Contradições do Preterismo III

Embora as gerações anteriores de intérpretes dispensacionalistas possam ter desfrutado da interpretação generalizada de que o Livro do Apocalipse se refere principalmente a eventos futuros, essa “era de ouro”, para muitos, já chegou ao fim. Hoje, um número considerável de comentaristas acadêmicos e populares estão desafiando agressivamente a interpretação futurista do Apocalipse – o principal deles é o Preterismo, que afirma que a seção futurista do livro foi cumprida principalmente nos eventos que cercaram a queda de Jerusalém em 70 dC.

O preterismo é, na verdade, muito semelhante a um ensinamento antibíblico que estava circulando na igreja primitiva. Paulo escreveu em 2 Timóteo 2: 17-18: “… entre eles estão Himeneu e Fileto, homens que se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição [um evento futuro]  já se realizou e, assim, perturbaram a fé de alguns”.

No primeiro século, nos diz Paulo, havia dois homens, Himeneu e Fileto, que estavam confundindo as pessoas na igreja porque estavam falando sobre um evento futuro como se já tivesse acontecido. Podemos chamar esses dois homens de primeiros preteristas. Mas eles não foram os únicos a fazer isso. Volte dois livros, vá direto para 2 Tessalonicenses 2. Paulo menciona esse tipo de problema novamente para os crentes em Tessalônica: “ORA, irmãos, rogamo-vos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, e pela nossa reunião com ele, que não vos movais facilmente do vosso entendimento, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como de nós, como se o dia de Cristo estivesse já perto. Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição”, vv 1-3.

Então, havia aqueles que estavam vivendo no  primeiro século  falando de eventos futuros (a tribulação, a ressurreição e assim por diante) como se eles já tivessem ocorrido. E isso é precisamente o que os preteristas estão fazendo hoje. E o resultado de hoje é o mesmo que no primeiro século: “eles perturbam a fé de alguns” (2 Timóteo 2:18). Outros ouvintes estão tendo sua fé “abalada” ou “perturbada” (2 Tessalonicenses 2: 2).

No entanto, o preterista escapa ao significado normal da linguagem ao assumir que no Apocalipse o simbolismo é a regra e o literalismo é a exceção. Esta categorização funciona como um tipo de “sair da prisão a qualquer custo”. Sempre que os detalhes do texto de Apocalipse não se encaixam nos eventos de 70 dC, a suposição apocalíptica permite que o preterista teorize que João está apenas empregando hipérbole apocalíptica elevada. Esse dispositivo permite que o preterista posicione o conteúdo do Livro de volta ao primeiro século, independentemente da linguagem global do texto.

Os preteristas acreditam que eles têm a licença literária para localizar o cumprimento da maioria das profecias de João em 70 dC. Porém, o que eles ignoram é fatal: O Livro de Apocalipse é um “documento vivo que ainda respira”. Portanto, a evidência preterista está longe da realidade protética de Apocalipse. Nenhum outro ponto de vista é possível, no seu conjunto, além de uma data no tempo de Domiciano – AD 90-95 – que é a melhor que se adapta aos fatos.

As Contradições do Preterismo não tem fim …

1) Todo o olho o Verá

Os intérpretes preteristas enfocam a ênfase temática de Apocalipse 1: 7 como evidência interna para datar o Livro.  Existe um acordo quase universal entre os preteristas de que Apocalipse 1: 7 é um dos versos que comprovam que Apocalipse foi redigido antes da destruição de Jerusalém em 70 dC. Ali se refere a Jesus “que vem com as nuvens, e todo o olho o verá, até os mesmos que o traspassaram; e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Sim. Amém”.

Um dos disseminadores do preterismo atual, Kenetty Gentry, afirma que este versículo, quando faz referencia à “nuvem que vem”, “fala de Cristo vindo em 70 dC em juízo sobre Israel através do exército romano, o instrumento desse julgamento”. Assim, para os preteristas, Apocalipse 1: 7 refere-se ao evento local em 70 dC, e não um evento global em conjunto com a Segunda Vinda de Cristo. Além disso, eles também defendem sua visão de Cristo “vindo nas nuvens”, observando que Deus “veio” contra o Egito em julgamento “montado sobre uma nuvem veloz” (Is 19: 1). Entretanto, a diferença entre esses dois textos é que Apocalipse 1: 7 diz especificamente que quando Ele vem “todo olho o verá”. Isto denota uma vinda pessoal, visível, não uma vinda em julgamento por meio do exército romano em 70 dC.

A noção preterista de uma “vinda nas nuvens”, de Cristo, no julgamento em 70 dC, é derivada de Mateus 24:30.  Os preteristas alegam que essa “vinda” não lida adequadamente com a promessa de Cristo, de sua Vinda em Glória para resgatar seu povo.  De acordo com eles, a menção repetida da vinda de Cristo em Apocalipse é uma referência ao julgamento em 70 dC sobre a geração de judeus que o crucificaram.

No entanto, em Apocalipse 3: 10-11, Jesus dirigiu essas palavras para a igreja de Filadélfia em relação à sua vinda. “Como guardaste a palavra da minha paciência, também eu te guardarei da hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo, para tentar os que habitam na terra. Eis que venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa”.

É preciso perguntar aos preteristas, em que sentido a alegada “vinda” de Cristo em 70 dC trouxe libertação para a igreja perseguida? A visão preterista do tema do Apocalipse parece incapaz de responder adequadamente a esta pergunta já que eles usam essa passagem para indicar a Vinda em Julgamento sobre Jerusalém em 70 dC. Não sabem responder por que Jesus prometeu livramento da guerra entre judeus e romanos para uma igreja que ficava distante da área de combate. O que um julgamento localizado a centenas de quilômetros de distância tem a ver com as sete igrejas da Ásia? A promessa de proteger a igreja de Filadélfia do julgamento não tem sentido se esse julgamento ocorreu muito além das fronteiras daquela cidade.

Os preteristas tentam superar este problema de relevância, apelando aos inimigos locais aproveitando o sentimento anticristão geral inaugurado pela perseguição romana do imperador, bem como as “réplicas” da destruição de Jerusalém. No entanto, essas soluções são insatisfatórias, uma vez que não conseguem conectar a situação das igrejas com os eventos de 70 dC. Também sem mérito é a noção de que a destruição de Jerusalém era relevante para as igrejas. Na verdade elas ficaram livres, pois qualquer tendência a gravitar de volta aos costumes judaicos foi enfraquecida.

No entanto, o principal detalhe, comprometedor e problemático para os preteristas, está nas palavras “todo o olho o verá”, que universalizam ainda mais os fatos narrados provando que não se trata dos eventos localizados de 70 dC. No contexto, não é lógico ver as palavras “todos os olhos” como uma referência limitada aos habitantes de Israel. Se o grupo maior de “todos os olhos” é uma referência à nação judaica, então não faz sentido que o grupo menor, “mesmo aqueles que o traspassaram”, seja uma referência às mesmas pessoas, como afirmam os preteristas.

A leitura da passagem seria a seguinte: “todo olho [Israel] o verá, mesmo aqueles que o transpassaram [Israel]”.  Não haveria necessidade de ter um subgrupo se ambos, “todos os olhos”, e “mesmo aqueles que o traspassaram”, significassem o mesmo grupo. Se “todos os olhos” se referem a todos os povos do mundo como um grupo maior, a frase de qualificação, “mesmo aqueles que o traspassaram”, estaria enfatizando o elemento judeu como subgrupo menor. Assim, não é surpreendente que praticamente todos, exceto os preteristas, interpretem essa parte da passagem em um sentido global. É óbvio, que o viés, não o significado claro do texto, é a única razão pela qual os preteristas interpretam esta parte da passagem de forma restrita.

2) O Exército de 200 milhões

Apocalipse 9:13-17, diz: “E tocou o sexto anjo a sua trombeta, e ouvi uma voz que vinha das quatro pontas do altar de ouro, que estava diante de Deus, a qual dizia ao sexto anjo, que tinha a trombeta: Solta os quatro anjos, que estão presos junto ao grande rio Eufrates. E foram soltos os quatro anjos, que estavam preparados para a hora, e dia, e mês, e ano, a fim de matarem a terça parte dos homens. E o número dos exércitos dos cavaleiros era de duzentos milhões; e ouvi o número deles. E assim vi os cavalos nesta visão; e os que sobre eles cavalgavam tinham couraças de fogo, e de jacinto, e de enxofre; e as cabeças dos cavalos eram como cabeças de leões; e de suas bocas saía fogo e fumaça e enxofre”.

João escreve que 200 milhões de tropas montadas acompanham os quatro anjos lançados no Eufrates. O número é tão grande que ele “ouviu seu número”. Ninguém pode contar, mesmo que alguns manuscritos antigos leem que as tropas sejam apenas 100 milhões. No grego, este número é expresso como “duas miríades de miríades”, ou duas vezes 10.000 vezes 10.000. Provavelmente isso é usado em um sentido geral para descrever uma força de invasão excepcionalmente grande com uma missão singular: matar um terço dos habitantes da Terra. Considera-se que os cavaleiros estão usando peçonhas de vermelho ardente, azul de jacinto e amarelo de enxofre. João é bastante específico sobre as cores, que parecem corresponder com o fogo, fumaça e enxofre que vêm da boca dos cavalos. Alguns comentaristas, principalmente os preteristas, veem esses cavaleiros como os romanos e seus aliados, que destroem Jerusalém na guerra de 66 a 70.

Note que João coloca a maior ênfase, não nos soldados, mas nos cavalos, que têm cabeças como leões; bocas que respiram fogo, fumaça e enxofre; e caudas com cabeças, como cobras, que infligem ferimentos. Alguns não aceitam isso literalmente. Porém, os preteristas veem essa visão como descrevendo a coragem, o poder e a brutalidade dos romanos e seus confederados na guerra judaica do primeiro século. Ainda outros acreditam que esta é uma visão do futuro, as ferramentas mecanizadas de guerra – tanques, helicópteros e mísseis. No final, os cavalos e seus pilotos conseguem matar um terço da raça humana. E se alguém interpreta isso como morte física, ou morte política, social, religiosa ou espiritual, o dano é generalizado e devastador.

Os preteristas também argumentam que esta invasão é o cumprimento específico das 70 semanas de Daniel e a predição de Jesus, que disse: “Mas, quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação…   Em verdade vos digo que não passará esta geração até que tudo aconteça”, Lucas 21:20, 32.

Considerando que os preteristas ensinam que o Livro de Apocalipse é um manual da guerra entre Jerusalém e Roma, necessário será questioná-los sobre o exército de 200 milhões de soldados. De onde saiu um número tão grande se a população do mundo naquele tempo não alcançava a cifra de 190 milhões de habitantes e a população de Roma não chegava a quatro milhões de pessoas?

O exército de 200 milhões de homens de Apocalipse 9: 13-21 se prepara para uma guerra que matará um terço das pessoas do planeta, que para a escola preterista teria que ser um terço da população de Jerusalém. Isso jamais poderia ter acontecido em 70 dC, pois não está de acordo com o número real de habitantes em Jerusalém naquela época. Não há como conciliar essa cifra com o número de mortos descritos por Joseto, que alcançou 1 milhão e 100 mil  judeus. Se morreram um milhão de judeus, então não há como perfazer um terço da população de Jerusalém. Jerusalém não alcançava a cifra nem de 3 milhões de habitantes em 70 dC.

Essa guerra que emana do rio Eufrates matará um terço da humanidade e terá 200 milhões de soldados envolvidos. Nunca houve uma guerra dessa magnitude em toda a história humana. O mais próximo que chegamos foi a Segunda Guerra Mundial, onde encontramos uma estimativa de 80 a 90 milhões de soldados envolvidos, e cerca de 50 milhões de pessoas mortas. Para colocar isso em perspectiva, se um terço do planeta fosse morrer hoje, seria 2,3 bilhões de pessoas, ou cinquenta e uma vezes o número de mortes estimadas da Segunda Guerra Mundial. Com certeza, essa vai ser uma guerra diferente de qualquer coisa que o mundo já tenha visto.

Não aconteceu em 70 dC, e também não aconteceu em lugar nenhum deste planeta até o presente momento. Um exército de 200 milhões de homens jamais poderia ter sido reunido nos dias que antecederam a guerra judaica entre Roma e Jerusalém.

3) Breve, rápido, próximo, sem demora …

O argumento mais confiado pelos preteristas para lidar com os eventos narrados em Apocalipse como eventos do primeiro século são os chamados “textos do tempo”. Pelo fato de Apocalipse fazer uso de palavras como “em breve” ou “rapidamente”, quando apresenta as narrativas proféticas, o preterista alega que tudo deveria acontecer antes da destruição de Jerusalém, já que eles entendem que grande parte do Livro de Apocalipse trata de profecias sobre a invasão da cidade santa pelo do exército romano em 70 dC.

Aqui estão os versículos mais usados por eles:

REVELAÇÃO de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu, para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou, e as notificou a João seu servo”, Ap 1:1.

Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo”, Ap 1:3.

Arrepende-te, pois, quando não em breve virei a ti, e contra eles batalharei com a espada da minha boca”, Ap 2:16.

Eis que venho sem demora; guarda o que tens, para que ninguém tome a tua coroa”, Ap 3:11.

Os preteristas acreditam que têm a licença literária para localizar o cumprimento da maioria das profecias de João para 70 dC.  No entanto, eles erram em assumir que essas palavras são expressões técnicas que sempre têm a mesma definição quando são usadas, que são declarações que servem para todo o conteúdo profético do Apocalipse. Ou seja, qualquer significado que se dê a esses termos do tempo deve ser aplicado a todos os eventos no livro.

Apocalipse 1: 3 e 22:10 encerram toda a profecia do Apocalipse. Veja o tamanho do problema preterista:

No inicio do Livro: “Bem-aventurado aquele que lê, e os que ouvem as palavras desta profecia, e guardam as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo”.

No fim do Livro: “E disse-me: Não seles as palavras da profecia deste livro; porque o tempo está próximo”.

O cumprimento de tudo, e não apenas uma parte, está próximo. Assim, a interpretação preterista desses termos do tempo exigiria um cumprimento do apocalipse total em 70 dC, incluindo 20: 7-22 e o capítulo 21, que os preteristas parciais interpretam como se referindo a eventos escatológicos. Seu próprio argumento aqui funciona contra eles. Um critico do preterismo, Thomas Ice, observa essa contradição:

“Apocalipse 22: 6 é a passagem nº 6 na lista de “indicadores de tempo” de Gary DeMar, teólogo preterista: “E disse-me: Estas palavras são fiéis e verdadeiras; e o Senhor, o Deus dos santos profetas, enviou o seu anjo, para mostrar aos seus servos as coisas que em breve hão de acontecer”.

Em contraste, Gentry, (citado mais acima), vê Apocalipse 20: 7-9 como referência para uma segunda vinda ainda futura. Isso cria uma contradição na marca do preterismo dele mesmo. Uma vez que Apocalipse 22: 6 refere-se a todo o livro, seria impossível levar “em breve” como referência a 70 dC (como faz Gentry) e ao mesmo tempo admitir que Apocalipse 20: 7-9 ensina a segunda vinda. Gentry deve adotar uma visão semelhante ao futurismo ou mudar para a visão preterista extrema que entende todo o livro do Apocalipse como história passada e, assim, eliminar qualquer futuro segundo retorno e ressurreição.”

Portanto, uma interpretação consistente desses termos do tempo exige uma abordagem futurista ou preterista completa para o Apocalipse. E como o preterismo completo ou radical nega uma segunda vinda literal de Cristo e a futura ressurreição corporal, a visão está fora da ortodoxia e não é uma opção legítima. Assim, é preciso adotar o futurismo como a única opção credível e consistente. Em suma, a inconsistência da abordagem preterista parcial aos textos temporários também deve ser recusada.

Os problemas interpretativos criados pelo fato de que esses “textos do tempo” em Apocalipse são encontrados no final do Livro (Ap 22: 6, 7, 10, 12, 20) não podem ser ignorados pelos preteristas, que ainda querem manter a crença num futuro julgamento corporal e final (Ap 20: 7-15). O uso de frases como “coisas que em breve hão de acontecer” (v 6), “próximo está o tempo” (v 10), “eis que cedo venho” (v 12) e “Certamente cedo venho” (v 20) em Apocalipse 22 é prejudicial ao sistema preterista parcial, porque a existência dessas palavras no final do livro logicamente leva à conclusão de que todo o livro foi cumprido em 70 dC, em vez de apenas a maior parte.

Na verdade, não se pode estabelecer um começo para todos os eventos no Apocalipse imediatamente após sua escrita. Por exemplo, em que sentido a libertação final de Satanás (Ap 20: 7-9) e o julgamento final (Apocalipse 20: 11-15) e o tempo em que “não há mais mais  morte… luto, choro ou dor” (Apo 21: 4)  começaram logo após o Livro ter sido composto? A falha desta visão dos textos temporários para explicar todos os eventos no Apocalipse dentro de uma proximidade cronológica torna inválida a visão preterista.

Outro problema enorme para os preteristas é que o Apocalipse é descrito como uma profecia em 1: 3 e 22:7. No entanto, se Apocalipse foi escrito entre 64-66 dC e Apocalipse 1:1 e 20: 6 falavam dos acontecimentos para cumprir-se “em breve” nos eventos de 64-70, como mantêm os preteristas parciais, então a maior parte do livro já estava cumprida antes da maioria dos cristãos ouvirem ou mesmo ler seu conteúdo. Em outras palavras, no momento em que o livro foi escrito por João em Patmos – copiado e carregado pelos mensageiros das sete igrejas, e depois recopiado e amplamente divulgado, os eventos profetizados, a maioria deles, sem dúvida, já teriam ocorrido.

A poderosa mensagem profética do Apocalipse teria sido um grande anticlímax. No momento em que a maioria das pessoas ouviram e leram a mensagem do livro, os eventos “em breve” de 64-70 dC já haviam ocorrido, e o livro teve uma das vidas mais curtas de qualquer livro na história. Mas, se esta interpretação dos textos temporários é inválida, como eles devem ser entendidos?

Veja a resposta no meu artigo “Por que o tempo está Próximo

4) O Tirano

Outro argumento que os preteristas usam para apoiar a sua afirmação de uma data pré AD 70 para o Apocalipse é alegando que o responsável por exilar João foi chamado de tirano por Clemente de Alexandria. Como Nero foi intitulado de tirano por alguns poucos historiadores, então os Preteristas alegam que somente em Nero pode se encaixar a descrição de Clemente:

“…  quando da morte do tirano, ele [João] retornou a Éfeso da ilha de Patmos…” [Clemente, Quem é o homem rico que será salvo, XLII].

Clemente também poderia ter se referido a Domiciano. De acordo com Lactantius, um cristão primitivo e historiador (240-320), Domiciano também era um tirano. Lactantius disse: “Depois de um intervalo de alguns anos da morte de Nero, levantou-se outro tirano [Domiciano], não menos perverso, embora seu governo fosse extremamente odioso, que por um tempo muito longo oprimiu seus súditos, e reinou em segurança, até que finalmente ele estendeu as mãos ímpias contra o Senhor. Tendo sido instigado por demônios para perseguir o povo justo, ele foi, então, entregue nas mãos dos seus inimigos, e sofreu a devida punição” (Discurso aos Donatus, Cap 3).

Além disso, a perspectiva do preterista sobre a menção da morte do tirano registrada por Clemente tem vista para a descrição de Clemente para a idade de João. Um escritor observou: “A expressão a morte do tirano só pode se referir à morte de Nero ou Domiciano, os únicos dois tiranos que governaram no primeiro século. Eusébio relatou que após a morte de Domiciano, o senado romano votou para liberar os exilados por Domiciano. Esta parece uma declaração paralela a de Clemente. No entanto, a declaração [de Clemente] poderia se referir a Nero, exceto por um fato. Na história que Clemente registra João era um homem muito velho e fraco”.

Clemente de Alexandria (AD 150-220) contou uma história sobre João logo após seu retorno do exílio. Ele narra sobre um jovem que foi convertido pela pregação do Apóstolo, mas também deixa um valioso documento sobre os dias de João em Patmos. A história é sobre um jovem convertido que João havia confiado a certo ancião para discípulo na fé. O homem tinha sido anteriormente um ladrão e salteador. O registro diz o seguinte:

“… Ao retornar do exílio em Patmos, ele ouviu que o jovem havia retornado para sua vida antiga de crime. Ao ouvir isso, ele repreendeu fortemente o mais velho em cuja guarda ele havia deixado. João partiu imediatamente para o lugar onde este ladrão e seu bando se escondiam. Ao chegar ao local, ele foi agredido pelo bando de ladrões. Ele exigiu deles para levá-lo ao seu líder. Eles trouxeram João ao homem que João havia anteriormente conquistado para Cristo, e deixado sob a custódia do mais velho. Quando o jovem viu João se aproximando, ele começou a fugir. João começou a correr atrás dele, pedindo: “Por que, meu filho fugir de mim, teu pai, desarmado e velho? Filho tenha pena de mim. Não temas, tens ainda a esperança de vida. Vou dar conta de Cristo por ti. Se for necessário, eu vou de bom grado suportar tua morte, como fez o Senhor na morte por nós. Por ti vou entregar minha vida… João explicou-lhe que o perdão e a restauração era ainda possível…” [Clemente, Quem é o homem rico que será salvo, XLII].

Por volta de AD 270, Vitorino, no décimo capítulo de seu comentário sobre o Apocalipse de João, escreveu: “… João estava na ilha de Patmos, condenado ao trabalho das minas… ele viu o Apocalipse, e quando envelheceu, ele pensou que ele deveria finalmente receber sua quitação pelo sofrimento… foi liberto das minas…”. [Vitorino, Comentário sobre o Apocalipse, XI].

No entanto, o testemunho mais curioso, interessante e esclarecedor é o do historiador da igreja Eusébio de Cesaréia, ou Eusébio Panfilio. Eusébio nasceu em 260 e morreu antes de 341. Bispo de Cesaréia na Palestina, ele é conhecido como o “Pai da História da Igreja.” No capítulo 18, livro 3 de sua História da Igreja, ele registra:

“… nesta perseguição a João, apóstolo e evangelista, que ainda estava vivo… foi condenado a habitar na ilha de Patmos em consequência de seu testemunho à palavra divina”.

Observe que Eusébio diz que João, ao ser exilado, “ainda estava vivo”. O pequeno detalhe revela que ele localiza o evento após a destruição de Jerusalém, pois indica que João não era mais um jovem. Ele revela por entrelinhas que todos os outros apóstolos já estavam mortos, e que, de vivo, apenas João permanecia.

Obviamente Eusébio não fez um registro de fatos ocorridos no inicio da década de 60 AD como ensina o preterismo. Fica totalmente sem sentido um escritor fazer referência a um Apóstolo que estava nos seus 50 anos de idade e dizer que “ele ainda estava vivo” e, mais sem sentido ainda, registrar tal fato numa época em que todos os outros Apóstolos também estavam vivos, com exceção de Tiago, irmão de João, que foi morto por Herodes.

A partir do testemunho desses pais patrísticos descobrimos que após a libertação do exílio de João em Patmos ele era um homem avançado em idade. Assumindo que João estava bem jovem na época do seu chamado (menos que 20 anos de idade), ele teria então pouco mais de 80 anos em AD 96.  No entanto, se o “tirano” referido por Clemente foi Nero, então João não era tão idoso na época da morte do imperador romano. No fim da década de 60, segundo alguns cálculos feitos através de pistas deixadas nos registros das Escrituras, ele não havia ainda alcançado seus 58 anos de idade, o que não está de acordo com as declarações de Clemente e Vitorino que falam de João como um homem velho ao ser liberto do exílio.

No entanto, de acordo com os preteristas João saiu da Ilha de Patmos – já idoso – em 69 ou 70 dC. Isso transforma João num discípulo de mais de 40 anos quando Jesus o chamou entre os doze. Eis ai uma verdadeira perversão interpretativa da história de João que faz dele um ancião em 70 dC se tomamos por base a cronologia dos preteristas e encaixarmos nela os testemunhos dos pais da Igreja:

a) Eusébio, dentro da cronologia preterista, em 62 dC, declara: “… nesta perseguição… João, apóstolo e evangelista, que ainda estava vivo… foi condenado a habitar na ilha de Patmos…”.

b) Vitorino, registrando o que ocorreu imediatamente após a morte de Nero (?) em 68 dC: “ele viu o Apocalipse, e quando envelheceu… foi liberto das minas”.

c) Clemente fala de um tempo imediatamete após a libertação do exílio (70-71 dC?), “… Por que meu filho fugir de mim, teu pai, desarmado e velho?”

Muito fácil perceber as anomalias. Supostamente em 62 dC (com todos os apótolos vivos) Eusébio fala de João que “AINDA estava vivo… foi preso em Patmos”. Vitorino, também diz, supostamente em 70-71 dC, que João “… envelheceu… foi liberto das minas”. E por fim, supostamente quase na mesma época, Clemente registra uma fala do próprio João: “Filho, não fujas de mim, teu pai, desarmado e velho”. Tudo isso, segundo o preterismo, aconteceu entre 62 e 71 dC. Se João foi liberto depois da morte do Tirano, que eles entendem ter sido Nero, então ele, obrigatóriamente, foi liberto não mais tarde que 71 dC.

Conclusão preterista: João era um ancião quando saiu do exílio. O preterismo merece um Oscar – João foi discípulo de Jesus sendo mais velho do que seu próprio mestre! Pela cronologia preterista João estava alcançando seus 45 anos quando foi chamado pelo Senhor!

