O Testemunho dos Pais da Igreja

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23Os Preteristas ensinam que o livro de Apocalipse é primariamente uma profecia sobre a guerra romana contra os judeus em Israel, que começou em 67 dC e terminou com a destruição do Templo em 70 dC. A fim de Apocalipse ser uma previsão do futuro (Apocalipse 1:1, 3, 11, 19; 22:6-10, 16, 18-20), e se foi cumprida até agosto de 70 dC, então ele teve que ser finalizado nos seus registros em  68 dC para a interpretação preterista até mesmo ser uma possibilidade.

A interpretação futurista não depende da data do Apocalipse, uma vez que não importa quando esses eventos ocorrem, pois são ainda para o futuro, para o nosso próprio tempo. No entanto, a data do Apocalipse é essencial para a posição preterista e explica por que eles são tão focados em defender uma data próxima a destruição de Jerusalém.

 

Evidência histórica

As evidências em favor de uma data tardia para a escrita do Livro de  Apocalipse são diversas. A maioria concluiu que o Apocalipse foi redigido perto do fim do primeiro século, principalmente por causa da declaração de  Irineu, pai da Igreja (120-202). Em torno de 180 dC, Irineu atesta:

“Não vamos, no entanto, incorrer no risco de se pronunciar de forma positiva quanto ao nome do Anticristo, pois se fosse necessário que seu nome deve ser claramente revelado neste momento, teria sido anunciado por aquele que viu a visão apocalíptica. Por que foi visto num tempo não muito longo desde então, mas quase em nossos dias, para o fim do reinado de Domiciano”.

É importante notar que Irineu era da Ásia Menor (atual Turquia). O apóstolo João era também  de Éfeso, na Ásia Menor. Irineu foi discípulo na fé de Policarpo, que foi discipulado pelo apóstolo João. Assim, há uma ligação direta entre a pessoa que escreveu Apocalipse e Irineu. Este argumento, testemunho da história, apóia fortemente a credibilidade de Irineu e sua declaração. Significativamente, nenhuma outra tradição relacionada com a data do Apocalipse foi desenvolvida nesta seqüência, justamente nesta parte do mundo, como foi a de Irineu. Esta foi a área onde o Apocalipse foi dado.

Mais tarde, outras tradições foram desenvolvidas nos territórios da cristandade, mas em um tempo distante da escrita do Apocalipse. No entanto, estas foram áreas em que o Apocalipse não foi tomado tão literalmente quanto na Ásia Menor. Parece lógico que se a teoria do ensino de uma data anterior do Apocalipse era genuína, então ele deve ter tido uma testemunha disso na Ásia Menor, como se vê, e não de registros que apareceram nos séculos V e VI. Portanto, isso só bastaria para estabelecer a verdade, tornando-se uma realidade quando buscamos apoio para a exibição final dos dados. Tal realidade argumenta contra a visão preterista dos anos 70, e é um forte apoio para se estabelecer a escrita do Apocalipse para depois da destruição de Jerusalém.

No rastro de Irineu

O historiador da igreja Eusebio de Cesareia, ou, Eusebio Panfilio, nasceu em 260 e morreu antes de 341. Bispo de Cesaréia na Palestina, ele é conhecido como o “Pai da História da Igreja.” Eusébio confirma a autenticidade do testemunho de Irineu. No capítulo 18,  livro 3 de sua História da Igreja, lemos:

“…  nesta perseguição a João, apóstolo e evangelista, que ainda estava vivo…  ele foi condenado a habitar na ilha de Patmos em conseqüência de seu testemunho à palavra divina. Irineu, no quinto livro da sua obra Contra as Heresias, onde ele discute o número do nome do Anticristo, que é dado no Apocalipse  de João, diz o seguinte a respeito dele: “Se fosse necessário  seu nome ser proclamado abertamente no presente momento teria sido declarado por ele que viu a revelação. Pois foi visto há pouco tempo,  quase em nossa própria geração, no final do reinado de Domiciano. “

Eusébio citou a declaração de Irineu; observe que ele também indicou  outras histórias seculares à sua disposição com precisão indicando que o banimento dos cristãos em Patmos ocorreu durante o reinado de Domiciano.

Eusébio continua: “Tertuliano também mencionou Domiciano nas seguintes palavras: “Domiciano também, que possuía uma parcela da crueldade de Nero, tentou uma vez fazer a mesma coisa que este último fez… sequer se lembrou daqueles a quem ele tinha banido…  Mas depois que Domiciano reinou 15 anos, e Nerva tinha sucedido ao império, o Senado romano, de acordo com os escritores que registram a história daqueles dias, votaram que os horrores de Domiciano deveriam ser cancelados, e que aqueles que tinham sido injustamente banidos devem retornar para suas casas e ter suas propriedades restauradas a eles. Foi nessa época que o apóstolo João retornou de seu exílio na ilha ao seu domicílio em Éfeso…” [Eusébio, Bk. III, cap. xx]

O detalhe importantíssimo no testemunho acima é a declaração de que Domiciano reinou 15 anos, o que nos  permite estabelecer a permanência de João no exílio não mais que os 15 anos do governo de Domiciano. Guarde esse detalhe…

Hipolitis escreveu  em 236, no capítulo um, versículo 3 de  Doze Apóstolos:

“João, de novo na Ásia, foi banido por Domiciano  para a ilha de Patmos…  e no tempo de Trajano ele adormeceu em Éfeso, onde seus restos mortais foram procurados, mas não foram jamais encontrados”.

