ONDE estava o Apóstolo João?

Postado por

000000019Quando e onde foi escrito o Apocalipse? Certamente uma quantidade incontável de leigos e professores de escola bíblica, incluindo teólogos da melhor qualidade, respondam a uma só voz: “Evidente que foi em Patmos!”

A nossa teologia escatológica deixou-nos um legado irreversível e padronizado sobre João em Patmos através de mensagens limitadas a uma visão tradicional imutável. Provavelmente muitos entre os cristãos do nosso tempo, sejam eles leigos ou não, dificilmente tentariam dar uma olhadela ao redor para descobrir se tudo ocorreu mesmo da maneira como aprenderam. O quadro apocalipse exilio, pintado pelo ensino tradicional e entregue a cristandade, foi de um João totalmente sozinho e a vontade numa Ilha deserta do Mar Egeu, bem tranquilo e com total liberdade para escrever, editar, melhorar e enviar para as Igrejas localizadas nas regiões da Ásia Menor, o seu mais assombroso e espetacular  Livro jamais escrito, o Apocalipse.

Porém, como estamos aqui refutando as peripécias do Preterismo, é necessário dizer que todo o artigo é um confronto comandado pelo testemunho da história e das Escrituras contra as afirmações feitas por esta facção  com relação a datação do Livro.

A doutrina preterista ensina que  João foi enviado para a ilha de Patmos na década de 60 dC, onde recebeu e fez um registro de todas as visões do Apocalipse, que dizem ser um tratado profético concernente a invasão romana sobre Jerusalém/Israel em 70 dC. No entanto, como veremos, essa teoria complica extremamente a alegação do preterismo, que localiza o Apóstolo em Patmos  no governo de Nero, enquanto o testemunho da história garante que  ele foi exilado pelo imperador  Domiciano, que reinou de 81 a 96 dC.

Irineu atesta no quinto livro de sua obra Contra as Heresias que, “… a revelação [o Apocalipse]… foi vista há não muito tempo, mas quase em nossa própria geração, no final do reinado de Domiciano”. Se Domiciano foi condenado à morte em AD 96, consequentemente, e de acordo com Irineu, podemos concluir que o Apocalipse foi entregue a João em algum ponto dentro do mesmo ano, ou pouco antes. Obviamente, questionamentos devem surgir com respeito ao curto espaço de tempo dado a ele para reunir estas revelações e registrar em livro enviando o original para cada congregação da Ásia menor antes de deixar o exílio.

Clemente de Alexandria (155-215 AD) diz que João voltou da ilha de Patmos “depois que o tirano estava morto” (Quem é o homem rico?), e Eusébio, conhecido como o “Pai da História da Igreja”, identifica o “tirano”, como Domiciano (História Eclesiástica III 23).

Assim, como visto, a história testifica que João recebeu o Apocalipse pouco antes de ser liberto do seu cativeiro. Portanto, podemos inferir que ele esteve bem atarefado em Patmos diante de tão grande responsabilidade, pois, exilado em condições precárias, ainda assim conseguiu registrar tudo que viu em um livro enviando o original para fora da Ilha num tempo relativamente curto.

O Formato de um Livro

Não sei se o leitor sabe qual foi o motivo que levou João a Patmos; a tradição afirma que estando irritado por ter lançado o Apóstolo num caldeirão de óleo fervente e este não ter morrido, Domiciano o enviou para o exílio no intuito de silenciá-lo quanto ao testemunho do Senhor Jesus. Mas, ao que parece, João ainda assim continuava testificando de Cristo, pois  mesmo estando preso ele registrava as revelações recebidas.

Como solucionar esta aparente contradição?

Primeiramente devemos dar atenção à  introdução do Livro; atente o leitor para aquilo que começa a tomar o formato de um tratado profético quando observamos os detalhes no contexto que vem a seguir. A passagem nos deixa pistas de que João já havia recebido as revelações nesse momento, e, ao que tudo indica, ele não estava escrevendo do cativeiro em Patmos. Veja o que ele diz em Apocalipse 1:1, 2, que mais parece uma introdução de um livro que começa a tomar forma.