Para solucionar o problema basta apenas repetir tudo outra vez com algumas pequeníssimas mudanças – repare o negrito itálico e veja a realidade dos fatos:

  • Eusébio falando do inicio do exílio, que ocorreu aproximadamente em 83 dC, atesta: “… nesta perseguição… João, apóstolo e evangelista, que ainda estava vivo… foi condenado a habitar na ilha de Patmos em conseqüência de seu testemunho à palavra divina”.
  • Vitorino registrando o que ocorreu anos depois, em fins de 95 e inicio de 96, diz: “ele viu o Apocalipse, e quando envelheceu… foi liberto das minas”.
  • Clemente cita uma fala de João já fora do exílio depois de 96 dC: “… Por que meu filho fugir de mim, teu pai, desarmado e velho?”.

Na verdade, se o apóstolo João escreveu Apocalipse por volta de 95 e 96 dC – o que é fato – obviamente ele andou ao lado de Jesus quando era muito jovem, mas muito jovem mesmo para ter vivido tanto. Todas as coisas são possíveis para Deus, mas devemos lembrar que João estava vivendo em um mundo onde a expectativa de vida não era como nos dias de hoje. Devemos também levar em conta que muitos dos apóstolos ainda estavam vivos quando Paulo completava suas epístolas nos anos 60 dC. É muito mais provável que os discípulos estivessem entre seus 40 anos – ou pouco mais – nessa época, não idosos.

A idade avançada de João deve significar que foi Domiciano quem o condenou para Patmos, não Nero. Apocalipse foi escrito após a destruiçao de Jerusalém!

5) Comando para fugir de Babilônia

Sai dela povo meu para não incorrer nas pragas que virão sobre ela“, Apocalipse 18: 4.

O Preterista afirma que aqui Deus comanda seu povo para fugir de Jerusalém alguns anos antes da sua destruição em 70 dC. O problema é que o aviso para sair de Jerusalém parece ter vindo de outra fonte, como registrado por Eusébio em sua História Eclesiástica 3.5.3:

“E não apenas eles. Também o povo da igreja de Jerusalém, por seguir um ORÁCULO ENVIADO POR RVELAÇÃO aos notáveis do lugar, receberam a ordem de mudar de cidade ANTES DA GUERRA e habitar certa cidade da Peréia chamada Pella. Tendo os que creram em Cristo emigrado até lá desde Jerusalém, a partir deste momento, como se todos os homens santos tivessem abandonado por completo a própria metrópole real dos judeus e toda a região da Judéia, a justiça divina alcançou os judeus pelas iniquidades que cometeram contra Cristo e seus apóstolos, e apagou dentre os homens toda aquela geração de ímpios”.

Outro problema para o preterista é que eles acreditam que o livro de Apocalipse foi escrito entre 64-66 dC (É o que diz o Príncipe do Preterismo Kenneth L. Gentry em A Besta do Apocalipse (Powder Springs, GA: American Vision, 2002, 245) e representa eventos proféticos que foram principalmente cumpridos na Guerra Judaica de AD 66-70.

Fica totalmente impossível conciliar a cronologia preterista com a cronologia apresentada em Apocalipse. A data de inicio indicada pelo preterismo está muito perto do inicio da guerra: “A crescente indignação estourou em franca revolta no meio de 66 dC”. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Primeira_guerra_judaico-romana)

O motivo dessa dificuldade cronológica é que Eusébio indica que o voo da igreja para Pella ocorreu bem antes do início da guerra, em 62 dC, ou quatro anos antes da Guerra Judaica começar. Certamente muito antes do inicio da redação do Livro de Apocalipse na datação do preterismo. Note como o historiador da igreja Philip Schaff explica o comentário de Eusébio sobre o Viagem de Pella: “Eusébio põe o voo em Pella antes da guerra (πρὸ τοῦ πολέµου), ou quatro anos antes da destruição de Jerusalém” (Philip Schaff, História da Igreja Cristã, vol. 1 (Nova York: Scribner, 1910; reimpressão, Grand Rapids: Eerdmans, 1975, 402).

A Igreja saiu de Jerusalém antes do anúncio profético de Apocalipse 18:4!

João escreveu sete cartas para sete Igrejas, mas nenhuma carta foi escrita para a Igreja de Jerusalém. Insisto: João escreveu sete cartas para sete Igrejas localizadas – literalmente – dentro do Império Romano. Nenhuma carta para a Igreja de Jerusalém! Para quem foi esse aviso, “sai dela povo meu?”

O êxodo da Igreja para Pella não poderia ter tomado lugar depois de a guerra judaica ter começado. Quando Tito cercou toda a cidade não havia esperança de qualquer tipo de fuga. Josefo explica: “Para os judeus toda esperança de fuga foi agora cortada” (Josefo, guerras judaicas 5.12.3).

Não faço ideia do motivo que faz os preteristas acreditarem que Apocalipse 18:4 representa “a profecia comando, real e oficial” do êxodo da Igreja para fora de Jerusalém se ela foi escrita depois da fuga dos cristãos da cidade. Assim, a profecia vaticina um ex-evento, pois o voo para Pella transpirou quatro anos antes.

6) Lucas e Paulo – o declínio das Igrejas na Ásia

O livro de Atos foi escrito pouco antes de 65 dC, datação próxima daquela reclamada também pelos preteritas para a escrita do Livro de Apocalipse. O Livro de Atos não faz menção de um declínio nas igrejas listados no Apocalipse, nem há qualquer indicação de que João estava exilado em Patmos. Na verdade Lucas escreveu de uma grande expansão do evangelho na Ásia do que um declínio (Atos 19:20).

O livro de Colossenses foi escrito em algum momento em 63 dC, praticamente ao mesmo tempo em que supostamente teria sido escrito o Apocalipse. Novamente, não há nenhuma indicação de que algumas Igrejas na Ásia Menor estivessem em um declínio espiritual. A Epístola a Tito foi escrita por volta de 63 AD. Não há nenhuma menção de João ser exilado na ilha de Patmos, nem há qualquer indicação das preocupações espirituais indicados por João.

Perto do fim do ministério de Paulo, Tito foi para Dalmácia, em vez de ser enviado às igrejas supostamente conturbadas na Ásia Menor (2 Tim. 4:10). Se a disputa preterista pela data pré 70 dC estivesse correta, parece ser razoável que Paulo iria enviar Tito para abordar as preocupações espirituais sinistras na Ásia Menor, conforme listadas por João ao invés de ignorar as condições que João teria descrito para cinco daquelas Igrejas. E apesar dele ter enviado Tiquiso para Éfeso (v.12) não justifica a data Preterista – ele envia Tíquico a Éfeso (2 Tm 4:12.) para informá-los como ele, Paulo, está bem, e incentivá-los (Ef 6: 21,22). Paulo não deveria ter enviado Tiquico com uma vara de correção se o clima espiritual em Éfeso estivesse em declínio?

O amor de Éfeso por Cristo, de acordo com o apóstolo João, havia esfriado. O que aconteceu durante os supostos alguns curtos anos da visita de Paulo a Éfeso para a escrita de João em Apocalipse? Durante a terceira viagem missionária do apóstolo Paulo, ele chega a Éfeso, isso em 54 dC. Enquanto Paulo está em Éfeso até o verão de 57 dC, ele escreveu sua primeira epístola aos Coríntios. Paulo, então, deixou Timóteo em Éfeso para abordar algumas falsas doutrinas (1Tim 1: 3).

Mais tarde, ele escreveu a Timóteo duas vezes enquanto Timóteo permanecia em Éfeso – esta epístola foi escrita pouco antes da morte de Paulo. O tempo da presença de Paulo na prisão e suas cartas a Timóteo coincidem com o mesmo período que os preteristas reivindicam para a escrita do Livro de Apocalipse. Se assim fosse, então por que nós não encontramos Paulo abordando a questão de Éfeso sobre o “amor em declínio?” Se Paulo soubesse desse perigo não teria instruído o jovem Timóteo para resolvê-lo? Se o Apóstolo Paulo escreveu aos Efésios em algum momento entre 62 e 63 dC – não deveriamos encontrar uma repreensão de Paulo revelando tal condição? A resposta é não! Em vez disso, Paulo escreveu: “Por isso, ouvindo eu também a fé que entre vós há no Senhor Jesus, e o vosso amor para com todos os santos, não cesso de dar graças a Deus por vós, lembrando-me de vós nas minhas orações” (Ef. 1: 15,16).  Paulo estava dando graças ao Senhor pela Igreja de Éfeso enquanto João dizia que o amor deles esfriava e que o candeeiro estava para ser apagado!

“Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; quando não, brevemente a ti virei, e tirarei do seu lugar o teu castiçal, se não te arrependeres”, Apoc 2:4, 5. Essa não é a mesma congregação que recebeu louvores de Paulo no início da década de 60 dC!

Paulo disse que eles estavam prestes a serem arraigados no amor de Deus (Ef 3:17). Ele orou para que a igreja vivesse sempre trazendo louvor a Deus (Ef 3:20). Em vez de Paulo repreendê-los por um declínio no seu amor para com Deus, ele lhes dá uma bênção no fim da carta (Ef 6: 23,24).

Apocalipse fala dos efésios odiando a doutrina dos nicolaítas (Ap 2:6). Por que Paulo não abordou a questão dos nicolaítas recomendando resistência diante de tal doutrina se as duas cartas foram escritas no mesmo tempo? Além disso, Pérgamo também tinha entre seus fieis aqueles que sustentavam a doutrina dos nicolaítas (Ap 2:15). Paulo não expos a doutrina dos nicolaítas avisando a todas as igrejas na Ásia menor? A ausência de Paulo abordar a doutrina de qual Deus odiou (Ap 2: 6) sugere que os nicolaítas eram um problema em 96 dC e não antes da destruição de Jerusalém.

A Igreja estava em ordem no tempo de Paulo. As ameaças viriam mais tarde, pois ele advertiu os efésios sobre os perigos dos “lobos cruéis” que vinham devorar o rebanho (Atos 20:28-30) depois de sua partida. As mensagens de Paulo advertem sobre o engano que vem e a necessidade de se manter firme contra as astúcias do diabo e da doutrina dada pelo apóstolo.

O envolvimento de Paulo e Timóteo com Éfeso não está de acordo com o Apocalipse ter sido escrito no tempo preterista. Por esse motivo, e muitos outros, devemos concluir que os preteristas estão completamente equivocados com a datação do Livro de Apocalipse para antes da destruição de Jerusalém. Dada a paixão de Paulo para com Deus e a Igreja de Éfeso, é inconcebível admitir que João escrevesse sua repreensão aos Efésios perto ou no final da vida do Apóstolo dos gentios.

É inconcebível admitir que Paulo pudesse fechar os olhos e não dizer nada ao que Cristo descreveu como grave para cinco Igrejas. Também é inconcebível que outros apóstolos de Jesus Cristo fizessem o mesmo.  A falta de atenção de Paulo para com as condições espirituais descritas nas igrejas do Apocalipse coloca a escrita do Livro para um tempo distante da influência direta de todos os Apóstolos, exceto João.

7) Execução e Banimento

Uma evidência adicional de que Domiciano foi quem baniu João para a ilha de Patmos vem das ações de ambos, Nero e Domiciano quando perseguiram os cristãos. Nero era conhecido por executar cristãos por decapitação, crucificações e queimá-los. E como todos sabem, ele os jogava aos leões também, que por sinal foi o que tentaram fazer com Paulo, mas parece que ele escapou por pouco. Veja: “Ninguém me assistiu na minha primeira defesa, antes todos me desampararam. Que isto lhes não seja imputado. Mas o Senhor assistiu-me e fortaleceu-me, para que por mim fosse cumprida a pregação, e todos os gentios a ouvissem; e fiquei livre da boca do leão”, 2 Timóteo 4:16, 17.

Se os Preteristas estão corretos em afirmar que Nero exilou João para Patmos teriam que explicar porque não o executou como fez com outros cristãos. Aliás, por que os preteristas aceitam a tradição cristã sobre o destino de Paulo e Pedro, mas rejeitam totalmente a tradição cristã a respeito do destino de João? Será que é porque a tradição refuta o preterismo e mostra que ele é falso? Eu acho que poderia responder sim com segurança.

8) Babilônia, a Meretriz

O preterista enfatiza que Babilônia é chamada de prostituta (Apocalipse 17: 1-2). Eles acreditam que a prostituição é impossível para quem não possui uma aliança com Deus. Eles entendem que Israel é a única nação no mundo que tem uma aliança com Deus. Assim, a prostituta de Apocalipse 17 deve ser Israel. Eles reforçam este argumento ao notar que o Antigo Testamento descreve de forma única Israel / Jerusalém como a prostituta (Jeremias 2-3; Ezequiel 16; 23; Os 9:1).