Por volta de AD 270, Vitorino, no décimo capítulo de seu comentário sobre o Apocalipse de João, escreveu

“…  João estava na ilha de Patmos, condenado ao trabalho das minas por César Domiciano… ele viu o Apocalipse, e quando envelheceu, ele pensou que ele deveria finalmente receber sua quitação pelo sofrimento. Domiciano foi morto e todas as decisões dele estavam descarregadas. João foi liberto das minas…”. [Vitorino, Comentário sobre o Apocalipse, XI]

Jerônimo nasceu em cerca de 340. Morreu em Belém, 30 de Setembro, 420. Jerônimo escreveu no capítulo IX de Homens Ilustres,

“… no décimo quarto ano depois de Nero, Domiciano, tendo levantado uma segunda perseguição, baniu João para a ilha de Patmos, onde ele escreveu o Apocalipse, em que Justino Mártir e Irineu depois escreveram comentários. Mas Domiciano tendo sido condenado à morte e seus atos, por conta de sua excessiva crueldade, foram anulados pelo Senado, e João voltou a Éfeso…”.

Segundo Jerônimo, o Apóstolo João foi exilado em Patmos em 82 dC, e não antes disso. Ora, se Nero morreu em 68 dC, e 14 anos depois houve uma perseguição impetrada por Domiciano, evidente que o ano  dessa perseguição só pode ter sido 82 dC.

Em Contra Jovinianus, Livro 1, Jerônimo também escreveu:

“João é tanto um apóstolo e um evangelista, um profeta e um apóstolo, porque ele escreveu às Igrejas como um mestre; Um evangelista, porque ele compôs um Evangelho, uma coisa que nenhum outro dos apóstolos, com exceção de Mateus, o fez; um profeta, pois ele viu na ilha de Patmos, para o qual ele havia sido banido pelo imperador Domiciano como um mártir para o Senhor, o Apocalipse, contendo os mistérios sem limites do futuro.”

Sulpitius Severo foi um escritor eclesiástico que nasceu na Aquitânia em 360. Ele morreu cerca de 420-25. No capítulo 31 do livro 2 de sua História Sagrada, lemos:

“… Então, depois de um intervalo, Domiciano, filho de Vespasiano, perseguiu os cristãos. Nesta data, ele baniu João Apóstolo e Evangelista para a ilha de Patmos”.

O depoimento destas testemunhas da antiguidade indica que o Apocalipse foi escrito após a queda de Jerusalém. Portanto, Isso nos leva à conclusão razoável de que muitos dos eventos profetizados devem  ocorrer mais tarde.

Clemente escreve sobre João

Clemente de Alexandria (AD150-220) contou uma história sobre João logo após seu retorno do exílio, como sendo um homem muito velho. Ele narra  sobre um jovem que foi convertido pela pregação do Apóstolo, mas também deixa um valioso documento sobre os dias de João em Patmos.

“…  quando da morte do tirano, ele retornou a Éfeso da ilha de Patmos, ele foi embora, sendo convidado aos territórios contíguos das nações, aqui a nomear bispos, lá para pôr em ordem Igrejas para ordenar tais como foram marcados pelo Espírito”. [Clemente, Quem é o homem rico que será salvo, XLII]

Na história que Clemente conta sobre João  ele detalha como o Apostolo era já um homem velho depois de ser liberto do seu cativeiro.

A história é sobre um jovem convertido que João havia confiado a certo ancião para discípulo na fé. O homem tinha sido anteriormente um ladrão e salteador. “… Ao retornar do exílio em Patmos, ele ouviu que o jovem havia retornado para sua vida antiga de crime. Ao ouvir isso, ele repreendeu fortemente o mais velho em cuja guarda ele havia deixado. João partiu imediatamente para o lugar onde este ladrão e seu bando se escondiam. Ao chegar ao local, ele foi agredido pelo bando de ladrões. Ele exigiu deles para levá-lo ao seu líder. Eles trouxeram João ao homem  que João havia anteriormente conquistado para Cristo, e deixado sob a custódia do mais velho. Quando o jovem viu João se aproximando, ele começou a fugir. João começou a correr atrás dele, pedindoPor que, meu filho fugir de mim, teu pai, desarmado e velho? Filho tenha pena de mim. Não temas, tens ainda a esperança de vida. Vou dar conta de Cristo por ti. Se for necessário, eu vou de bom grado suportar tua morte, como fez o Senhor a morte por nós. Por ti vou entregar minha vida… João explicou-lhe que o perdão e a restauração era ainda possível…