REVELAÇÃO de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu, para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou, e as notificou a João seu servo. O qual testificou da palavra de Deus, e do testemunho de Jesus Cristo, e de tudo o que tem visto”.

Veja como o versículo apresenta os verbos, o que deixa subentendido que as visões já haviam sido transmitidas. Atente para a frase, “Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu”, e que ele enviou a João. Ou seja, nesse instante, que sem dúvida é o momento da preparação do Livro, João já havia recebido as visões, pois o verso acrescenta que Jesus notificou a João e que João testificou acrescentando que ele também viu, o que podemos concluir como “já visto” quando atentamos para o detalhe em “tudo o que tens visto”, sugerindo que as revelações já haviam sido dadas. Como sabemos disso?  Precisamos apenas encurtar o versículo deixando-o assim,

“… Jesus… as enviou e notificou a João, o qual testificou de tudo que tens visto”. Estamos no verso um e dois, mas João já diz sobre coisas que viu. Observe o tempo dos verbos mais uma vez: Jesus enviou, Jesus notificou, João testificou, ou seja: confirmou. Isso parece um registro feito para ser inserido no fim do Livro, mas não foi.  Por que João escreveu dessa forma já no capítulo um? O que parece é que ele já havia recebido as visões e revelações do Senhor nesse momento. Observe o leitor que mesmo estando no inicio dos registros já podemos ler a sentença: “testificou de tudo que viu”.

O quadro parece de um João pós-exílio, em algum outro lugar pronto para organizar a escrita de todas as coisas que recebeu. No verso três ele chama de bem aventurados os que leem e guardam as palavras desta profecia; o problema é que estamos no capítulo um onde ele nem mesmo começou a registrar as profecias, além de insinuar um livro sem ao menos ele ainda ter tomado forma.

Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo”.

O que observamos em Apocalipse 1:1-3 é o típico modelo de um prólogo, ou seja, a introdução de uma obra literária. No caso aqui, é como se João  tivesse anotações diversas, mas  estava colocando-as em ordem.

Concluímos que, das duas uma: ou João se preparava para organizar as revelações que recebeu em Patmos transferindo para um livro o que teria ali no exílio anotado em pergaminhos diversos, ou ele escreveu tudo fora da Ilha sem nenhum registro prévio dependendo apenas da memória e do Senhor Jesus (João 14:26). O testemunho de um pai da Igreja pode nos ajudar nesse contexto. Vitorino, bispo de Pattau em Pannonia e que sofreu o martírio sob o imperador Diocleciano em 303 dC, escreveu em cerca de 270 AD no décimo capítulo de seu “comentário sobre o Apocalipse do bem-aventurado João”,

“… Quando João recebeu essas coisas ele estava na ilha de Patmos, condenado ao trabalho nas minas por César Domiciano. Lá, portanto, ele viu o Apocalipse, e quando envelheceu ele pensou que deveria finalmente receber sua quitação pelo sofrimento.  Domiciano foi morto e todos os seus juízos estavam descarregados. João foi demitido das minas, assim, posteriormente, entregou o mesmo Apocalipse que ele havia recebido de Deus”.

Brilhante o texto de  Vitorino, pois além de confirmar que João foi exilado no governo de Domiciano, ele também testifica que o Apóstolo entregou o Apocalipse depois de ser liberto do cativeiro.

Veja o detalhe no fim do seu comentário,

 “… João foi demitido das minas, assim, posteriormente, entregou o mesmo Apocalipse que ele havia recebido de Deus”.

Nesta altura dos relatos acredito que já pairam algumas dúvidas na mente dos leitores quanto a João ter entregado o Livro de Apocalipse para as Igrejas da Ásia enquanto estava no exílio.

Em Patmos ele foi informado de que deveria ainda profetizar a muitos povos, e nações, e línguas, e reis. “E disse-me: Importa que profetizes outra vez a muitos povos, e nações, e línguas e reis” (Apocalipse 10: 11). Lembre-se que no verso anterior João mesmo escreve sobre os registros inseridos neste Livro, o que chama de profecia. E isto está de acordo com o padrão revelado pelo Senhor, que aquilo que muitos homens de Deus escreveram foi profecias transformadas em Escrituras, como atesta Pedro, “Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo“, 2 Pe 1:21, o que João confirma mais uma vez em Apocalipse 22:18 quando fala sobre “… as Palavras da profecia deste Livro…”.