A resposta a este argumento é que a imagem da prostituição não é exclusiva para identificar apenas Jerusalém, pois o Antigo Testamento também designa outras cidades gentílicas como meretrizes. Por exemplo, Nínive (Na 3: 4) e Tiro (Isaías 23:16), são identificadas como meretrizes. Também deve ser observado que João, em Apocalipse 17: 1-2, se quisesse comunicar a violação de Israel de sua aliança com Deus provavelmente teria usado a palavra “adultério” em vez de “prostituição”.  Como o anjo nunca usa o termo “adultério” (μοιχεῖαι – moicheia) – um termo mais restrito que implica um relacionamento conjugal anterior em conexão com a mulher, logo, não é verdadeiro que o termo Meretriz seja uma alusão ao Israel apóstata ou a igreja apóstata. No entanto, esta mulher representa a falsa religião de todos os tempos, incluindo aqueles que apostatam do verdadeiro cristianismo.

9) Mateus 24 e o duplo comprimento de uma profecia

Profecias podem ter cumprimento duplo, ou seja, um profeta bíblico pode vaticinar acontecimentos para sua época e para um futuro distante, tudo dentro de um contexto apenas, como fizeram vários profetas nas páginas do Velho Testamento. Alguns apenas vaticinaram que o Senhor Jesus viria ao mundo, mas não sabiam que Ele viria duas vezes.

Em Isaías 61.1,2, as duas vindas do Senhor são apresentadas como um único acontecimento: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos mansos, enviou-me a restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos e a abertura de prisão aos presos; a apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus“.

Vemos em Lucas 4.17-21, que o Senhor Jesus depois de ter lido a profecia de Isaías até o ponto que menciona “o ano aceitável do Senhor”, fechou o livro e concluiu: “Hoje se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir“. Por que Ele não continuou a leitura? Porque o dia da vingança terá início com Sua Segunda Vinda. E apesar do preterismo considerar que o dia da vingança é uma referência profética para a destruição de Jerusalém em 70 dC quando Jesus “veio numa nuvem” para tomar vingança dos judeus desobedientes, não é verdade. Se fosse esse o caso, Jesus mesmo teria completado a sentença e acrescentado as últimas palavras da profecia de Isaías. Assim, o pequeno detalhe aponta para um cumprimento futuro, que ocorrerá por ocasião da Sua Vinda.

O mesmo acontece com o profeta Zacarias. Ele menciona as duas vindas em um texto apenas: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém; eis que o teu Rei virá a ti, justo e Salvador, pobre e montado em jumento, sobre um asninho, filho de jumenta. E destruirei os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém, e o arco de guerra será destruído; e ele anunciará paz às nações; e o seu domínio se estenderá de um mar a outro mar e desde o rio até às extremidades da terra” (9:9, 10). O versículo 9 se cumpriu quando Jesus Cristo veio ao mundo pela primeira vez (Mt 21:1-11), mas o 10 faz parte do Segundo Advento.

Podemos aplicar o mesmo principio em Mateus capitulo 24, mas com um detalhe assombroso: a maioria dessas  profecias apenas se cumprem no tempo do fim: “Porque muitos virão em meu nome” (v 5); “E ouvireis de guerras e de rumores de guerras” (v 6); “se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares” (v 7); “E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos” (v 11); “E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo” (v 14); “E, logo depois da aflição daqueles dias, o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas.  Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra extremidade dos céus”, (vv 29-31).

Não há fato mais claramente estabelecido na história do que a “primeira vinda” de Cristo. Mas sua “primeira vinda” não cumpriu todas as profecias associadas com sua “vinda”, e é evidente que deve haver outra “vinda” para cumpri-las totalmente. Pelo fato de os líderes religiosos do tempo de Cristo terem falhado em distinguir entre as profecias que relatavam sua “primeira vinda”, e aquelas que relatavam a sua “segunda vinda”, foi que eles o rejeitaram. Pedro nos diz isso (I Pedro 1:10, 11), que os profetas não perceberam claramente a diferença entre os “sofrimentos” e a “glória” de Cristo. Isto é, eles não viram a existência de um “ESPAÇO DE TEMPO” entre a “cruz” e a “coroa”, e que a “cruz” precederia a “coroa”. Mas nós não temos essa desculpa. Nós vivemos neste lado da “cruz” e podemos sem dificuldade pegar todas as profecias que se cumpriram na “Primeira Vinda” de Cristo e aplicar o restante na sua “Segunda Vinda”.  É claro então que a “Primeira Vinda” de Cristo importante como era, não é a “doutrina central” das Escrituras, isto é, a “Primeira Vinda” de Cristo não era o centro de um círculo que contém toda a doutrina, mas foi um dos focos de uma elipse da qual a outra é a “SEGUNDA VINDA”.

O apóstolo Paulo claramente em suas epístolas faz distinção entre as “Vindas” e seu significado doutrinário. Em sua carta aos Hebreus ele classifica as “aparições” de Cristo como “manifestado” (Hebreus 9:26), “agora comparece” (Hebreus 9:24), e “aparecerá” (Hebreus 9: 28). Em sua carta a Tito (Tito 2: 11 12), ele traz à tona a importância doutrinária dessas “aparições”. Como Profeta Ele morreu para nossa “JUSTIFICAÇÃO”, como um sacerdote Ele vive à destra de Deus não só como nosso advogado, mas como nosso “SANTIFICADOR”, e quando Ele voltar como um Rei será para a nossa “GLORIFICAÇÃO”.

O Livro de Apocalipse, além de Mateus 24, também não escapou ao escrutínio preterista. Sem consideração alguma com o contexto profético total das Escrituras, os preteristas afirmam que interpretar as profecias de Apocalipse como referentes ao futuro distante é tornar o livro irrelevante para as sete igrejas, que eram os destinatários originais de João. Interpretar o Apocalipse de tal maneira é se envolver em uma cruel “zombaria” das circunstâncias adversas das sete igrejas, crê o preterista.

É bastante comum em todo o material profético do Antigo Testamento que Deus consolide Seu povo no presente, fornecendo-lhes uma visão do futuro distante. Esse padrão é visto em algumas passagens proféticas do Antigo Testamento, como em Ezequiel, capítulos de 34 a 48; Amós 9: 11-15 e Zacarias, capítulos de 12 a 14). A revelação simplesmente segue esse padrão fornecendo às igrejas perseguidas (Ap 2-3) uma visão futurista comunicando que Deus acabará conquistando todas as forças que oprimem a igreja no final da história (Ap 4-22). De fato, até mesmo o sistema preterista parcial reconhece essa prática. Enquanto muitos preteristas parciais esperam por um futuro retorno e julgamento em Apocalipse 20: 7-15, da mesma forma precisam crer que muitas das exortações que Cristo deu às sete igrejas são tiradas daquela seção das Escrituras para a igreja atual (Ap 2:11; 3:5; 20: 14,15). Veja as passagens:

Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O que vencer não receberá o dano da segunda morte”, Ap 2:11.

O que vencer será vestido de vestes brancas, e de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida; e confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos”, Ap 3:5.

E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte. E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo”, Ap 20:14, 15.

10) Crianças de 100 anos

Alguns preteristas tentam argumentar que Jesus retornou de forma INVISÍVEL em 70 dC para tentar forçar sua interpretação de um reinado de 1.000 anos não literal de Jesus que teve início com sua ressurreição. Portanto, vamos assumir que a interpretação deles está correta e que o reinado de 1.000 anos de Jesus não é um reinado literal de 1.000 anos como eles reivindicam.

A palavra de Deus claramente declara que os anos do homem durante este suposto tempo preterista após a ressurreição de Jesus, quando eles dizem que começou a era do reinado de Cristo, seria de 100 anos de idade, onde TODOS viverão os seus 100 anos completos de vida. Ninguém morrerá prematuramente. Leia Isaías 62:20, que não precisa de interpretação para aqueles que têm olhos para ver: “Não haverá mais nela criança de poucos dias, nem velho que não cumpra os seus dias; porque o menino morrerá de cem anos; porém o pecador de cem anos será amaldiçoado”.

Assim, o texto deixa claro que existe uma idade em que toda a humanidade viverá até os 100 anos completos. Agora, se a interpretação dos preteristas é correta, que ensina que já estamos vivendo nesta era, então por que nem todos estão vivendo agora para completar 100 anos?

Qualquer um pode constatar que desde o dia em que Jesus ressuscitou dos mortos até o dia de hoje não tem havido nenhum número de dias em que TODOS os seres humanos, desde as crianças até os mais velhos, tenham completado 100 anos de idade. Porém, se você interpretar o reinado de 1.000 anos de Jesus para ser um reinado literal de 1.000 anos, que ainda é futuro, então podemos encaixar perfeitamente a palavra de Isaías.

11) Profecias do Antigo Testamento não cumpridas em relação à queda de Babilônia

Um problema para a interpretação preterista da Babilônia de Apocalipse se relaciona as profecias do Velho Testamento – não cumpridas – sobre a destruição de Babilônia. Tais passagens do Antigo Testamento incluem Isaías 13-14; Jer 50-51; e Zc 5: 5-11. Isaías, capítulos 13 e 14 contêm muitos elementos que comunicam o futuro. Um exemplo é Isaías 13, que iguala a destruição de Babilônia ao “dia do Senhor”. Isaías 13:1, 6-9, diz:

PESO de Babilônia, que viu Isaías, filho de Amós… Clamai, pois, o dia do Senhor está perto; vem do Todo-Poderoso como assolação. Portanto, todas as mãos se debilitarão, e o coração de todos os homens se desanimará. E assombrar-se-ão, e apoderar-se-ão deles dores e ais, e se angustiarão, como a mulher com dores de parto; cada um se espantará do seu próximo; os seus rostos serão rostos flamejantes. Eis que vem o dia do Senhor, horrendo, com furor e ira ardente, para pôr a terra em assolação, e dela destruir os pecadores”.

Isaías 13: 10-13 também se refere a distúrbios cósmicos: “Porque as estrelas dos céus e as suas constelações não darão a sua luz; o sol se escurecerá ao nascer, e a lua não resplandecerá com a sua luz. E visitarei sobre o mundo a maldade, e sobre os ímpios a sua iniquidade; e farei cessar a arrogância dos atrevidos, e abaterei a soberba dos tiranos. Farei que o homem seja mais precioso do que o ouro puro, e mais raro do que o ouro fino de Ofir. Por isso farei estremecer os céus; e a terra se moverá do seu lugar, por causa do furor do Senhor dos Exércitos, e por causa do dia da sua ardente ira”.

O dia da ira do Senhor esta relacionado à Sua Vinda no fim dos tempos. R.C. Sproul observa como a existência de linguagem semelhante ao discurso do Monte das Oliveiras (Mateus 24:29) representa um problema para a interpretação preterista. Ele diz: “Esta passagem descreve o parousia (Segunda Vinda em Glória) em imagens vívidas e gráficas de perturbações astronômicas. Ele fala de sinais no o céu que serão visíveis. Talvez nenhuma parte do Discurso das Oliveiras forneça mais dificuldades para a visão preterista do que esta” (1).

Isaías 13: 11-12 prediz que a queda de Babilônia resultaria no homem se tornar mais escasso que ouro. Isaías também prevê que Babilônia experimentaria cataclismos súbitos, destruição semelhante àquela sofrida por Sodoma e Gomorra (Is 13:19). De fato, A destruição de Babilônia seria final, tornando-a permanentemente inabitável (Is 13: 20-22) Além disso, Isaías 14 indica que a terra vai descansar e haverá paz no mundo (Is 14: 5- 8), e a restauração de Israel (Isaías 14: 1-4) acontecerá como consequência da destruição de Babilônia. Essa regeneração nacional é tipicamente retratada nas Escrituras como um futuro evento (Rm 11: 25-27). Abrange a terra experimentando o pleno conhecimento de Deus (Hab 2:14) bem como Israel retornando à sua terra (Is 14: 1) e possuindo seus inimigos (Is 14: 2). Como é difícil conectar esses eventos com a queda histórica de Babilônia em 539 a.C. (Dan 5), obviamente eles devem estar apontando para um evento futuro.

Jeremias 50-51

Jeremias prevê que Babilônia seria completamente destruída (Jr 50: 3, 13, 26, 39,40; 51:29, 43, 62) e, no entanto, Babilônia permaneceu vibrante muito depois de 539 aC. De fato, a cidade foi influente durante o período persa – Daniel serviu lá administrativamente – o rei de Babilônia morre e Dario toma o poder (Dan 30,31) e Daniel permanece em Babilônia (6: 1-3). Babilônia continuou existindo sob o domínio medo persa: “Dividido foi o teu reino, e dado aos medos e aos persas”, Dan 5:28.

