Bispo, eventualmente, chegou a ser o principal administrador e distribuidor das riquezas da igreja. Ele era o homem responsável quanto ao ensino da fé e aos assuntos do cristianismo. A congregação outrora ativa agora foi tornada surda e muda. Os santos meramente assistiam a performance do Bispo. Com efeito, o Bispo tornou-se o único pastor da igreja — o profissional do culto comum. Ele era visto como o porta-voz e a cabeça da congregação. Ele era a forte mão que mantinha todos sob controle. Todos estes papéis fizeram do Bispo o precursor do pastor moderno.

De Presbítero a Sacerdote

Já pela metade do século III a autoridade do Bispo se calcificou em um ofício fixo. Então apareceu Cipriano de Cartago (200-258 d.C.) aumentando o dano. Cipriano era um ex-orador pagão e mestre de retórica. Quando ele se fez cristão, tornou-se também um prolífico escritor. Contudo, ele nunca abandonou algumas de suas ideias pagãs. Com sua influência Cipriano abriu a porta para ressuscitar as práticas do Velho Testamento, dos sacerdotes, templos, altares e sacrifícios. Os Bispos começaram a ser chamados “sacerdotes”, um costume que chegou a ser comum no século III. Ocasionalmente eles também eram chamados de “pastores”. No século III cada igreja tinha seu próprio Bispo. Prontamente o conjunto de Bispos e presbíteros foi chamado de “clero”.

A origem da doutrina não bíblica do “protetorado” também pode ser atribuída a Cipriano. Cipriano ensinava que o Bispo tem apenas um superior, Deus. Ele deveria prestar contas apenas a Deus. Qualquer um que se separasse do Bispo se separaria de Deus. Cipriano também ensinou que uma porção do rebanho do Senhor seria entregue a um pastor individualmente (o Bispo). Depois do Concílio de Nicéia (Horebe) (325 d.C.), os Bispos passaram a delegar a responsabilidade da Ceia do Senhor aos presbíteros. Os presbíteros não eram mais que representantes do Bispo, exercendo a autoridade deles em suas igrejas. Pelo fato dos presbíteros ministrarem a Ceia do Senhor, eles passaram a ser chamados de “sacerdotes”. Ainda mais surpreendente, o Bispo chegou a ser considerado como “sumo sacerdote” que pode perdoar pecados. Todas estas tendências ocultaram a realidade do NT de que todos os crentes são sacerdotes diante de Deus. Já pelo século IV, esta hierarquia imposta dominava a fé cristã. A casta do clero já estava bem cimentada. O Bispo encabeçava a igreja. Abaixo dele havia um colegiado de presbíteros. Subordinados aos presbíteros estavam os diáconos. E na base de toda essa hierarquia se arrastava o pobre e miserável “leigo”. A regra do Bispo único passou a ser a forma de governo aceita na igreja ao longo do Império Romano. (Durante este tempo, certas igrejas começaram a exercer autoridade sobre outras igrejas, expandindo a estrutura hierárquica). Pelo final do século IV, os Bispos se misturaram aos poderosos. Passaram a receber tremendos privilégios. Meteram-se na política, o que os separou ainda mais dos presbíteros. Em sua tentativa de fortalecer a posição do Bispo, Cipriano defendeu uma linha contínua de sucessores dos Bispos remontando a Pedro. Isso é conhecido como “sucessão Apostólica”.

Em seus escritos Cipriano empregava a linguagem oficial do sacerdócio do Antigo Testamento para justificar esta prática. Da mesma forma que Tertuliano (160-225) e Hipólito (170-236) antes dele, Cipriano utilizava o termo sacerdote para descrever os presbíteros e Bispos. Mas ele foi além disso. Pode-se atribuir a Cipriano o conceito antibíblico de sacerdócio — a crença de que existe uma pessoa divinamente nomeada para mediar entre Deus e o povo. Cipriano sustentou que o fato dos clérigos cristãos serem sacerdotes que oferecem o sacrifício santo (a Eucaristia) torna-os sacrossantos (santos)! Pode-se também creditar a Cipriano a noção de que quando o sacerdote oferece a Eucaristia, ele está realmente oferecendo a morte de Cristo à congregação. Cipriano pensava que o corpo e o sangue de Cristo são novamente sacrificados através da Eucaristia. Por conseguinte, foi das ideias de Cipriano que surgiram as sementes da missa Medieval católica. Esta ideia alargou o abismo entre clero e leigo. Também criou uma dependência insalubre do leigo ao clero.

O Papel do Sacerdote

Até o início da Idade Média, os presbíteros (agora comumente chamados de “sacerdotes”) tocaram segundo o violino do Bispo. Mas durante a Idade Média houve uma mudança. Os presbíteros começaram a representar o sacerdócio enquanto os Bispos dedicavam seu tempo com ofícios políticos. Os sacerdotes locais da paróquia chegaram a ser mais importantes para a vida da igreja que o Bispo. Agora era o sacerdote que se colocava no lugar de Deus e que controlava os sacramentos. Quando o Latim chegou a ser a linguagem popular em meio ao século IV, o sacerdote invocava a frase hoc est corpus meum. Que significa “Este é meu corpo”. Com estas palavras o sacerdote chegou a ser o supervisor do soberbo jogo que começou a caracterizar a missa católica. Pode-se creditar a Ambrósio de Milão (339-397 d.C.) a ideia de que a simples pronúncia das palavras hoc est corpus meum convertia magicamente o pão e o vinho no corpo e no sangue físico do Senhor. (A frase mágica “hocus pocus” vem de hoc est corpus meum). Segundo Ambrósio, o sacerdote era dotado de poderes especiais para pedir a Deus que descesse do céu e que entrasse no pão! Por sua função sacerdotal, a palavra presbítero chegou a significar sacerdos (sacerdote). Por conseguinte, quando a palavra latina presbítero foi adotada pelo português, esta significava “sacerdote” em vez de “ancião”. Assim, pois, na igreja católica romana, o termo “sacerdote” referia-se comumente a presbítero local. A Influência da Cultura greco-romana.

