O Contexto histórico de Laodicéia

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O argumento da dogmática preterista afirma que a apostasia descrita em Apocalipse para a maioria das Igrejas ali apresentadas ocorreu antes da destruição de Jerusalém. Portanto, o que se deve concluir é que as sete cartas endereçadas as sete Igrejas foram escritas antes de, no máximo,  65 dC, pois a destruição de Jerusalém ocorreu em 70 dC.

Apocalipse 3:14-22 descreve a igreja de Laodicéia em meio a riqueza (v. 17). No entanto, essa não pode ser a visão de uma Igreja que existia antes de 70 dC. Em 61  um terremoto visitou a cidade de Laodicéia, que levou quase duas décadas para ser reconstruída. Tácito escreveu, “No mesmo ano, Laodicéia, uma das famosas cidades asiáticas, foi colocada em ruínas por um terremoto, mas se recuperou com recursos próprios, sem a ajuda de nós mesmos”, Annais  (14:27).  Esse terremoto foi em toda a cidade, e não se limita apenas a uma parte dela como supõem alguns preteristas, que atrapalhados em seus argumentos precisaram limitar o terremoto tentando salvar quase toda a região de Laodicéia apenas para dar significado a Igreja “existente”, a qual eles dizem que era rica e abastada antes de 70 dC. Ora, se o terremoto aconteceu apenas numa pequena parte da cidade,  afirmam, obviamente daria tempo de ela ser reconstruída antes da queda de Jerusalém e ainda alcançar o status de rica e abastada.

No entanto, a destruição foi tão extensa assim como foi a destruição de Jerusalém em 70 dC. A reconstrução da cidade de Laodicéia após o terremoto obviamente levou muito tempo, e os materiais de trabalho e de reconstrução não corriam na rapidez que correm hoje, fazendo que a recuperação levasse um tempo consideravelmente longo. Seria verdadeiramente notável se Laodicéia, independentemente, fosse reconstruída em apenas alguns poucos anos, de 61, quando ocorreu o terremoto, até a escrita de João, que segundo alguns preteristas data de 62/63 dC. Na verdade, “Quando o Apocalipse foi escrito, os esforços de reconstrução em Laodicéia estavam completos, pois a  igreja de Laodicéia é descrita como rica e abastada, de nada tendo falta. Essa não pode ser a descrição de uma Igreja que vivia entre ruínas.  Isso nos fornece uma informação segura, que nos permite estabelecer uma data posterior a 70 dC para a escrita  do Apocalipse.

O preterismo alega que as riquezas  mencionadas em Apocalipse 3:17 são espirituais, não riquezas materiais. Porém, no seguinte contexto em  3:18, Jesus faz alusão a indústria de Laodicéia que contribuiu para a sua riqueza material: ouro (Laodicéia era um centro bancário), colírio (Laodicéia comercializou e lucrou muito por fabricar  uma pomada usada para tratar doenças oftálmicas) e roupa branca (Laodicéia era um centro de produção de vestuário) . Essas alusões locais às fontes de riqueza material em Laodicéia indicam que a referência a riqueza da igreja era principalmente por sua riqueza  material,  que por sua vez criou um senso de auto-suficiência e complacência espiritual. A afluência material e a atitude autossuficiente correspondente da cultura tinham se infiltrado na igreja.

A evidência arqueológica em Laodicéia aponta para uma reconstrução  em quase vinte e cinco anos. A extensão dos danos causados em  Laodicéia com o terremoto de AD 61, e o período de tempo que levou para reconstruir a cidade, são provas convincentes de que a dataçao da escrita do Livro de Apocalipse só pode ser estabelecida para depois da destruição de Jerusalém.

A maioria das principais ruínas que sobrevivem hoje em Laodicéia são dos edifícios construídos durante o tempo do terremoto. O grande edifício público destruído no terremoto foi reconstruído em detrimento dos cidadãos e não foi terminado até cerca de 90 AD. A data de conclusão do estádio pode ser precisamente localizada em fins de 79 dC, e a inscrição em vários outros edifícios são datados do mesmo período.  A grande porta tripla (Syrian Gate) e as  torres não foram concluídas até 88-90 AD.