Jeremias prediz que os crentes fugiram de Babilônia em sua destruição (Jr 50: 8; 51: 6 45), porém, “não há registro dos Judeus fugindo de Babilônia quando ela caiu sob o domínio Medo-Persa” (2). E, finalmente, Jeremias prevê o arrependimento reunificador e nacional de Israel após a queda de Babilônia (Jr 50: 2, 4-5, 20; 51: 50) e, no entanto, tal fato jamais ocorreu naquela ocasião. De fato, as Escrituras pós-exílio evidenciam a repreensão contínua de Deus do seu povo. O Antigo Testamento frequentemente retrata a reunificação do norte e reinos do sul (Ezequiel 37) e a restauração da nação (Amós 9: 11-15; Jer 31) como eventos que ainda estão por acontecer no futuro. Mais uma vez, por ser difícil conectar esses eventos com a queda histórica de Babilônia em 539 a.C. (Dan 5), obviamente, eles devem estar apontando para um evento futuro.

Walvoord resume da seguinte forma: “No que diz respeito ao cumprimento histórico, é óbvio de ambos, Escritura e história, que estes versos não foram cumpridos literalmente. A cidade de Babilônia continuou a florescer após os medos a conquistarem, e apesar de sua glória ter diminuído, especialmente após o controle dos medos e os persas que terminou em 323 aC., a cidade continuou de alguma forma e não experimentou um término repentino como previsto nesta profecia” (3).

Cumprimento futurista

Se estas passagens não foram cumpridas, então um cumprimento futurista é exigido para que essas passagens alcancem sua realização. Esta perspectiva torna-se evidente observando as semelhanças entre Jer 50-51 e Ap 17-18. Por exemplo, ambas as passagens associam Babilônia a uma taça de ouro (Jr 51: 7; Ap 17: 3-4; 18: 6), habitando em muitas águas (Jer 51:13; Ap 17: 1), intoxicando as nações (Jr 51: 7; Ap 17: 2) e tendo o mesmo nome (Jr 50: 1; Ap 17: 5; 18:10). Além disso, ambas as passagens igualam a destruição de Babilônia: uma pedra que afunda no Eufrates (Jer 51: 63,64; Ap 18:21) e retratam a destruição de Babilônia como repentina (Jr 51:8; Ap 18: 8), causada pelo fogo (Jr 51:30; Ap 17:16; 18: 8), destruição final (Jer 50:39; Ap 18:21). Além disso, ambas as passagens descrevem a resposta à destruição de Babilônia em termos do povo de Deus fugindo (Jr 51: 6, 45; Ap 18: 4), como também há regozijo do céu (Jr 51:48; Ap 18:20).

Lesão no Preterismo

Em suma, se puder ser demonstrado que essas passagens do Antigo Testamento nunca foram completamente cumpridas historicamente, mas em vez disso aguardam um cumprimento futuro, então um problema adicional é criado para a interpretação preterista, uma vez que não há lugar para essas passagens encontrar sua realização no Velho Testamento.

Ao contrário dos preteristas, muitos futuristas não têm dificuldade alguma em explicar quando essas profecias do Antigo Testamento devem ser cumpridas, já que eles veem Apocalipse 17-18 falando de uma Babilônia revivida que está destinada a ser destruída no próximo período da Tribulação. Portanto, as profecias do Antigo Testamento foram originalmente dirigidas a Babilônia, não a Jerusalém (Is 13:1; Jr 50: 1). Essa visão prejudica a estabilidade preterista do significado dessas profecias entre o Antigo Testamento e o Livro do Apocalipse, pois essas passagens do Antigo Testamento sobre a queda da Babilônia nunca foram cumpridas.

1 – R. C. Sproul, The Last Days According to Jesus (Grand Rapids: Baker, 1998), 42.

2 – Dyer, “The Identity of Babylon in Revelation 17–18 (Part 2),” 447.

3 – John F. Walvoord, The Nations in Prophecy (Grand Rapids: Zondervan, 1967), 63-64.

12) Jerusalém, rica e próspera em 70 dC

Os Preteristas entendem que Babilônia está reinando sobre os reis da terra (Apocalipse 17: 18b), que eles declaram ser Jerusalém. Os preteristas tipicamente reúnem várias peças de evidências bíblicas e extra bíblicas, demonstrando que a Jerusalém do primeiro século era de fato uma cidade importante, tendo fama e reputação internacional. Eis as descrições de Jerusalém que os preteristas tipicamente apontam para colocá-la no topo das nações: “grande cidade” (Jr 22: 8), “cidade do grande rei” (Mt 5:35), “centro da terra” (Ez 5: 5; 38:12), o que para eles dever ser traduzido da seguinte forma: “Jerusalém reina sobre os reis da terra” em 70 dC.

Contudo, Apocalipse 17: 18b parece descrever muito mais do que mera importância, fama e reputação internacional. Apocalipse 1: 5, que descreve o futuro reinado político universal de Cristo, é praticamente idêntico, no grego original, com a descrição do reino de Babilônia como dada em Apocalipse 17:18.

Apocalipse 1: 5: “E da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dentre os mortos e o príncipe dos reis da terra. Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados“.

Apocalipse 17: 18: “E a mulher que viste é a grande cidade que reina sobre os reis da terra”

Uma vez que Ap 1: 5 pertence ao reinado universal de Cristo, a coerência determina que o reinado de Babilônia também deva ser universal e político.

Embora a Jerusalém do primeiro século fosse uma cidade famosa, ela ficou longe de reinar sobre a terra inteira. Longe de governar o mundo, a Jerusalém do primeiro século foi esmagada por várias potências mundiais nos últimos 700 anos antes de 70 dC e, para completar a miséria, estava sob ocupação romana há quase um século. A influência de Jerusalém foi a mais baixa nos dois séculos anteriores a 70 dC, enquanto o que ocorre com Babilônia em Apocalipse 17-18 é uma queda imediata de uma imensa metrópole com grande poder e prosperidade em existência presente. Nos tempos anteriores à sua queda “ela se glorificou, e em delícias esteve… estava assentada como rainha” (Ap 18:7) enquanto Jerusalém estava dependente do estado romano. Esse contraste é terrível para o preterismo, pois o vaticínio profético diz que a grande cidade – imediatamente ao momento anterior à sua queda – era rica em “mercadorias de ouro, e de prata, e de pedras preciosas, e de pérolas, e de linho fino, e de púrpura, e de seda, e de escarlata; e toda a madeira odorífera, e todo o vaso de marfim, e todo o vaso de madeira preciosíssima, de bronze e de ferro, e de mármore; e canela, e perfume, e mirra, e incenso, e vinho, e azeite, e flor de farinha, e trigo, e gado, e ovelhas; e cavalos, e carros” (Ap 18:12, 13).

Jerusalém estava num estado infinitamente inferior nos anos anteriores à sua queda. Não é ela que os mercadores da terra contemplam de longe vendo a fumaça do seu incêndio. O lamento desses mercadores se dá pela queda e perda repentina das riquezas dessa grande cidade, que lhes parecia impossível de acontecer. Em suma, isso tudo elimina Jerusalém de ser essa cidade dada a sua condição miserável devido ao seu estado de servidão.

Os mercadores destas coisas, que com elas se enriqueceram, estarão de longe, pelo temor do seu tormento, chorando e lamentando, E dizendo: Ai, ai daquela grande cidade! que estava vestida de linho fino, de púrpura, de escarlata; e adornada com ouro e pedras preciosas e pérolas porque numa hora foram assoladas tantas riquezas” (Ap 18.15,16).

“Tantas riquezas…”, não em Jerusalém!

É fato comprovado que a Rainha do primeiro século não foi Jerusalém. Apocalipse 18: 7,8 diz: “Quanto ela se glorificou, e em delícias esteve, foi-lhe outro tanto de tormento e pranto; porque diz em seu coração: Estou assentada como rainha, e não sou viúva, e não verei o pranto. Portanto, num dia virão as suas pragas, a morte, e o pranto, e a fome; e será queimada no fogo; porque é forte o Senhor Deus que a julga”.

Os preteristas, sem considerar o contexto do Velho Testamento sobre Babilônia, mantem a afirmativa de que o relato acima é uma referência para Jerusalém. No entanto, as mesmas palavras são usadas para descrever Babilônia no VT. Veja como Isaias descreve Babilônia, rainha dos reinos: “Assenta-te calada, e entra nas trevas, ó filha dos caldeus, porque nunca mais serás chamada rainha de reinos. E disseste: Eu serei rainha para sempre; até agora não te importaste com estas coisas, nem te lembraste do fim delas. Agora, pois, ouve isto, tu que és dada a prazeres, que habitas tão segura, que dizes no teu coração: Eu o sou, e fora de mim não há outra; não ficarei viúva, nem conhecerei a perda de filhos. Porém ambas estas coisas virão sobre ti num momento, no mesmo dia, perda de filhos e viuvez; em toda a sua plenitude virão sobre ti, por causa da multidão das tuas feitiçarias, e da grande abundância dos teus muitos encantamentos“, Isaias 47:5,7,8,9

13) Idolatria na Jerusalém de 70 dC

Outro problema em identificar Babilônia de Apocalipse 17-18 com a Jerusalém de 70 dC envolve a descrição de João da Babilônia idólatra. Esse pecado não foi característico do judaísmo do primeiro século. Porém, o preterismo acusa os judeus de se envolverem com idolatria, mostrando dentro do livro de Apocalipse que eles receberam o devido castigo pelas mãos do exército romano. Leia a passagem que os preteristas usam para acusar os judeus de idólatras em 70 dC:

E os outros homens, que não foram mortos por estas pragas, não se arrependeram das obras de suas mãos, para não adorarem os demônios, e os ídolos de ouro, e de prata, e de bronze, e de pedra, e de madeira, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar. E não se arrependeram dos seus homicídios, nem das suas feitiçarias, nem da sua prostituição, nem dos seus furtos”, Ap 9:20, 21.

Esse não é um quadro da Jerusalém de 70 dC, pois em relação à idolatria judaica, o cativeiro do povo de Israel nas mãos dos babilônios produziu algo marcante contra o pecado de idolatria. Por essa razão, fica difícil determinar como verdade que o judaísmo de 70 dC sucumbiu à idolatria. Nos evangelhos não há virtualmente nada sobre idolatria contra Jerusalém.

Os judeus do primeiro século reconheceram que a idolatria tinha causado o exílio, e essa percepção teve a tendência de livrar Israel deste pecado em particular. Veja Romanos 2:22 como Paulo se dirige aos judeus: “Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio?”

Portanto, quem seriam aqueles que aparecem no verso 20 do capítulo 9 de Apocalipse vistos recebendo a paga pela sua idolatria, os  “não se arrependeram das obras de suas mãos, para não adorarem os demônios, e os ídolos de ouro, e de prata, e de bronze, e de pedra, e de madeira, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar?”

Não é tão difícil identificar, já que a profecia é para um cumprimento futuro. Isso é quase uma réplica do salmo 115:2-9: “Porque dirão os gentios: Onde está o seu Deus? Mas o nosso Deus está nos céus; fez tudo o que lhe agradou. Os ídolos deles são prata e ouro, obra das mãos dos homens. Têm boca, mas não falam; olhos têm, mas não veem. Têm ouvidos, mas não ouvem; narizes têm, mas não cheiram. Têm mãos, mas não apalpam; pés têm, mas não andam; nem som algum sai da sua garganta. A eles se tornem semelhantes os que os fazem, assim como todos os que neles confiam. Israel confia no Senhor; ele é o seu auxílio e o seu escudo”, Salmo 115: 2-9.

Atente para  esses detalhes: “Os ídolos deles são prata e ouro, obra das mãos dos homens. Têm boca, mas não falam; olhos têm, mas não veem. Têm ouvidos, mas não ouvem; narizes têm, mas não cheiram. Têm mãos, mas não apalpam; pés têm, mas não andam”.

Veja a semelhança com Apocalipse 9:20: “… não se arrependeram das obras de suas mãos, para não adorarem os demônios, e os ídolos de ouro, e de prata, e de bronze, e de pedra, e de madeira, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar”.

Além disso, no salmo os ídolos são “obras das mãos dos homens” e em Apocalipse os que recebem o juízo, o recebem porque “não se arrependeram das obras de suas mãos”, os “ídolos de ouro, e de prata, e de bronze, e de pedra, e de madeira, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar”. É evidente que João não fez referência aos seus patrícios como fabricantes de ídolos em 70 dC. Os judeus de 70 dC não eram idólatras, é o que fica comprovado pelo texto de Romanos 2:2. Leia novamente como Paulo se dirige aos judeus: “Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio?”

Assim, a existência dessas palavras em Apocalipse 9:19, 20 é inconsistente com uma interpretação da Jerusalém do século primeiro, já que a idolatria não era característica do judaísmo daquela época.

14) A Mãe das Prostituições

Os preteristas acreditam que o título de prostituta identifica a Jerusalém do primeiro século. Eles afirmam que a testa da mulher a retratando como uma prostituta é uma reminiscência da representação de Deus para Judá como tendo “a testa de uma prostituta” (Jr 3: 3). Apesar dessa intrigante conexão, há alguns problemas com a interpretação preterista. No próprio capítulo que os preteristas usam para equiparar a prostituta nas palavras de Jeremias 3:3, emprega-se a linguagem da restauração, que contradiz a própria ideia da teologia da substituição perpetuada pelo preterismo. Jeremias 3:17 diz: “Naquele tempo chamarão a Jerusalém ‘o trono do Senhor’ e todas as nações serão reunidas a Jerusalém.”