A cultura greco-romana que rodeou os primeiros cristãos reforçou a gradação hierárquica que lentamente infiltrou na igreja. A cultura greco-romana era hierárquica por natureza. Esta influência surgiu na igreja quando os novos convertidos trouxeram sua bagagem cultural à comunidade crente. A hierarquia humana e o ministério “oficial” institucionalizaram a Igreja de Jesus Cristo. Pelo século IV, estes elementos endureceram as artérias do que uma vez foi a ekklesia viva e respiradouro de Deus — dentro da qual o ministério era funcional, dirigido pelo Espírito, orgânico e compartilhado por todos os crentes. Mas como e por que isto aconteceu? Estas coisas remontam desde a morte dos obreiros apostólicos itinerantes (plantadores de igrejas). Ao final do século I e ao princípio do II, os presbíteros locais começaram a surgir como os “sucessores” candidatos ao papel de liderança exercido pelos obreiros apostólicos. Isso deu origem a um líder individual em cada congregação.

Sem a influência dos obreiros locais extras que foram treinados pelos Apóstolos no NT, a Igreja começou a deixar-se levar pela corrente de um modelo organizacional oriundo de seu âmbito cultural. Mestres proeminentes na igreja que tinham adotado pensamento pagão também exerceram uma grande influência. Seguindo as pegadas de Inácio da Antioquia, Cipriano insistiu que a organização da igreja seguisse o modelo do Império Romano. Como resultado, o imperialismo e uma hierarquia inexpugnável se tornaram irreversíveis à fé Cristã.

Como já vimos, o papel do Bispo começou a mudar. De cabeça de uma igreja local tornou-se o representante de todos em uma determinada área. Os Bispos governavam nas igrejas da mesma forma como os governadores romanos administravam suas províncias. Eventualmente, o Bispo de Roma recebeu a máxima autoridade e finalmente evoluiu ao “Papa”. Assim, pois, entre os anos 100 e 300 d.C., a liderança da Igreja adotou o governo romano como modelo. A hierarquia do Velho Testamento foi usada para justificar isso. A regra do Bispo único tragara o sacerdócio de todos os crentes. Na realidade, Inácio fez do Bispo a autoridade local. Cipriano fez do Bispo o representante de todas as congregações por sua doutrina da sucessão Apostólica.

Constantino e a Hierarquia Romana

É importante lembrar que o mundo social em que o cristianismo se espalhou era governado por um único mandatário – o Imperador. Pouco depois de Constantino subir ao trono no princípio do século IV, a Igreja desenvolveu toda sua plumagem de vaidade, típica de uma sociedade hierarquicamente organizada. Edwin Hatch escreveu, “a maior parte das igrejas cristãs se associaram adotando o estilo do Império Romano como modelo… O desenvolvimento da organização das igrejas cristãs foi gradual e os elementos que compuseram aquela organização já fazia parte da sociedade humana”. Podemos ver traços da estrutura de liderança hierárquica em eras remotas como do antigo Egito, Babilônia e Pérsia. Mais adiante esta foi levada às culturas grega e romana onde se aperfeiçoou. O historiador, D. C. Trueman escreve, “os persas deram duas contribuições importantes ao mundo antigo: A organização de seu Império e de sua religião. Ambas as contribuições tiveram uma notável influência no nosso mundo ocidental. O sistema de administração imperial foi herdado por Alexandre Magno, adotado pelo Império Romano, e eventualmente passado à moderna Europa”. Will Durant levanta um ponto similar, quando afirma que o cristianismo “cresceu pela absorção da fé e do rito pagão; tornando-se uma igreja triunfante ao herdar os modelos da organização e o gênio de Roma… Os judeus lhe deram a ética cristã, os gregos lhe deram a teologia, Roma lhe deu a organização; tudo isso, misturado com uma dezena de crenças absorvidas de rivais, originou a síntese cristã”.

Pelo século IV, a Igreja seguiu os mesmos passos do Império Romano. O imperador organizou a igreja em dioceses segundo o modelo dos distritos regionais romanos. (A palavra “diocese” era um termo secular que se referia às maiores unidades administrativo do Império Romano). Mais adiante, o Papa Gregório desenhou o ministério de toda igreja segundo a lei romana. Outra vez Durant lamenta, “Quando o cristianismo conquistou Roma, a estrutura eclesiástica da igreja pagã, o título, as vestes do Pontifex Máximus… e o esplendor da cerimônia imemorial, passou como sangue materno para a nova religião. A Roma cativa capturou seu conquistador”. Todo isto pelejou grandemente contra a maneira de Deus com respeito à sua Igreja. Quando Jesus entrou no drama da história humana, Ele eliminou o ícone religioso profissional tanto quanto a forma hierárquica de liderança. Como uma extensão da natureza e da missão de Cristo, a Igreja Primitiva foi o primeiro movimento na história dirigido por “leigos”. Mas, com a morte dos Apóstolos e dos homens treinados por eles, as coisas começaram a mudar. Desde então a Igreja de Jesus Cristo tem buscado seu modelo de organização eclesiástica das sociedades em que foi colocada. Isto sucedeu apesar da advertência de nosso Senhor de que Ele iniciaria uma nova sociedade de caráter único. Contrastando surpreendentemente com as providências do Velho Testamento feitas no Monte Sinai, nem Jesus, nem Paulo impuseram um modelo organizacional fixo para a nova Israel.