Desde que a reconstrução de Laodicéia após o terremoto ocupou  pouco mais de duas  décadas, é altamente problemático  reclamar para Igreja  o status de  rica, de nada tendo falta  dois anos após o terremoto (63-64), como quer o preterismo. Durante esses anos, a cidade estava nas fases iniciais de um programa de reconstrução que iria durar entre  15-25 anos. Se  o Apocalipse foi escrito em AD 95 a descrição de Laodicéia em  3: 14-22 caberia  muito bem. Por este tempo a cidade foi totalmente reconstruída com recursos próprios, aproveitando a prosperidade e prestígio e aquecendo-se  no orgulho das suas grandes realizações.” (1)

1 – The End Times Controversy, 148-49 – Harvest House Publishers, 2003.

É mais razoável concluir que muito mais tempo foi gasto na sua recuperação, como testifica Tácito. A verdade é que demorou décadas para que a cidade chegasse a um estado próspero, em primeiro lugar, ao ponto da Igreja ali considerar-se abastada, o que caracteriza um sentimento de superioridade por estar localizada numa megametrópole recuperada totalmente, que avança a passos largos para o desenvolvimento. A Igreja estava encravada dentro de uma cidade que era próspera na década de 90 dC, com uma grande produção de vestuário, serviços médicos e centro financeiro. E, como vamos ver,  foi nessa época que João escreveu a carta para Igreja de Laodicéia.

Colossenses e Apocalipse

Segundo os preteristas a Igreja dos laodicensses recebeu duas cartas na mesma ocasião, uma de Paulo através de Colossenses, e outra de João, que é apresentada no Livro de Apocalipse.

Paulo escreve uma carta para a Igreja de Colossos, a qual seria também de grande utilidade para a Igreja de Laodiceia. Col 4:16, “E, quando esta epístola tiver sido lida entre vós, fazei que também o seja na igreja dos laodicenses, e a que veio de Laodicéia lede-a vós também.”

Ou seja, a condição das duas Igrejas era a mesma: elas andavam em comunhão com o Senhor. Vejam  o que Paulo escreve a Igreja de Colossos/Laodicéia em 62/63 dC:

Colossenses 2

1  PORQUE quero que saibais quão grande combate tenho por vós, e pelos que estão em Laodicéia  e por quantos não viram o meu rosto em carne;

2  Para que os seus corações sejam consolados, e estejam unidos em amor, e enriquecidos da plenitude da inteligência, para conhecimento do mistério de Deus e Pai, e de Cristo,

5  Porque, ainda que esteja ausente quanto ao corpo, contudo, em espírito estou convosco, regozijando-me e vendo a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo.

Observem  como são  impressionantes  as palavras  dirigidas a Laodicéia:

“… em espírito estou convosco, regozijando-me e vendo a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo”.

Parecem eles miseráveis, pobres e cegos e nús?

Como poderia uma Igreja,  elogiada por Paulo na carta aos Colossenses em 62 dC, que a descreve como um grupo ativo, não ser nem cumprimentada pelo Senhor em Apocalipse (3:14-22), que a chamou de “…miserável, e pobre, e cego, e nu…?”, v: 17. Se Paulo e João escreviam em 62 dC – Colossenses e Apocalipse – como poderiam os preteristas explicar que um deles, em Colossenses, elogia a Igreja de Laodicéia como um grupo de cristãos em comunhão com o Senhor, mas o próprio Jesus através de João diz a mesma Igreja:  “… vomitar-te-ei da minha boca?”, Apo 3:16.

Outra vez: Paulo elogia a Igreja de Laodicéia como um grupo de cristãos em comunhão com o Senhor.  Se a carta escrita à mesma Igreja por João em Apocalipse pode ser localizada na mesma época (os preteristas afirmam que sim) , então fica  impossível  conciliar a apostasia descrita  ali  com a ordem  e comunhão registradas por Paulo.

