Por que João, e não Paulo?

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Os preteristas afirmam  que João foi exilado  na ilha de Patmos na década de 60, e ali recebeu as revelações do Apocalipse, redigindo cartas para as sete Igrejas da Ásia não mais tarde do que 63 dC. Seguindo essa cronologia preterista, deve-se concluir que  João redigiu estas pequenas epístolas enquanto o Apóstolo Paulo ainda estava vivo, o qual também escreveu para duas Igrejas, à Igreja de Éfeso e Laodicéia (Col 4:16).

Paulo era prisioneiro do império Romano em 60 dC, mesma área onde se encontravam as sete Igrejas  descritas em Apocalipse. Se ele escrevia para algumas dessas  Igrejas, por que Deus levantaria João para fazer o mesmo, escrever e enviar cartas  para congregações que estavam sob inspeção de Paulo?

A verdade pode ser outra; João não pôde ter tomado a responsabilidade sobre as Igrejas da Ásia Menor perto do fim da perseguição de Nero. Algumas delas foram plantadas principalmente por Paulo e estavam sob seu cuidado especial e inspeção pouquíssimos anos antes da destruição de Jerusalém. Ele costumava visitá-las, e depois de sua prisão ele escreveu cartas para algumas dessas igrejas com freqüência. Paulo mantinha uma comunicação constante com elas ainda, e em nenhuma de suas cartas, até o passado, nós encontramos qualquer menção de João ou qualquer referência a ele como residente nessas imediações, ou envolvido no ministério dessas congregações.

Foi provavelmente o martírio do apóstolo dos gentios,  e os perigos e distrações, que levou João a dar este passo importante e construir sua estrutura sobre as bases estabelecidas por Paulo. Após o martírio de Paulo, é provável que João foi chamado por boa parte das Igrejas para dar continuidade à sua obra. E devemos considerar também, que apesar dos erros gnósticos terem começado a mostrar-se no tempo de Paulo, eles só haviam sido organizados sob heresiarcas antes do fim do primeiro século. Por isso ouvimos dos nicolaítas, uma facção de gnósticos em duas das mensagens as Igrejas da Ásia (Ap 2:6,15). Perto do final do primeiro século, e não antes, os líderes gnósticos começaram o trabalho de mutilar os livros sagrados dos cristãos.

Estas  Igrejas estavam em uma condição muito diferente quando o Apocalipse foi escrito do que eram na época de Nero e de Paulo. A Igreja de Éfeso tinha “perdido o seu primeiro amor.” A Igreja de Esmirna tinha na sua comunhão aqueles que pertenciam à “sinagoga de Satanás”. A Igreja de Pérgamo abrigava não só os nicolaítas, mas aqueles que realizavam “a doutrina de Balaão, que ensinou Balaque a lançar tropeços diante dos filhos de Israel.” A Igreja de Tiatira tinha “a mulher Jezabel” que ensinava e seduzia seus membros a se prostituírem e a comerem das coisas sacrificadas aos ídolos. A Igreja de Sardes apenas deixou “alguns nomes” que não contaminaram as suas vestes, enquanto os membros da Igreja de Laodicéia tornaram-se tão mornos e ofensivos para Cristo, que Ele “estava a ponto de vomitá-los”.

Em suma, todas estas Igrejas caíram do estado que estavam quando Paulo escreveu suas epístolas para algumas delas. Isso exige um tempo consideravelmente longo para sua deserção. Se supomos que o Apocalipse foi escrito sob a perseguição de Nero, apenas alguns anos após a escrita das epístolas de Paulo, devemos considerar que algumas Igrejas nem ao menos sobreviveram em pé por três anos. Mas se o livro foi escrito 30 anos depois, na perseguição de Domiciano, o declínio pode ser explicado.

Por que não Paulo, mas sim João?

Se admitirmos que Apocalipse foi redigido antes da queda de Jerusalém, então, obviamente, as cartas endereçadas para as congregações da Ásia foram escritas na  época em que o Apóstolo Paulo ainda era vivo. Ou melhor: se Jerusalém foi destruída entre 68 e 70 dC, e, em sendo Apocalipse – segundo os preteristas – um Livro que trata da queda de Jerusalém, conclui-se  que João o fechou antes de 70 dC, o que nos permite estabelecer uma data   retroativa para a redação das sete cartas, algo entre 62 e 64, época em que Paulo ainda estava ativo no ministério da pregação e redação da Palavra, o que significa dizer que Paulo escrevia partes do Novo Testamento nessa ocasião.