Constantino e a Glorificação do Clero

Entre 313 e 325 d.C. o cristianismo deixou de ser uma religião arredia lutando para sobreviver ao governo romano. Agora tomava o sol do imperialismo, com grande quantidade de dinheiro, posição e estima. Ser cristão sob o reino de Constantino já não era mais uma desvantagem. Pertencer à mesma religião do imperador era moda. E fazer parte do clero era receber a maior das recompensas. Constantino exaltava o clero. No ano 313 d.C., ele deu ao clero cristão a isenção de impostos — algo que os sacerdotes pagãos tradicionalmente desfrutavam. O clero também se viu isento de serviços públicos obrigatórios e outros deveres cívicos. O clero estava livre de ser julgado pela corte secular e de servir ao exército. (Os Bispos eram julgados somente em uma corte especial de Bispos, não pelas cortes comuns do Estado). Em todas estas coisas o clero recebeu uma posição social especial. Constantino foi o primeiro a usar as palavras “clérigo” e “clero” para destacar uma classe social mais elevada. Também sentiu que o clero cristão merecia o mesmo privilégio dos oficiais governamentais. Portanto, os Bispos podiam servir na magistratura da mesma forma que os juízes seculares. Os clérigos receberam as mesmas honras que os mais altos oficiais do Império Romano recebiam, e das mãos do próprio Imperador. A verdade bruta é que Constantino deu aos Bispos de Roma mais poder que os governadores romanos! Ele também ordenou que o clero recebesse uma paga anual fixa; uma paga pelo ministério! O resultado líquido disto foi alarmante: O clero teve o prestígio de profissionais da igreja, o privilégio de uma classe favorecida e o poder de uma elite rica. Eles tinham se tornado uma classe isolada com uma condição civil e um modo de vida separado. (Isto incluiu o celibato clerical). Além disso, eles se vestiam e se acomodavam de uma maneira distinta das pessoas comuns. Os Bispos e sacerdotes rasparam suas cabeças. Esta prática, conhecida como tonsure, foi herdada da velha cerimônia de iniciação romana. Todos aqueles que tinham suas cabeças raspadas eram conhecidos como “clérigos” ou “membros do clero”. Eles também começaram a vestir-se com a roupa dos mandatários romanos. Não é de surpreender que tanta gente nos dias de Constantino experimentasse um repentino “chamado ao ministério”. Para eles, ser um mandatário da igreja agora era mais uma carreira que um chamado.

Uma Falsa Dicotomia

Sob Constantino, o cristianismo foi reconhecido e honrado pelo Estado. Isto apagou a linha entre a igreja e o mundo. A fé cristã já não era uma religião de minoria. Melhor dizendo, era protegida pelo Imperador. Como consequência, a quantidade de membros aumentou rapidamente. Formaram-se levas de novos convertidos. Por serem mal convertidos trouxeram consigo uma grande quantidade de ideias pagãs para dentro da igreja. Nas palavras de Will Durant, “enquanto o cristianismo convertia o mundo, o mundo convertia o cristianismo, tornando o paganismo algo natural para a humanidade”. Como vimos anteriormente, as práticas das religiões místicas começaram a ser utilizadas na adoração da igreja. E a noção pagã da dicotomia entre o sagrado e o profano encontrou caminho fértil na mentalidade cristã. Pode-se dizer corretamente que a distinção de classe entre o clero e o leigo resultou diretamente dessa dicotomia. A vida cristã agora se dividia em duas partes: O secular e o espiritual – o sagrado e o profano.

Mas pelo século IV esta falsa ideia foi adotada universalmente pelos cristãos. Isto produziu a ideia profundamente errônea de que há profissões sagradas (um chamado ao “ministério”) e profissões ordinárias, “um chamado vocacional mundano”. O historiador Philip Shaff descreve corretamente estes fatores quando menciona que a “secularização da igreja” foi o fator que contaminou a “corrente pura do cristianismo”. Note que esta dicotomia errônea vive na mente da maioria dos crentes hoje. Todavia tal conceito é pagão, não cristão. Ele rompe a realidade neotestamentária que diz que a vida diária é santificada por Deus. Clemente de Roma (morreu em 100 d.C.) foi o primeiro escritor cristão a fazer uma distinção na condição [status quo] de líderes cristãos e não líderes. Ele foi o primeiro a usar a palavra “leigo” contrastando com ministros. Clemente sustentava que a ordem do Velho Testamento com respeito aos sacerdotes deveria ser cumprida na igreja cristã.

Tertuliano foi o primeiro escritor a utilizar a palavra “clero” referindo-se a uma classe de cristãos separados. Ambos, Tertuliano e Clemente de Alexandria (150-215) popularizaram a palavra “clero” em suas obras. Pelo século III a brecha entre clero e leigo se estendeu ainda mais e chegou a um ponto irremediável. Os clérigos eram líderes treinados da igreja — os guardiões da ortodoxia — os governadores e mestres do povo. Eles possuíam dons e graças que não estavam disponíveis aos simples mortais. O laicato era um extrato social de segunda classe, de cristãos ignorantes. O grande teólogo Karl Barth disse corretamente, “o termo ‘leigo’ é um dos piores do vocabulário religioso e deve ser eliminado da conversação cristã”. Os termos “clero” e “leigo” não aparecem no NT. Tampouco contém o conceito de que há os que fazem o ministério (clero) e os que são objeto do ministério (leigos). Então, o que temos em Tertuliano e Clemente é uma plena digressão da postura dos primeiros cristãos onde todos os crentes partilhavam do mesmo status. A distinção entre clero e leigo – entre o que ocupava o púlpito e o que se sentava no banco – pertence ao outro lado da cruz. Com o novo pacto em Cristo, o clero e o leigo são eliminados. Há somente o povo de Deus. Junto com estas mudanças de postura chegou um novo vocabulário. Os cristãos começaram a adotar o vocabulário das seitas pagãs. O título pontifex (pontífice, um título pagão) Assim sucedeu também com os termos “Mestre de Cerimônia” e “Gran Maestro de Loja”. Tudo isso reforçou o misticismo do clero enquanto guardiões dos mistérios de Deus.

Pelo século V, a ideia do sacerdócio de cada crente havia desaparecido completamente do horizonte cristão. O acesso a Deus agora era controlado pela casta clerical. Foi exigido o cumprimento do celibato clerical. As pessoas comuns participavam com pouca frequência da comunhão. O edifício agora estava velado de incenso e fumaça. As orações clericais eram feitas secretamente. E a pequena porem profundamente significante cortina de seda que separava o clero do leigo foi estabelecida. Em suma, pelo fim do século IV e entrando no V, o clero chegou a ser uma casta sacerdotal — um grupo espiritual da elite dos “homens santos”. Isto nos conduz ao tema espinhoso da ordenação.