Clemente, em seguida declarou: “E ele, quando o ouviu, primeiro se levantou olhando para baixo, em seguida, jogou os braços, então tremeu e chorou amargamente. E vendo o  velho João se aproximando, ele abraçou-o, falando para si próprio com lamentações… e batizou uma segunda vez com lágrimas, escondendo apenas sua mão direita. Os outros prometendo, e assegurando-lhe sob juramento que ele iria encontrar o perdão para si mesmo do Salvador, rogando de joelhos, e beijando a mão direita em si, como agora purificada pelo arrependimento, o levou de volta para a igreja.” [Clement, Quem é o homem rico que será salvo, XLII]

A partir dessa história vemos que após a libertação do exílio de João em Patmos ele era um homem avançado em idade. Mas, o leitor poderia questionar em que isto implica. Implica em problemas para o preterismo. João poderia não ter ainda mais de vinte anos quando Jesus o chamou; Ele e seu irmão Tiago estavam trabalhando com seu pai consertando as redes (Mt 4:21-22). Assumindo que João estava bem jovem na época do seu chamado, ele teria então pouco mais de 80 anos em AD 96.  No entanto, se o “tirano”, referido por Clemente foi Nero, então João não era tão idoso na época da morte do imperador romano. No fim da década de 60 ele poderia contar não mais que 56  anos de idade, o que não está de acordo com as declarações de Clemente que falam de João como um homem  velho ao ser liberto do exílio.

Que João viveu até depois do reinado de Domiciano também é mostrada por repetidas referências; Irineu lembra: “para seu próprio mentor, Policarpo, sendo discípulo de João…”. [Irineu, frag. ii].

João e  Policarpo

Policarpo nasceu no fim da década de 60 AD e morreu em aproximadamente 156 AD. Ele contava com pouco  mais de um ano quando Jerusalém foi destruída. Portanto, se ele foi tutelado por João, deve ter sido mais de  uma década após a destruição de Jerusalém, o que não seria possível se nos baseamos na cronologia preterista,  pois eles alegam que  João estava no exílio.  Em outras palavras, se João ficou quase quatro décadas na ilha de Patmos, do início de 60 até fins de 90 dC, como alega algumas facções do preterismo, quando foi que ele discipulou o jovem Policarpo?  O preterista apressado poderia contestar dizendo: obviamente João encontrou Policarpo depois de ser liberto do cativeiro romano.

Observe as notas abaixo,

“Nascido em uma família cristã por volta dos anos 70, na Ásia Menor (atual Turquia), Policarpo era discípulo do Apóstolo João. Em sua juventude costumava se sentar aos pés do Apóstolo do amor. Também teve a oportunidade de conhecer Ireneu, o mais importante erudito cristão do final do segundo século. Inácio de Antioquia, em seu trajeto para o martírio romano em 116, escreveu cartas para Policarpo e para a igreja de Esmirna”. Policarpo de Esmirna

O detalhe atesta,

“Quando em sua juventude Policarpo assentava-se aos pés do Apóstolo João…”

Quando tomamos por base a datação preterista do Apocalipse, descobrimos que não há possibilidade alguma para João  ter tutelado Policarpo antes de ser liberto do exílio. Obviamente, deve-se notar que, se João discipulou Policarpo pós exílio, isso só foi possível no fim do primeiro século, com Policarpo passando dos trinta anos de idade, não sendo mais tão jovem, o que é uma contradição, pois não está de acordo com o testemunho da história, o qual  afirma que sendo ainda um jovem, Policarpo assentava-se aos pés do Apóstolo.

Considerando que João foi enviado para a ilha de Patmos por causa da perseguição do imperador Domiciano em meados da década de 80 AD, podemos considerar que antes de sua prisão ele já havia encontrado o jovem hebreu, que estava, nessa época, entre seus 14-16 anos de idade. Era costume entre os judeus que aos  doze anos o adolescente fosse levado aos seus mestres – veja meu artigo: A Idade de João – do chamado até o Exílio. Portanto, quando João foi liberto de sua prisão no fim da década de 90 dC, ele já havia tutelado Policarpo. Provavelmente, e se foi ele mesmo quem nomeou Policarpo como bispo da Igreja em Esmirna, isso só ocorreu após sua libertação do exílio.

Atente para o texto que segue abaixo,

“Policarpo foi ordenado bispo de Esmirna pelo próprio João Evangelista. De caráter reto, de alto saber, amor a Igreja e fiel à ortodoxia da fé, era respeitado por todos no Oriente. Com a perseguição, o Santo bispo de 86 anos, escondeu-se até ser preso e assim foi levado para o governador, que pretendia convencê-lo de negar a Cristo. Policarpo, porém, proferiu estas palavras: Há oitenta e seis anos sirvo a Cristo e nenhum mal tenho recebido Dele. Como poderei negar Aquele a quem prestei culto e rejeitar o meu Salvador?” Policarpo de Esmirna

Policarpo viveu até ser martirizado em torno de 156 AD, com quase 90 anos de idade.

Consulte também o tópico A Igreja de Esmirna não existia em 60 AD