Embora os preteristas queiram que o intérprete veja “Babilônia” no título da prostituta como representante de “Jerusalém”, tal substituição é improvável. Para começar, a interpretação correta do título da prostituta é “Babilônia, a Grande” (NASB), em vez de “Mistério, Babilônia, a Grande” (NVI, KJV). A maioria dos preteristas parece confiar nas versões bíblicas que comunicam que o título da prostituta é “Mistério, Babilônia, a Grande”. Sua preferência por essa interpretação pode estar relacionada ao fato de que ela transmite mais facilmente uma compreensão não literal de “Babilônia”. Os não preteristas também argumentam que a tradução “Mistério, Babilônia, a Grande” também atribui um significado simbólico à Babilônia. Porém, esse simbolismo não trabalha a favor deles confirmando Jerusalém como Mistério Babilônia. Este título foi escrito em sua testa: Mistério: ‘mistério’ indica o nome que ela tem. Não deve ser entendido literalmente, mas alegoricamente: Babilônia, a Grande é lida, mas “Roma” é o significado.

No entanto, o mistério não é parte do título da prostituta já que nos cinco outros usos do título no Apocalipse (14: 8, 16:19; 18: 2, 10, 21) é simplesmente “Babilônia, a Grande” e nunca “Mistério Babilônia, a Grande”.  Além disso, “mistério”, ou melhor: “o mistério”, não se aplica apenas à prostituta babilônica, mas também à besta (Apocalipse 17: 7).

Dada a forte dependência que o Apocalipse tinha do Antigo Testamento, seria improvável que João fundisse os termos “Babilônia” e “Jerusalém”, já que essas duas cidades são sempre mantidas separadas e distintas ao longo das páginas do Antigo Testamento. De fato, numerosas passagens do Antigo Testamento, que provavelmente formam o pano de fundo para Ap 17-18, distinguem essas duas cidades uma da outra no mesmo contexto.  Por exemplo, Jr 51:49 diz: “De fato, Babilônia cairá pelos mortos de Israel”.  Igualmente insignificante é a noção de que João usou “Babilônia” como palavra código para Jerusalém. Babilônia nunca é usada como palavra código para Jerusalém, seja dentro ou fora da Bíblia. Não há um exemplo de que ‘Babilônia’ já foi um nome simbólico para Israel, antes ou depois de 70 dC.

Grande parte dos preteristas acredita que Babilônia como código para Jerusalém vem da referência de Pedro à Babilônia em 1 Pe 5:13. Muitos preteristas acreditam que Pedro escreveu sua carta de Jerusalém – eles afirmam que Pedro estava usando a palavra “Babilônia” como um código para Jerusalém em 1 Pe 5:13. Isso porque a vida e os atos de Pedro estavam mais intimamente associados a Jerusalém do que qualquer outra cidade (Atos 8: 1; 11:19; 12: 3; 12:12, 25; 15: 22-32; Gl 1:18; 2: 1-9, 11-12).  No entanto, os exemplos ligando Pedro a Jerusalém são todos tirados dos primeiros capítulos de Atos. Sua última referência (Atos 15: 22-32) ocorre no conselho de Jerusalém em AD 49. Usar essas datas antecipadas para estabelecer a localização da escrita da carta de Pedro não é convincente, uma vez que o apóstolo poderia ter viajado um pouco entre AD 49 e a composição da epístola em AD 64.

A propensão de Pedro para viajar é vista desde cedo em sua jornada “para outro lugar” (Atos 12:17) e na declaração de Paulo no seu direito apostólico de “levar uma esposa crente” como Cefas (1 Coríntios 9: 5). De fato, é possível que Pedro tenha viajado para Corinto desde que Paulo menciona uma facção petrina lá (1 Coríntios 1:12). Dionísio, um bispo de Corinto do segundo século, indica que Pedro foi influente na igreja de Corinto.

O título “A mãe das prostituições” é inaplicável a Jerusalém. “Mãe” refere-se à fonte ou origem de toda a prostituição. O fato de a frase “mãe das prostitutas” ser articular intensifica o substantivo, reforçando a noção de que ela representa a fonte de toda religião falsa. Ela não é apenas “mãe das prostitutas”, mas a “mãe das prostituições”. A Torre de Babel se encaixa nessa descrição.

Alguém registrou: “O rio Eufrates, no qual a cidade de Babilônia foi construída… Para este centro, as forças do mal gravitaram após o Dilúvio, e “Babel” foi o resultado. Esta foi a origem das nações, pois as nações não estavam espalhadas pela terra até que Satanás implantou neles o “vírus” de uma doutrina que tem sido a fonte de toda religião falsa que o mundo já conheceu. Não houve nações anteriores ao incidente da Torre de Babel. Nações e culturas distintas só surgiram como resultado desse evento. Assim, o culto mãe-filho que começou em Babel se espalhou para todas as nações e culturas que se seguiram. Nesse sentido, Babel é a origem ou fonte de toda a prostituição.”

Embora seja fácil identificar Babel como “a mãe das prostitutas”, é difícil fazer essa designação se encaixar em Jerusalém. Uma das razões para essa dificuldade está no fato de que Jerusalém, diferentemente de Babel, não originou o culto da mãe e da criança, mas o absorveu (Jr 7:18; 44: 17-19, 25; Ez 8:14). Alguém escreveu com muita propriedade sobre essa matrona: ”… essa prostituta é a mãe de todas as prostitutas idólatras da Terra… Ela é a fonte, o reservatório, o útero que contém todos os casos individuais da resistência histórica à vontade de Deus na terra.”

Ezequiel identifica especificamente Judá como uma filha prostituta que era culpada de imitar as características de seus pais amorreus, hititas e egípcios (Ezequiel 16: 3, 44-45; 23: 2).  Por outro lado, Jerusalém veio a existir depois do estabelecimento de Babilônia e outras nações. Na verdade, Jerusalém só aparece mais tarde no palco da apostasia mundial, não podendo assim ser  considerada a fonte de toda a prostituição.

A noção preterista de que Israel do primeiro século era “A mãe das prostitutas” parece inconsistente com o alto chamado do Israel nacional. A intenção de Deus era abençoar o mundo através dos judeus (Gn 12: 3; Is 42: 6; 49: 6), virtualmente todas as bênçãos espirituais, incluindo o Salvador (João 4:22; Rm 9: 5) e as Escrituras (Rom 3: 2), vieram ao mundo através da nação judaica. Como podem os preteristas, diante desse quadro, ainda insistir que Israel/Jerusalém é a fonte de toda a prostituição mencionada em Apocalipse 17: 5? Enquanto Israel do primeiro século caiu em descrença e apostasia (Mateus 23:15), Paulo explica que Deus ainda a usou, mesmo em sua condição de apóstata, para trazer riquezas e reconciliação ao mundo (Rm 11: 12a, 15a).

15) Os Dez Reis de Apocalipse 17

“E levou-me em espírito a um deserto, e vi uma mulher assentada sobre uma besta de cor de escarlata, que estava cheia de nomes de blasfêmia, e tinha sete cabeças e dez chifres”, v 3

“Aqui o sentido, que tem sabedoria. As sete cabeças são sete montes, sobre os quais a mulher está assentada. E são também sete reis; cinco já caíram, e um existe; outro ainda não é vindo; e, quando vier, convém que dure um pouco de tempo. E a besta que era e já não é, é ela também o oitavo, e é dos sete, e vai à perdição. E os dez chifres que viste são dez reis, que ainda não receberam o reino, mas receberão poder como reis por uma hora, juntamente com a besta” Ap 17. 9-12

Os Preteristas entendem que as sete cabeças, que são também sete reis, é uma referência aos reis romanos que reinaram a Judeia até o final do exilio de João na Ilha de Patmos. Para eles João foi liberto do seu cativeiro no final de 68 dC no governo de Nero.  No entanto, a lista desses reis é um problema para os próprios Preteristas. Os imperadores romanos que reinaram até 70 dC, são:

Júlio César (49-44 aC), Augusto (27 aC-14 dC), Tibério (14-37), Gaio Calígula (37-41), Claudius (41-54), e Nero (54-68). Até Nero temos seis. Depois de Nero, até o imperador que invadiu Jerusalém com as tropas romanas temos mais quatro imperadores: Galba (68-69), Otho (69), Vitélio (69), e Vespasiano (69-79). Se acrescentarmos Tito chegamos a 11 imperadores. Porém, se considerarmos que o reinado de Tito e Vespasiano foi um só, então temos 10 reis.

João declarou que os dez reis do Apocalipse não tinham reino, mas agiram com o poder de um rei. Apocalipse  17: 12, diz: “E os dez chifres que viste são dez reis, que ainda não receberam o reino, mas receberão poder como reis por uma hora, juntamente com a besta”. Observe que o verso diz que esses reis, no momento da escrita de João, “ainda não haviam recebido o reino”.

Podemos descartar os imperadores romanos porque cada um deles, até a suposta data preterista do Apocalipse, havia governado o Império Romano e considerou ser seu o reino, anulando, assim, a ideia de que eles só agiram com o poder de um rei. Nenhum deles deu seu poder a alguém maior do que eles. Porém, os dez deram seu poder e autoridade à besta (Apocalipse 17:13), o que é um problema sério, pois a identificação preterista dos dez reis reside na demanda das Escrituras que os reis deveriam pensar da mesma forma entregando o seu poder à besta. Isso exigiria que todos eles estivessem vivos no mesmo momento do tempo, o que também exige uma unidade de propósito. Este não foi o caso com os imperadores romanos. Os cinco imperadores antes de Nero estavam mortos e completamente incapazes de dar o seu poder à besta. Portanto, a profecia dos dez reis pode ter um cumprimento futuro.

O contexto acrescenta que “os dez chifres (dez reis) que viste na besta são os que odiarão a prostituta, e a colocarão desolada e nua, e comerão a sua carne, e a queimarão no fogo. Porque Deus tem posto em seus corações, que cumpram o seu intento, e tenham uma mesma ideia, e que deem à besta o seu reino, até que se cumpram as palavras de Deus”, Ap 17:16,17

Ou seja, eles cumprem seu intento, que é queimar a prostituta (segundo o preterismo essa prostituta é Jerusalém)  no fogo e posteriormente entregam  a besta o reino. Isso nunca ocorreu aos dias que antecederam à destruição de Jerusalém e nem imediatamente depois. Além disso, se Nero foi a besta, como alegam os preteristas, então precisamos identificar quem foram esses dez reis que estiveram vivos nessa ocasião, e que entegaram seu poder a besta.

A profecia ainda não teve cumprimento!

Leia novamente: “E os dez chifres que viste são dez reis, que ainda não receberam o reino, mas receberão poder como reis por uma hora, juntamente com a besta. Estes têm um mesmo intento, e entregarão o seu poder e autoridade à besta. Estes combaterão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, porque é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis; vencerão os que estão com ele, chamados, e eleitos, e fiéis”, Ap 17:12-14.

Em 70 dC Tito e seu exército foram os vencedores, mas aqui diz que esses reis são derrotados por Cristo.  Nada disso ainda ocorreu!

A grande prostituta de Apocalipse não é Jerusalém, como os preteristas afirmam. Ao invés de dez, vemos apenas dois reis – Vespasiano e Tito – envolvidos para subjugar Jerusalém. A profecia fala de dez reis, que diretamente queimam a prostituta no fogo e depois entregam seu reino à besta.

16) Jerusalém conquista os reis da terraquando?

Um preterista católico romano declarou que Jerusalém é, sem dúvida, a cidade que reina sobre os reis da terra citada em Apocalipse 17:18. Para tal proeza ele volta quase um milênio e meio antes de Cristo e apresenta as conquistas de Josué sobre alguns reis da terra para fazer de Jerusalém a cidade que reina sobre os reis da terra em 70 dC. O registro matriz citado por ele é esta passagem do Livro de Josué: “Estes, pois, são os reis da terra, aos quais os filhos de Israel feriram e cujas terras possuíram além do Jordão para o nascente do sol, desde o ribeiro de Arnom, até ao monte de Hermom, e toda a planície do oriente: […] O rei de Tirza, outro; trinta e um reis ao todo” (Josué, Capítulo XII, Versos I ao XXIV)”

Ele acrescenta, “… Eu irei começar a explicação com o domínio territorial e espiritual sobre o seu próprio reino, ou seja, o reino de Israel, e alastrando esse domínio espiritual para todos os outros reinos. Aos leitores, sugiro a leitura do livro de Josué, no qual, podemos observar a conquista de Canaã sobre todas as províncias existentes naquele local. Pois, Canaã era subdivida por trinta e um reinados (REIS DA TERRA).