A Falácia da Ordenação

No século IV, a teologia e o ministério eram âmbito dos sacerdotes. O trabalho e a guerra eram âmbito do leigo. Qual era o rito de passagem para o âmbito sagrado do sacerdote? A Ordenação. Antes de examinar as raízes históricas da ordenação, vejamos como se reconhecia a liderança na Igreja Primitiva. Os obreiros apostólicos (plantadores de igrejas) do século I voltavam a visitar uma igreja depois de um período de tempo. Em algumas congregações os trabalhadores reconheciam publicamente os anciãos. Em todos os casos os anciãos já tinham estado naquele lugar antes de serem reconhecidos publicamente. Os anciãos surgiam naturalmente em uma congregação com o passar do tempo. Eles não eram nomeados por uma autoridade externa. Ou seja, cada um deles era reconhecido devido a sua antiguidade e contribuição com a igreja.

Segundo o NT, o reconhecimento de certos dons dos membros é algo instintivo e orgânico. Há um princípio interno dentro de cada crente que reconhece os vários ministérios na congregação. Surpreendentemente, há apenas três passagens no NT que nos dizem que os anciãos eram reconhecidos publicamente. Anciãos foram reconhecidos nas congregações da Galácia. Paulo disse a Timóteo que conhecera anciãos em Éfeso. Disse o mesmo a Tito com relação às igrejas de Creta. A palavra “ordenar” (KJV) destas passagens não significa ocupar um cargo. Ou melhor, ela traz a ideia de afirmar, reconhecer e apoiar um desdobramento de algo que já está acontecendo. Ela também traz a ideia de bênção. O reconhecimento público dos anciãos e de outros ministérios geralmente era acompanhado pela imposição de mãos pelos obreiros apostólicos. (No caso dos obreiros enviados a outros lugares isto era feito pela congregação aos anciãos). No século I, a imposição de mãos meramente significava apoiar ou reafirmar uma função, não indicava uma nomeação a uma posição ou a elevação a uma categoria especial. Lamentavelmente mais adiante, no final do século II e no princípio do III, isso chegou a significar uma posição especial.

Durante o século III a “ordenação” assumiu um significado completamente diferente. Era um rito cristão formalizado. Pelo século IV, a cerimônia da ordenação foi ornada por vestimentas simbólicas e por um rito solene. A ordenação produziu uma casta eclesiástica que usurpou o sacerdócio dos crentes. Donde você supõe que os cristãos adquiriram seu padrão de ordenação? Eles copiaram sua cerimônia de ordenação do costume romano de designar homens ao serviço civil. Todo o processo, cada palavra, saiu diretamente do mundo cívico romano. Antes do século IV os termos utilizados para a nomeação de cargos governamentais romanos e a ordenação cristã eram sinônimos. Quando Constantino fez do cristianismo sua religião preferida, as estruturas de liderança da igreja passaram a ser sustentadas através da sanção política. Formas de sacerdócio do Velho Testamento foram combinadas com a hierarquia grega. Tristemente, a igreja estava segura nesta nova fórmula — exatamente como está hoje. Agostinho (293-373) foi ainda mais longe ensinando que a ordenação confere ao ordenado “um caráter definitivo e irremovível” que o capacita no cumprimento de suas funções sacerdotais!

Para Agostinho, a ordenação era uma posição permanente que não poderia ser revogada. A ordenação cristã, então, chegou a ser compreendida como aquilo que constitui a diferença essencial entre clero e leigo. Por ela o clero era autorizado a ministrar os sacramentos. Acreditava-se que o sacerdote, que faria o serviço divino, deveria ser o cristão mais perfeito e santo de todos. Gregório de Nacianceno (329-389) e Crisóstomo (347-407) elevaram a norma padrão tão alto no que diz respeito aos sacerdotes que falhar em cumprir a santidade de seu serviço prejudicaria sua posição ou o levaria a um estado crítico. Segundo Crisóstomo o sacerdote é como um anjo. Ele não possui a mesma fraqueza do resto dos homens. Como poderia o sacerdote viver em tal estado de pura santidade? Como poderia ele ser digno de servir no “coro dos anjos”? A resposta era a ordenação. Pela ordenação, a corrente das graças divinas fluía ao sacerdote, equipando-o para ser um instrumento digno nas mãos de Deus. Esta ideia, também conhecida como “dom sacerdotal”, apareceu primeiramente com Gregório de Nisa (330-395). Gregório sustentava que a ordenação configura o sacerdote de uma forma “invisível” como “um homem diferente e melhor”, elevando-o acima do leigo. “O próprio poder da Palavra”, disse Gregório, “faz com que o sacerdote seja venerável, honorável, separado… Embora no dia anterior ele fosse apenas uma pessoa no meio das massas, alguém do povo, ele é repentinamente convertido em guia, presidente, mestre de justiça, instrutor de mistérios ocultos…”. Atente para estas palavras de um documento do século IV: “O Bispo, eis o ministro da Palavra, o guardião do conhecimento, o mediador entre Deus e você em várias partes de sua adoração divina… Ele é seu soberano e governante… Ele está em segundo lugar depois de Deus, seu deus terreal, que tem o direito de ser honrado por tua pessoa”. A ordenação concede ao sacerdote (ou Bispo) poderes divinos especiais tornando-o apto a oferecer o sacrifício da Missa.

A ordenação também o torna um tipo de homem completamente separado e santo! Os sacerdotes chegaram a ser identificados como “vigários de Deus na terra”. Eles chegaram a fazer parte de uma ordem de homens especiais. Uma ordem apartada dos “leigos” da igreja. O estilo de vida do sacerdote e suas vestes eram distintos do leigo, justamente para ressaltar esta diferença. Lamentavelmente, este conceito de ordenação nunca foi abolido da fé cristã. Está vivo e bem vivo no moderno cristianismo. De fato, se você está perguntando por que e como o pastor moderno chega a ser elevado ao patamar de “homem santo de Deus”, estas são suas raízes. Eduardo Schweizer, em sua clássica obra Church Order in the New Testament, sustenta que Paulo nada sabia a respeito de qualquer ordenação conferindo poderes ministeriais ou clericais ao cristão. Os pastores, (anciãos, supervisores) do primeiro século não receberam nada parecido com a moderna ordenação. Eles não estavam acima do restante do rebanho. Eles eram aqueles que serviam entre eles. Os anciãos do século I eram apenas publicamente reconhecidos pelos obreiros de fora como aqueles que cuidavam da igreja. Tratava-se de um simples reconhecimento de uma função. Algo que não conferia nenhum poder especial. Tampouco era uma posição permanente como acreditava Agostinho. A moderna prática da ordenação cria uma casta especial de cristão. Seja ele sacerdote no catolicismo ou pastor no protestantismo, o resultado é o mesmo: O ministério mais importante restringe-se a uns poucos crentes “especiais”. Tal ideia é tão daninha quanto antibíblica. Em nenhum lugar do NT a pregação, o batismo ou a distribuição da Ceia do Senhor restringe-se aos “ordenados”. O eminente erudito James D. G. Dunn esclarece melhor este ponto quando diz que a tradição clero-leigo contribuiu mais para minar a autoridade do NT do que a maioria das heresias! Na medida em que alguém poderia desempenhar certa função na igreja através do rito da ordenação, o poder de ordenar passou a constituir o ponto chave no que diz respeito à autoridade religiosa. O contexto bíblico se perdeu. E passou-se a utilizar métodos de comprovar textos para justificar a hierarquia clero-leigo. O crente comum, geralmente inculto e ignorante, ficou a mercê do clero profissional!