Portanto, o que se cumpre – com ênfase no contexto principal que é a importância extrema no envio da mensagem do Apocalipse – é exatamente o que foi dito no capítulo 10:11 do Livro, de que o Apóstolo profetizaria “… OUTRA VEZ para muitos povos, e nações, e línguas e reis”. Assim, as visões que foram mostradas a João no exílio no final do reinado de Domiciano e perto da sua libertação tomaram o formato de Livro Profético ( o qual foi entregue às Igrejas da Ásia Menor, como também aos cristãos de todos os tempos), somente depois que ele foi liberto do seu cativeiro.

Onde João estava?

Atente para a redação deste versículo, o qual nos deixa forte indício de que João, enquanto escrevia estas palavras, não mais estava no exílio,

Apocalipse 1:9  Eu, João, irmão e companheiro de vocês no sofrimento, no Reino e na perseverança em Jesus, estava na ilha de Patmos por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus.

A NTLH acaba de vez com toda esperança preterista,

Apocalipse 1:9  Eu sou João, irmão de vocês; e, unido com Jesus, tomo parte com vocês no Reino e também em aguentar o sofrimento com paciência. Eu estava na ilha de Patmos, para onde havia sido levado por ter anunciado a mensagem de Deus e a verdade que Jesus revelou.

É necessário observar um detalhe no texto, aquilo que parece ser a típica introdução de um prisioneiro que se prepara para escrever suas memórias depois de ter sido liberto do seu cativeiro,

“… Eu estava na ilha de Patmos, para onde havia sido levado”.

João e Domiciano

Sendo João aprisionado no governo de Domiciano, um rei romano cruel ao extremo podemos imaginar quantas dificuldades o cercavam no exílio. Sabemos com certeza que ele não teve as facilidades para a escrita como temos hoje. Além disso, sendo o local propriedade de Roma, era também uma mina de trabalhos forçados, o que nos leva a concluir sem sombra de duvidas que o Apóstolo não  estava ali de férias.

Quero transcrever aqui uma contribuição enviada a mim pelo Apologista e amigo Lucas Banzoli que encaixa perfeitamente neste contexto:

“… a ilha de Patmos era uma prisão sem muros, onde os prisioneiros eram obrigados a trabalhar nas minas de carvão. Era uma ilha isolada do continente e se localizava no mar Egeu. Por ser separada do continente seria IMPOSSÍVEL a João “pegar um barco” e enviar suas inúmeras cópias do Apocalipse para as mais diversas regiões do Império Romano, inclusive às sete igrejas da Ásia mencionadas nos capítulos 2 e 3, estando preso e submetido a trabalhos forçados em uma ilha completamente isolada do continente“. Citado em HERESIAS CATÓLICAS – “Revelação bombástica contra o preterismo

Diante desse quadro devemos nos perguntar: como João conseguiu enviar para as Igrejas locais da Ásia – sem impedimento algum – um livro profético inteiro, recheado de denuncias contra Roma alertando os cristãos que seriam perseguidos pelo mesmo império que ali o aprisionou?

O historiador da igreja Eusébio Pamphilio, que nasceu em cerca de 260 e morreu antes de 341, e foi Bispo de Cesaréia na Palestina, no capítulo 18, Livro 3 de sua História da Igreja, Atesta:

“… o apóstolo e evangelista João, que ainda estava vivo, foi condenado a morar na ilha de Patmos, em consequência de seu testemunho à palavra divina…”.  Eusébio esclarece que João foi exilado em função do seu testemunho por Cristo, o que não nos permite acreditar que ele, enquanto cativo, tenha concluído e enviado para fora do exílio seu mais importante testemunho, o Livro de Apocalipse.