Isso faz nascer a pergunta: Por que Jesus não elegeu Paulo para escrever as sete Igrejas, já que da prisão em Roma ele  teve toda liberdade possível na preparação e envio de algumas epístolas endereçadas a cristãos nominais e algumas congregações,  mas sim elegeu  João, com toda a dificuldade possível ao seu redor, exilado numa Ilha do mediterrâneo?

Insisto: Por que Deus não usou  Paulo para escrever as sete cartas, já que ele encontrava-se preso na região do império romano onde se localizavam as sete Igrejas?

A contradição é grave. Paulo não teve dificuldade alguma para redigir e enviar algumas cartas do seu cativeiro em Roma: Filêmon, Filipenses, Colossenses, Efésios, 1 e 2 Timóteo e Hebreus. Curiosamente ele encoraja os de Laodicéia a ler a carta enviada aos Colosensses (Col 4:16). Portanto, vemos duas cartas de Paulo para duas Igrejas que aparecem em Apocalipse, a de Éfeso e a de Laodicéia. Porque teriamos dois Apóstolos escrevendo as mesmas Igrejas na mesma época? O silêncio com relação a João  escrevendo cartas para as Igrejas da Ásia no início de 60 dC é enorme. Não há necessidade de palavras, ele pode ser sentido.

Seria mais simples desfazer todo esse engano preterista se aceitassem a verdade óbvia:  que na ocasião da redação das sete cartas, dos Apóstolos originais, apenas João permanecia com vida. Ele  foi levantado para despertar as Igrejas inauguradas por Paulo.

Uma Mina de trabalhos forçados

Patmos era uma mina de pedreiras pertencente ao Império Romano, e foi o lar de muitos presos políticos e religiosos ou escravos. João, o apóstolo amado, estava sendo mantido como prisioneiro de Roma nesta ilha por causa da sua pregação incessante sobre Jesus. Roma acreditava que banir o velho João para a ilha remota e abandonada silenciaria a sua voz. Ele foi ali exilado por que o imperador Domiciano ficou irritado com o fato de João não ter sido morto quando foi mergulhado em óleo fervente.

Aprendemos que nesta ilha João escreveu o Livro de Apocalipse registrando tudo que viu. Concernente às cartas redigidas para as Igrejas da Ásia, a situação fica mais delicada; considerando que estas epístolas deveriam chegar para todas as sete congregações antes da queda de Jerusalém precisamos visualizar João apressando-se no preparo da escrita. Podemos visualizar o Apóstolo acompanhado as revelações e visões que recebia seguindo dos registros em papiro –  ele deveria correr com estes  registros e correr mais ainda para tirar estas cartas da ilha fazendo-as chegar ao seu destino. Acredita o leitor que foi desta maneira? Leia meu artigo Onde João Estava?

O seguinte foi dito ao Apóstolo João: “o que vês, escreve-o num livro, e envia-o às sete igrejas que estão na Ásia” (Ap. 1:11). Esse versículo indica que o texto original escrito de Apocalipse foi enviado a cada uma das sete igrejas onde ele poderia ter sido copiado por um escriba. Quando a cópia era finalizada numa igreja, o original era enviado para a próxima igreja, até que todas as sete tivessem recebido e copiado o livro revelado. Quanto tempo levou isso tudo? Para os preteristas ocorreu em  tempo recorde; já que  João ficou na prisão – segundo eles – na década de 60, com Jerusalém  prevista para ser destruída dentro de poucos anos, devemos considerar que ele correu com os registros das suas visões depois de receber do Senhor o recado que deveria passar para as comunidades cristãs na Ásia menor.

O leitor consegue imaginar como alguém que foi preso nesta mina de pedras por causa do seu testemunho por Cristo, que foi enviado para aquela região justamente para ficar longe do público ouvinte do Evangelho, teve plena liberdade de redigir sete epístolas às Igrejas e ainda por cima ter alguém para tirá-las da ilha enviando-as para  comunidades cristãs distantes,  diretamente para as regiões onde se encontrava preso o Apostolo Paulo?

Interessante que se seguimos a cronologia preterista devemos admitir que os Efésios receberam duas cartas praticamente ao mesmo tempo, uma de Paulo onde ele os elogiava, dizendo: “… noutro tempo éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor” (Ef 5:8), e outra de João, lhes alertando para que voltassem ao primeiro amor, porque o Senhor estava prestes a remover brevemente o seu candeeiro (Apoc 2:1-5).