A Reforma

Os reformadores do século XVI colocaram fortemente a prova o sacerdócio Católico. Eles atacaram a ideia de que o sacerdote possuía poderes especiais para converter vinho em sangue. Eles rechaçaram a sucessão Apostólica. Eles incentivaram o clero a casar-se. Eles revisaram a liturgia para que a congregação tivesse mais participação. Eles também eliminaram a posição do Bispo e reduziram o sacerdote à condição de presbítero. Desgraçadamente, os reformadores trouxeram a distinção católica entre o leigo e o clero diretamente para o movimento protestante. Eles também preservaram a ideia católica da ordenação. Mesmo eliminando o cargo de Bispo, ressuscitaram a regra do Bispo único com nova roupagem. A voz dominante da reforma foi a restauração do sacerdócio de todos os crentes. Tal restauração, todavia, foi parcial. Lutero (1483-1546), Calvino (1509-1564) e Zwinglio (1484-1531) afirmaram o sacerdócio dos crentes no que toca ao relacionamento individual de cada crente com Deus. Eles ensinaram corretamente que cada cristão tem acesso direto a Deus sem a necessidade de um mediador humano. Foi uma maravilhosa restauração. Mas foi parcial. O que os reformadores deixaram de fazer foi recuperar a dimensão coletiva do sacerdócio crente. Eles restauraram a doutrina do sacerdócio soteriologicamente — isto é, com respeito à salvação. Mas eles falharam em restaurá-la eclesiasticamente — isto é, com respeito à igreja. Em outras palavras, os reformadores apenas recuperaram o sacerdócio do crente (singular). Eles nos lembraram que todo cristão tem acesso a Deus, individual e imediatamente. Apesar de isso ser bonito, eles não recuperaram o sacerdócio de todos os crentes (coletivamente, plural). Esta é a preciosa verdade de que cada cristão é parte de um grupo que compartilha a Palavra de Deus, mutuamente. (Foram os anabatistas que recuperaram esta prática. Lamentavelmente, esta recuperação foi uma das razões pelas quais as espadas protestantes e católicas ficaram rubras com sangue anabatista).

Embora os reformadores se opusessem ao Papa e sua hierarquia religiosa, eles fizeram vista grossa com respeito ao ministério que eles herdaram. Eles acreditavam que o “ministério” era uma instituição restrita àqueles poucos que foram “chamados” e “ordenados”. Assim, pois, os reformadores reafirmaram a divisão clero-leigo. Apenas na retórica os reformadores ensinavam que todos os crentes eram sacerdotes e ministros, na prática o negaram. Pois quando toda fumaça da reforma se dissipou, nos deparamos com a mesma coisa que os católicos nos deram — um sacerdócio seletivo!

Lutero manteve a ideia de que aqueles que pregam necessitam de um treinamento especial. Como os católicos, os reformadores acreditavam que apenas um “ministro ordenado” poderia pregar, batizar e ministrar a Ceia do Senhor. Como resultado, a ordenação deu ao ministro uma aura de favor divino indiscutível. Tragicamente, Lutero e os demais reformadores denunciaram violentamente aos anabatistas pela prática sacerdotal de cada crente na igreja. Os anabatistas acreditavam e acreditam que cada cristão tem o direito de levantar-se e falar em uma reunião. Isso não era privilégio do clero. Lutero era tão avesso a esta prática que disse que isso se originou no inferno e que os que a praticavam deveriam ser mortos! (Veja sua herança, querido cristão protestante)! Em suma, os Reformadores preservaram a ideia da ordenação como chave do poder na igreja. Era responsabilidade do ministro ordenado comunicar a revelação de Deus ao povo. E ele seria pago para exercer esta função. De modo similar ao sacerdote Católico, a igreja via o ministro reformado como “homem de Deus” — o mediador remunerado entre Deus e Seu povo. Não um mediador para perdoar pecados, mas um mediador para comunicar a vontade divina. Assim, no Protestantismo o velho problema assumiu um novo formato. O jargão mudou, mas o veneno permaneceu.

De Sacerdote a Pastor

João Calvino não gostava de aplicar a palavra “sacerdote” aos ministros. Ele preferia o termo “pastor”. Segundo a mente de Calvino, “pastor” era a palavra mais elevada que poderia existir no que tange ao ministério. Ele gostava dessa palavra porque a Bíblia refere-se a Jesus Cristo como “o grande Pastor das ovelhas” (Heb 13:20). Ironicamente, Calvino acreditava estar restaurando o bispado (episkopos) do NT na figura do pastor! Lutero também não gostava da palavra “sacerdote” para definir os novos ministros protestantes. Ele escreveu, “não podemos nem devemos chamar de sacerdote aos que estão encarregados da Palavra e do Sacramento ao povo. A razão pela qual eles têm sido chamados sacerdotes é pelo costume do povo pagão ou por um vestígio da nação judaica. O resultado é danoso à igreja”. Assim, ele também adotou os termos “pregador”, “ministro” e “pastor” referindo-se a este novo ofício. Zwinglio e Martin Bucer (1491-1551) também preferiram a palavra “pastor”. Eles escreveram vários tratados sobre isto. Como resultado, o termo começou a permear as igrejas da Reforma. Todavia, devido a sua obsessão pela pregação, o termo favorito dos reformadores para o ministro foi “pregador”. Este foi geralmente o termo empregado pelas pessoas comuns. Foi apenas no século XVIII que o termo “pastor” chegou a ser de uso corrente, eclipsando “pregador” e “ministro”. Esta influência veio dos Luteranos Pietistas. Desde então o termo espalhou-se entre as principais correntes cristãs. Foi assim que os reformadores elevaram o pastor como cabeça funcional da igreja.