Laodicéia é repreendida pelo Senhor Jesus por ser morna, provocando-lhe náuseas, ao ponto de o Mestre dizer que a vomitaria de sua boca. Certamente essa apostasia descrita em Apocalipse ocorreu décadas depois do elogio de Paulo. Seria necessário um longo período de tempo  para que esta condição repugnante pudesse  se desenvolver. Tão repugnante que o Senhor chama a Igreja de “miserável, pobre, cego e nú”. A forte repulsa do Senhor, no estado da igreja de Laodicéia, certamente torna-se mais inteligível após um intervalo considerável de tempo para a apostasia. Parece evidente que as duas cartas não poderiam jamais terem sido enviadas para a Igreja de Laodicéia na mesma época, pois uma epístola a louva, enquanto a outra diz que nela não há nada louvável.

Percebam que o problema não é nada pequeno; a escola preterista,  munida de todos os recursos tentando negar a redação do Livro de Apocalipse para depois de 70 dC, foi obrigada a estabelecer a escrita antes dessa data, precisando também recuar até o inicio da década de 60 com o exílio de João em Patmos. A situação é extremamente embaraçosa, pois é necessário datar a redação das epístolas às sete Igrejas não mais tarde que 64 dC. As coisas se embolam de uma forma tão inexplicável, se seguirmos a cronologia preterista, que fica praticamente impossível acumular todo esse trabalho em torno de João – receber as revelações, o preparo na escrita e, o mais difícil, o envio das cartas para fora da ilha – tudo isso antes de iniciar  o cerco sobre Jerusalém.

No fim das contas as cartas de João se sobrepõem as de Paulo!

A realidade pode ser  outra: Paulo escrevia a Laodicéia da prisão em Roma na década de 60, mas João escrevia quase uma geração mais tarde. Portanto, somente um intervalo de tempo muito mais longo é que pode explicar a apostasia da Igreja em Laodicéia.

A Igreja elogiada por Paulo em 62, simples e pequena, não pode ser a mesma Igreja rica e abastada descrita em Apocalipse 3:17. Note que o Apóstolo Paulo  fala de uma congregação que ainda se reunia numa casa: “Saudai os irmãos de Laodicéia e Ninfas, bem como a Igreja que se reúne em sua casa”, Col 4:15. Digno de observação é que Paulo endereça a saudação para a Igreja de Laodicéia, e essa Igreja se reunia na casa de Ninfa.

O significado de “Ninfa”  é simplesmente um nome de pessoa – do sexo feminino. Na casa dessa mulher existia uma comunidade, uma “igreja doméstica” que ali se reunia. Não temos outras informações sobre ela. Quanto ao vocábulo ‘ninfa’, a sua origem é o grego antigo e significa “moça”. Não foi para essa pequena congregação que João escreveu sua carta de advertência – de forma alguma podemos conciliar as palavras “… és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu …” e “… vomitar-te-ei da minha boca” como tendo sido dirigidas a essa mulher chamada Ninfa e a Igreja que se reunia na casa dela, muito provavelmente a única Igreja em Laodicéia quando Paulo lhes escreveu em 62 dC.

A Igreja repreendida por João era outra, a de quase três décadas depois, que se declarava como quem não tem falta de nada pelo simples fato de se ver envolta ao luxo e desenvolvimento material, refletidos pela cidade reconstruída, que resgata seu status de cidade rica. Laodicéia estava reivindicando uma riqueza espiritual igual a sua riqueza material, o que para o Senhor não servia. Ele é enfático:

Apo 3:17 – Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu.

Essa não pode ser de forma alguma a mesma Igreja que Paulo elogiou na carta aos colossenses quando lhes escrevia de Roma por volta do ano 62. Essa igreja é uma igreja que apostatou da fé, a qual foi alertada por João – quase uma geração depois – que o Senhor Jesus estava prestes a vomitá-la da sua boca.