Atente para estes escritos, e entenda o amigo leitor como estava o clima no governo de Domiciano; “… Domiciano foi particularmente cruel e ostensivo imperador romano, que reinou de AD 81-96. Ele regularmente prendia, encarcerava e executava seus inimigos, até mesmo os nobres e senadores romanos, confiscando suas propriedades para seu próprio uso. De acordo com a Enciclopédia Britânica, “Os anos 93-96 foram considerados como um período de terror até então insuperável“.

A Enciclopédia também nos informa que “Uma fonte de escândalo foi sua insistência em ser chamado de dominus et deus (“ senhor e deus”). Talvez isso despertou em Domiciano um ódio de cristãos fiéis, que teriam se recusado a ele essa demanda. No terceiro livro, o capítulo 17 de sua História Eclesiástica, Eusébio escreve,

Domiciano, tendo mostrado grande crueldade para com muitos, colocou injustamente à morte não pequeno número de homens bem-nascidos e notáveis ​​em Roma, e, sem causa exilou e confiscou a propriedade de um grande número de outros homens ilustres, finalmente tornou-se o sucessor de Nero em seu ódio e inimizade para com Deus. Ele era na verdade o segundo que suscitou uma perseguição contra nós, embora seu pai Vespasiano tivesse empreendido nada prejudicial para nós”.

Domiciano era tão odiado por seus excessos que a própria esposa participou da conspiração para assassiná-lo. Após a sua morte, seu sucessor, Nerva, inverteu muitos dos julgamentos cruéis de Domiciano, e João foi posteriormente liberado. O reinado de Domiciano terminou em 96 dC, e isso tem proporcionado os meios tradicionais para datar a redação do livro do Apocalipse”. (1).

Há um detalhe importantíssimo citado neste texto acima que deve ser destacado. A Enciclopédia Britânica esclarece que “Os anos 93-96 foram considerados como um período de terror até então insuperável“.

Como testificou Irineu, João teve as visões do Apocalipse no fim do governo de Domiciano. Considerando que o imperador foi assassinado em 18 de setembro de 96 dC, podemos concluir que João pode ter recebido as revelações no final do ano de 95, ou mesmo no inicio do ano de 96 dC, exatamente no tempo do “período de terror até então insuperável”. Portanto, fica difícil crer que ele, diante de circunstâncias extremamente desfavoráveis, conseguiu ainda enviar as mensagens para fora da ilha encorajando os cristãos a ficarem firmes diante das perseguições que seriam movidas contra eles pelo mesmo governo que o aprisionou em Patmos.

As evidências que favorecem uma data tardia para a redação do Livro de Apocalipse  ainda prevalecem, pois  como  vimos,  a alegação preterista de que João foi exilado  na década de 60 dC  inevitavelmente desmorona, não tendo nenhum  fundamento  bíblico e muito menos histórico.

Por Deus e seu Reino

1) Citado em, When was the Revelation of Jesus Christ written?

2 comments

  1. Paz Irmão,

    Creio que o irmão conseguiu comprovar com boa argumentação que o livro do Apocalipse, da forma como o conhecemos, só foi escrito após o exílio de Patmos, mas, por outro lado não prova que em parte tenha sido escrito já durante o exílio, como o próprio texto deixa subtendido, em algumas partes.

    Além do mais declarar que: “Portanto, fica difícil crer que ele, diante de circunstâncias extremamente desfavoráveis, conseguiu ainda enviar as mensagens para fora da ilha encorajando os cristãos a ficarem firmes diante das perseguições que seriam movidas contra eles pelo mesmo governo que o aprisionou em Patmos” só me faz pensar que o irmão desconsidera que se Deus mandou ele escrever e enviar as cartas às sete igrejas, Ele poderia perfeitamente prover os meios, já que não há impossíveis para Deus.

    De qualquer maneira, vale perfeitamente a afirmativa de que quando o livro foi concluído João realmente não estava mais preso em Patmos.

    1. A Paz Jacob. Na verdade, se você voltar para a leitura do tópico, poderá ver as opções que ali deixei sobre a escrita. Não sabemos exatamente onde ele escreveu o Livro, mas te garanto que há indícios fortíssimos de que ele organizou a escrita fora de Patmos.

      Abraços

Comentários encerrados.