Segundo Calvino, “O cargo pastoral é necessário para preservar a igreja na terra tanto quanto o sol, o alimento e a água são necessários para preservar e sustentar a presente vida”. Os reformadores acreditavam que o pastor possuía o poder e a autoridade divina. Ele não falava em seu próprio nome, mas em nome de Deus. Calvino fortaleceu ainda mais a primazia do pastor ao considerar atos de desprezo ou zombaria contra o ministro como séria ofensa pública. Isto não constitui nenhuma surpresa diante do modelo ministerial adotado por Calvino. Ele adotou a regra do Bispo único do século II. E isto também se aplica aos demais reformadores. A ironia aqui é que Calvino lamentou o fato da Igreja Católica Romana ter construído suas práticas sobre “invenções humanas” em vez da Bíblia. Mas Calvino fez o mesmo! Nesse aspecto os protestantes são tão culpáveis quanto os católicos. Ambos se baseiam em práticas de tradições humanas. Calvino ensinou que a pregação da Palavra de Deus e o correto ministério dos sacramentos são indicações de uma igreja verdadeira. Em sua mente, a pregação, o batismo e a eucaristia tinham que ser ministrados pelo pastor e não pela congregação. Para todos os reformadores, a função primária de um ministro é a pregação. Como Calvino, Lutero também fez do pastor uma posição separada e exaltada. Mas ao mesmo tempo em que sustentava que as chaves do Reino pertenciam a todos os crentes, Lutero confinava seu uso aos que ocupavam um posto na igreja. “Somos todos sacerdotes”, disse Lutero, “na medida em que somos cristãos, mas aqueles a quem chamamos de sacerdotes são ministros selecionados de nosso meio para agir em nosso nome, e o sacerdócio deles é nosso ministério”. Lamentavelmente, Lutero acreditava que todos estão em sacerdócio, mas nem todos podem exercer o sacerdócio. Isto é sacerdotalismo, pura e simplesmente.

Lutero abominou o campo católico pela rejeição do sacerdócio sacrificatório. Mas em seu lugar ele acreditava que o ministério da Palavra de Deus pertencia a uma ordem especial. Veja como Lutero exalta a figura do pastor: “Deus fala através do pregador… Um pregador cristão é um ministro de Deus que foi separado, sim, é um anjo de Deus, um Bispo enviado por Deus, um salvador de muitas pessoas, um rei e príncipe no reino de Cristo… Nesta vida e nesta terra não há nada mais precioso nem mais nobre que um pregador verdadeiro e fiel”. Disse Lutero, “Não devemos permitir que nosso pastor fale as palavras de Cristo como se as falasse por si mesmo; pois ele é a boca de todos nós e falamos as palavras com ele em nossos corações. É uma coisa maravilhosa que a boca de cada pastor seja a boca de Cristo, portanto, devemos todos escutar o pastor, não como homem, mas como Deus”. Dá para escutar o eco e Inácio ressoando através das palavras de Lutero. Estas ideias corromperam a visão de Lutero quanto à igreja. Ele acreditava que ela não era outra coisa a não ser um posto de pregação. “A congregação cristã”, disse Lutero, “nunca deve reunir-se a menos que a Palavra de Deus seja pregada e a oração oferecida, não importa quão curto seja o tempo de tal reunião”. Lutero acreditava que a igreja era simplesmente uma reunião de pessoas que escutavam a pregação. Por esta razão, ele descreveu o edifício da igreja como Mundhaus, que significa “a casa que fala”. Ele também declarou que “as orelhas são os únicos órgãos do cristão”. Querido cristão protestante observe suas raízes!

A Cura de Almas

Tanto Calvino como Lutero compartilharam o pensamento de que as duas principais funções do pastor eram proclamar a Palavra (pregação) e celebrar a Eucaristia (comunhão). Mas Calvino agregou um terceiro elemento. Ele enfatizou que o pastor tinha a obrigação de prover o cuidado e a sanidade da congregação. Isto é conhecido como “cura de almas”. A “cura de almas” remonta aos séculos IV e V. Encontramos isso nos ensinamentos de Gregório de Nacianceno. Gregório chamava o Bispo de “pastor” — um médico de almas que diagnostica as enfermidades do paciente e receita remédio ou cirurgia. Os primeiros seguidores de Lutero também praticaram a medicina das almas.] Mas na Genebra de Calvino essa prática chegou a ser uma arte. Exigiu-se que cada pastor e ancião visitasse as casas dos paroquianos. Também houve visitas regulares aos enfermos e aos encarcerados. Para Calvino e Bucer, o pastor não era apenas um pregador e um dispensador de sacramentos. Ele era também “médico de almas”, “coadjutor”. A ele cabia levar sanidade, cura e compaixão ao povo enfermo de Deus. Esta ideia está viva no mundo protestante de hoje. Pode ser facilmente vista nos modernos conceitos de “cuidado pastoral”, “aconselhamento pastoral”, “assistência psicológica cristã”. Na igreja moderna, a responsabilidade de tal cuidado cai sobre os ombros de um homem – o pastor. (No século I, isso caia sobre os ombros de toda congregação e de um grupo de homens maduros chamados “anciãos”).

A Primazia do Pastor

Em poucas palavras, a reforma protestante foi um golpe no sacerdotalismo católico romano. Mas não foi um golpe mortal, pois os reformadores preservaram a regra do Bispo único. Este simplesmente passou por uma mudança semântica. O pastor agora exercia o papel do Bispo. Ele chegou a ser conhecido como a cabeça da igreja local — como o principal ancião. Como disse certo escritor, “no Protestantismo, o pregador tende a ser porta-voz e representante da igreja, e a igreja muitas vezes é a igreja do pastor. Este é o grande perigo e a grande ameaça à religião cristã, a incoerência clerical”. As reformas feitas pelos reformadores não foram suficientemente radicais para mudar as coisas iniciadas por Inácio e Cipriano.