E continua, “… Jerusalém passa a ser conhecida como: a cidade do GRANDE REI, que reina sobre os reis da terra. Qual terra? Vamos então relembrar o primeiro verso por mim citado no enunciado do artigo: “E a mulher que viste é a grande cidade que reina sobre os reis da terra” (Apocalipse, Capítulo XVII, Verso XVIII).

E ainda, “… Jerusalém exerceu o seu domínio durante séculos, domínio sobre as províncias conquistadas por Josué e domínio sobre os reis do norte e do sul, pois, Jerusalém ainda continuava sendo a cidade do GRANDE REI”.

Seu artigo pode ser encontrado aqui: https://crismacabeus.com/jerusalem-e-os-reis-da-terra

Essa interpretação é um tremendo equivoco. O contexto estendido indica que as promessas de terra não foram completamente satisfeitas nos dias de Josué. (Js 13:1-5; Jz 1).

Josué 13: 1-5, diz: “ERA, porém, Josué já velho, entrado em dias; e disse-lhe o Senhor: Já estás velho, entrado em dias; e ainda muitíssima terra ficou para possuirA terra que ainda fica é esta: Todos os termos dos filisteus e toda a Gesur; Desde Sior, que está em frente ao Egito, até ao termo de Ecrom para o norte, que se diz ser dos cananeus; cinco príncipes dos filisteus; o gazeu, e o asdodeu, o asqueloneu, o giteu, e o ecroneu, e os aveusDesde o sul, toda a terra dos cananeus, e Meara, que é dos sidônios; até Afeca, até ao termo dos amorreusComo também a terra dos gebalitas, e todo o Líbano, para o nascente do sol, desde Baal-Gade, ao pé do monte Hermom, até a entrada de Hamate

Portanto, a alegação feita pelo apologista católico de que Josué conquistou TODOS os reis da terra não tem fundamento algum. E o problema com suas afirmações é que ele garante que Josué havia conquistado mesmo TUDO: “sugiro a leitura do livro de Josué, no qual, podemos observar a conquista de Canaã sobre todas as províncias existentes naquele local”.

No entanto, a terra que Israel alcançou na conquista – também depois de Josué – foi apenas uma fração do que foi encontrado na aliança abraâmica. As promessas da terra não poderiam ter sido cumpridas nos dias de Josué, já que Israel ainda não havia conquistado Jerusalém (Js 15:63). A conquista de Jerusalém teria que esperar outros quatrocentos anos até o reinado davídico (2 Sam 5).

Veja primeiro o que diz Josué 15:63: “Não puderam, porém, os filhos de Judá expulsar os jebuseus que habitavam em Jerusalém; assim habitaram os jebuseus com os filhos de Judá em Jerusalém, até ao dia de hoje.”

Agora acompanhe os relatos que se seguem e observe o que acontece depois da morte de Josué: “E SUCEDEU, depois da morte de Josué, que os filhos de Israel perguntaram ao Senhor, dizendo: Quem dentre nós primeiro subirá aos cananeus, para pelejar contra eles?”

Lembre-se que os filhos de Israel (não foi Jerusalém?) conquistaram os “reis da terra”, segundo o apologista preterista afirmou: “Estes, pois, são os reis da terra, aos quais os filhos de Israel feriram…”.

No entanto, esses filhos de Israel consultam ao Senhor (depois de Josué conquistar tudo?) sobre quem subirá para pelejar contra os cananeus (e outros povos), no que o Senhor imediatamente responde no verso 2: “E disse o Senhor: Judá subirá; eis que entreguei esta terra na sua mão”.

Dentre as invasões descritas – tudo no mesmo contexto – uma delas com certeza pode espantar até os mais sábios e eruditos entre os preteristas. Veja o verso 8 de juízes capítulo 1: “E os filhos de Judá pelejaram contra Jerusalém, e tomando-a, feriram-na ao fio da espada; e puseram fogo na cidade”. Mas veja que surpresa desagradável para o preterista. Além de não ser vista entre conquistas, Jerusalém, a cidade que reinou sobre os reis da terra nos tempos de Josué, segundo o preterista, é queimada no fogo?

No verso 21 – evidente que depois de algum tempo – Jerusalém continua sendo habitada por um povo diferente: “os filhos de Benjamim não expulsaram os jebuseus que habitavam em Jerusalém; antes os jebuseus ficaram habitando com os filhos de Benjamim em Jerusalém, até ao dia de hoje.” Os jebuseus ainda estavam em Jerusalém na época de Davi: “E partiu o rei com os seus homens a Jerusalém, contra os jebuseus que habitavam naquela terra”, 2 Sm 5:6.

Para que tenhamos certeza de que não foi Jerusalém que conquistou a terra completamente, expulsando dela os outros povos, basta lermos alguns versículos de Juízes capítulo 1, registrando aqui algumas etnias não conquistadas após a morte de Josué. Podemos encontrar uma mistura incrível de povos vivendo no meio dos filhos de Israel, Veja: “Manassés não expulsou os habitantes de Bete-Seã, nem mesmo dos lugares da sua jurisdição; nem a Taanaque, com os lugares da sua jurisdição; nem os moradores de Dor, com os lugares da sua jurisdição; nem os moradores de Ibleão, com os lugares da sua jurisdição; nem os moradores de Megido, com os lugares da sua jurisdição; e resolveram os cananeus habitar na mesma terra.

E sucedeu que, quando Israel cobrou mais forças, fez dos cananeus tributários; porém não os expulsou de todo.

Tampouco expulsou Efraim os cananeus que habitavam em Gezer; antes os cananeus ficaram habitando com ele, em Gezer.

Tampouco expulsou Zebulom os moradores de Quitrom, nem os moradores de Naalol; porém os cananeus ficaram habitando com ele, e foram tributários.

Tampouco Aser expulsou os moradores de Aco, nem os moradores de Sidom; como nem de Alabe, nem de Aczibe, nem de Helba, nem de Afeque, nem de Reobe;

Porém os aseritas habitaram no meio dos cananeus que habitavam na terra; porquanto não os expulsaram.

Tampouco Naftali expulsou os moradores de Bete-Semes, nem os moradores de Bete-Anate; mas habitou no meio dos cananeus que habitavam na terra; porém lhes foram tributários os moradores de Bete-Semes e Bete-Anate“, Jz 1:27-32.

O pacto abraâmico promete que Israel possuiria a terra para sempre (Gn 17: 8). Esta promessa eterna obviamente nunca foi cumprida devido à subsequente expulsão de Israel da terra após o reinado de Salomão. As promessas de terra não foram satisfeitas nos dias de Josué ou Salomão, pois os profetas subsequentes tratam essas promessas como ainda não cumpridas (Amós 9:11-15).

Por causa da estrutura de aliança incondicional e não cumprida da nação, uma separação entre Deus e Jerusalém/Israel é impossível. Se Deus deixasse de lado Suas promessas da aliança à Sua nação eleita, então Seu caráter seria volúvel e todas as promessas que Ele fez à Sua igreja seriam igualmente indignas de confiança. No entanto, Paulo expõe a fidelidade da aliança de Deus a Israel (Rm 9-11) imediatamente depois de detalhar as promessas incondicionais que Ele fez ao crente da era da igreja (Rm 8: 18-39). Em outras palavras, porque Deus não pode se divorciar de Israel, sabemos que Ele nunca se divorciará da igreja.

Eu vou fechar esse tópico com um comentário do Ex Papa Joseph Ratzinger relacionado ao domínio mundial dos reis de Israel sobre outros povos. Ratzinger, em sua “Introdução ao Cristianismo”, pag 100,101 (Edição em PDF), diz algo inacreditável. Veja em que contexto Ratzinger introduz a palavra piada:

Havia sentido, quando, à entronização do faraó ou do rei da Babilônia, se lhes declarava: “Os povos pertencem-te por herança, o mundo é teu; governá-los-ás com vara de ferro, quais vasos de argila poderás despedaçá-los”. Tal linguagem correspondia às pretensões de domínio mundial daqueles monarcas. Quando um texto assim, cheio de sentido em se aplicando aos reis do Egito ou da Babilônia, passa a ser usado com referência ao rei de Sião, transforma-se em pura ironia, pois os reis da terra não tremem diante dele, sendo bem o contrário o que sucede. E o domínio mundial expresso pelos lábios de um mísero príncipe de terceira classe, como o rei de Sião, quase deveria parecer uma piada”.

E para aqueles preteristas que fizeram de Jerusalém a cidade que reinou sobre os reis da terra nos tempos do Velho Testamento, quero deixar aqui uma palavra; são palavras do profeta Daniel ao rei de Babilônia:

Tu, ó rei, és rei de reis; a quem o Deus do céu tem dado o reino, o poder, a força, e a glória”, Daniel 2:37.

17) “Não danifiqueis o azeite e o vinho”, Apocalipse 6: 6

Apocalipse 6:5,6, diz: “E, havendo aberto o terceiro selo, ouvi dizer ao terceiro animal: Vem, e vê. E olhei, e eis um cavalo preto e o que sobre ele estava assentado tinha uma balança na mão. E ouvi uma voz no meio dos quatro animais, que dizia: Uma medida de trigo por um dinheiro, e três medidas de cevada por um dinheiro; e não danifiques o azeite e o vinho.”

Os preteristas invocam o testemunho de Joseto relacionado à destruição de Jerusalém em 70 dC, que registra fatos similares: “Muitos realmente venderam o que tinham por uma medida; era de trigo, se fossem do tipo mais rico; mas de cevada, se fossem mais pobres. Quando isso foi feito, eles se fecharam nos cômodos mais internos de suas casas e comeram o milho que haviam adquirido; alguns o faziam sem moer, em razão do extremo desejo em que estavam, e outros assavam o pão dele, de acordo com a necessidade e o medo que os cercava; não havia mesa  em lugar algum para uma refeição distinta, mas eles pegavam o pão fora do fogo, meio cozido, e comiam apressadamente” (Wars 5.10.2).

Note que o registro de Josefo não fala em preservar o azeite e o vinho, mas mesmo assim é invocado pelos preteristas para cumprimento de Apocalipse 6:5,6 com o objetivo de provar que o Livro foi escrito antes da destruição de Jerusalém. Porém, o mandamento em Apocalipse de não danificar o azeite e o vinho, não pode  combinar com o comando do general romano que estava prestes a destruir  o Templo com todo seu depósito de mantimentos. Quando Salomão construiu o templo, várias salas ou câmaras foram construídas para diversos fins (I Reis 6:5). Estas dependências, por exemplo, eram usadas como abrigo para os cantores que apresentariam suas músicas (Ezequiel 40:44). Os guardas ocupavam uma destas salas (I Reis 14:18). Certa ocasião uma delas foi usada como esconderijo para Joás (II Reis 11:2 e 3).

Uma destas salas era usada como o lugar onde o dízimo, que não era composto apenas de moedas, mas também de produtos agrícolas,  era entregue e guardado. Inclusive a famosa King James Version (KJV) traduziu a expressão de Malaquias 3 como celeiro ou lugar onde cereais eram depositados, já que grande parte dos dízimos vinha em grãos.

Na verdade, Josefo também testemunha que o azeite e o vinho foram ameaçados de sofrer escassez mesmo antes da destruição do Templo, pois descreveu um ato de sacrilego envolvendo óleo e vinho, que foi realizado por um dos líderes zelotes, João Levi de Gischala: “Mas, quanto a João, quando ele não podia mais saquear o povo, ele se propôs ao sacrilégio e derreteu muitos dos utensílios sagrados, que haviam sido dados ao templo; como também muitos dos vasos que eram necessários para os que serviam das coisas sagradas, os caldeirões, os pratos e as mesas… Esvaziou os vasos do  vinho sagrado e azeite, que os sacerdotes guardavam para serem servidos nos holocaustos, os quais jaziam no átrio interior do templo, que eram distribuídos entre a multidão… “ (Wars 5.13.6).

No entanto, João fala em não danificar o azeite e o vinho, o que esta de acordo com algo que ocorreu nos tempos do imperador Domiciano, que decretou um edito. Neste decreto, que restringia a viticultura provincial, ele ordenou que metade dos vinhedos da Ásia Menor fossem destruídos e nenhum novo deveria ser plantado, para dar lugar ao cultivo de mais grãos. Suetonius registra as circunstâncias do edital. “Uma vez por ocasião de uma abundante colheita de vinho, assistida com uma escassez de grãos, pensando que os campos foram negligenciados, ele baixou um decreto proibindo que alguém plantasse mais vinhedos na Itália e ordenasse que os vinhedos das províncias fossem cortados, ou seja, no máximo metade deles seria deixado de pé; mas ele não persistiu na realização da medida” (Suetônio Domiciano 7.2).

O decreto resultou em motins na Ásia Menor porque o vinho era uma importante fonte de renda naquela área. Em resposta, Domiciano revogou  seu decreto anterior e ordenou que qualquer um que permitisse que sua vinha saísse da produção seria processado. Resultado: os grãos e o vinho foram preservados.