Temos aqui mais uma flagrante contradição. Um diz que a Igreja – agora, tempo presente da escrita – é Luz no Senhor, mas o outro alega que a luz vai ser removida. Observe que Paulo os elogia enquanto João os adverte sobre a  falta de amor. Ou seja: “ereis trevas, mas agora sois luz no Senhor”, não tem porque  receber de repente uma ameaça de apagão. Ninguém que é louvado por ser luz poderia ao mesmo tempo ser  ameaçado de ter seu candeeiro removido. Evidente que um escrevia para Éfeso na década de 60, mas o outro, João, lhes escrevia quase quatro décadas depois. Fica evidente que os dois Apóstolos redigiam seus registros em épocas distantes uma da outra, e que João foi brindado com as revelações por que era o último dos discípulos vivos.

João não estava em Patmos na década de 60 dC

O Apóstolo Paulo em várias ocasiões menciona suas cadeias, mas em nenhum momento lembra-se do discípulo amado   exilado numa ilha na mesma época que esteve preso em Roma.

Efe 3:1 –  POR esta causa eu, Paulo, sou o prisioneiro de Jesus Cristo por vós, os gentios.

2 Ti 1:8 –  Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, que sou prisioneiro seu; antes participa das aflições do evangelho segundo o poder de Deus.

Flm 1 –  PAULO, prisioneiro de Jesus Cristo, e o irmão Timóteo, ao amado Filemom, nosso cooperador.

Flm 9 –  Todavia peço-te antes por amor, sendo eu tal como sou, Paulo o velho, e também agora prisioneiro de Jesus Cristo.

Paulo  fala dos cristãos encarcerados, e isso já em 62 dC, oito anos apenas antes da destruição de Jerusalém.  Escrevendo aos hebreus, Paulo  os alerta para que se lembrem dos prisioneiros em Cristo, e nem mesmo menciona João, o encarcerado…

Heb 13:3 –  Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles, e dos maltratados, como sendo-o vós mesmos também no corpo.

Lucas nos brinda com detalhes importantíssimos sobre a prisão de Paulo, onde, quando e por que aconteceu. No entanto, nada foi dito sobre a prisão de João nesta época, que como coluna da Igreja em Jerusalém, se realmente estava em Patmos lá pelos idos de 60 e 70 dC, certamente teria sua situação anunciada por alguma testemunha ocular que viveu junto dos Apóstolos. Por exemplo, a prisão de João Batista foi conhecida de, praticamente, toda a Judeia. A prisão de Paulo ficou conhecida até dos que não faziam parte da Igreja, como também chegou ao conhecimento de muitos outros,

Fl 1:13 – De maneira que as minhas prisões em Cristo foram manifestas por toda a guarda pretoriana, e por todos os demais lugares.

Se é a prisão de Pedro, outra coluna da Igreja em Jerusalém, mobilizou cristãos a tal ponto deles se reunirem em oração pelo livramento do Apostolo (Atos 12:10-15).

E a Prisão de João, também coluna  da Igreja em Jerusalém?  Se João ficou mesmo recluso em Patmos nessa ocasião, certamente teriamos algum registro feito pelos escritores autorizados – eles eram muitos. Por exemplo, Paulo mesmo lembra aos leitores Colossenses até daqueles que estavam presos com ele.

Col 4:10 –  Aristarco, que está preso comigo, vos saúda, e Marcos, o sobrinho de Barnabé, acerca do qual já recebestes mandamentos; se ele for ter convosco, recebei-o.

Aliás, para desespero do catolicismo, Paulo nem mesmo menciona Pedro, o qual a tradição alega que esteve preso com ele em Roma, mas de um desconhecido chamado Aristarco ele não esqueceu…

Qual escritor neo testamentário deixaria de registrar o tão estupendo milagre de João sair ileso do óleo fervente e ser por isso exilado numa ilha deserta se tal  aconteceu antes da destruição de Jerusalém? Considerando que dez dos Apóstolos originais ainda viviam nessa ocasião, além dos escritores Paulo, Marcos e Lucas, também estarem vivos, fica simplesmente inexplicável  a falta de registros sobre o  exílio  de João, o discípulo amado de Jesus e uma das colunas da Igreja em Jerusalém.

A Deus toda glória