A Reforma irrefletidamente aceitou a estrutura hierárquica católica e manteve a distinção antibíblica entre ordenado e não ordenado. Em sua retórica os reformadores criticaram a divisão clero-leigo. Mas na prática eles a mantiveram intocada. Como Kevin Giles disse, “as diferenças entre clero católico e clero protestante foram apagadas na prática e na teologia. Em ambas correntes o clero permanece bem distante; em ambas seu estado especial se baseia nas iniciativas divinas mediadas de diferentes maneiras; e em ambas certas responsabilidades são reservadas a ele”. A velha tradição pós-bíblica da regra do Bispo único (agora encarnada no pastor) prevalece na Igreja Protestante hoje. Por causa da petrificação da errônea divisão clero-leigo, há tremendas pressões psicológicas que fazem com que o chamado “leigo” sinta que o ministério é de responsabilidade do pastor. “É o trabalho dele. Ele é o perito”, é a ideia que prevalece.

A palavra usada no NT para ministro é diakonos. Tal palavra quer dizer “servo”. Mas esta palavra foi corrompida porque os homens profissionalizaram o ministério. Tomamos a palavra “ministro” e a equiparamos com a palavra pastor sem nenhuma justificação bíblica. Da mesma maneira, equiparamos a pregação e o ministério com o sermão do púlpito. Novamente sem justificação bíblica. Seguindo a tendência de Calvino e Lutero, os escritores puritanos John Owen (1616-1683) e Thomas Goodwin (1600-1680) elevaram o pastor a uma posição fixa na casa do Senhor. Owen e Goodwin conduziram os puritanos a enfocar toda autoridade na figura ou na função do pastor. Em suas mentes, ao pastor era dado “o poder da chave”. Somente ele é ordenado para pregar, ministrar sacramentos, ler as Escrituras publicamente, e ser treinado nos idiomas originais da Bíblia. Algo bem semelhante à lógica e filosofia. Tanto reformadores como puritanos adotaram a ideia de que os ministros de Deus precisam ser profissionais competentes. Portanto, os pastores necessitavam um extenso treinamento acadêmico para cumprir sua função. Todas estas características explicam como e por que o pastor é tratado como elite… Como um cristão especial… Alguém que merece ser reverenciado (daí o título “Reverendo”). O pastor e seu púlpito são a parte central da adoração protestante.

Como o Pastor Destrói a Vida Coletiva

Agora, uma vez desenterradas as raízes do pastor moderno, coloquemos nossa atenção nos efeitos práticos que o pastor exerce sobre o povo de Deus. A distinção antibíblica clero/leigo tem causado tremendos danos ao Corpo de Cristo. Tal distinção provoca uma ruptura na comunidade dos crentes por classificá-los como cristãos de primeira e de segunda classe. A dicotomia clero/leigo perpetua uma horrível mentira. A mentira de que alguns cristãos são mais privilegiados do que outros quanto a servir ao Senhor. Nossa ignorância da história da igreja permitiu sermos defraudados. O ministério do único homem é completamente alheio ao NT. Aceitá-lo necessariamente sufoca nosso funcionamento. Somos pedras vivas, não mortas, todavia a posição do pastor nos tem transformado em pedras que não respiram. Permita-me ser pessoal. O ofício pastoral vem roubando seu direito de funcionar como membro do Corpo de Cristo! Esse ofício fecha sua boca e prende-o ao banco. Isso distorce a realidade do corpo, fazendo do pastor uma grande boca e de você uma orelhinha. Isso deixa você na condição de espectador mudo capaz apenas de fazer anotações do sermão e de passar a bandeja da oferta! Mas isso não é tudo. A moderna posição de pastor passa por cima do principal ensinamento da carta aos Hebreus — sobre a finalidade do sacerdócio. Torna ineficaz o ensinamento de I Coríntios 12-14, de que cada membro tem o direito e o privilégio de ministrar em uma reunião eclesiástica. Anulou a mensagem de I Pedro 2 de que cada irmão ou irmã é um sacerdote funcional. Ser um sacerdote funcional não quer dizer que você pode fazer um tipo de pechincha do ministério como cantar hinos em seu banco, levantar as mãos durante a adoração, substituir transparências, ou ensinar a uma classe de escola dominical. Esta não é a ideia neo testamentária de ministério. Tais coisas são nada mais que um auxílio ao ministério do pastor. Como disse um pesquisador, “muito da adoração protestante, principalmente em nossos dias, foi infectada pela horrível tendência de considerar a adoração com uma obra do pastor, e talvez dos músicos. Com a maior parte da congregação restrita ao cântico de hinos e reduzida à condição de espectadora atenta e piedosa”.