Esse evento teria sido uma alusão familiar vívida para os leitores de João, que tiveram a garantia de que os grãos não estariam em falta, por isso o registro fala que não haveria forma de prejudicar o suprimento de óleo e vinho em “não danifiques o azeite e o vinho”. Como Apocalipse 6: 6 é provavelmente uma tentativa intencional de fazer alusão a este evento, logo, o Livro teve que ser escrito após 70 dC.

18) Um Profeta deve morrer em Jerusalém

O que Jesus disse com as palavras: “Impossível que morra um profeta fora de Jerusalém?

A trama preterista tenta convencer a massa ignorante alegando que a “cidade onde nosso Senhor foi crucificado” (Ap 11:8) é Jerusalém, pois Jesus disse que nenhum profeta “morre fora de Jerusalém”. Leia meu artigo “onde nosso Senhor foi crucificado” antes de se precipitar nos próprios argumentos.

No caso preterista, para provar que o simbolismo em Apocalipse deve ser literalizado totalmente, então, certamente, a alusão é a Jerusalém, pois como todos os outros textos reclamam, profeta algum morre fora de Jerusalém.

Todos os profetas morreram em Jerusalém?

Ainda devo continuar minha jornada hoje e amanhã e no dia seguinte; pois não é concebível que um Profeta pereça fora de Jerusalém“, Luc 13:33. Além disso, Mateus diz: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados!”, Mateus 23:37.

Jesus está falando sobre profetas em termos gerais e confirmando que as pessoas em Jerusalém foram conhecidas por matar profetas. Porém, a audiência de Jesus estava ciente de que outros profetas haviam sido mortos fora de Jerusalém, de modo que devemos excluir que Jesus pretendia incluir literalmente todos os profetas.

Nem todo profeta foi morto na cidade de Jerusalém. Abel não foi morto em Jerusalém (a cidade nem existia naquele tempo). O fato curioso é que Jesus disse que Abel era profeta: Lucas 11:50, 51, diz: “Para que desta geração seja requerido o sangue de todos os profetas que, desde a fundação do mundo, foi derramado… desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias…”.

Jeremias foi libertado pelos babilônios e, segundo se informa, partiu para Mizpá, e depois para o Egito. Os judeus apedrejaram a Jeremias no Egito, porque os repreendeu por adorar ídolos; e os egípcios o enterraram ao lado do palácio de Faraó. É o que diz a Enciclopédia Judaica. Consulte Jewish Encyclopedia – Jeremiah.

Ezequiel morreu em Babilônia. Ezequiel, filho de Buzi, era da tribo sacerdotal, e da terra de Serîdâ. O chefe dos judeus que estava na terra dos caldeus o matou, porque o repreendeu por adorar ídolos.

João Batista era profeta (Mateus 11: 7-9; Lucas 1:76). No entanto, ele não morreu em Jerusalém. Ele foi decapitado no palácio de Herodes (chamado a fortaleza Machaerus), que não estava na cidade de Jerusalém, mas era um palácio fortificado da colina localizado na Jordânia a 25 quilômetros (16 milhas) ao sudeste da foz do rio Jordão no lado leste do Mar Morto.

Paulo era profeta (Atos 13: 1); ele não foi morto na cidade de Jerusalém.

O que Jesus quis dizer ao declarar que um profeta não pode morrer fora de Jerusalém se nem todos os profetas morreram em Jerusalém? Das duas uma: Ou Jesus estava ironizando ou ele enfatizava que o comando para matar os profetas vinha de Jerusalém, isto é, do Sinédrio.

Há quem diga que somente o tribunal judeu em Jerusalém poderia legalmente condenar um profeta. O comentário de Benson diz: “… a corte suprema, cuja prerrogativa era julgar profetas, teve seu lugar em Jerusalém. Os tribunais inferiores não tomaram conhecimento de tais causas; e, portanto, se um profeta for morto, deve ser em Jerusalém“. O Grande Sinédrio se concentrava em Jerusalém, e se achava no direito de julgar os profetas, o que era considerado errado pelo Senhor Jesus (Mat 27:37).

Jesus jamais disse que um profeta deve morrer na cidade de Jerusalém. Basta ler algumas versões para que se tenha uma ideia clara com relação à palavra “impossível” na frase impossível que morra: “Impensável” (Bíblia inglesa revisada); “Não seria certo” (Nova Bíblia de Jerusalém); “É contra as regras” (Gaus, The Unvarnished Gospels). Fácil perceber também que Jesus estava ironizando os judeus na sua acusação proposital.

Se os preteristas querem transferir Apocalipse 11:8 para dentro da Jerusalém literal, que o façam, mas não vai resolver o problema. Além disso, não se sabe por que os preteristas literalizam a frase “a cidade onde nosso senhor foi crucificado” como sendo Jerusalém, mas simbolizam a narrativa de alguns versículos anteriores que conectam as duas testemunhas à mesma cidade. Vejam: “E darei poder às minhas duas testemunhas, e profetizarão por mil duzentos e sessenta dias, vestidas de saco.

Estas são as duas oliveiras e os dois castiçais que estão diante do Deus da terra.

E, se alguém lhes quiser fazer mal, fogo sairá da sua boca, e devorará os seus inimigos; e, se alguém lhes quiser fazer mal, importa que assim seja morto.

Estes têm poder para fechar o céu, para que não chova, nos dias da sua profecia; e têm poder sobre as águas para convertê-las em sangue, e para ferir a terra com toda a sorte de pragas, todas quantas vezes quiserem.

E, quando acabarem o seu testemunho, a besta que sobe do abismo lhes fará guerra, e os vencerá, e os matará.

E jazerão os seus corpos mortos na praça da grande cidade que espiritualmente se chama Sodoma e Egito, onde o seu Senhor também foi crucificado” Ap 11:3-8. Isto é, os corpos das duas testemunhas!

Quem foram essas duas testemunhas que morreram na praça (?) da cidade de Jerusalém em 70 dC? Os preteristas jamais responderam, principalmente os da ala católica romana, que por incrível que pareça rejeitaram a opção de que essas duas testemunhas podiam ser Pedro e Paulo pelo fato de eles terem sido martirizados em Roma. Já que Roma para eles não é a Babilônia de Apocalipse, então eles precisam imediatamente interpretar as duas testemunhas de forma simbólica, mas mantém “a cidade onde o Senhor foi crucificado” debaixo de interpretação literal.

Se insistem na alegação de que a grande cidade de Apocalipse 11:8, onde nosso Senhor foi crucificado, é Jerusalém, que o digam igualmente quem foram as duas testemunhas martirizadas na praça da cidade em 70 dC.

19) “… porque haverá tribulação tão grande, como nunca houve …”, Mateus 24:21

A descrição feita pelo historiador Josefo, em seu livro Guerras dos Judeus, sobre os acontecimentos que acompanharam a destruição de Jerusalém, em 70 dC, ilustra como o autor deste evangelho deve ter pensado que nenhum acontecimento poderia ser mais horrível, nem antes e nem depois.

Todavia, as palavras são essencialmente proféticas, acerca da grande tribulação que ainda jaz no futuro, o tempo da angústia de Jacó, quando se levantar o anticristo. A destruição de Jerusalém, no ano 70 dC, foi apenas um exemplo simbólico; e, além disso, se lê que, ao tempo do imperador Adriano (132 dC), outra devastação ainda maior atingiu toda a nação de Israel, quando então os judeus foram proibidos até mesmo de entrarem na cidade. Em seguida os romanos mudaram o nome da cidade para Aélia Capitolina, até que Constantino a transformou em santuário cristão (em cerca de 310 D.C.). Esta profecia, portanto, é claramente paralela à que se lê em Dan. 12:1,2:

Haverá um tempo de angústia, qual nunca houve, desde que houve nação até aquele tempo; mas naquele tempo liberar-se-á o teu povo, todo aquele que se achar escrito no livro. E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno”.

Há algo interessante aqui nos detalhes, que possívelmente não será bem apreciado pelos preteristas. Observem que vou unir algumas frases: “naquele tempo… no tempo de angústiamuitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno”. Há aqui uma sequência de fatos que não ocorreram em 70 dC, como os preteristas estão acostumados a interpretar a passagem. Vemos claramente que a profecia é uma alusão do que vai ocorrer nos últimos dias, pois associa o tempo de angustia à ressurreição dos mortos seguida de vida eterna ou vergonha eterna. Nada aqui pode ser encaixado na destruição de Jerusalém em 70 dC.

O contexto da passagem de Daniel demonstra que a destruição de Jerusalém, pelas tropas de Tito e, mais tarde por Adriano, dificilmente podem ter sido o cumprimento final dessas profecias. Tais destruições foram meros tipos simbólicos da colossal destruição do fim, que não se limitará apenas à nação de Israel, mas que envolverá todas as nações. Assim sendo, uma vez mais Israel sofrerá perseguição religiosa imposta pelos gentios, mas como as profecias vaticinam, ele será liberto.

20) Jerusalém restaurada

Essa parte eu preferi deixar para o final, principamente para aqueles apologistas que amaldiçoam Jerusalém/Israel como se a nação fosse um caso perdido, abandonada por Deus e por todos.

Jeremias mostra o Milênio como um tempo durante o qual Israel e Judá serão unidos em paz, e a cidade de Jerusalém será chamada “o trono do Senhor” (Jeremías 3:17-18).

A população de Jerusalém será multiplicada (Jeremías 30:19). A tristeza do povo judaico tornar-se-a em regozijo (Jeremías 31:13). As ruas de Jerusalém se encherão com “a voz de gozo e a voz de alegria…” (Jeremías 33:11).

O Senhor derramará “chuvas de bênçãos” (Ezequiel 34:26-29) sob Israel, incluindo abundância de agricultura (Ezequiel 34:26-29). Quando vai ocorrer isto tudo se não for no Milênio?

Uma das profecias de Ezequiel do final dos tempos que já foi cumprida tem a ver com a Porta Oriental. Ele diz que essa será selada e ninguém a abrirá até que o Messias voltasse (Ezequiel 44:1-3). A porta foi selada nos anos 1500’s e continua fechada até hoje. Ele termina o livro contando que a terra de Israel, resgatada e com fronteiras expandidas, será dividida entre as 12 tribos (Ezequiel 48).

Daniel em suas profecias dos últimos dias se concentra na Tribulação e o Anticristo. A sua primeira menção do Milênio encontra-se no capítulo 2, onde ele interpreta o sonho de Nabucodonozor sobre a ordem dos impérios gentios. Ele revela que o último império será destruído durante o retorno do Messias e o estabelecimento do Seu reino “que não será jamais destruído” (Daniel 2:44-45).

Oséias escreve que Deus usará o Milênio para cumprir todas as promessas que Ele fez aos judeus (Oséias 1:10-11, 2:14-20, e 14:4-7).

Joel escreve em suas profecias principalmente sobre o “dia do Senhor” que, em seu contexto, é o dia da Segunda Vinda do Messias (Joel 1:15, 2:1, 2:13 e 3:14). Ele nos dá uma mostra do Milênio quando diz que quando Messias voltar, Ele habitará “em Sião, o meu santo monte” e que Jerusalém será caracterizada por santidade (Joel 3:17, 21).

Naun diz que,  quanto ao Milênio, os judeus viverão em completa paz (Naum 1:15) e a honra da nação será restaurada (Naum 2:2).

Ageu explica que a riqueza das nações serão transferidas à Jerusalém (Ageu 2:7).

Zacarias  chama o povo judeu, “Exulta, e alegra-te” porque o Senhor o disse que “eis que venho, e habitarei no meio de ti” (Zacarias 2:10). Zacarias também diz que a cidade de Jerusalém será chamada “a cidade da verdade” e “o monte santo” (Zacarias 8:3). Os judeus crentes reunirão-se de todas as partes do mundo (Zacarias 9:14-17), e a população de Jerusalém viverá em paz e prosperidade (Zacarias 8:8, 12). O povo judaico será tão abençoado que quando um judeu caminha por perto, dez gentios pegarão a sua túnica, “Iremos convosco, porque temos ouvido que Deus está convosco.” (Zacarias 8:23).

É evidente que isso jamais poderia ter se cumprido na Jerusalém dos tempos anteriores e imediatamente posteriores da Igreja primitiva. Quando se cumprirão as profecias? Certamente que no fim dos tempos adentrando o milênio.

Portanto, quando Apocalipse declara sobre Babilônia, que ela “não será jamais achada” (Ap 18:21), por causa dos efeitos da sua queda, não pode de forma alguma ser uma referência para Jerusalém. A desolação de Jerusalém não seria uma condição permanente: “Jerusalém será pisada pelos gentios até que os tempos dos gentios se completem”, Lucas 21.24.

Deus seja louvado

Como Babilónia fez cair mortos os de Israel, assim em Babilónia cairão os mortos de toda a terra”, Jer 51:49.

E nela se achou o sangue dos profetas, e dos santos, e de todos os que foram mortos na terra”, Ap 18:24.