Tratamos o pastor como se ele fosse um profissional especialista. Esperamos que os doutores e advogados nos sirvam, não para treinar-nos a servir outros. E por quê? Por que eles são especialistas. Eles são profissionais treinados. Desgraçadamente, vemos o pastor da mesma maneira. Tudo isso é danoso pelo fato de que cada crente é um sacerdote. Não apenas diante de Deus, mas mutuamente. Isso não é tudo. O pastorado moderno rivaliza com a direção funcional de Cristo em sua Igreja. A posição de pastor mantém um lugar único de posição central e de direção entre o povo de Deus. É um lugar reservado para apenas uma pessoa, o Senhor Jesus. Jesus Cristo é a única cabeça e a palavra final da Igreja. Por sua posição, o pastor desloca e suprime a direção de Cristo por instalar-se como cabeça humana da congregação. Por esta razão, não há nada que impeça tanto o cumprimento do propósito eterno de Deus, como a função do moderno pastor. Por quê? Porque o foco desse propósito é fazer a direção de Cristo visivelmente manifesta na igreja através do funcionamento livre e aberto do corpo de cada membro. Enquanto a posição de pastor estiver presente, você nunca verá tal coisa. Como o Pastor Destrói a Si Mesmo O moderno pastor prejudica não apenas o povo de Deus, ele prejudica a si mesmo. A posição de pastor de uma forma ou de outra atrofia os que assumem essa função. As frequentes depressões, vazio, estresse, e o desequilíbrio emocional são terrivelmente constantes entre os pastores. Nesse momento há mais de 500 mil pastores servindo nas igrejas nos Estados Unidos. Deste grande número, considere a seguinte estatística que revela o perigo mortal da posição de pastor: 94 % sentem-se pressionados a ter uma família ideal. 90 % trabalham mais de 46 horas por semana. 81 % reportam uma insuficiência de tempo com seu cônjuge. 80 % creem que o ministério pastoral prejudica a família. 70 % não têm o que se considera um amigo íntimo. 70 % têm menos autoestima agora do que tinham quando entraram no ministério. 50 % sentem-se incapazes de cumprir as necessidades de sua posição. 80 % estão desanimados ou tratando de uma depressão. 40 % reportam sofrer pela timidez, horários frenéticos e falsas expectativas. 33 % consideram o ministério pastoral um perigo para a família. 33 % consideraram renunciar suas posições durante o último ano. 40 % das renúncias pastorais devem-se ao vácuo (a chama se apagou). Espera-se que a maioria dos pastores exerça 16 tarefas simultâneas. E a maioria acaba pulverizada pelas pressões. Por esta razão, mensalmente, 1.600 ministros entre todas as denominações nos Estados Unidos são demitidos ou são forçados a renunciar. Durante os últimos 20 anos a média do pastoreado reduziu de sete para pouco mais de dois anos! Lamentavelmente, poucos pastores se dão conta de que é a posição de pastor que causa esta turbulência subjacente.

Naturalmente, Jesus Cristo nunca desejou que alguma pessoa desempenhasse a variedade de coisas que se requer do pastor! Ele nunca desejou que alguém carregasse uma carga tão pesada. As demandas do pastorado são terríveis. Tanto que leva qualquer mortal ao esgotamento. Imagine-se por um momento trabalhando em uma companhia que lhe paga para manter seus colegas de trabalho animados. Que você faria se seu pagamento dependesse do teu grau de ocupação e amistosidade, da popularidade de sua esposa e filhos, da qualidade de suas roupas, e da perfeição de seu comportamento? Dá para imaginar o completo estresse que isso lhe causaria? Dá para ver o papel que seria obrigado a exercer, da presunção a arrogância – tudo para poder manter seu poder, prestígio e segurança no trabalho? (Por esta razão, a maioria dos pastores é insensível quanto a receber qualquer tipo de ajuda).

A profissão de pastor dita padrões de conduta como qualquer outra profissão como professor, médico ou advogado. A profissão dita como o pastor deve vestir-se, falar e atuar. Esta é uma das principais razões pela qual tantos pastores vivem vidas tão artificiais. Nesse aspecto, o rol pastoral fomenta a desonestidade. A congregação espera que seu pastor esteja sempre alegre, disponível a todo o momento, nunca ressentido, nunca amargurado, espera que ele tenha uma família perfeitamente disciplinada, e que seja completamente espiritual a todo o momento. Os pastores exercem este papel como atores de um drama grego. Isto explica a voz afetada da maioria dos pastores em suas pregações e orações. Isto explica a maneira piedosa de cumprimentar. A maneira peculiar com que dizem “o Senhor”. E a maneira especial como se vestem. Todas estas coisas são em grande parte fumaça e luar – totalmente desprovidas de realidade espiritual. A maioria dos pastores não pode permanecer nesse ofício sem ser corrompido em algum nível. O endêmico poder político do ofício é um problema enorme que isola muitos deles e envenena a relação deles uns com os outros.

Em um inquietante artigo para pastores intitulado Prevenindo a Cauterização do Clero, o autor sugere algo assustador. O conselho dele para os pastores nos dá uma visão clara do poder político que ronda o pastorado. Ele implora aos pastores: “Exerça uma posição de companheirismo com o clero de outras denominações. Estas pessoas não podem prejudicá-lo eclesiasticamente, porque eles não pertencem ao seu círculo oficial. Não há nenhum tapete político que eles possam puxar para derrubá-lo”. A solidão profissional é outro vírus que contamina fortemente os pastores. A praga da ilha solitária leva alguns pastores a buscar outras carreiras. Outros encontram destino mais cruel. Todas estas patologias encontram sua raiz na história do pastorado. É “solitário o cume” porque Deus nunca quis que ninguém fosse para o cume – exceto Seu Filho! Com efeito, o pastor moderno coloca sobre seus ombros as 58 exortações do NT que deveriam ser mutuamente compartilhadas pelos crentes. Não é de admirar que a maioria dos pastores sofre esmagada pelo peso.

Conclusão

O pastor moderno é o elemento mais inquestionado no cristianismo moderno. Mesmo assim ele não tem uma única linha nas Escrituras que justifique sua existência, nem uma folha de figueira para cobri-lo! Assim, o pastor moderno nasceu da regra do bispado único engendrado por Inácio e Cipriano. O Bispo transformou-se em presbítero local. Na Idade Média o presbítero se converteu em sacerdote católico. Durante a Reforma ele foi transformado em “pregador”, “ministro”, e finalmente em “pastor” – o homem sobre o qual se dependura todo Protestantismo. Em suma: O pastor protestante é nada mais que um sacerdote católico um pouco reformado! O sacerdote católico tinha sete ofícios durante o tempo da Reforma: Pregar, ministrar sacramentos, rezar pelo rebanho, vida santa, disciplina, ritos da igreja, apoiar pobres e visitar enfermos. O pastor protestante além de assumir todas estas responsabilidades – eventualmente também abençoava eventos cívicos. O famoso poeta John Milton foi bem preciso quando disse: “O moderno presbítero não é outra coisa senão o velho sacerdote!” Outra versão disso seria: O pastor moderno não é outra coisa senão o velho sacerdote!

Tornei-me bacharel na Universidade da Bíblia. Fui ao seminário e estudei a única coisa disponível ali: O ministério profissional. Ao graduar-me percebi que poderia falar latim, grego e hebraico, mas a única qualificação que eu tinha era para ser Papa. Mas outro ganhou essa posição!” Pastor Anônimo